Gilles Binchois

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Jan van Eyck: Tymotheos, 1432, considerado por Erwin Panofsky um retrato de Binchois [1]

Gilles de Binche, Binch ou Bins, mais conhecido como Gilles Binchois (Mons?, c. 1400 – Soignies, 20 de setembro de 1460), foi um poeta, cantor, organista e compositor da Escola da Borgonha, um dos compositores mais famosos do século XV europeu.

Embora muitas vezes classificado atrás de Guillaume Dufay e John Dunstable, por estudiosos contemporâneos, a sua influência foi provavelmente maior, uma vez que suas obras foram citadas, emprestadas e utilizadas como fonte de materiais mais frequentemente do que as de qualquer outro compositor da época.

Vida[editar | editar código-fonte]

Poucos dados biográficos seguros sobrevivem sobre o compositor, e a maior parte dos registros que se conhecem são relativos à sua carreira.[2] Seu pai, Jean de Binche, pode ter sido conselheiro de Guilherme IV de Hainaut. Sua mãe chamava-se Jana Paulouche. Sobre sua infância e primeira juventude nada se sabe.[3] Os primeiros documentos que o mencionam dizem que ele esteve empregado como organista na Igreja de S. Waudru em Mons entre c. 1419 e 1423, seguindo então para Lille. Logo depois passou a servir em Paris William de la Pole, conde de Suffolk, na condição de instrumentista e possivelmente também como soldado, mas ha o registro de que ele compôs pelo menos uma canção para Suffolk, que perdeu-se.[2]

Em torno de 1425 estava incluído entre os membros do coro da corte da Borgonha, onde permaneceu até aposentar-se. Ao contrário da maioria dos compositores do século XV, Binchois nunca foi ordenado padre, nem frequentou as universidades. Contudo, isso não o impediu de atuar como capelão para o duque da Borgonha, nem de receber várias prebendas eclesiásticas lucrativas em Bruges, Mons, Cassel e Soignies, que complementavam seu salário de músico.[2] Um documento de 1449 afirma que ele se encontrou em Mons com Guillaume Dufay, outro músico de superior importância, e é provável que eles se tenham se encontrado diversas outras vezes. Suas famílias podem ter estado em contato desde a geração anterior, e eles podem ter-se conhecido já na infância.[4] [5]

Em 1453, aposentado na corte, retirou-se para Soignies, onde recebeu uma pensão como preboste da Colegiada de São Vicente. Entre suas funções estavam supervisionar os cônegos de São Vicente, zelar pelo sustento e pelos direitos e privilégios da comunidade monástica, e servir como ligação com o poder civil local. A documentação da Colegiada referente a esta época é escassa, e não há registro seguro de que Binchois tenha mantido atividade musical pessoal em seus últimos anos, mas ao que parece sua atuação esteve ligada a melhorias nas práticas musicais da sua igreja e à atração de músicos de fora, como Guillaume Malbecque e outros cujo nome a história não preservou.[6]

Quando faleceu em 1460 sua música, embora já vista como um tanto antiquada, ainda era celebrada em toda a Europa, considerado um dos músicos mais importantes de sua geração, ombreando com Dufay, que compôs um emocionado lamento em sua memória. Johannes Ockeghem também fez-lhe homenagem póstuma em uma ballade.[2]

Obra[editar | editar código-fonte]

Origens e contexto[editar | editar código-fonte]

Binchois teve amplas oportunidades de se informar sobre a música inglesa de seu tempo em virtude da ocupação inglesa na França, e pouco depois de sua morte Martin le Franc apontou em sua obra a influência de John Dunstable.[5] Também pode ter recebido influência italiana.[7] Fez parte da chamada Escola da Borgonha, um grupo de compositores ativos em torno da corte dos duques da Borgonha, que representa a fundação da Escola franco-flamenga de polifonia e a primeira fase da música do Renascimento, influenciando toda a Europa.[8]

