Gomes Freire de Andrade

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Gomes Freire de Andrade
Gomes Freire de Andrade.jpg
Nascimento 27 de Janeiro de 1757
Viena, Flag of the Habsburg Monarchy.svg Áustria
Morte 18 de Outubro de 1817 (60 anos)
Lisboa, Flag Portugal (1707).svg Reino de Portugal
País Flag Portugal (1707).svg Reino de Portugal
Força Exército
Anos em serviço 1782 - 1813
Hierarquia Tenente-general
Comandos Legião Portuguesa
Batalhas/Guerras Guerras Napoleónicas
Condecorações OrderStGeorge4cl rib.png Ordem de São Jorge

Gomes Freire de Andrade e Castro (Viena, 27 de janeiro de 1757Forte de São Julião da Barra, 18 de outubro de 1817) foi um general português.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Era filho de António Ambrósio Pereira Freire de Andrade e Castro, embaixador de Portugal na corte austríaca, e de Elisabeth, Condessa Schaffgotsch genannt Semperfrei von und zu Kynast und Greiffenstein, vinda de uma antiga e ilustre família nobre da Boémia.[1]

Teve a educação que na época se costumava dar aos filhos da nobreza. Seu pai, António Ambrósio Pereira Freire de Andrade e Castro, fora um ótimo colaborador do marquês de Pombal na campanha contra a Companhia de Jesus[2] , sendo o filho Gomes Freire enviado para Portugal com 24 anos de idade, em Fevereiro de 1781, já com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo.

Destinado à carreira militar, assentou praça de cadete no regimento de Peniche, sendo em 1782 promovido a alferes. Passou à Armada Real, embarcando em 1784 na esquadra que foi auxiliar as forças navais espanholas de Carlos III de Espanha no bombardeamento de Argel.

Regressou a Lisboa em setembro, promovido a tenente do mar da Armada Real, e em abril de 1788 voltou ao antigo regimento no posto de sargento-mor.

Tendo alcançado licença para servir no exército de Catarina II, em guerra contra a Turquia, partiu para a Rússia. Em São Petersburgo terá conquistado as maiores simpatias na corte e da própria imperatriz. Na campanha de 1788-1789, comandada pelo príncipe Potemkin, ter-se-á distinguido nas planícies do rio Danúbio, na Guerra da Crimeia e sobretudo no cerco de Oczakow, alegadamente o primeiro a entrar na frente do regimento quando a praça se rendeu em 17 de outubro de 1788 depois de cerco prolongado. Na hora das condecorações esqueceram-se dele, negando-lhe a Comenda de São Jorge. Mas ele protesta, pede atestados de heroísmo ao coronel Markoff[3] , e a imperatriz condescende atribuindo-lhe o posto de coronel do seu exército, que em 1790 lhe foi confirmado no exército português, mesmo ausente.

Foi iniciado na Maçonaria antes de 1785, provavelmente em Viena na Loja Zur gekrönten Hoffnung (À Esperança Coroada), a cujo quadro pertencia, juntamente com Wolfgang Amadeus Mozart, em 1790. Tinha então o grau de Mestre. Ocupa o cargo de Venerável da Loja Regeneração.[1]

Depois, na esquadra do príncipe de Nassau, salva-se milagrosamente durante a batalha naval de Schwensk, quando os canhões suecos fazem ir a pique a "bateria flutuante" que ele comandava. Perdeu-se toda a tripulação, mas Gomes Freire conseguiu salvar-se, acabando por receber o hábito de São Jorge, uma das Ordens mais importantes da Rússia, não das mãos da imperatriz, como se tem dito, mas sim das do príncipe de Nassau, em nome da imperatriz[4] . Houve rumores de simpatia e entusiasmo da imperatriz por Freire de Andrade, aparentemente confirmado pelas desinteligências entre ele e o príncipe de Potemkin, favorito conhecido.

