Guerra Luso-Holandesa

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Guerra Luso-Holandesa
Parte da(o) Guerra dos Oitenta Anos
Overwinningh van de Stadt Cotchin op de Kust van Mallabaer - Victory over Kochi on the coast of Malabar.jpg
Armada Portuguesa Vs Companhias Holandesas: A captura de Cochim pela V.O.C. aos portugueses em 1663. Atlas van der Hagen, 1682.
Data 15951663
Local Oceano Atlântico: Brasil, África ocidental, África austral

Oceano Índico: Índia, Índias ocidentais, Indochina, Macau (China), Malaca

Desfecho Tratado de Haia
Combatentes
Flag Portugal (1640).svg Reino de Portugal


Apoiado por:
Espanha Reino de Espanha (até 1640)

Flag of the Kingdom of Cochin.svg Reino de Cochim

Flag of None.svg Potiguaras

Statenvlag.svg República das Sete Províncias Unidas

Apoiado por:
Flag of England.svg Reino da Inglaterra (até 1640)

Flag of Johor.svg Sultanato de Johore

King of Kandy.svg Reino de Kandy

Flag of the Kingdom of Kongo.svg Reino do Kongo

Flag of None.svg Reino do Ndongo

Flag of None.svg Tupis do Rio Grande

Flag of None.svg Tribo Tarairiu de Nhandui

Principais líderes
º Vice-rei Pedro da Silva
º Capitão-Mór António Teles de Meneses
º Capitão Nuno Álvares Botelho
º Governador-Geral Matias de Albuquerque
º Almirante D. Fadrique de Toledo Osório
º Almirante Pedro Jacques de Magalhães
º Salvador Correia de Sá e Benevides
º Conde Maurits van Nassau-Siegen
º Almirante Piet Hein
º Almirante Adam Westerwolt
º General Gerard Hulft
º Barão de Cumberland
Forças
2.000 homens, 54 canhões 45.000 homens, 1500 canhões
Vítimas
2.500 mortos 4.000 mortos

A Guerra Luso-Holandesa (por vezes também referida como Guerra Luso-Neerlandesa) foi um conflito armado entre forças Holandesas da Companhia Holandesa das Índias Orientais ou VOC e da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais ou WIC, com o Império e colónias portugueses. Fazendo parte da Guerra da Restauração, entrou para a História como o primeiro grande conflito à escala planetária.

Travada de 1595 a 1663, caracterizou-se principalmente pelas invasões das companhias majestáticas holandesas aos territórios do império português nas Américas, África, Índia e extremo oriente. Os confrontos foram iniciados durante a dinastia Filipina, a pretexto da Guerra dos Oitenta Anos, travada então, na Europa, entre a Espanha e os Países Baixos. Portugal foi envolvido no conflito por estar sob a coroa Espanhola dos Habsburgos, durante a chamada União Ibérica, mas os confrontos ainda perduraram, mesmo vinte anos após o 1º de dezembro de 1640 da Restauração da Independência

O conflito estaria pouco relacionado com a guerra na Europa, servindo principalmente o propósito de estabelecer um império ultramarino holandês, assim como o domínio do comércio das especiarias, aproveitando a vulnerabilidade dos Portugueses. Forças Inglesas, rivais de Espanha e livres da aliança que os ligava aos portugueses durante a União Ibérica, também auxiliaram os holandeses em certos momentos, até à restauração, altura em que a aliança voltou vigorar.

A guerra resultou na perda do domínio português no oriente e na fundação do império colonial holandês nos territórios conquistados. As ambições holandesas noutros teatros de competição económica, como o Brasil e Angola, foram em grande parte invertidas pelos esforços Portugueses. Os interesses Ingleses beneficiaram também do conflito prolongado entre os seus dois principais rivais no oriente.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Territórios do império português (azul) e espanhol (vermelho) durante a União Ibérica (1580-1640).