Guillaume Dufay e Gilles Binchois

A Escola da Borgonha sucedeu as escolas Ars nova e Ars subtilior, e floresceu como o resultado da ascensão da Borgonha como um dos Estados mais poderosos e estáveis da Europa naquele período. Os duques eram não somente governantes capazes, mas também ativos patronos das artes, especialmente Filipe III, o Bom e Carlos, o Temerário. A história da Escola da Borgonha começa em 1384, quando Filipe II estabeleceu a capela de sua corte. Vinte anos depois o estabelecimento rivalizava com Avinhão, então o maior centro musical da Europa e o principal núcleo da Ars subtilior. Os nomes associados com esta fase são Johannes Tapissier, Ugo de Lantins, Arnold de Lantins e Nicolas Grenon. A capela foi reorganizada em 1415, fase em que Guillaume Dufay, o maior representante da Escola borgonhesa, dominou a cena musical européia. Os mestres importantes da segunda geração foram o próprio Binchois e Hayne van Ghizeghem. A terceira geração foi representada principalmente por Antoine Busnois.[8]

A influência de todos eles sobre a música européia do século XV dificilmente pode ser superestimada, sendo a formadora da Escola franco-flamenga onde pontificaram Johannes Ockeghem, Jacob Obrecht, Josquin des Prez, Adrian Willaert e Orlande de Lassus. Suas maiores contribuições técnicas foram talvez a radical simplificação do idioma musical em relação às complexidades da Ars nova e da Ars subtilior, e a introdução, possivelmente por influência inglesa, da terça como o mais importante intervalo melódico, o que levou à estruturação da harmonia em tríades que amiúde refletem relações de tônica e dominante, prefigurando a futura definição do sistema tonal. Apesar de cultivarem preferencialmente as formas profanas, em especial as quatro formas fixas de chanson - lai, virelai, rondeau e ballade - foram proficientes também na música sacra, deixando missas e motetos e aperfeiçoando a forma da missa cíclica, que usa um único motivo gregoriano para unificar toda a composição. Sua polifonia é fluente, muito melódica e faz grande uso da imitação em todas as vozes. Além disso, deram atenção à música puramente instrumental, na forma de danças.[8] [7]

Obras profanas[editar | editar código-fonte]

É sobre sua obra profana que repousa sua reputação. Em torno de sessenta chansons atribuídas a ele chegaram aos nosso dias, e sabe-se que neste gênero sua fama era insuperada, recebendo vasta divulgação e excercendo importante influência em seu tempo, permanecendo até hoje entre os melhores e mais elegantes exemplos deste gênero. Praticamente todas as suas chansons empregam uma textura em três vozes, com uma ênfase na voz superior, e 42 delas usam a forma do rondeau. A maior parte dos textos poéticos dessas obras tratam de assuntos ligados ao amor cortês, alinhando-se à estética cavaleiresca prestigiada na corte.[9] Vários textos são de sua própria autoria.[4]

Bons exemplos de seu estilo são Joyeux penser, onde expressa a alegria de servir uma dama; De plus en plus e Se j'eusse, que relatam o persistente medo da rejeição amorosa; Seule esgarée, onde dá vazão ao desespero do amor impossível, e a conhecida Triste plaisir, com uma nostalgia melancólica.[10] A mais importante, porém, é a balada Dueil angoisseux, com texto de Cristina de Pizan, considerada uma de suas obras-primas e uma das melhores chansons do século XV, transmitida por numerosas fontes coevas e citada elogiosamente em inúmeras outras. Binchois deu grande atenção à peça, que sobrevive em três versões, e se caracteriza por uma atmosfera de dor, transcendência e resignação, uma rica textura polifônica, melodia fluente e sutis recursos rítmicos.[11]

Seu sucesso derivou da estrutura coesa, equilibrada e orgânica das composições; do seu atraente melodismo e do desenvolvimento de um perfil harmònico avançado, que se define como um proto-tonalismo. Suas chansons revelam também grandes sutilezas rítmicas e expressam uma doçura austera.[9] [12] Embora as melodias de Binchois agradem por seu senso de equilíbrio e proporção, por seu desenho amplo, gracioso e fluente que facilmente se fixa na memória e é facilmente cantável, e sua própria lógica interna seja, como disse McComb, impecável, a música nem sempre se ajusta à poesia em uma forma convencional. Repetições musicais podem não se alinhar com repetições poéticas, e as cadências podem aparecer em uma nota ou pulso inesperados.[4]

