Governador Mangabeira

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Município de Governador Mangabeira
Bandeira de Governador Mangabeira
Brasão de Governador Mangabeira
Bandeira Brasão
Hino
Fundação 14 de Março de 1962
Gentílico mangabeirense
Prefeito(a) Domingas da Paixão (PMDB)
(2009–2012)
Localização
Localização de Governador Mangabeira
Localização de Governador Mangabeira na Bahia
Governador Mangabeira está localizado em: Brasil
Governador Mangabeira
Localização de Governador Mangabeira no Brasil
12° 36' 07" S 39° 02' 34" O12° 36' 07" S 39° 02' 34" O
Unidade federativa  Bahia
Mesorregião Metropolitana de Salvador IBGE/2008 [1]
Microrregião Santo Antônio de Jesus IBGE/2008 [1]
Municípios limítrofes Muritiba, Cabaceiras do Paraguaçu, Conceição da Feira, São Félix e Cachoeira
Distância até a capital 119 km
Características geográficas
Área 106,317 km² [2]
População 21 125 hab. IBGE/2013[3]
Densidade 198,7 hab./km²
Clima Não disponível
Fuso horário UTC−3
Indicadores
IDH-M 0,643 médio PNUD/2010 [4]
PIB R$ 83 827,896 mil IBGE/2008[5]
PIB per capita R$ 4 081,40 IBGE/2008[5]
Página oficial

Governador Mangabeira é um município brasileiro do estado da Bahia. Sua população estimada em 2013 era de 21.125 habitantes.

Seu nome é uma homenagem ao grande político e ex-governador do estado, Octávio Mangabeira -- mas este não nasceu em Governador Mangabeira, ao contrário da crença geral e sim na capital Salvador.

Em Governador Mangabeira há uma festa que se chama Sexta na Praça, criada por um projeto de lei para divertir a população gratuitamente e com músicas ao vivo.

Histórico do município de Governador Mangabeira - BA

RECÔNCAVO FUMAGEIRO

Nos últimos anos as produções historiográficas acerca do Recôncavo Fumageiro, ganharam significativa espressão no mundo acadêmico, principalmente no sentido de tentar entendê-lo como um espaço construído historicamente a partir de uma fisionomia própria, não apenas vinculado à tradicional concepção de Recôncavo Açucareiro, pois por volta do século XVI, “o cultivo do fumo fez surgir em Cachoeira e nas regiões circunvizinhas e, em certa medida, também em Maragogipe, uma organização social e econômica distinta no Recôncavo” (SCHWARTZ, 1999, p. 85). 

Foi exatamente neste espaço que a partir do século XVI, teve inicio a produção de tabaco no Brasil, fenômeno que se registrou em função de aspectos climáticos e pela qualidade do solo, mas que propiciou lucros elevados para a coroa portuguesa. Neste contexto geográfico de produção, já se encontrava a área da Vila de Cabeças. Isso pode ser observado em um dos trechos do Livro Segredos Interno do historiador Stuart Schwartz, quando ele cita a Paróquia de São Pedro de Muritiba, pois antes de se transformar em cidade, a Vila de Cabeças era controlada pela administração da referida Paróquia:

Nesse contexto de produção e beneficiamento do tabaco, aprece com um elevado grau de significância os armazéns de fumo da Vila de Cabeças, a partir da década de 1920, em especial o do coronel João Altino da Fonseca, um dos primeiros trapicheiro da Vila, que também exportava fumo para a Alemanha, como afirmava o Senhor Efraim Fonseca (2003): “Ele exportava fumo até para Europa. Ele tinha muito negócio com a Alemanha e a França. Por ano ele mandava mais de 50.000 arrobas de fumo para os estrangeiros”.