Em 1581, um ano após a União Ibérica, os territórios que formavam a União de Utrecht, também sob domínio dos Habsburgos, revoltaram-se e depuseram Filipe II de Espanha declarando a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos. Após a derrota da Invencível Armada espanhola em 1588 deu-se uma enorme expansão do comércio marítimo, com os holandeses a transpor a revolta para os domínios marítimos espanhóis. O império português, sem autonomia e formado sobretudo de assentamentos costeiros, vulneráveis a ser tomados um a um, tornou-se um alvo fácil.[1]

O surgimento da potência marítima holandesa foi rápido e extraordinário: durante anos, marinheiros holandeses haviam participado em viagens portuguesas ao oriente. Jan Huygen van Linschoten, que vivera em Lisboa, teria recolhido relatos, informação e mapas, ao integrar a comitiva de frei Vicente da Fonseca, em 1583, que fora nomeado arcebispo de Goa.[2] Em 1598, regressaria aos Países Baixos, onde publicou as suas observações sobre o oriente e a navegação. Cornelis de Houtman, que também passara por Lisboa, seguiria as suas indicações na primeira viagem exploratória holandesa, assinando um tratado com o sultão que dominava o estreito de Sunda, entre Java e Sumatra.

Os Países Baixos são geralmente considerados como o agressor, pois o seu ataque às possessões Portuguesas foi unilateral, e a iniciativa da guerra coube sempre ao lado holandês. Por outro lado, poderia ser invocado que, estando Portugal sob domínio Espanhol durante o curso da maior parte do conflito (depois de herdada a coroa de Portugal por Filipe II de Espanha) e dado que a Espanha combatia os holandeses na Flandres, tentando sufocar a guerra da independência dos Países Baixos, parece legítimo que os holandeses levassem a guerra a todos os cantos do Império Espanhol. Esse argumento é, entretanto, contrariado pelo facto de a Guerra Luso-Holandesa ter prosseguido depois da Restauração Portuguesa (1640). Como será visto mais à frente, a verdadeira motivação da guerra foi a tentativa holandesa de tomar o controle do comércio de especiarias da Índia, o que não é consistente com nenhuma justificação técnica de defesa militar.

Casus Belli[editar | editar código-fonte]

Em 1602, foi fundada a Verenigde Oost-Indische Compagnie ou VOC, com o objectivo de partilhar os custos da exploração das Índias Orientais e eventualmente restabelecer o comércio das especiarias, vital fonte de rendimentos da novíssima República das Sete Províncias Unidas.

As Sete Províncias Unidas encontravam-se, na altura, em luta contra os Habsburgo pela sua independência, e a razão pela qual os holandeses procuraram apoderar-se do comércio das especiarias foi a sua sobrevivência económica: até à união das coroas Portuguesa e Espanhola, os mercadores Portugueses usavam os Países Baixos como plataforma para introdução das especiarias no norte da Europa, através de uma feitoria em Antuérpia, cidade forçada a render-se aos espanhóis em 1585. Depois de anexar Portugal, a Espanha declarou um embargo a todas as transacções comerciais com as Províncias Unidas, territórios secessionistas desde a União de Utrecht.

Isto significava que, a partir de então, todo o comércio seria feito através dos Países Baixos do Sul, os quais, de acordo com a União de Arras (ou União de Utrecht) eram fiéis ao monarca Espanhol e professavam o Catolicismo Romano, contrastando com o norte holandês, protestante. Isto significava ainda que os holandeses acabavam de perder o seu mais lucrativo parceiro comercial e a sua mais importante fonte de financiamento da guerra contra Espanha. Adicionalmente eles perderiam o seu monopólio de distribuição na França, no Sacro Império Romano-Germânico e norte da Europa. A sua indústria de pescas do mar do Norte e as actividades comerciais cerealíferas no Báltico não seriam simplesmente suficientes para manter a República.

A West-Indische Compagnie (WIC) seria fundada, em 1621, para assegurar o monopólio do comércio com as colônias ocidentais. Sua criação foi uma iniciativa de calvinistas flamengos e brabanteses que se haviam refugiado na República das Sete Províncias, para escapar à perseguição religiosa,

Cronologia[editar | editar código-fonte]

