Giuseppe Amisani

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Auto-retrato (c. 1900) de Giuseppe Amisani.

Giuseppe Amisani (Mede, 7 de dezembro de 1881 - Portofino, 8 de setembro de 1941) foi um pintor italiano. Estudou na Academia de Brera, em Milão, onde foi aluno do renomado retratista Cesare Tallone. Por influência deste, devotou-se à retratística, destacando-se nos retratos femininos, interpretados com sensualidade e vivacidade de cores e que lhe renderam aceitação e apoio da burguesia de então. Também foi pintor de paisagens, tendo registrado cenários de diversas localidades, da Inglaterra à África.[1]

Fez diversas viagens pela América do Sul, com estadias prolongadas na Argentina e no Brasil. Na cidade de São Paulo, Amisani realizou diversas exposições e estabeleceu um ateliê, onde recebeu diversas encomendas de retratos, contribuindo para a difusão da pintura italiana contemporânea no circuito nacional. Entre 1924 e 1925, trabalhou na decoração do Palácio Real de Alexandria, no Egito, local onde recebeu a alcunha de "pintor do rei".[1]

Vida e obra[editar | editar código-fonte]

Giuseppe Amisani: Cleopatra lussuriosa (1901). Coleção particular, Mede.

Giuseppe Amisani nasceu na comuna de Mede, na Lombardia, em 7 de dezembro de 1881, na então Piazza Mercato (hoje Piazza Amisani). No fim do século XIX, tentou ingressar, sem sucesso, na Escola Técnica de Pádua. No início da primeira década do século XX, interessado no estudo do desenho, ingressou na Academia de Brera, em Milão, onde foi aluno dos pintores Vespasiano Bignami (renomado retratista e caricaturista milanês, também escritor e historiador) e Cesare Tallone (retratista de grande fama no final do século XIX, colega de Giovanni Segantini e Gaetano Previati e professor de Carlo Carrà).[2]

Nesse período, influenciado pelos valores da geração pós-romântica milanesa, aproximou-se da estética de Tranquillo Cremona, Mosè Bianchi, Filippo Carcano, Luigi Conconi e Emilio Gola.[2] Surgiu messe contexto sua primeira obra de destaque, Cleopatra lussuriosa (1901), apresentada para concorrer ao prêmio de pintura histórica da Academia de Breda. A Academia, entretanto, rejeitou o quadro, malgrado o sucesso deste junto ao público. Em função da rejeição, Amisani abandonou temporariamente a pintura.[3] [4]

Entre 1906 e 1907, Amisani retomou sua carreira pictórica, mas afastou-se da estética pós-romântica. Não chegou a aderir ao vanguardismo de seus contemporâneos, como Carlo Carrà e Umberto Boccioni, mas conviveu com o modernismo, aproximando-se do movimento conhecido localmente como liberty (semelhante à art nouveau francesa), exercitando discretas incursões ao decadentismo, ao simbolismo e ao divisionismo. Clareou a palheta, diversificou o colorido, suavizou e acelerou a pincelada. Deu preponderância aos tons pastel em suas obras. De sua fase antiga, conservou o estilo empregado no tratamento do segundo plano de suas composições - formas abstratas, constituídas por grossas camadas de tinta.[3]

Destacam-se nesta fase os retratos femininos, imbuídos da "sensualidade tolerável", característica do erotismo do fin-de-siècle.[1] Destes, o mais renomado é o retrato da famosa atriz italiana de teatro e cinema Lyda Borelli, que lhe rendeu o Prêmio Fumagalli da Academia de Brera em 1912[2] [4] (uma versão posterior da obra foi adquirida pelo conde Sílvio Penteado, durante a segunda estadia do pintor no Brasil).[3]

Giuseppe Amisani: La Culla Tragica (1910). Pinacoteca do Estado, São Paulo.

