Golpe de Estado na Venezuela de 2002

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

O Golpe de Estado na Venezuela de 2002 foi um golpe de Estado fracassado em 11 de abril de 2002, que durou 47 horas, no qual o chefe de Estado da Venezuela, o presidente Hugo Chávez foi detido ilegalmente por militares[1] [2] [3] , a Assembleia Nacional e o Supremo Tribunal foram dissolvidos, e a Constituição de 1999 do país foi anulada[4]

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

O presidente da Federação Venezuelana de Câmaras de Comércio (Fedecâmaras), Pedro Carmona foi instalado como presidente interino. Em Caracas, o golpe de Estado levou a um levante pró-Chávez que a Polícia Metropolitana tentou suprimir[5] Setores-chave dos militares[6] . e parte do movimento anti-Chávez se recusaram a apoiar Carmona.[7] [8] A Guarda Presidencial pró-Chávez, eventualmente, retomou o palácio presidencial de Miraflores, sem disparar um tiro, levando ao colapso do governo de Carmona e da reinstalação de Chávez como presidente.

O golpe foi publicamente condenado pelas nações latino-americanas (os presidentes do Grupo do Rio se reuniram em San José, Costa Rica, na época, e foram capazes de emitir um comunicado conjunto) e pelas organizações internacionais. Os Estados Unidos e a Espanha rapidamente reconheceram o governo pró-EUA de facto de Carmona, mas acabou condenando o golpe de Estado após este ter sido derrotado[9]

História[editar | editar código-fonte]

Marcada por fortes protestos e uma greve geral convocada pela Fedecamaras, que durou mais de três dias, em 11 de abril de 2002, a liderança da oposição pediu autorização para uma marcha entre as áreas do Parque del Este de Caracas e a PDVSA que logo foi desviada para o Palácio do Governo, localizado em Miraflores, Caracas. Sobre o mesmo, partidários de Hugo Chávez se reuniam, e quando os dois lados encontraram-se houve confrontos que resultaram em várias mortes de ambos os lados. Embora ainda seja controverso quem iniciou e quem prosseguiu com o tiroteio naquela noite, ao amanhecer do dia seguinte, o alto comando militar da Venezuela anunciou que Chávez tinha renunciado depois do seu pedido. Imediatamente, militares adverdários de Hugo Chávez executaram um golpe de Estado que colocou na Presidência o Presidente da Fedecamaras, Pedro Carmona. Depois de fortes protestos por partidários de Chávez e de alguma pressão internacional, já que muitos países não reconhecem Carmona, soldados leais ao governo voltaram ao poder e Chávez retomou a presidência, na manhã de 14 de abril de 2002.

A oposição defendeu fortemente que o que aconteceu não foi um golpe de Estado, mas um vazio de poder causado pela declaração do Alto Comando Militar,[10] a suposta renúncia de Chávez, do seu vice-presidente Diosdado Cabello e pela ignorância pública de alguns oficiais da autoridade de Chávez.[11] Inicialmente, o recém-criado Supremo Tribunal da Venezuela emitiu um veredicto de que o que aconteceu em 11 de abril foi um vácuo de poder[12] , mas depois a sentença foi anulada[13]

Chávez e seus seguidores chamam o acontecimento de um "golpe da mídia", argumentando que a mídia privada da Venezuela, teve uma grande parcela de responsabilidade pelo golpe, cometendo auto-censura das informações[14] com os golpistas e até mesmo ser os principais promotores. Os chavistas também mencionam que foi um golpe empresarial, já que o efemero presidente Carmona não era apenas empresário, mas era presidente da maior organização empresarial, a chamada Fedecamaras; e também, que o golpe foi apoiado pela Igreja Católica.[15]

O papel da imprensa[editar | editar código-fonte]

Segundo John Dinges, jornalista da Columbia Journalism Review, nas semanas que antecederam o golpe a mídia privada venezuelana e, em especial, a rede de televisão RCTV, conferiram ampla cobertura às manifestações anti-Chávez, ao mesmo tempo em que ignoraram as manifestações pró-Chávez.[16] No dia 11 de abril, as mensagens de repúdio a Chávez e a convocação para redirecionar a marcha anti-governista para o Palácio de Miraflores foram "amplamente anunciados, promovidos e cobertos por canais de televisão privados, cujo apoio explícito à oposição tornou-se evidente". Uma série massiva de anúncios não-pagos difundidos pela televisão convocavam os venezuelanos a participarem da insurreição.[17] A edição de 11 de abril do periódico El Nacional trouxe estampada a manchete "A batalha final será no Miraflores".[18] Em um dado momento, os golpistas, incluindo Carmona, se reuniram nos escritórios da rede de televisão Venevisión.[19]

Quando irrompeu o golpe, militares do grupo de oposição ocuparam a rede estatal venezuelana de televisão (Venezolana de Televisión), ao mesmo tempo em que rádios e redes comunitárias de televisão eram fechadas. Dessa forma, a notícia de que Chávez na verdade não havia renunciado não pode ser difundida, exceto pela informação "boca-a-boca".[20] Somente uma rede de rádio ligada à Igreja Católica continuou a noticiar os eventos.[16] Graças à cooperação de funcionários do Palácio de Miraflores ainda fiéis a Chávez, a filha do presidente deposto conseguiu falar com o pai por meio de um telefonema. Informada de que Chávez não havia renunciado, conseguiu contatar Fidel Castro e, em seguida, a televisão cubana.[21] O Procurador-Geral da República Venezuelana tentou informar ao público que Chávez não havia renunciado, convocando uma conferência de imprensa para, supostamente, anunciar sua própria renúncia, mas a maior parte de seu pronunciamento foi cortada.[22] Após a prisão de Chávez, protestos organizados por partidários de seu governo, que incluíram graves tumultos e saques, ocorreram em diversos pontos de Caracas, resultando na morte de 19 pessoas. Entretanto, repórteres da RCTV foram enviados para pontos tranquilos da cidade para fazer "tomadas ao vivo de ambientes calmos", ignorando tais eventos.[16]