Esse tipo de atividade fez com que a Vila atingisse um grau de desenvolvimento econômico, principalmente nas décadas de 19 1950, levando ao surgimento de novos armazéns e de comércios de bebidas, alimentos e tecidos. Este crescimento foi tão evidente que o memorialista muritibano, Anfilofio de Castro, já na década de 1940, assim descreveu a Vila: “Cabeças, dá-lhe vida o seu comércio de fumo, de grande vulto, e o de portas abertas, com armazéns de secos e molhadas, padaria, farmácia e lojas de fazenda. Tem agência postal e três escolas de ensino primário”. (CASTRO, 1941, p. 41)

Outro aspecto a ser considerado como relevante no contexto da história socioeconômica do Recôncavo Fumageiro, é a presença do tipo humano do Tropeiro. Este era o responsável em abastecer a região com mercadorias oriundas de outros centros comerciais, bem como, transportar em lombo de animais para o porto da cidade de Cachoeira os fardos de tabaco beneficiados em locais como Cabeças e Muritiba, onde eram exportados para a Europa. Um burro chegava a transportar dois fardos de fumo de 75 quilos.

Os tropeiros tiveram sua origem no Brasil Colônia, em função das dificuldades para transportar mercadorias de uma região para outra, mais especificamente com a descoberta de ouro na região das Minas Gerais, a partir do século XVIII, posteriormente se espalhou por outras regiões do país, inclusive o Recôncavo Baiano.      

Dentro dessa concepção da origem dos tropeiros, vale ressaltar que vários historiadores, escreveram acerca da ligação desses homens com o Recôncavo Fumageiro, a partir de uma estrada que ligava a região das Minas Gerais a cidade de Cachoeira, sendo que  por ela, que os tropeiros passavam, às vezes estabelecendo pousadas em fazendas da região, contribuindo mais tarde para o povoamento do Recôncavo Fumageiro.

ORIGEM DO NOME CABEÇAS[editar | editar código-fonte]

É nesse contexto de produção de tabaco e do desenvolvimento do tropeirismo, que nasceu em 1881, pela lei provincial número 2.149, o Distrito de Paz das Cabeças, pertencente ao município de Cachoeira, mas a partir de 1889, Cabeças passou a pertencer a São Félix, já em 1919, com a transformação de Muritiba em cidade, o Distrito de Cabeças integra o território desta cidade, permanecendo nesta condição até 1962, quando alcançou sua emancipação política.

            A origem do nome Cabeças está muito vinculada ao imaginário popular, possuindo versões diferentes nas reminiscências dos seus habitantes, ou por que não dizer, uma espécie de “invenção de tradição”, que levou vários anos para ser modificada. Fundamentado nesses argumentos, evidencia-se a primeira concepção acerca da questão discutida. Esta nasceu de um memorialista erradicado em Cabeças, o senhor Antonio Pereira da Mota Júnior, quando afirmava que:

Era a época das chacinas por encomendas! Ai mesmo, ao lado, no leito da via pública, jaziam os corpos decapitados. O trecho, local, não tinha, até então, segundo parece, nenhuma denominação, visto que, o escabroso acontecimento figurara aos olhares assustados dos transeuntes às pontas das estacas dando o nome daqueles cofres de pensamento, ali trancados para eternidade, pelo chumbo quente, como legado, até o dia 14 de março de 1962. (MOTA JÚNIOR, 1962, p. 02)

        Outra abordagem para a origem do nome Cabeças foi elaborada pela professora e memorialista Angelita Gesteira Fonseca, que assim como Antonio Mota, condicionou sua narrativa a ideia de chacinas:

em ocasião, em determinado ponto da estrada dos portugueses, foram encontradas três cabeças humanas, enfiadas indica que as três cabeças eram de portugueses, bandeirantes – talvez até de jesuítas, quem sabe? – ali colocadas por índios. Ficou aquele lugar chamado pelos transeuntes de Cabeças, o que faz  crer que ali era uma estrada de bandeirantes e até pousada de jesuítas, e era uma estrada mater. (FONSECA, 2000, p. 33)

                           Na verdade o nome Cabeças é fruto de uma invenção de tradição, pois até hoje não se conseguiu evidenciar o verdadeiro sentido do mesmo. Claro, que as versões citadas acima, caminham pela ótica das chacinas, mas não possuem argumentos sólidos que justifiquem tal ideia. Também, não se devem menosprezar os argumentos econômicos apresentados nas mencionadas justificativas. Não seria lógico, fechar questão acerca deste fato, pois as ideias mencionadas têm seu valor e não estão desvinculadas de conotações históricas, bem como, a noção de memória deve ser respeitada na construção de uma narrativa histórica, não como algo estanque, mas que está sendo sempre reconstruído de forma coletiva ou individual.  

