Greve geral de 1892 em Nova Orleans

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

A greve geral de 1892 em Nova Orleans foi uma greve geral na cidade estadunidense de Nova Orleans, no estado de Louisiana, que começou em 8 de novembro de 1892. Apesar da segregação racial, trabalhadores negros e brancos permaneceram unidos em greve. A greve geral terminou em 12 de novembro, com os sindicatos ganhando a maior parte de suas demandas.

A greve[editar | editar código-fonte]

A Tríplice Aliança[editar | editar código-fonte]

No início de 1892, os condutores de bonde receberam uma jornada de trabalho menor e o closed shop (ou "portas fechadas") – uma forma de acordo em que os patrões concordam em contratar apenas membros de sindicatos, que devem permanecer empregados ao sindicato a fim de manter seu emprego. Esta vitória levou muitos trabalhadores de Nova Orleans a buscarem a assistência da Federação Americana do Trabalho (American Federation of Labor – AFL). Pelo menos 30 sindicatos novos haviam se organizado na cidade antes do verão de 1892. Até o final do verão, 49 sindicatos pertenciam à AFL. Os sindicatos estabeleceram um conselho central conhecido como Conselho Amalgamado dos Trabalhadores, que representava mais de 20.000 trabalhadores. Três sindicatos racialmente integrados – Teamsters, Scalesmen e Packers – formariam o que ficou conhecido como a "Tríplice Aliança". Muitos dos trabalhadores pertencentes aos sindicatos da Tríplice Aliança eram afro-americanos.[1] [2]

Em 24 de outubro de 1892, entre 2.000 e 3.000 membros da Tríplice Aliança começaram a lutar para ganhar um dia de trabalho de 10 horas, o pagamento de horas extras, e o closed shop. O Conselho Amalgamado decidiu apoiá-los. A junta comercial de Nova Orleans, que representa os interesses financeiros e comerciais dos empresários da cidade, nomeou uma comissão para tomar decisões para os empregadores. As quatro principais ferrovias que cobriam a cidade e as bolsas de mercadorias como algodão, açúcar e arroz prometeram apoio à Junta Comercial. Eles ajudaram a criar um fundo de defesa contra a greve e pediram ao governador do Estado que enviasse a milícia para ajudar a furar o bloqueio da greve. Nenhuma negociação ocorreu durante a primeira semana.

Os empregadores utilizaram argumentos raciais para tentar dividir os trabalhadores e tornar a opinião pública contra os grevistas. A junta comercial anunciou que iria assinar contratos de acordo com os termos da greve, mas apenas com os sindicatos Scalesmen e Packers, cuja maioria dos trabalhadores era branca. A junta comercial se recusou a assinar qualquer contrato com o sindicaro Teamsters, cuja maioria dos trabalhadores era negra. A junta comercial e os jornais da cidade também iniciaram uma campanha destinada a criar histeria pública. Os jornais publicaram relatos escabrosos de "multidões brutais de grevistas pretos" enlouquecidas pelas ruas, de sindicalistas afro-americanos "batendo em todos que tentassem interferir", e repetidos relatos de uma multidão de negros atacando solitários homens e mulheres brancos.[3]

Os trabalhadores grevistas se recusaram a furar a greve por questões raciais. A grande maioria dos trabalhadores dos sindicatos Scalesmen e Packers aprovaram resoluções afirmando seu compromisso de não trabalhar enquanto os empregadores não assinassem um contrato com o Teamsters, nas mesmas condições oferecidas aos outros sindicatos.[1]

A greve geral[editar | editar código-fonte]

Membros de outros sindicatos começaram a fazer campanha para que fosse realizada uma greve geral em apoio à Tríplice Aliança. Uma série de reuniões foram realizadas, durante as quais a maioria dos sindicatos que pertenciam ao Conselho Amalgamado votaram a favor de uma resolução convocando a greve geral. Uma comissão – conhecida como Comitê dos Cinco – foi formada para liderar a greve. A comissão era formada por cinco sindicatos: Cotton Screwmen's Union, Cotton Yardmen's Union, Printers, Boiler Makers e Car Driver's Union.[4]

A pressão sindical aumentou e um apelo para uma greve geral surgiu. Sob ameaça, alguns empregadores que não faziam parte da disputa original começaram a pressionar a junta comercial para que fizesse negociações. A tentativa de acordo entrou em colapso e o Conselho Amalgamado novamente convocou os trabalhadores a participarem da greve geral, que começou em 8 de novembro, após dois adiamentos. Cada um dos 46 sindicatos que aderiram à greve exigiu o closed shop e seu reconhecimento enquanto entidade representativa dos trabalhadores. Alguns também exigiram dias de trabalho mais curtos ou salários mais elevados.