Cerco holandês à cidade de Olinda
  • 1595 - Encerramento dos portos portugueses aos navios holandeses por ordem de Filipe II.
  • 1597 - A guerra Luso-Holandesa começa com um ataque a São Tomé e Príncipe.
  • 1603 - A nau portuguesa "Santa Catarina" foi capturada ao largo de Singapura pela recém criada Companhia das Índias Orientais (VOC). O feito gerou protestos internacionais e serviu de pretexto para contestar a política de Mare Clausum, em defesa do Mare Liberum, o que daria sustentação ideológica para que os holandeses quebrassem vários monopólios comerciais para, em seguida, estabelecerem o seu próprio monopólio, mediante o uso da sua potência naval.
  • 1605 - Mercadores da VOC capturaram o forte português de Ambão nas ilhas Molucas. No ano seguinte investiram sobre Malaca, que resistiu a um cerco de quatro meses.
  • 1607 - Tentaram tomar Moçambique, sem sucesso.[3]
  • 1619 - A VOC conquista Jacarta, a que chamou Batávia, tornando-a a sua base no oriente. Nos vinte anos seguintes Goa e Batávia batalharam incessantemente entre si, como capitais dos rivais Estado Português da Índia e da VOC.
  • 1622 - Macau, várias vezes atacada, resistiu à tentativa de conquistar a cidade, após dois dias de combate, no que seria a maior derrota holandesa.[3]
  • 1624 - Uma força de 26 navios de uma nova companhia criada em 1621, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, ou WIC, sob o comando do Almirante Jacob Willekens e de Piet Hein conquista a cidade de Salvador (Bahia), capital do Estado do Brasil. O Governador é capturado e o governo passa para as mãos de Johan van Dorth. A resistência portuguesa reorganiza-se a partir do Arraial do rio Vermelho, contendo os invasores no perímetro urbano de Salvador.
  • 1625 - A Coroa espanhola envia uma poderosa armada luso-espanhola de cinquenta e dois navios com doze mil homens, sob o comando de Fadrique de Toledo Osório, conhecida como Jornada dos Vassalos. Esta bloqueia o porto de Salvador, obtendo a rendição holandesa. Nesse ano Piet Hein tentou um ataque à Vila de Vitória, na Capitania do Espírito Santo, que foi frustrado pela iniciativa da jovem Maria Ortiz. Ruma então a Luanda, que ataca.
  • 1630 - A capitania de Pernambuco no Brasil é conquistada pela WIC, sob comando de Hendrick Lonck. O território ocupado é renomeado Nova Holanda, abrangendo sete das dezanove capitanias do Brasil à época. João Maurício de Nassau-Siegen foi nomeado Governador da colónia. No entanto, grande parte do Brasil permaneceu em mãos portuguesas, que foram uma constante ameaça ao domínio holandês.
  • 1638 - Os holandeses tomaram São Jorge da Mina na Guiné, iniciando os ataques nos postos comerciais da costa oeste africana, visando assegurar escravos para a produção de açúcar nos territórios conquistados no Brasil.[4]
  • 1640
  • 1641 - A 12 de junho foi firmado o primeiro Tratado de Haia, estabelecendo uma trégua de dez anos entre o Reino de Portugal e a República Holandesa. Foi um Tratado de Aliança Defensiva e Ofensiva entre ambas as partes. O tratado incluía a formação de uma frota conjunta destinada a atacar o Reino da Espanha. Na prática a trégua, originalmente firmada para todos os territórios de ambos impérios, limitou-se ao continente europeu, sendo ignorada por ambas as partes no resto do mundo:
  • 1641 - A 14 de julho, após uma dura luta que durou cinco meses, Malaca foi conquistada pelos holandeses da VOC, no que foi o culminar da guerra e o maior golpe no império português do oriente, privando-o do importante controlo do estreito.[7]
  • 1641 - Em agosto Luanda é cercada e tomada pela WIC.
  • 1642 - Os holandeses tomam o Axim, no actual Gana.[4]
  • 1645 - Eclode a Insurreição Pernambucana de luso-brasileiros descontentes com a administração da WIC. Entre 1648-1649 são travadas as Batalhas dos Guararapes, vencidas pelos luso-brasileiros no Estado de Pernambuco. A primeira batalha ocorreu em 19 de abril de 1648, e a segunda em 19 de fevereiro de 1649. As forças lideradas pelos senhores de engenho André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira, pelo africano Henrique Dias e pelo indígena Felipe Camarão, terminam as invasões holandesas do Brasil.
  • 1648 - No Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides prepara uma frota de 15 navios sob o pretexto de levar ajuda aos portugueses sitiados pelos guerreiros da rainha Nzinga em Angola. Partiram do Rio de Janeiro a 12 de maio e, através de contactos com padres Jesuítas, conseguiram reconquistar Luanda em 15 de agosto. A campanha prolongou-se de 1648 a 1652, recuperando Angola e a ilha de São Tomé para os portugueses.
  • 1650 - Os holandeses instalaram-se no Cabo da Boa Esperança. Em 1652, Jan van Riebeeck, da VOC, instalou aí uma base de apoio à navegação para o oriente, vindo mais tarde a transformar-se na Cidade do Cabo.
  • 1654 - Em 26 de janeiro de 1654 é assinada a capitulação holandesa no Brasil, Capitulação do Campo do Taborda, no Recife, de onde partiram os últimos navios holandeses, que só provocaria efeitos plenos em 6 de Agosto de 1661, com o segundo Tratado de Haia.
  • 1658 - Os últimos portugueses abandonam Ceilão, perdida para os holandeses.
  • 1661 - É assinado o segundo Tratado de paz de Haia. Portugal aceitou as perdas na Ásia, comprometendo-se a pagar oito milhões de Florins, equivalente a sessenta e três toneladas de ouro, como compensação pelo reconhecimento da soberania portuguesa do Nordeste brasileiro, ex-Nova Holanda. Este valor foi pago em prestações, ao longo de quarenta anos e sob a ameaça de invasão da Marinha de Guerra. Neste ano Bombaim foi cedida à Inglaterra como dote do casamento entre a princesa Catarina de Bragança e Carlos II de Inglaterra.
  • 1662 - Cochim é tomada pelos holandeses quebrando o acordo assinado. Os Holandeses, temendo perder os territórios já conquistados, acabariam por selar definitivamente a paz em 1663.
Territórios do Império Português (verde); Territórios da República das Sete Províncias Unidas (laranja); As zonas disputadas entre 1588 - 1654 surgem a tracejado;