O CORONEL JOÃO ALTINO DA FONSECA[editar | editar código-fonte]

            Nascido em 1883 no povoado das Cabeças, naquela época cidade de Cachoeira, filho de Aprígio Cândido Fonseca e Maria das Neves da Fonseca, João Altino da Fonseca, era o mais novo dos dez irmãos. Casou-se em 1903 com Clementina Gesteira Brandão. O casal não teve filhos, mas contribuiu para a educação de vários sobrinhos e sobrinhas, uma delas foi Angelita Gesteira, que estudou no colégio interno Sagrado Coração de Jesus, em Salvador e mais tarde se tornou professora na Vila de Cabeças, bem como, do sobrinho Carlindo Fonseca, que veio de Salvador para administrar os negócios do tio.

           Aproximadamente em 1910, João Altino, passou a desenvolver a atividade de comerciante de tabaco, possuindo um dos armazéns mais famosos da região do Recôncavo. Sua empresa – João Altino Exportadora de Fumo fazia o beneficiamento e exportava para Alemanha anualmente mais de 50 mil arrobas do produto. Possuía um contingente de mais de 100 empregados, tanto do sexo masculino como feminino. Os lucros com a exportação de fumo o transformou em um dos homens mais ricos do vale do Paraguaçu, como citava o memorialista Efraim Fonseca Nunes:

ele exportava fumo até para Europa. Ele tinha muito negócio com a Alemanha e a França. (...) Ele montou a firma dele, vendia direto e negociava direto. Agora, ele era homem de poucas letras, mais ele tinha cabeça comercial muito grande. Tornou-se o homem mais rico do vale do Paraguaçu. (FONSECA, Efraim Nunes, 2003)

            Esta riqueza era de impressionar qualquer bem sucedido industrial da mais evoluída cidade brasileira daquela época. Um dos seus sobrinhos, Israel Nunes, usando do instrumento eficaz da memória, através de uma carta ao seu irmão Efarim Fonseca, assim definiu o patrimônio do coronel João Altino:

João Fonseca era rico mesmo. Tinha um chalet em Cabeças, uma fazenda por nome Canta Galo, duas fazendas de pecuária: Brioso e Lagoa Pequena, nas margens do rio Paraguaçu, outra fazenda perto de São Félix, uma casa na Rua da Independência n.º 7, depois outra na mesma rua n.º 5, 1 casa em Itapagipe – Salvador, todas estas casas com tudo que precisava para morar. (NUNES, Israel, 2002)

Por volta de 1940, João Altino passou a residir em Salvador, como forma de estar mais próximo dos contatos comerciais, porém não abandonou Cabeças, sempre que podia vinha repousar na sua fazenda Canta Galo ou no seu pomposo chalé no centro da Vila (hoje funciona o Clube Cultura). Instalou um telefone na sede de sua empresa para fazer contato principalmente com Salvador. “O telefone era um daqueles à manivela. Ele montou um posto no Distrito de Cabeças e eu fui a primeira telefonista. Minha função era dar e receber recados e atender telefonemas e chamar pessoas que iriam receber as ligações”. (BARBOSA, Rosália Pereira, 2003).

Em uma dessas viagens para a França, por volta de 1937, ele trouxe para a Vila um carro novo, um Chevrolet BUIE OVERLAND. “O automóvel chegou ao porto de Cachoeira, embalado em uma caixa de madeira e depois de muito trabalho de força, os homens conseguiram colocá-lo em terra firme. Todos tomaram um susto, quando viram aquele carro sair da caixa de madeira. (NUNES, Efraim Fonseca, 2003). Mas, um problema enfrentado por Fonseca, foi à falta de uma estrada que ligasse sua fazenda Canta Galo ao centro da Vila. De imediato ele mandou que fosse construída essa estrada. Além do carro, importou da Alemanha um piano para sua esposa tocar. As suas casas possuíam geralmente mobílias importadas da Europa, fato comprovado na carta do senhor Israel Nunes:

(...) Este chalé era a casa mais bonita e bem mobiliada da Vila. Tinha até tapetes   persas. (...) Comprou, também uma casa em Itapagipe para fim de semana e descanso da vida de cidade agitada, nesta casa de veraneio tinha tudo que era necessário para chegar e usar – mobílias italianas, serviço de som chinês, cristais da Alemanha. (NUNES, Israel, 2002) 

