Gioconda Mussolini
Gioconda Mussolini (São Paulo, 1913 — 1969) foi uma antropóloga brasileira; professora da Universidade de São Paulo.
Em 1935, entra no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, admitida, sem vestibular, na qualidade de professora primária comissionada. Forma-se em 1937. Entre os seus professores, Fernand Braudel, Pierre Monbeig, Paul Arbousse Bastide, Jean Magüé e Claude Lévi-Strauss. Entre os seus colegas, Mário Wagner Vieira da Cunha, Gilda de Mello e Souza e Egon Schaden.
A Cadeira de Antropologia, na USP, começara a funcionar em 1941, tendo o professor alemão Emilio Willems como responsável, até 1949, quando se aposenta. Neste ano, seu primeiro assistente, Egon Schaden, torna-se o novo catedrático (Schaden faria o seu concurso de cátedra apenas em 1965)e fica até 1967, quando é sucedido pelo professor livre-docente João Baptista Borges Pereira. Gioconda (que se tornara primeira assistente de Schaden) não pôde assumir o cargo por ainda não ter obtido o título de doutor. Nessa época, já havia mais duas assistentes de ensino: Eunice Durham e Ruth Cardoso, admitidas, respectivamente, em 1959 e 1960, ex-alunas de Gioconda Mussolini.
Em 1967, na aposentadoria de Schaden, Gioconda poderia ser escolhida para assumir a regência da cátedra. Suas assistentes (Ruth e Eunice) torcem para isso. Já tinham conseguido para ela a posição de uma espécie de "catedrática assistente" ao obterem a sua indicação como responsável pela cadeira de Antropologia no curso noturno. Como Gioconda não concluíra seu doutorado à época da aposentadoria de Schaden, a solução encontrada por ambas para mantê-la na linha de sucessão foi encaminhar ao Conselho Universitário, onde apenas os catedráticos tinham assento, a proposta de contratação de um professor estrangeiro para substituí-lo temporariamente, o que não foi aceito.
Schaden virá a ser o fundador da Revista de Antropologia (1953) e o grande animador dos estudos de antropologia na USP. Mas a reforma universitária de 1970 extinguiria o sistema de cátedras, substituindo-o por novas unidades administrativas e didáticas, os Departamentos.
Gioconda fez mestrado na Escola de Sociologia e Política, onde foi colega de Florestan Fernandes, defendendo em 1945, sob a orientação de Herbert Baldus, a dissertação Os meios de defesa contra a moléstia e a morte em duas tribos brasileiras: Kaingang de Duque de Caxias e Bororo Oriental. Na banca, além de Baldus, sentaram Mário Wagner Vieira da Cunha, Donald Pierson, Octávio da Costa Eduardo e Emílio Willems.
Na USP, então, ela também leciona Antropologia Física. Além de Ruth Cardoso e Eunice Durham foram seus alunos Fernando Henrique Cardoso, José de Souza Martins, Antonio Augusto Arantes, Luiz Mott, Antonio Carlos Diegues, Fernando Novais, Octavio Ianni, Heloisa Helena Teixeira de Souza Martins, Lourdes Sola, Renate Brigitte Viertler, entre outros. Mais tarde, ela passa a orientar pesquisas de mestrado, entre as quais as de Amadeu José Duarte Lanna (Aspectos econômicos da organização social dos Suyá, 1966, tendo na banca examinadora Ruy Coelho e Maria Sylvia de Carvalho Franco); e de [[Renate Brigitte Viertler (Os Kamayurá e o Alto Xingu: Análise do Processo de integração de uma tribo numa área de aculturação intertribal, 1967, estando na banca examinadora Paula Beiguelman e Maria Sylvia de Carvalho Franco).
De 1953 (data da fundação) a 1969 (data da morte da professora), integra o Conselho de Redação da Revista de Antropologia, fundada por Schaden. Com ela, estão Plínio Ayrosa, Baldus, Otávio da Costa Eduardo, Florestan Fernandes e Antônio Rubbo Müller.
A relevância de Gioconda Mussolini para a antropologia brasileira é imensa e se desdobra em três direções. Primeiro, por ter protagonizado os primórdios do ensino na disciplina, numa instituição importante como a Universidade de São Paulo, contribuindo na formação de muitos cientistas sociais; segundo, pela sua contribuição ao campo da "antropologia da doença", por meio de sua dissertação de mestrado; finalmente, e sobretudo, seu nome é referência fundamental para os estudos brasileiros sobre pesca, cultura e organização social de comunidades litorâneas em geral e populações caiçaras do litoral de São Paulo, em particular. O sub-campo disciplinar da antropologia da pesca tem no nome de Gioconda Mussolini uma espécie de "mãe fundadora". Suas pesquisas de campo ainda orientam as dos pesquisadores contemporâneos.
[editar] Obras publicadas (seleção)
- 1944: Notas sobre os conceitos de moléstia, cura e morte entre os índios Vapidiana. Sociologia, 6 (2).
- 1945: O Cerco da Tainha na Ilha de São Sebastião. Sociologia, 7 (3).
- 1946: O Cerco Flutuante: uma Rede de Pesca Japonesa que teve a Ilha de São Sebastião como Centro de Difusão no Brasil. Sociologia, 8 (3).
- 1950: Os "Pasquins" do Litoral Norte de São Paulo e suas peculiaridades na Ilha de São Sebastião. Revista do Arquivo Municipal, CXXXIV.
- 1952: Buzios Island: a Caiçara Community in Southern Brazil (com Emilio Willems).
- 1953: Aspectos da cultura e da vida social no litoral brasileiro. Revista de Antropologia 1 (2).
- 1955: Persistência e mudança em sociedades de folk no Brasil, Anais do XXXI Congresso Internacional de Americanistas, vol. I.
- 1969: Evolução, Raça e Cultura (Leituras de Antropologia Física).
Póstumos:
- 1980: Ensaios de Antropologa Indígena e Caiçaras (org. de Edgard Carone e Introdução de Antonio Candido).
- 2003: A Ilha de Búzios: uma comunidade Caiçara no Sul do Brasil (com Emilio Willems, tradução do livro de 1952)
[editar] Referências
CIACCHI, Andrea. As testemunhas do silêncio: Gioconda Mussolini entre lembranças e esquecimentos.
CIACCHI, Andrea. Mussolini: uma travessia bibliográfica. Rev. Antropol. [online]. 2007, vol. 50, no. 1, pp. 181–223.
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