Cerca de 25.000 membros de sindicatos – metade da força de trabalho da cidade e virtualmente todos seus trabalhadores sindicalizados – pararam. Os bondes pararam de circular. Trabalhadores de serviços públicos, recentemente organizados, foram contra as exigências do governador e do parecer da Comissão de Trabalho e aderiram à greve. O abastecimento de gás natural da cidade falhou em 8 de novembro, assim como a rede elétrica; a cidade estava mergulhada na escuridão. A entrega de alimentos e bebidas imediatamente cessou, gerando pânico entre os moradores da cidade. Os serviços de construção, impressão, limpeza das ruas, indústria e até mesmo de combate a incêndios ficaram parados.[5] [6] A greve refletiu no declínio do nível de compensações bancárias, que caiu pela metade em comparação ao período pré-greve.[7]

Em 9 de novembro, a imprensa intensificou seus apelos ao ódio racial. O jornal New Orleans Times-Democrat declarou, em editorial, que os grevistas afro-americanos queriam "tomar a cidade" – uma referência velada aos supostos abusos sexuais de mulheres brancas por negros – e que mulheres e crianças brancas já estavam sendo assediados por grevistas negros.[1] Mas o apelo da imprensa ao ódio racial falhou. Incidentes violentos nunca ocorreram, e os piquetes foram tão tranquilos que a junta comercial enviou seus homens às ruas para tentar encontrar provas de qualquer intimidação física.[1] [8]

Os empregadores, com a ajuda das empresas de estrada de ferro, trouxeram trabalhadores fura-greve de Galveston e Memphis. Mas quando uma convocação do prefeito para substitutos resultou na aparição de apenas 59 voluntários, os empregadores começaram a treinar seus próprios gerentes e gestores para o trabalho, oferecendo-se para pagar os custos do deslocamento da milícia do estado. O prefeito emitiu uma proclamação proibindo reuniões públicas, virtualmente declarando lei marcial. Embora a cidade estivesse quieta, a junta comercial convenceu o governador Murphy J. Foster, a enviar a milícia em 10 de novembro. Ao invés de uma cidade sitiada, os líderes das milícias encontraram uma cidade calma e ordeira. Foster foi forçado a retirar a milícia em 11 de novembro.[1] [5]

O acordo[editar | editar código-fonte]

A junta comercial concordou em fazer uma arbitragem para resolver a greve. Embora tenha se recusado de início, os empregadores concordaram em se sentar com líderes sindicais negros.[5] Após 48 horas de negociações, os empregadores concordaram com o dia de trabalho de 10 horas e o pagamento das horas extras, mas não concordaram com o closed shop[1] [5] e tampouco garantiram reconhecimento aos sindicatos da Tríplice Aliança. Os outros sindicatos também conquistaram horários reduzidos e salários mais elevados para seus trabalhadores.[1] [5]

Consequências[editar | editar código-fonte]

A junta comercial ficou profundamente irritada com a humilhação que sofreu durante a greve geral. Em 13 de novembro de 1892, a junta comercial induziu um procurador federal a abrir um processo no tribunal federal contra os 44 sindicatos que pertenciam ao Conselho Amalgamado. O governo federal acusou os sindicatos de violarem a Lei Sherman Antitruste por se envolverem numa conspiração para impedir o comércio e 45 líderes sindicais foram indiciados em um tribunal federal por violarem a lei. Um tribunal distrital concedeu uma medida cautelar contra os sindicatos. A AFL recorreu. A liminar foi suspensa e o caso foi adiado por vários anos. O governo federal silenciosamente desistiu do caso vários anos depois.[5] [9]

A principal consequência da greve geral de 1892 foi ter ajudado a fortalecer o movimento sindical em Nova Orleans. A maioria dos sindicatos já existentes ganhou um número substancial de membros durante a greve. Além disso, três novos sindicatos foram formados durante a greve geral, se filiando ao Conselho Amalgamado.[1] [5]

Análises posteriores[editar | editar código-fonte]

Na época, a greve geral de 1892 foi considerada um sucesso, demonstrando que trabalhadores negros e brancos poderiam manter a solidariedade na região conhecida como Sul Profundo (Deep South). Os grevistas tinham evitado a violência, ganharam a maioria de suas demandas, evitaram a repressão militar e conseguiram superar o ódio racial. Samuel Gompers declarou:

Para mim, o movimento em Nova Orleans foi um raio muito brilhante de esperança para o futuro do trabalho organizado (...) Nunca na história do mundo houve tal exibição (...) De uma só vez a barreira econômica da cor foi quebrada.[10]