            Entretanto, a visão de modernidade de Altino, não se resumia apenas aos bens materiais. Ele, também enquadrou o espaço da Vila neste “processo civilizador”, quando na década de 1940 custeou a instalação de energia elétrica:

Quando ele João Fonseca, passou pela estrada percebeu que Cabeças estava fora do traçado: mandou parar o traçado e se dirigiu para Cachoeira, procurou o Dr. Gastão, que disse: para passar por Cabeças tem um acréscimo de tantos postes e tantos metros de fio elétrico. João Fonseca mandou fazer os cálculos e custos, contanto que Cabeças tivesse luz elétrica. O orçamento custava 49 mil reis, João Fonseca imediatamente pegou o talão de cheque e preencheu 50 mil reis. O Dr. Gastão disse que era 49, ele respondeu que tudo estava bem e foi acompanhado por um funcionário da Cia para dizer a empreiteira que fizesse a nova marcação passando a luz por Cabeças e foi feito, e tivemos a luz elétrica. (NUNES, Israel, 2002)

            Essa visão do moderno, também esteve presente em suas relações com a Igreja Católica. A Vila não possuía um templo de boa visão estética, então ele financiou parte da construção de outro com uma arquitetura mais avançada. Havia uma preocupação de civilizar o espaço do sagrado, incorporando novas formas, símbolos e aparências. Esta argumentação pode ser elucidada através de um dos trechos do livro da professora Angelita Gesteira:

(...) de certa ocasião, João Altino da Fonseca, bem novo ainda, liderou um movimento para desmanchar aquela pequena capela e construir uma Igreja nova, maior e melhor. O povo se animou e confiou no apoio financeiro de João Altino e de sua esposa Clementina. Todos os habitantes do arraial se empenharam no trabalho. (...) Na construção da Igreja as maiores despesas eram de João Altino. Depois da Igreja pronta, João Altino ofereceu um órgão. (GESTEIRA, 2000, pp. 52-53)

Portanto, este homem mostrou-se como alguém a frente do seu tempo, mesmo não sendo um letrado, mas por interesses econômicos ou não, tentou impulsionar o desenvolvimento da Vila através de várias ações citadas anteriormente, e que com certeza contribuíram para que em 1962, acontecesse a tão sonhada emancipação política da Vila de Cabeças, sonho que Altino não viu se concretizar, pois faleceu em 1957.

A TRANSFORMAÇÃO DA VILA EM CIDADE

O beneficiamento do tabaco transformou a Vila de Cabeças em um centro urbano de prestígio no Recôncavo baiano. Em 1950 a população da Vila era de 819 habitantes, residindo em mais de 300 domicílios. Essa população sobrevivia principalmente do trabalho nos armazéns de fumo, com destaque para os da família Fonseca, que empregavam em média mais de 200 pessoas. O escritor Anfilófio de Castro, em 1941, já descrevia esta situação, mencionando os armazéns de Muritiba e da Vila de Cabeças:

Estes estabelecimentos adquirem, em grande quantidade, os melhores fumos, a que submetem a rigorosa escolha, enfardando a “mata” chamada, e armazenando-a para ser utilizada após de completar a cura, vendendo o de mais... Os armazéns beneficiadores trabalham, em geral com duzentas mil arrobas, ocupando nas suas necessidades mais de seiscentos operários, vencendo de quatro a cinco mil réis diários cada um. (CASTRO, 1941, p. 108) 

               Além dos armazéns de fumo, existiam vários estabelecimentos de seco e molhado, com destaque para os de Manoel Pedro Nunes e de Malaquias Ferreira. Na área de tecidos e bens domésticos o destaque era para a Loja do Povo de Antonio Cerqueira (Toninho da Loja):

Pepedro pedia por mês 100 barricas de bacalhau de 1e 2 quilos, mim lembro como hoje: 3 contos de reis o quilo... Eu matava em um dia comum 60 arrobas de boi e no dia de festa, principalmente Natal e São João, eu matava 80 arrobas, quando era 4 horas da tarde não tinha mais nenhuma... Em tecidos era Toninho que comandava essa região toda: de Cabaceiras, São José, Jordão, todo mundo comprava na mão dele (FERREIRA, Malaquias de Cerqueira, 2003).  