A imprensa venezuelana também não informou o público sobre as tentativas dos militares que se opuseram ao golpe de Estado de retomar o Palácio de Miraflores. As quatro maiores redes de televisão pararam simultaneamente de transmitir quaisquer notícias sobre a instabilidade política.[16] Dois dos maiores jornais do país, o El Universal e o El Nacional cancelaram suas edições de domingo, alegando tratar-se de "medidas de segurança". Um terceiro, o Ultimas Noticias, imprimiu uma versão limitada relatando os eventos. Alguns tablóides e redes regionais também noticiaram os fatos. Ao transmitir a notícia de que uma divisão importante das Forças Armadas venezuelanas em Maracay havia se rebelado contra o golpe, a rede norte-americana de televisão CNN disse estar surpresa com o fato da imprensa local "não dizer nada" a respeito.[19] Quando as forças leais a Chávez retomaram o Palácio de Miraflores, os militares contra-golpistas emitiram uma declaração conjunta demandando a "restauração da democracia". A declaração, entretanto, foi difundida somente pela CNN.[23] Somente por volta das oito horas da manhã do dia 13 de abril, Chávez, já restituído à presidência da nação, conseguiu informar a população do que havia ocorrido por meio da rede de televisão estatal.[22] .

Em um artigo publicado pelo Le Monde diplomatique, o jornalista Maurice Lemoine afirmou que "nunca, mesmo na história latino-americana, a imprensa esteve envolvida tão diretamente em um golpe [de estado].", acrescentando que "embora as tensões do país pudessem facilmente conduzir a uma guerra civil, a mídia ainda está encorajando diretamente os dissidentes do governo a derrubar o presidente democraticamente eleito - se necessário, pela força".[19]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Esposa de Gebauer espera publicación en Gaceta de Ley de Amnistía. El Universal (2 January 2008). Página visitada em 31 January 2010. "Otto Gebauer fue imputado por el delito de insubordinación y privación ilegítima de libertad al coronel Hugo Chávez Frías,"(em espanhol)
  2. Veneconomía. Veneconomía (15 March 2006). Página visitada em 29 January 2010.(em espanhol)
  3. Rey, J. C. (2002), "Consideraciones políticas sobre un insólito golpe de Estado", pp. 1–16; cited in Cannon (2004:296); "In 2002, Venezuela's military and some of its business leaders ousted President Chavez from power and held him hostage." (N. Scott Cole (2007), "Hugo Chavez and President Bush's credibility gap: The struggle against US democracy promotion", International Political Science Review, 28(4), p498)
  4. Interim Venezuelan president sworn in. BBC News. (13 April 2002). URL last accessed on 30 May 2007
  5. Círculos bolivarianos protestaron. Últimas Noticias (13 April 2002). Página visitada em 11 April 2008.(em espanhol)
  6. Insurrección civil y militar termina con el golpe; Chávez, en Miraflores. La Jornada (14 April 2002). Página visitada em 4 March 2007.(em espanhol)
  7. Hernández, Enrique (7 May 2002). Capriles: "Nunca apoyé el gobierno de Carmona". Asamblea Nacional de la República Bolivariana de Venezuela. Página visitada em 4 March 2007.(em espanhol)
  8. Cecilia Sosa no ha sido notificada formalmente medida privativa de libertad. Unión Radio (21 October 2005). Página visitada em 4 March 2007.(em espanhol)
  9. Official U.S. Government Statements — Venezuela. Retrieved 10 April 2006.
  10. [1] Renuncia de Hugo Chávez solicitada por el Alto Mando Militar
  11. Interpelación de Pedro Carmona ante la Asamblea Nacional Párrafo 19.
  12. Sentencia de la Sala Plena del Tribunal Supremo de Justicia, 14 de agosto de 2002
  13. Sentencia de la Sala Constitucional del Tribunal Supremos de Justicia, 11 de marzo de 2005
  14. La Prensa Venezolana a la Defensiva por Medios y Libertad en las Américas.
  15. Venezuela: un obispo golpista por Red Voltaire, red de prensa de carácter izquierdista
  16. a b c d Dinges, John. "Soul Search", Columbia Journalism Review, vol. 44, julho-agosto de 2005, pp. 52-58
  17. A citação (no original, [...]widely announced, promoted, and covered by private television channels, whose explicit support for the opposition became evident) e a informação sobre os anúncios não pagos estão disponíveis em: Maya, Margarita López. "Venezuela 2002-2003: Polarization, Confrontation, and Violence", in: Goumbri, Olivia Burlingame: The Venezuela Reader, Washington DC, EUA, 2005, pp. 14-15. julho-agosto de 2005, pp. 52-58. O valor do tempo doado para os anúncios foi estimado em aproximadamente três milhões de dólares.
  18. Golinger, Eva. A Case Study of Media Concentration and Power in Venezuela. Venezuelanalysis. Página visitada em 24 de julho de 2010.
  19. a b c Lemoine, Maurice. Venezuela’s press power. Le Monde diplomatique. Página visitada em 24 de julho de 2010.
  20. Jones, Bart. Hugo!, 2008, pp. 356
  21. Jones, Bart. Hugo!, 2008, pp. 345
  22. a b Jones, Bart. Hugo!, 2008, pp. 346-347
  23. Jones, Bart. Hugo!, 2008, pp. 358