Voltou a Lisboa, nomeado coronel do regimento do marquês das Minas, prestes a embarcar para a Catalunha, na divisão que Portugal enviava auxiliar a Espanha contra a República francesa e a que chegou em 11 de novembro de 1793, seguindo por terra. Nesta expedição iam estrangeiros no Estado-Maior: o duque de Northumberland, general e par de Inglaterra, o príncipe de Luxemburgo Montmorency, o conde de Chalons, o conde de Liautaud. O Regimento de Freire de Andrade e o de Cascais ocuparam a povoação de Rebós, na sua linha de batalha, correndo logo às trincheiras da ponte de Ceret, onde o exército espanhol estava a ponto de capitular. A acção do Regimento terá sido brilhante, apesar do mau desempenho de Gomes Freire de Andrade[5] , carregando os franceses com brio em combate a 26 de novembro de 1793. Em Arles, acampou em quartéis de inverno seu Regimento e o de Cascais, que constituíam a 2° Brigada, comandada por ele. Segundo Latino Coelho, começa aí a evidenciar-se o espírito indisciplinado e irrequieto de Gomes Freire; desordeiro e intrigante, "o animo altivo do coronel, avesso, como era a toda a sujeição, difundia na divisão auxiliar o fermento da indisciplina" [6]

Mas apesar das vitórias do exército hispano-português sobre os republicanos da Convenção, a guerra do Roussillon ia-se tornar armadilha, os espanhóis tinham 18 mil feridos em hospitais e os portugueses mil homens fora de combate, enquanto os franceses recebiam constantes reforços. Em 29 de abril de 1794 o general Dugommier atacou a esquerda do exército espanhol, composta de corpos da divisão portuguesa, que sustentou o fogo do romper da manhã às 14 h, salvando o exército espanhol.

Em 1801 reúne-se em sua casa a assembleia que levou à organização definitiva da Maçonaria Portuguesa, com a posterior criação do Grande Oriente Lusitano em 1802, sendo eleito como um dos seus principais dignitários.

Regressado a Portugal, veio a integrar a "Legião Portuguesa" criada por Jean-Andoche Junot e que, sob o comando do marquês de Alorna, partiu para França em Abril de 1808, onde vem a ser recebida por Napoleão Bonaparte no dia 1 de Junho. Participou na campanha da Rússia.

Entretanto, fez parte da Loja Militar Portuguesa Chevaliers de la Croix (Cavaleiros da Cruz), em Grenoble, entre 1808 e 1813.[1] onde vem a ser o 5.º Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, de 1815 ou 1816 a 1817.[7] [8]

Acusação[editar | editar código-fonte]

Libertado Portugal da ocupação das tropas francesas, e após a derrota de Napoleão, Freire de Andrade ao regressar a Portugal, veio a ser implicado e acusado de liderar uma conspiração em 1817 contra a monarquia de Dom João VI, em Portugal continental representada pela Regência, então sob o governo militar britânico do marechal William Carr Beresford. Foi detido, preso, condenado à morte e enforcado (embora tenha pedido para ser fuzilado) junto ao Forte de São Julião da Barra, em Oeiras, por crime de traição à Pátria junto com outras onze pessoas: o coronel Manuel Monteiro de Carvalho, os majores José Campelo de Miranda e José da Fonseca Neves e mais oito oficiais do Exército.[1] . Essa data, 18 de Outubro, foi, durante mais de um século, dia de luto na Maçonaria Portuguesa. Ainda hoje o seu nome é venerado como um dos grandes maçons e mártires da Liberdade de todos os tempos, tendo sido numerosas as lojas crismadas com o seu nome e abundantes os iniciados que o escolheram como nome simbólico.[1]

Após o julgamento e execução do tenente-general e outros, Beresford deslocou-se ao Brasil para pedir mais poderes. Havia pretendido suspender a execução da sentença até que fosse confirmada pelo soberano mas a Regência, "melindrando-se de semelhante insinuação como se sentisse intuito de diminuir-se-lhe a autoridade, imperiosa e arrogante ordena que se proceda à execução imediatamente"[9] .