            Em função deste desenvolvimento econômico em 1959, o governo do Estado decidiu pelo funcionamento da coletoria de impostos na própria Vila, uma vez que esta funcionava em Muritiba e comandava os distritos de Timbora, São José e Cabaceiras. Esse fato foi um passo decisivo para a emancipação política, pois a Vila conseguiu significativa autonomia fiscal, uma vez que os impostos não precisavam ser mais gerados e pagos em Muritiba, além do  chefe da coletoria, o senhor Agnaldo Viana Pereira, ter se transformado em um dos principais articuladores da ideia de liberdade política da Vila, tanto que venceu a primeira eleição para Prefeito.

Associado a este aspecto, teve igual importância à conjuntura política local da época, principalmente aquela ligada aos Vereadores: Antonio Pereira da Mota Junior, Malaquias Cerqueira Ferreira e Manoel Machado Pedreira, representantes da Vila na Câmara de Muritiba, que a partir de 1960 encabeçaram uma forte campanha para a emancipação política da Vila de Cabeças. Os debates foram intensos, até que em 24 de agosto de 1961, em uma sessão extraordinária foi aprovado o projeto de emancipação de autoria dos citados Vereadores, que durante a reunião fizeram empolgantes pronunciamentos, transcritos no livro de Ata da Câmara de Vereadores de Muritiba:

(...) Franqueada a palavra usou-a o edil Malaquias de Cerqueira Ferreira, que disse confiar aos seus nobres colegas o seu apoio unânime a tão justa aspiração de um povo que luta pela sua independência. Franqueada a palavra, usou-a o nobre edil Antonio Pereira da Mota Júnior, com o mesmo ideal de independência solicitava aos seus ilustres colegas e representantes do povo a sua votação por unanimidade para a libertação política da Vila de Cabeças juntamente com Geolandia, que levará o nome do grande ilustre baiano Otávio Mangabeira. Franqueada a palavra, usou-a o nobre edil Manoel Machado Pedreira, declarando ao plenário: ele um dos batalhadores para elevar pelos méritos o distrito de Cabeças a município junto com Geolandia confirmando a aprovação pela Assembléia Legislativa do Estado. (ATA DA CÂMARA DE MURITIBA, 1954-1962, pp. 189-191)

            O autor do projeto na Assembleia Legislativa foi o deputado Heraldo Guerra, que tinha seu reduto eleitoral no Recôncavo, principalmente na cidade de Cruz das Almas e visava com a emancipação da Vila de Cabeças aumentar seus votos nesta região. Mas o projeto original contou com um impasse, pois o território que formaria o novo município incluiria o distrito de Geolandia, A população daquele local, liderada pelo fazendeiro Aurino Machado, que através de uma manobra política, não aceitou a união com Cabeças, preferiu continuar com a “velha mãe Muritiba”, desejo expresso no abaixo-assinado com 495 assinaturas, enviado a Câmara de Muritiba em 15 de agosto de 1961:

            O pedido do povo de Geolandia na esfera municipal não foi atendido, pois o resultado dos votos dos vereadores expressou: Cabeças passa para município 8, permanência do Distrito de Geolandia ao município de Muritiba 2, para Cabeças 6.  Mas, na Assembleia Legislativa, por influências de políticos de Muritiba, como o Dr. Durval Pereira Fraga, o projeto foi aprovado sem a inclusão do Distrito de Geolandia. Buscou-se uma alternativa política que agradasse os dois lados: a Vila de Cabeças transformou-se em cidade com um território que manteve Geolandia com sua “velha mãe Muritiba”. Sendo assim, através da lei N.º 1.639 de 14 de março de 1962, a Vila de Cabeças passou a se chamar Município de Governador Mangabeira, conforme a relatoria da deputada Ana de Oliveira:

O Governador do Estado da Bahia faço saber que a Assembleia Legislativa decreta e eu sanciono a seguinte lei:      

