Guadalupe (Santa Cruz da Graciosa)

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Guadalupe
Brasão da freguesia de Guadalupe
Brasão
Gentílico guadalupense
Concelho Santa Cruz da Graciosa
Área 20,55 km²
População 1 306 hab. (2001)
Densidade 63,6 hab./km²
Orago Nossa Senhora de Guadalupe
Freguesias de Portugal

Guadalupe é uma freguesia açoriana do concelho de Santa Cruz da Graciosa, com 20,55 km² de área e 1 306 habitantes (2001), o que corresponde a uma densidade populacional de 63,6 hab/km². A freguesia ocupa a região central e noroeste da ilha Graciosa, correspondente aos solos mais férteis e aplanados da ilha, razão pela qual foi durante a maior parte da história da ilha o seu principal centro de produção cerealífera e hortícola.

Índice

[editar] Estrutura urbana e história

A freguesia do Guadalupe foi criada em 1644 pela desagregação da metade sudoeste do então concelho de Santa Cruz da Graciosa (que repartia o território da ilha com o concelho da Vila da Praia), até ali constituído por uma única paróquia, a de Santa Cruz. De terrenos férteis, o território que constitui a freguesia foi povoado durante os primeiros anos do século XVI a partir de santa Cruz, com dadas que constituíam courelas, isto é longas e estreitas fileiras de campos demarcados por paredes paralelas, irradiando de norte para sul, estrutura fundiária que ainda domina a paisagem local.

A riqueza dos terrenos levou a que o Guadalupe se constituísse no centro de produção cerealífera da ilha, com os terrenos a serem adquiridos pelas principais famílias de Santa Cruz. Pode-se assim afirmar que todas as grandes casas de Santa Cruz tiveram a sua raiz fundiária nos campos do Guadalupe. Com uma população que em meados do século XIX ultrapassou os 3 000 habitantes, foi durante a maior parte da história da Graciosa a mais populosa freguesia da ilha, ultrapassando as duas vilas.

A freguesia de Guadalupe é constituída por uma aglomerado de lugares, com uma estrutura de povoamento que pode ser caracterizada como pertencente ao tipo disperso orientado, que leva a que cada uma das povoações se aglomere ao longo das principais vias, mas mantendo a sua identidade própria. É assim uma freguesia de estrutura multipolar, em que as populações tradicionalmente se mantinham isoladas no lugar de residência, com igrejas ou capelas próprias, escolas e irmandades do Divino Espírito Santo independentes das restantes. Assim, a freguesia é mais uma entidade administrativa do que uma entidade sociológica, já que os habitantes tendem a aderir ao seu lugar e não à freguesia como um todo.

Os principais lugares da freguesia são:

  • Guadalupe, o centro da freguesia e local onde se situa a igreja paroquial, localizada no coração da planície das Courelas, a zona de terrenos mais férteis da ilha e uma das mais abrigadas e aprazíveis, com ligação directa à vila de Santa Cruz da Graciosa, que dista apenas 4 km, e ponto de convergência da rede viária do noroeste e centro da ilha. Fazem parte deste núcleo urbano os lugares do Pontal, do Barro Branco (este último com escola própria até 2003) e Feteira, sitos ao longo do eixo viário que liga ao Guadalupe à freguesia Luz, localmente conhecida como o Sul, pelo vale formada pelo horst da Serra das Fontes (a norte) e pela Serra Dormida (a sul).
  • Vitória, um povoado que ocupa o extremo noroeste da ilha, anichado entre os cones vulcânicos do Pico das Bichas e do Pico da Brasileira. A sua ermida, dedicada a Nossa Senhora da Vitória, foi construída por volta de 1623 em comemoração de uma vitória dos graciosences após um desembarque de piratas da Barbária que ocorreu a 19 de Maio de 1623 no desembarcadouro de Afonso Porto (hoje Porto Afonso). O lugar teve até recentemente duas escolas primárias, ambas oferta de locais que fizeram fortuna no Brasil de finais do século XIX[1]. Para além da ermida da Vitória, o curato da Vitória, instituído em 1886, dispõe da igreja de Santo António da Vitória, construída entre 1904 e 1907 com a contribuição da comunidade emigrada no Brasil e na América do Norte. Existem dois impérios, o da Beira-Mar (1918) e o de Santo António (1914). Junto à igreja está um antigo dragoeiro, provavelmente uma das árvores mais antigas da ilha. O lugar de Terra do Conde, celebrizado pelo vinho homónimo, integra o povoado da Vitória.
  • Ribeirinha, um povoado situado na encosta norte da Serra Branca, entre os lugares de Brasileira e Almas. É constituído por três núcleos de povoamento, correspondentes às vias que ali convergem (os povoados de Manuel Gaspar, Esperança Velha e Ribeirinha), tendo no seu centro nos Poços, onde fica a igreja de Nossa Senhora da Esperança (nova), com o seu largo anexo, com coreto (inaugurado a 30 de Julho de 1967), império do Divino Espírito Santo e a antiga escola (encerrada em 2003). A igreja da Esperança, construída em 1847 e ampliada em 1898, recebeu recentemente grandes melhoramentos. A irmandade do Divino Espírito Santo construiu recentemente um salão de festas equipado com cozinha tradicional, onde se realizam convívios de idosos, funcionando como centro cívico da comunidade. No lugar da Esperança Velha um cruzeiro assinala a localização da primitiva igreja do século XVII.
  • Brasileira, uma pequena localidade localizada num vale sobranceiro ao mar entre o Pico da Brasileira e o Pico dos Terços, constituindo o núcleo urbano menos estruturado da freguesia. Sem ermida própria e sem nunca ter tido escola, funciona como um prolongamento da Ribeirinha. Nesta lugar despenhou-se a 13 de Julho de 1929 o avião Amiot 123 "Marszałek Piłsudski" pilotado pelo major aviador polaco Ludwik Idzikowski, que faleceu no local. O avião perdeu-se durante uma das primeiras tentativas de atravessar o Atlântico de leste para oeste, partindo da França com destino a New York. O local é assinalado por um cruzeiro.
  • Almas é um povoado sito ao longo da via que liga o Guadalupe às faldas da Serra Dormida. Teve escola própria (encerrada em 1993) e tem uma ermida do século XVIII, dedicada a São Miguel Arcanjo, e um império datado de 1963. No lugar do Tanque existe um interessante reservatório de água, com origens setecentistas, rodeado por um complexo de pias de lavagem de roupa, reflexo das graves dificuldades de abastecimento de água que se sentiram na ilha.

