Guerra Civil Moçambicana

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Guerra Civil Moçambicana
Parte da Guerra Fria
LocationMozambique.svg
Localização de Moçambique na África
Data 30 de maio de 197704 de outubro de 1992
Local República Popular de Moçambique
Desfecho Acordo Geral de Paz
  • Eleições multipartidárias em 1994
Combatentes
Moçambique FRELIMO
 Zimbabwe (a partir de 1982)
Apoiado por:
 União Soviética
 Cuba
 Bulgária
Tanzânia
Mz renamo1.PNG RENAMO
Apoiado por:
Flag of Rhodesia.svg Rodésia (até 1980)
África do Sul África do Sul
Malawi[1]
Principais líderes
Moçambique Samora Machel
Moçambique Joaquim Chissano
Zimbabwe Robert Mugabe
Mz renamo1.PNG André Matsangaissa  

Mz renamo1.PNG Afonso Dhlakama

Forças
80 mil moçambicanos[2]
20 mil zimbabuanos[2]
~20 mil[2]
Vítimas
296 solados zimbabuanos e 24 pilotos zimbabuanos mortos (1984-1990)
Total de mortos: 1 milhão de pessoas (por fome e combates)

Guerra Civil Moçambicana foi um conflito civil que começou em 1977, dois anos após o fim da Guerra de Independência de Moçambique, e que foi semelhante à Guerra Civil Angolana, visto que ambas eram guerras secundárias dentro do contexto maior da Guerra Fria. O partido no poder, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), e as forças armadas moçambicanas eram violentamente contrários a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), que recebia financiamento da Rodésia e, mais tarde, da África do Sul. Durante o conflito, cerca de um milhão de pessoas morreram em combates e por conta de crises de fome, cinco milhões de civis foram deslocados[3] [4] e muitos sofreram amputados por minas terrestres, um legado da guerra que continua a assolar o país. O conflito terminou em 1992 com o Acordo Geral de Paz e as primeiras eleições multipartidárias do país foram realizadas em 1994.[5]

Histórico[editar | editar código-fonte]

Imediatamente a seguir à independência do Moçambique, alguns militares (ou ex-militares) portugueses e dissidentes da FRELIMO instalaram-se na Rodésia, que vivia uma situação de "independência unilateral" não reconhecida pela maior parte dos países do mundo. O regime de Ian Smith, já a braços com um movimento interno de resistência que aparentemente tinha algumas bases em Moçambique, aproveitou esses dissidentes para atacar essas bases.[6]

De facto, a FRELIMO apoiava esses rebeldes rodesianos e, em 1976, o governo de Moçambique declarou oficialmente aplicar as sanções estabelecidas pela ONU contra o governo ilegal de Salisbúria e fechou as fronteiras com aquele país.[6] A Rodésia dependia em grande parte do corredor da Beira, incluindo a linha de caminhos de ferro, a estrada e o oleoduto que ligavam o porto da Beira àquele país encravado. Embora, a Rodésia tivesse boas relações com o regime sul-africano do apartheid, este fecho das suas fontes de abastecimento foi um duro golpe para o regime rodesiano.

Pouco tempo depois, para além de intensificarem os ataques contra estradas, pontes e colunas de abastecimento dentro de Moçambique, os rodesianos ofereceram aos dissidentes moçambicanos espaço para formarem um movimento de resistência - a "REsistência NAcional MOçambicana" ou RENAMO - e criarem uma estação de rádio usada para propaganda antigovernamental.

Até 1980, data da independência do Zimbabwe, a RENAMO continuou os seus ataques a aldeias e infraestruturas sociais em Moçambique, semeando minas terrestres em várias estradas, principalmente nas regiões mais próximas das fronteiras com a Rodésia. Estas acções tiveram um enorme papel desestabilizador da economia, uma vez que não só obrigaram o governo a concentrar importantes recursos numa máquina de guerra, mas principalmente porque levaram ao êxodo de muitos milhares de pessoas do campo para as cidades e para os países vizinhos, diminuindo assim a produção agrícola.