Implicações[editar | editar código-fonte]

Embora conseguindo recuperar o Brasil e importantes territórios em África, onde o império português viria a centrar-se nos anos seguintes, Portugal perdeu para sempre a proeminência no oriente. Os Países Baixos consolidaram a sua independência e formou o Império colonial holandês, abrindo caminho ao século de Ouro dos Países Baixos, apesar de grandes custos e perda de recursos melhor utilizados na prevenção da rivalidade económica inglesa. A Inglaterra também saiu beneficiada porque derrotou a maior ameaça à sua autonomia através da sabotagem das rotas marítimas espanholas, e porque conseguiu que os seus principais parceiros económicos (e potenciais rivais) entrassem em guerra entre si.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Boxer, C.R. (1969). The Portuguese Seaborne Empire 1415–1825. Hutchinson. ISBN 0091310717.
  2. Ernest Stanley Dodge, "Islands and empires: Western impact on the Pacific and east Asia", p. 238, U of Minnesota Press, 1976, ISBN 0816607885
  3. a b Ernest Stanley Dodge, "Islands and empires: Western impact on the Pacific and east Asia", p.238-239, U of Minnesota Press, 1976 ISBN 0816607885
  4. a b Davies, Kenneth (1974). The North Atlantic World in the Seventeenth Century. University of Minnesota Press. ISBN 0816607133.
  5. A Restauração: O Fim da União Ibérica e as Consequências para a Colónia
  6. Portugal History and Events - Fourth Dynasty
  7. Ernest Stanley Dodge, "Islands and empires: Western impact on the Pacific and east Asia", p.238-239, U of Minnesota Press, 1976, ISBN 0816607885

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Boxer, C.R. "The Portuguese Seaborne Empire 1415–1825", (1969) Hutchinson. ISBN 0091310717.
  • Anderson, James Maxwell "The History of Portugal". Greenwood Publishing Group.(2000) ISBN 0313311064.
  • Davies, Kenneth, "The North Atlantic World in the Seventeenth Century", (1974) University of Minnesota Press. ISBN 0816607133
  • Cabral de Mello, Evaldo, O Negócio do Brasil - Portugal, os Países Baixos e o Nordeste 1641-1669. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. ISBN 8586020761
  • Wiesebron, Marianne, Brazilië in de Nederlandse archieven/O Brasil em arquivos holandeses (1624-1654). Leiden: Universidade de Leiden, 2008. ISBN 978-90-5789-157-1

Ligações externas[editar | editar código-fonte]