Triste plaisir
Versão instrumental midi
Dueil angoisseux
Versão instrumental midi
Nous vous verens bien, Malebouche
Versão instrumental midi

Obras sacras[editar | editar código-fonte]

Binchois compôs ainda grande quantidade de música sacra, cuja maior parte presumivelmente se destinava aos ofícios sagrados da corte da Borgonha. Sobrevivem cerca de 25 trechos de missas. Sua escrita é enxuta, se assemelhando com a música inglesa do período no seu uso do contraponto imitativo, na exploração de contrastes texturais e na abordagem discreta das dissonâncias. Seu estilo tem forte afinidade formal com o da sua produção profana, com uma textura a três vozes, escrita concisa e funcional e procedimentos polifônicos que podem ser complexos mas que não obscurecem a inteligibilidade do texto, muitas vezes fazendo a condução melódica depender mais da voz superior, enquanto que as outras fornecem basicamente um apoio. Não usou a técnica do cantus firmus, então uma novidade, mas a paráfrase de fragmentos de canto gregoriano foi comum. Tampouco parece ter usado a forma da missa cíclica, mas as peças que sobrevivem podem estar ligadas em pares, como era hábito de sua geração.[2] [4]

Cerca de trinta outras peças são musicalizações de antífonas, do Magnificat, de salmos e hinos, que fazem uso frequente da técnica do fabordão. Entre as mais ambiciosas deste grupo se encontra o moteto isorrítmico Nove cantum/Tanti gaude, escrito em 1431 para o batismo de Antoine, filho do duque Filipe, o Bom, cuja parte do triplum curiosamente elenca os nomes de seus colegas músicos na corte da Borgonha.[2] Outra que merece nota é o moteto Domitor Hectoris, que faz uma interessante exegese alegórica ligando o mito de Aquiles e Télefo à doutrina bíblica.[10]

Virgo Rosa
Versão instrumental midi

Legado[editar | editar código-fonte]

Retrato de Gilles Binchois por Martin Le Franc, 1488

Binchois foi considerado o epítome do estilo da Escola da Borgonha,[10] desempenhou um papel importante na definição do idioma musical da Escola franco-flamenga,[4] e à parte as qualidades intrínsecas de suas obras, seu prestígio derivou também de sua posição como líder da música da corte em um período em que o Ducado da Borgonha estava no auge de sua força política e brilho cultural. A influência de sua produção é especialmente visível nas composições de Johannes Ockeghem, de quem pode ter sido professor, e Antoine Busnoys,[9] [12] e suas peças foram largamente usadas como material para elaborações posteriores de músicos importantes como Josquin des Prez, Jacob Obrecht, Alexander Agricola e Heinrich Isaac, além dos antes citados.[5] Johannes Tinctoris, um dos grandes teóricos musicais do Renascimento, disse que o nome de Binchois, celebrado em toda parte, iria ser ouvido para sempre.[13]

Mas, de fato, quando desapareceu de cena sua música já estava caindo de moda,[2] e depois do século XVI foi completamente esquecida.[14] Sua reputação contemporânea foi só recentemente restabelecida. Na década de 1920, quando estava em plena voga a ressurreição da música medieval depois de séculos, algumas de suas chansons apareceram em edição de Johannes Wolf;[15] mas em 1949 Davison & Apel ainda consideravam sua obra excessivamente pouco conhecida para que fosse adequadamente avaliada.[16] Hoje a sua discografia já é significativa: McComb identificou mais de cem títulos que incluem obras de sua autoria.[4]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Schneider, p. 30
  2. a b c d e f g Allsen, p. 128
  3. Greene, p. 17
  4. a b c d e f McComb, s/p.
  5. a b c Randel, pp. 79-80
  6. Gallagher, pp. 27-35
  7. a b Appel, pp. 114-115
  8. a b c Britannica a, s/pp.
  9. a b c Allsen, p. 129
  10. a b c Pendergrass, p. 50
  11. Curtis, p. 272
  12. a b Britannica b, s/pp.
  13. Elson, p. 49
  14. Gleason, Becker & Gleason, p. 98
  15. Leech-Wilkinson, p. 54
  16. Davison & Apel, p. 223

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]