A igreja paroquial da freguesia situa-se no lugar do Guadalupe, o mais populoso e o mais próximo da vila de Santa Cruz. O nome do lugar, e da freguesia, tem origem numa ermida construída nas proximidades da actual igreja em meados do século XVI para albergar uma imagem trazida do México por Domingos Pires da Covilhã, um dos primeiros povoadores do lugar. O lugar foi erecto em paróquia no ano de 1602, com a invocação de Nossa Senhora de Guadalupe, autonomizando-se de Santa cruz em 1644.

Os alicerces da actual igreja do Guadalupe foram começados a abrir a 15 de Maio de 1713, sendo a primeira pedra benzida a 22 de Maio daquele ano. Contudo, a igreja levou 43 anos a construir, já que a primeira missa apenas foi nela celebrada a 5 de Agosto de 1756. Esta inusitada demora deveu-se à grande crise sísmica de 1717, que provocou a destruição generalizada das casas da freguesia (e da vizinha Luz), atrasando as obras e drenando recursos, já que os guadalupenses se viram a braços com a necessidade de reconstruir as suas casas.

A crise sísmica de 1717 deu origem a um voto popular, ainda hoje cumprido no dia 24 de Maio de cada ano, de realizar uma procissão, denominada a procissão dos abalos, com a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe entre a respectiva igreja e a ermida da Ajuda, no monte sobranceiro à vila de Santa Cruz, onde é celebrada missa, regressando depois o cortejo à Igreja do Guadalupe. Esse voto deu origem a um feriado local, já que toda a ilha para na manhã do dia da procissão, que depois do terramoto de 1980 voltou a ganhar grande fervor popular.

[editar] Demografia

A fertilidade dos campos e o aplainado do terreno levou a que o povoamento da região que hoje constitui a freguesia do Guadalupe fosse rápida, desenvolvendo-se a ocupação dos solos, em regime de dadas controladas pelo capitão do donatário, desde os finais do século XV até cerca de 1550. A partir daí a população cresceu ao ponto de fazer da freguesia a mais populosa da ilha, para apenas declinar na segunda metade do século XX, resultado da pobreza que se instalara e da consequente emigração para os Estados Unidos da América.

A evolução demográfica da freguesia é a seguinte:

Evolução da população do Guadalupe
1844 1864 1878 1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001
3 032 2 690 2 616 2 676 2 718 2 485 2 479 2 732 3 087 3 223 3 013 2 562 1 736 1 554 1 306

Referências

  1. Manuel José do Conde, o 1.º visconde do Rosário, que ofereceu o edifíco para a Escola Masculina, no Caminho de Santo António, que ainda ostenta na sua fachada o seu brasão; e João Inácio Pacheco Leal, que ofereceu a Escola Feminina, no Caminho da Vitória.

[editar] Bibliografia

  • António de Brum Ferreira, A Ilha Graciosa. Lisboa: Livros Horizonte, Colecção Espaço e Sociedade, n.º 8, 1968 (2.ª ed. em 1987).
  • Félix José da Costa, Memória Estatística e Histórica da Ilha Graciosa. Angra do Heroísmo: Imprensa de Joaquim José Soares, 1845. Há uma 3.ª edição, fac-similada: Instituto Açoriano de Cultura, 2007 (ISBN 978-972-9213-77-9).
  • DREPA, Aspectos demográficos. Açores - 78. Angra do Heroísmo: Departamento de Estudos e Planeamento dos Açores, 1981.
  • Guido de Monterey, Graciosa e São Jorge (Açores) - Duas ilhas no centro do arquipélago. Porto: Sociedade de Papelaria, Lda., 1981.
  • Luís Daniel (editor dos textos), Graciosa - Guia do Património Cultural. Lisboa: Atlantic View, 2004 (ISBN 972-96057-4-2).
  • Norberto da Cunha Pacheco, Vitória - Nos Recantos da Saudade. Santa Cruz da Graciosa: 2004.

[editar] Ligações externas


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