Gnaoua

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Postal de 1920 com um grupo gnaoua
Músicos gnaoua no meio da multidão durante um festival foclórico em Marrocos em 1970

Os termos gnaoua, gnawa, ghanawi, gnawi ou guennaua (em árabe: قناوة) designam, em Marrocos e na Argélia em particular e no Magrebe em geral, os membros de uma série de confrarias místicas sufis muçulmanas que se caracterizam pela origem subsariana dos seus membros e pelo uso de cantos, danças e rituais sincréticos para atingir um estado de transe. A forma gnaoua ou gnawa é plura, sendo o singular gnaoui ou gnawi.

O termo aplica-se igualmente ao géneros musical de reminiscências subsaarianas praticado por aquelas confrarias ou por músicos que se inspiram nela. É um dos principais géneros do folclore de Marrocos.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Há alguma controvérsia sobre a origem do termo. Embora muito difundida a teoria que ele provém da cidade e Império do Gana (atualmente Koumbi Saleh, na Mauritânia), alguns estudiosos rechaçam essa teoria com base em argumentos linguísticos e contrapoem que o termo tem a mesma origem de "Guiné", que por sua vez provém do termo ignawen (plural de ignaw), da língua berbere do Suz (sul de Marrocos), a qual significa "mudo". Os berberes do Suz designavam desse modo os escravos negros e também foi usado para referira a região da qual qual provinham os escravos que chegavam a Marrocos.

História[editar | editar código-fonte]

Os gnaoua são descendentes dos escravos que os governantes árabes e berberes do que é hoje a Argélia e Marrocos e, especialmente em Marrocos, empregaram no exército (como por exemplo, os Abid al-Bukhari) e na construção de cidades e fortalezas. Uma lenda atribui ao sultão Ahmed el-Mansour ed-Dahbi a captura e transladação para Marrocos dos antepassados dos gnaoua na sequência da conquista do Império Songhai em 1591, mas é certo que o tráfico de escravos através do Saara existia já desde há séculos, e os Ganaoua têm diversas proveniências, como demonstra o vocabulário de origem subsaariano que conservam nos seus cantos. A fromação dos Ganaoua é um processo que se desenvolve ao longo de vários séculos e não procedem de apenas um contingente de escravos.

Tambor usado por músicos gnaoua (gangua ou tabennguritt)

Com o tempo, estes escravos converteram-se ao Islão, mas mantiveram algumas das suas crenças e rituais de tipo animista, em particular os ritos de transe ou possessão, o que deu lugar a um tipo particular (ou tariqa) de sufismo sincrético. Este fenómeno tem algum paralelismo com a formação dos cultos afro-americanos, como o candomblé, a santería e outros similares em zonas da América onde uma parte considerável da população é descendente de escravos africanos.

Os gnaoua são arabófonos num país onde o árabe coexiste com várias línguas berberes. Segundo os próprios gnaoua, até há algumas décadas existiam entre eles quem fosse capaz de falar a língua dos seus antepassados escravos. Os seus cantos contêm um grande número de palavaras e expressões que não são árabes. que foram identificadas pelos linguistas como pertencendo a diferentes línguas africanas, nomeadamente ao haúça. Entre estas palavras há algumas que fazem referência às etnias ou lugares de origem dos gnaoua, como bambara (referindo-se a essa língua), hawsa (Hauçás), Tinbuktu (Tombuctu), madanika (mandingas), fulan (fulas), etc.

A palavra bambara, que por vezes usam como preferida para designar a língua dos seus antepassados, dá nome a um tipo de canto em particular, no qual a presença de palavras africanas é maior do que em canções doutros tipos.

Rituais e música[editar | editar código-fonte]

Mendigo tocador de guembri (um nstrumento usado pelos gnaoua) numa rua de Marraquexe

Os gnaoua praticam o transe hipnótico por meio de música de raízes subsaarianas e danças que evocam os morabitos (santos protetores), que supostamente têm o poder de expulsar os demónios e curar certas doenças. Em Marrocos acredita-se que os gnaoua são especialistas en sarar, graças a essa intercessão, as mordeduras de escorpião e as as desordens mentais especialmente.

Os instrumentos usados são o guembri (ou sintir, um instrumento de três cordas e som de baixo, o tbel (ou tabl) ou tambor, tocado com um pau curvo e as qraqeb, uma espécie de crotales ou castanholas de metal. A música é muito rítmica e caracteriza-se por um canto dialogado em que uma voz principal realiza evocações e é respondida por um coro, sobre uma melodia simples de guembri acompanhada pelos instrumentos de percussão e palmas. As danças são igualmente muito rítmicas. Os participantes costumam mover a cabeça em círculos, um movimento que se contagia ao resto do corpo, dando então voltas sobre si mesmos, de modo semelhante à dança Sema dos dervixes rodopiantes, pondo-se de cócoras enquanto continuam a girar. É deste modo que chegam a entrar em transe.

Os gnaoua atuam com um traje especial, cuja principal característica são os elementos decorativos à base de conchas.

A música gnaoua internacionalizou-se graças a músicos ocidentais como Bill Laswell, Adam Rudolph ou Randy Weston, que a incluíram nas suas composições. Devido ao interesse exterior, a prdoução musical dos gnaoua conheceu reelaborações e fusões destinadas a um público mais amplo desde os anos 1990, já distantes do místico-religioso. Alguns dos artistas com mais fama internacional são, por exemplo, Hassan Hakmoun, ou o grupo franco-argelino Gnawa Diffusion.

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em espanhol, cujo título é «Gnawa», especificamente desta versão.
  • Aguadé, Jordi. (1999). "Sobre los gnawa y su origen" (PDF) (em espanhol). Estudios de Dialectología Norteafricana y Andalusí (4): 157-166 pp.. Página visitada em 23 de julho de 2012.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • Gnawa stories (em inglês). www.ibiblio.org. Página visitada em 23 de julho de 2012