Artigo 1.º - Fica criado o município de Governador Mangabeira, desmembrado do de Muritiba, com os seguintes limites: com o Município de Conceição da Feira: começa na foz do riacho dos Brejos no rio Paraguaçu e pelo talvegue deste abaixo até o riacho do saco. Com o município de Cachoeira: começa na foz do riacho do Saco no rio Paraguaçu e pelo talvegue deste abaixo até a foz do rio das Léguas. Com o Município de Muritiba: começa no rio Paraguaçu na foz do rio das Léguas, sobe por este até sua nascente: daí em reta a nascente do riacho do Cabocó; daí em reta ao Centro da Lagoa dos Palames; daí em reta ao centro da Lagoa da Taparoroca; daí em reta ao centro da Lagoa do Jacarezinho; daí em reta ao centro da Lagoa do Carpina; e finalmente em reta a foz do riacho dos Brejos no rio Paraguaçu. (DIÁRIO OFICIAL DA BAHIA, 15/03/1962)

Não foi apenas os políticos o pai da ideia de emancipação, o povo também se organizou para que ela tomasse um caráter de reivindicação social, mesmo que os líderes tenham sido pessoas ligadas à elite intelectual da Vila. Um dos mais significativos movimentos foi à fundação do Clube Esportivo e Cultural Independente (CECI), em dois de julho de 1961, objetivando desenvolver práticas esportivas e culturais, que culminassem em uma forma de propagar a necessidade social de emancipação da Vila.

            Depois de acertado os elementos burocráticos para a emancipação, a grande discussão centrou-se no nome para a nova cidade, pois a denominação de Cabeças não era bem vista por aqueles que lideravam o movimento da emancipação, devido a sua conotação trágica, era fundamental escolher um nome que estivesse inserido em uma visão de “processo civilizador”.

Quatro nomes foram sugeridos: Três Palmeiras – como forma de homenagear as palmeiras imperiais que existiam em frente à Igreja Matriz; Betânia – em função da cidade bíblica localizada na Judéia, influência de alguns religiosos que participaram do movimento da emancipação; Altinópolis – em homenagem a João Altino da Fonseca e Governador Mangabeira – homenagem ao ex-governador da Bahia, Otávio Mangabeira. Os dois primeiros nomes não tiveram muita aceitação, o debate se concentrou entre Altinópolis e Governador Mangabeira, com forte preferência para este último, através da sugestão do representante comercial Enoque Nunes Fonseca, como cita Agnaldo Viana Pereira em seu depoimento:

O senhor Enoque, filho daqui da terra, era viajante – vendedor de mercadorias. Chegou à loja de Antonio Martins para ele escolher os panos para comprar, e ali era ponto de encontro para as grandes conversas. Então ele disse: eu soube que vocês tão querendo passar isso aqui a cidade? Que nome vocês vão dar a isso aqui? Eu respondi: tem gente que quer que chame Betânia, outros três Palmeiras, outras João Altino. Agora sabe o nome que vocês devem dar aqui? Otávio Mangabeira, para prestar uma homenagem ao maior homem deste Estado, que morreu no ano passado. (PEREIRA, Agnaldo Viana, 2003)    

Mesmo com o forte prestígio que possuía João Altino, a ideia da nova cidade ser homenageada com seu nome, não ganhou espaço perante a opinião pública e foi facilmente vencida pela proposta de Governador Mangabeira, pois era um nome que tinha um sentido de “civilização”, bem como, sonhava-se que com essa denominação a nova cidade ganharia prestígio a nível estadual, uma vez que Otávio Mangabeira foi político renomado no cenário nacional.

            Otávio Mangabeira nasceu em Salvador em 27 de agosto de 1886, casou-se com Éster Pinho, com quem teve dois filhos: Otávio Mangabeira Filho e Edila Mangabeira Unger. Em 1908 foi eleito Vereador da cidade de Salvador e até a sua morte em 29 de novembro de 1960, conseguiu exercer os cargos de Deputado Federal (7 vezes), Ministro das Relações Exteriores do governo de Washington Luís, governador do Estado da Bahia e Senador. Experimentou o exílio duas vezes: durante a Revolução de 1930 e no Estado Novo, pois era forte opositor de Getúlio Vargas, chegando a ser líder da UDN (União Democrática Nacional), partido que se configurou como maior oposição ao governo getulista. 