Com a independência do Zimbabwe, a RENAMO foi obrigada a mudar a sua base de apoio para a África do Sul, o que conseguiu com muito sucesso, tendo tido amplo apoio das forças armadas sul-africanas.[6] Para além disso, estas forças realizaram vários "raids" terrestres e aéreos contra Maputo, alegadamente para destruirem "bases" do ANC. No entanto, o governo de Moçambique, que já tinha secretamente encetado negociações com o governo sul-africano e com a própria RENAMO, assinou em 1983 um acordo de "boa vizinhança" com aquele governo, que ficou conhecido como o Acordo de Nkomati, segundo o qual o governo sul-africano se comprometia a abandonar o apoio militar à RENAMO, enquanto que o governo moçambicano se comprometia a deixar de apoiar os militantes do ANC que se encontravam em Moçambique.

Em 1986, a RENAMO tinha já estabelecido uma base central na Gorongosa e expandido as acções militares para todas as províncias de Moçambique, contando ainda com o apoio do Malawi, cujo governo tinha boas relações com o regime do apartheid. Nesta altura, a RENAMO tinha conseguido alcançar um dos seus objectivos estratégicos que consistiu em obrigar o governo a abandonar a sua política de "socialização do campo" através das aldeias comunais e machambas estatais.

Em vista dos problemas económicos que Moçambique atravessava, o governo assinou um acordo com o Banco Mundial e FMI em 1987, que o obrigaram a abandonar completamente a política "socialista".[6] A guerra, porém, só terminou em 1992 com o Acordo Geral de Paz, assinado em Roma a 4 de Outubro, pelo Presidente da República, Joaquim Chissano e pelo presidente da RENAMO, Afonso Dhlakama, depois de cerca de dois anos de conversações mediadas pela Comunidade de Santo Egídio, uma organização da igreja católica, com apoio do governo italiano.

Nos termos do Acordo, o governo de Moçambique solicitou o apoio da ONU para o desarmamento das tropas beligerantes. A ONUMOZ foi a força internacional que apoiou neste trabalho, que durou cerca de dois anos e que culminou com a formação dum exército unificado e com a organização das primeiras eleições gerais multipartidárias, em 1994.

Em 2012, depois do 21.° aniversário da paz em Moçambique, o clima entre a RENAMO e o Governo da FRELIMO deteriorou-se. O líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, regressou no dia 17 de outubro à antiga base do partido, a Casa Banana, em Satunjira na zona da Gorongosa (província de Sofala no centro do país).[7]

Houve divergências em relação à composição da Comissão Nacional de Eleições (CNE). A RENAMO quis uma representação igual para os dois partidos (excluindo terceiros como o novo partido MDM). Em abril de 2013 houve vários ataques da RENAMO na zona centro do país que causaram pelo menos seis mortos entre polícias e civis.

No dia 21 de outubro de 2013, forças governamentais tomaram a base da RENAMO na Gorongosa. A seguir, a RENAMO, anunciou o fim do Acordo de Paz de 1992. Depois de 21 anos de paz, Moçambique voltou à guerra civil.[8]

Referências

  1. Afrikka.
  2. a b c Our work | Conciliation Resources C-r.org. Visitado em 4 de março de 2012.
  3. Mozambique State.gov (4 de novembro de 2011). Visitado em 4 de março de 2012.
  4. MOZAMBIQUE: population growth of the whole country Populstat.info. Visitado em 4 de março de 2012.
  5. Cravino, Janete "Conflitos Internos – Resolução de Conflitos" no site RevistaMilitar.pt acessado a 24 de junho de 2009
  6. a b c d Guerra Civil Moçambicana (em português) Porto Editora Infopédia. Visitado em 04 de outubro de 2012.
  7. http://www.dw.de/momentos-de-instabilidade-pol%C3%ADtica-em-mo%C3%A7ambique-uma-cronologia/a-16912568 Momentos de instabilidade política em Moçambique - uma cronologia (DW África)
  8. http://www.dw.de/ataque-%C3%A0-base-da-renamo-%C3%A9-declara%C3%A7%C3%A3o-de-guerra/a-17175073 Ataque à base da RENAMO é "declaração de guerra" (DW África)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]