No fim do primeiro decênio do século XX, certamente motivado pela prosperidade da belle époque brasileira, Amisani transferiu-se para este país, passando pelo Rio de Janeiro e fixando-se por um breve período em São Paulo. Na capital paulista, montou um ateliê no quarto 62 do Hotel Bela Vista, onde promovou exposições individuais de Oscar Pereira da Silva, Peregrino de Castro e Augusto Crotti. Em 1913, retornou ao Brasil de passagem, após ser convidado a realizar o retrato de um membro da colônia italiana em Buenos Aires. Estabeleceu-se novamente em São Paulo, permanecendo nesta cidade até 1914. Nesse intervalo, organizou uma exposição individual e participou de uma mostra coletiva, ambas sediadas na Casa Mascarani.[4]

Como muitos outros artistas italianos que se fixaram no Brasil durante a belle époque, Amisani contribuiu significativamente para a difusão da pintura italiana contemporânea no meio artístico do país. Não obstante o tímido desenvolvimento do mercado de arte paulistano na época, em função da relativa escassez de instituições voltadas à formação artística e à difusão das artes visuais, Amisani conseguiu inserir-se de forma bem sucedida no mercado, angariando uma clientela composta por membros influentes da elite paulistana. Teve como clientes e frequentadores do seu ateliê personalidades como o senador Freitas Valle, o presidente do Banco de Comércio e Indústria de São Paulo Numa de Oliveira, o jornalista Nestor Pestana, o Ministro da Agricultura Pádua Sales, o engenheiro-arquiteto Samuel das Neves e o galerista Jorge de Souza Freitas, proprietário da Galeria Jorge. Para Freitas Valle, especificamente, Amisani executou o afresco A alma das flores,, decorando a sala de banho da Villa Kyrial, a antiga residência do senador localizada na Vila Mariana, famosa por sediar os mais renomados saraus de São Paulo na virada do século (a obra foi destruída com a demolição da mansão em 1961). Freitas Valle foi também responsável por intermediar a compra e venda de obras de Amisani, por ocasião de suas constantes visitas à Europa.[3] [4]

Em 1924, Amisani instalou-se em Cairo, no Egito, onde realizou o famoso retrato do príncipe-herdeiro, Farouk, possivelmente sua obra mais conhecida - e que lhe valeu a alcunha de il pittore dei re ("pintor do rei").[3] Permaneceu no Egito até 1926, tendo também trabalhado na decoração do Palácio Real de Alexandria.[1] A estadia no Egito influenciou sua obra, que passou a incorporar atributos do orientalismo e lhe granjeou maior visibilidade junto ao público.[4]

Ao retornar do Egito para a Itália, Amisani já era um retratista e paisagista de renome internacional.[3] Aperfeiçoou-se progressivamente na carreira de retratista da elite, trabalhando sob encomenda para príncipes e nobres da Inglaterra e da Itália, senhoras da alta sociedade, artistas e poetas.[5] Embora não tenha cedido às tendências modernas, Amisani contribuiu consideravelmente para o estabelecimento de um "padrão aceitável" de retratística de vanguarda, emulando em alguns de seus trabalhos características dos avanços estéticos de movimentos alheios à sua arte. Chegou a expor na Bienal de Veneza em 1930, ocasião para a qual elaborou um auto-retrato bastante admirado. As obras de Amisani estão hoje dispersas por diversos museus da Itália e do mundo, tais como o Museo Teatrale alla Scala e a Galleria d'Arte Moderna, ambos em Milão.[2] No Brasil, o Museu de Arte de São Paulo e a Pinacoteca do Estado conservam obras de sua autoria.[1] [2] [4]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. a b c d e Marques, 1998, pp. 157.
  2. a b c d e Giuseppe Amisani Comune di Mede. Página visitada em 23 de outubro de 2011.
  3. a b c d e f CAMPOS, Letícia Badan Palhares Knauer de. Acerca de "La Culla Tragica" - Giusppe Amisani no Brasil IFCH - Unicamp. Página visitada em 23 de outubro de 2011.
  4. a b c d e f PITTA, Fernanda. Pintores Italianos em São Paulo - O caso da Culla Tragica de Giuseppe Amisani 19&20. Página visitada em 23 de outubro de 2011.
  5. Giuseppe Amisani (1879 - 1941). Il pittore dei re Archimagazine. Página visitada em 23 de outubro de 2011.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • MARQUES, Luiz (org.). Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand: Arte italiana. São Paulo: Prêmio, 1998. 157 pp. vol. I. CDD-709.4598161