            Em 1947 o engenheiro Otávio Mangabeira, foi eleito governador da Bahia com 211.121 votos pela coligação UDN-PSD, contra 92.629 votos do candidato do PTB, Medeiros Netos. Durante a campanha teve o apoio de diversos partidos, dentre eles o PCB. Em 7 de abril de 1947, Otávio Mangabeira foi empossado como governador da Bahia, muitos acreditavam no surgimento de uma nova era na política da Bahia, notavam em Mangabeira a concretização do Estado democrático, um momento de sepultamento das velhas práticas eleitoreiras e de qualquer forma de ditadura.

Mas, não foi à ideologia política de Otávio Mangabeira, que influenciou os políticos da Vila de Cabeças a escolherem o seu nome para a nova cidade, mas as obras por ele realizadas à frente do governo da Bahia, que na época impressionou os baianos e tiveram repercussão nacional, dentre as mais relevantes pode-se citar: Estádio de Futebol da Fonte Nova, a Avenida Centenário, Fórum Rui Barbosa, hotel da Bahia, Escola Parque e mais de 258 prédios escolares, inclusive um na Vila de Cabeças, atualmente Colégio Estadual José Bonifácio. Aliás, para alguns estudiosos da história política baiana, foi na educação que o governo de Mangabeira mais se destacou, pois esteve à frente da Secretaria de Educação, o famoso educador Anísio Teixeira, fazendo uma transformação no ensino público da Bahia.

Portanto, a opção pelo nome de Governador Mangabeira, foi bastante inteligente, pois os lideres da emancipação conseguiram unir interesses políticos com a ideia de modernidade, uma vez que o prestígio do ex-governador contagiou os moradores da Vila, uma vez que Mangabeira esteve na Vila de Cabeças em 1946, fazendo campanha nas eleições para Governador do Estado e foi recebido exatamente pelo irmão de João Altino, José Fonseca em sua residência, que hoje é o prédio da Prefeitura Municipal.

Outro aspecto considerado relevante neste processo foi à escolha da data da emancipação, 14 de março. Novamente a ideia do moderno ou civilizado prevaleceu. Resolveram homenagear o poeta Castro Alves, que nasceu na atual cidade de Cabaceiras do Paraguaçu em 14 de março de 1847. Por certo a intenção era incorporar à nova cidade uma fisionomia de intelectualidade, mostrando que o seu povo admirava a sabedoria e o ser culto, pois Castro Alves é considerado até hoje o poeta da liberdade e das Américas.    

            Em 7 de outubro de 1962, foram realizadas as primeiras eleições para prefeito e vereador da cidade de Governador Mangabeira. Foi uma disputa acirrada entre os grupos liderados por Agnaldo Viana e Malaquias Ferreira. Essa disputa combinou com as eleições para governo do Estado que consagrou como vitorioso o Prefeito de Jequié, Lomanto Júnior, através da coligação: Partido Liberal (PL), União Democrática Nacional (UDN) e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Já no cenário municipal formou-se a Coligação Progressista Popular (CPP), constituída pelos partidos UDN e PTB, tendo como candidato Agnaldo Viana e pelo Partido Social Democrático (PSD) - Malaquias Ferreira. Agnaldo Viana, ganhou em todas as 4 urnas (3 na sede e uma em Quixabeira), com 456 votos, contra 311 de Malaquias Ferreira.

Já a primeira Câmara foi composta pelos seguintes nomes José Gomes Dias, José Carlos Fonseca, Amando Alves da Silva, Heraldo Oliveira Cerqueira, Renato Dias Mascarenhas, Carlos Coelho Nascimento e Manoel Machado Pedreira.

Referências

  1. a b Divisão Territorial do Brasil. Divisão Territorial do Brasil e Limites Territoriais. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (1 de julho de 2008). Página visitada em 11 de outubro de 2008.
  2. IBGE (10 out. 2002). Área territorial oficial. Resolução da Presidência do IBGE de n° 5 (R.PR-5/02). Página visitada em 5 dez. 2010.
  3. Censo Populacional 2013. Censo Populacional 2013. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (01 de julho de 2013). Página visitada em 30 de outubro de 2013.
  4. Ranking decrescente do IDH-M dos municípios do Brasil. Atlas do Desenvolvimento Humano. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) (2010). Página visitada em 07 de agosto de 2013.
  5. a b Produto Interno Bruto dos Municípios 2004-2008. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Página visitada em 11 dez. 2010.
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