Este procedimento da Regência e de Lord Beresford, comandante em chefe britânico do Exército português e regente de facto do reino de Portugal, levou a protestos e intensificou a tendência anti-britânica, o que conduziu o país à Revolução do Porto e à queda de Beresford (1820), impedido de desembarcar em Lisboa ao retornar do Brasil, onde conseguira de D. João VI maiores poderes.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d e http://members.tripod.com/gremio_fenix/gfa.html
  2. António Ferrão, Gomes Freire e as virtudes da raça portuguesa, p. 13, nota
  3. António Ferrão, Gomes Freire na Rússia, p. 175 ss; José Manuel de Noronha, "Gomes Freire na Rússia", Revista de História, nº 28, Outubro-Dezembro de 1918.
  4. António Ferrão, Gomes Freire na Rússia, p. 251, nota
  5. Luz Soriano, História da guerra civil..., tomo I, p. 590; Latino Coelho, História militar e política..., tomo III, p. 156
  6. Latino Coelho, História militar e política de Portugal, tomo III, p. 90
  7. [1]
  8. [2]
  9. Rocha Pombo, "História do Brasil", volume IV, p. 12

Obras de Gomes Freire de Andrade[editar | editar código-fonte]

  • 1795 - Mémoire raisonnée sur la retraite de l'armée combinée espagnole et portugaise au Roussillon, effectuée sous les ordres du Comte de l'Union le Ier Mai 1794 avec un exposé des premiéres opérations de la campagne par G..... F..... Officier au Service de Portugal, [S.l. : s.n.], 1795. Página de título -BNL
  • 1806 - Ensaio sobre o methodo de organisar em Portugal o exercito, Lisboa, Nova Off. de João Rodrigues Neves, 1806.
  • 1814 - Certificado passado por Gomes Freire de Andrade, atestando os bons serviços prestados pelo major Cândido José Xavier (1769-1833) como comandante do 2.a Regimento de Infanteria da Legião Portuguesa, a bravura demonstrada pelo mesmo nas campanhas de Wagram e da Rússia (1812), e o bom trabalho por ele realizado no Gabinete do ministro da Guerra (Manuscrito). Fait a Paris le 12 Septembre 1814.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Luz Soriano, História da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal comprehendendo a história diplomática militar e política d'este reino desde 1777 até 1834, Lisboa, Imprensa Nacional, 1866-1890; tomo I, pp. 533, 548 , 586, 590, 593; tomo III, pp. 182, 194, 195, 197, 202, 209.
  • José Maria Latino Coelho, História política e militar de Portugal desde os fins do XVIII século até 1814, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874-1891.
  • Boletim Official do Grande Oriente Lusitano, Outubro de 1898.
  • Barbosa Colen, "Gomes Freire de Andrade", Novidades, nº 5865, 25 de Maio de 1903.
  • António Sardinha, "Dia de S. Traidor - A revisão de um processo", A Monarquia, 18 de Outubro de 1917.
  • Raul Brandão, 1817 - A conspiração de Gomes Freire, Porto, Renascença Portuguesa, 1917 (2ª ed., 1919; 3ª ed., 1922).
  • António Ferrão, Gomes Freire na Rússia: cartas inéditas de Gomes Freire de Andrade e outros documentos autógrafos acerca desse ilustre português quando combateu no exército russo, precedidos dum estudo sobre a política externa de Catarina II, Coimbra, Impr. da Universidade, 1917.
  • António Ferrão, Gomes Freire na Rússia, Coimbra, Imp. da Universidade, 1918.
  • José Manuel de Noronha, Gomes Freire na Rússia: crítica ao livro do Snr. A. Ferrão, Porto, Sep. Revista de História, 28 (1918), Porto, Imp. Literaria e Typographica, 1919.
  • Henrique de Campos Ferreira de Lima, Freire de Andrade: notas bibliográficas e iconográficas publicadas em comemoração do 1º centenário da morte deste ilustre general 1817-1917, Coimbra, Imp. da Universidade, 1919.
  • António Rodrigues Cavalheiro, "À margem dum processo (A questão Gomes Freire - I)", Nação Portuguesa, nº 2, Agosto de 1922, pp. 61–72.
  • António Rodrigues Cavalheiro, "À margem dum processo (A questão Gomes Freire - II)", Nação Portuguesa, nº 5, Novembro de 1922, pp. 222–229.
  • Antonio Rodrigues Cavalheiro, Gomes Freire, mau portuguêz e mau soldado: a Campanha do Roussillon, a Guerra de las naranjas, os motins de Campo de Ourique, Lisboa, s.n., 1928.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]