No entanto, análises posteriores declararam a greve um fracasso, afirmando que os sindicatos haviam "vendido" os trabalhadores porque eles não conseguiram conquistar o closed shop.[11] Apenas um mês após a greve, o New York Times escreveu um editorial com o seguinte título: "Derrota dos trabalhadores em Nova Orleans; A vitória dos empregadores está completa".[12] Muitas histórias escritas nos 40 anos posteriores sugeriram que a greve teria sido de um fracasso tão grande que levou a AFL a rejeitar greves gerais por completo e permanecido intensamente hostil até mesmo a greves menores.[5]

Mais recentemente, no entanto, os historiadores têm reavaliado sucesso da greve. Um historiador declarou: "o fracasso dos grevistas para ganhar o closed shop não diminuiu a importância da luta".[13] O sucesso dos trabalhadores para superar as divisões raciais em uma das principais cidades do Sul Profundo é notável – e não seria alcançado por completo novamente até a década de 1960 –, assim como a unificação de trabalhadores qualificados e não-qualificados.[1]

Notas de rodapé[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d e f g h i Rosenberg, New Orleans Dockworkers: Race, Labor, and Unionism, 1892-1923, 1988.
  2. Brown and Allen, Strong In the Struggle: My Life As a Black Labor Activist, 2001.
  3. Citado em Foner, History of the Labor Movement in the United States, Vol. 2: From the Founding of the American Federation of Labor to the Emergence of American Imperialism, 1955, p. 202.
  4. Cook, "The Typographical Union and the New Orleans General Strike of 1892", Louisiana History, 1983; "Labor Trouble In New-Orleans", The New York Times, 5 de novembro de 1892.
  5. a b c d e f g h Foner, History of the Labor Movement in the United States, Vol. 2: From the Founding of the American Federation of Labor to the Emergence of American Imperialism, 1955.
  6. "New Orleans' Big Strike", Washington Post, 8 de novembro de 1892.
  7. Filippelli, Labor Conflict in the United States: An Encyclopedia, 1990.
  8. "The New-Orleans Strike", The New York Times, 9 de novembro de 1892.
  9. "Conspiring Against Commerce", The New York Times, 10 de dezembro de 1892.
  10. Citado em Foner, History of the Labor Movement in the United States, Vol. 2: From the Founding of the American Federation of Labor to the Emergence of American Imperialism, 1955, p. 203.
  11. Shugg, "The New Orleans General Strike of 1892", Louisiana Historical Quarterly, abril de 1938.
  12. "Labor's Defeat In New-Orleans", The New York Times, 12 de dezembro de 1892.
  13. Foner, History of the Labor Movement in the United States, Vol. 2: From the Founding of the American Federation of Labor to the Emergence of American Imperialism, 1955, p. 203.

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • Brecher, Jeremy. Strike. São Francisco: Straight Arrow Books, 1972. ISBN 0-87932-011-7
  • Brown, Lee and Allen, Robert L. Strong In the Struggle: My Life As a Black Labor Activist. Nova York: Rowman & Littlefield, 2001. ISBN 0-8476-9191-8
  • "Conspiring Against Commerce". The New York Times. 10 de dezembro de 1892.
  • Cook, Bernard A. "The Typographical Union and the New Orleans General Strike of 1892". Louisiana History. 24:4 (1983).
  • Filippelli, Ronald L. Labor Conflict in the United States: An Encyclopedia. Nova York: Garland Publishing, 1990. ISBN 0-8240-7968-X
  • Foner, Philip S. History of the Labor Movement in the United States. Vol. 2: From the Founding of the American Federation of Labor to the Emergence of American Imperialism. Nova York: International Publishers, 1955. Cloth ISBN 0-7178-0092-X; Paperback ISBN 0-7178-0388-0
  • "Labor Trouble In New-Orleans". The New York Times. 5 de novembro de 1892.
  • "Labor's Defeat In New-Orleans". The New York Times. 12 de dezembro de 1892.
  • "New Orleans' Big Strike". Washington Post. 8 de novembro de 1892.
  • "The New-Orleans Strike". The New York Times. 9 de novembro de 1892.
  • Rosenberg, Daniel. New Orleans Dockworkers: Race, Labor, and Unionism, 1892-1923. Albany: State University of New York Press, 1988. ISBN 0-88706-649-6
  • Shugg, Roger Wallace. "The New Orleans General Strike of 1892". Louisiana Historical Quarterly. 21:2 p. 547-560 (abril de 1938).