Guerra Turco-Armênia

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Guerra Turco-Armênia
Guerra de Independência Turca
Armenians fleeing Kars.jpg
Data 24 de setembro - 2 de dezembro de 1920
Local Sul do Cáucaso e República Democrática da Armênia
Desfecho Vitória turca; Tratado de Alexandropol.[1] [2]
Casus belli Enfrentamentos entre chefes militares turcos e tropas fronteiriças armênias em Oltu[2] [3] [4]
Perdas territoriais A Armênia foi forçada a ceder mais da metade de seu território anterior à guerra, e abdicar de todos os territórios que lhe haviam sido concedidos com o Tratado de Sèvres.[2] [3] [4]
Combatentes
 Arménia Turquia Revolucionários turcos
Comandantes
Drastamat Kanayan
Movses Silikyan
Kazım Karabekir
Forças
20.000 combatentes[5] 50.000 combatentes[5]
Baixas
198.000 civis[6]

A Guerra Turco-Armênia foi um conflito militar entre a República Democrática da Armênia (DRA) e os revolucionários do Movimento Nacional Turco, que durou de 24 de setembro a 2 de dezembro de 1920,[3] [7] e teve lugar em grande parte das regiões atualmente ocupadas pelo nordeste da Turquia e noroeste da Armênia.

O conflito finalizou com a assinatura de um acordo de paz em Alexandropol.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Campanha do Cáucaso[editar | editar código-fonte]

O Tratado de Amizade Russo-Otomano (1 de janeiro de 1918) e o Tratado de Brest-Litovsk (3 de março de 1918) foram assinados, no âmbito da Primeira Guerra Mundial, pelo vizir Mehmet Talat e neles foi estabelecido que todos os territórios conquistados (Ardahan, Kars e Batumi) pela Rússia durante a Guerra Russo-Turca, 1877–1878 seriam devolvidos ao Império Otomano. Contudo, o Congresso Armênio de Armênios Orientais, movimento que unificava os Conselhos Nacionais Armênios e que era liderado pelo partido Dashnak, declarou a autonomia do seu território, assegurou o apoio ocidental graças à diáspora arménia e preparou-se para defender as regiões de Erzurum, Bitlis e Van, imprescindíveis para que o seu território não se tornasse num estado encerrado.

Em março de 1918, Vehib Paşa transladou o 3º Exército otomano para as zonas que ocupavam as unidades de voluntários armênios. Frente da forte pressão desta força combinada com unidades irregulares curdas, a tropas armênias retiraram-se de Erzincan a Erzurum, mais a leste. A cidade de Van, sob domínio armênio desde 1915, também foi abandonada.[7] Após as batalhas de Kara Killisse, Sardarapat e Bash Abaran, as milícias armênias evacuaram Erzurum e Sarıkamış.[8] Vehib Paşa também reclamou Trebizonda no norte.

A 28 de maio de 1918, o Movimento de Libertação Nacional Armênio declarou a independência da República Democrática da Armênia (RDA) meses antes de finalizar a Primeira Guerra Mundial (11 de novembro de 1918). Tovmas Nazarbekia, quem fora comandante na Campanha do Cáucaso e governador da Administração de Armênia ocidental, converteu-se no primeiro chefe de estado da nova república.

Tratado de Batumi[editar | editar código-fonte]

A 4 de junho de 1918, a República Democrática da Armênia e o governo otomano assinaram o Tratado de Batumi pelo qual era reconhecida a independência do novo estado e aceitavam as fronteiras estabelecidas no Tratado de Brest-Litovsk. Quinze dias depois, uma delegação armênia viajou para Istambul para que fosse ratificado pelas Potências Centrais. Contudo, dentro das fileiras da República Democrática da Armênia o acordo foi objeto de controvérsia já que o general Andranik junto com o Dashnakzutyun desvincularam-se do seu governo e, recusaram aceitar as fronteiras, continuaram a guerra e declararam um novo estado chamado República da Armênia Montanhosa.

Após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial e a obrigação de aceitar o Armistício de Mudros (assinado a 30 de outubro de 1918), as fronteiras voltaram para os limites existentes no começo da contenda.

A República de Kars[editar | editar código-fonte]

Nos cinco meses transcorridos entre a assinatura do Tratado de Batumi e o Armistício de Mudros, o governo otomano não teve tempo para estabelecer um domínio efetivo nos territórios recuperados. Fruto deste vazio de poder, surgiu um novo e efêmero estado que foi dirigido por Fakhr al-Din Pirioghlu e cujo centro se encontrava em Kars. No seu território predominava a população muçulmana e compreendia as províncias de Kars e Batumi, partes do distrito de Erevão na província do mesmo nome, e os distritos de Akhalkalaki e Akhaltsikhe pertencentes à província de Tiflis. Em termos práticos, a nova entidade estava limitada à província de Kars.

Sua existência coincidiu com a do governador-geral imposto pelos britânicos, cargo que fora criado durante a intervenção da Entente em Transcaucásia.[9]

Após a assinatura do armistício, o Alto Comissionado Britânico, almirante Somerset Arthur Gough-Calthorpe, destituiu a Pirioghlu e permitiu a RDA ocupar o território ao qual formalmente renunciava o governo otomano.

Enfrentamento aberto[editar | editar código-fonte]

Após o Armistício de Mudros chegou a assinatura do Tratado de Sèvres (10 de agosto de 1920), que significou na prática o desaparecimento do Império otomano. As forças do Movimento Nacional Turco não reconheceram a validez desse acordo e começaram a preparar-se para travar uma guerra de independência nacional. Os combatentes turcos situados em Anatólia oriental levavam tempo preparando-se para retomar as províncias de Kars, Ardahan e Batumi cedidas à RDA.

O conflito em Olti[editar | editar código-fonte]

As primeiras escaramuças decorreram em junho de 1920 no distrito de Olti, limítrofe com a RDA, cujo domínio correspondia à República Democrática da Geórgia mas sem nenhum controlo efetivo na prática.[1] As incursões armênias fizeram com que o general turco Kazım Karabekir deslocasse quatro batalhões do seu exército ao distrito a 3 de setembro, expulsando as unidades armênias.[2]

Enquanto isto sucedia, o governo nacionalista de Ancara e o novo poder bolchevique surgido da Revolução russa mantiveram uma série de negociações com o fim de dotar os turcos de financiamento e armamento para a guerra. Para isso foi considerada a possibilidade de abrir uma rota de abastecimento através das repúblicas independentes da Geórgia e Armênia. O apoio soviético era vital para os turcos, mas as suas exigências foram inaceitáveis. Os bolcheviques demandavam a cessão das províncias de Van e Bitlis à RDA. Após a ruptura das negociações, o exército de Karabekir avançou, a 28 de setembro, até Sarıkamış.[10]

Sarıkamış, Kağızman e Merdeniq[editar | editar código-fonte]

A 30 de setembro as tropas turcas tomaram a cidade de Sarıkamış e em dias posteriores Kağızman, Iğdir e Merdeniq. A linha de defesa armênia desmoronou-se e o exército turco avançou devastando a área e expulsando a população civil armênia que não tivera tempo, ou vontade, para fugir. Simultaneamente, alguns regimentos armênios começaram a realizar limpezas étnicas nos distritos de Kars e Ierevan, ainda sob o seu controlo.[1]

Em princípios de outubro, o governo da RDA pediu ajuda ao Reino Unido, França, Itália e ao restante das potências aliadas, mas não houve resposta. A maior parte das forças britânicas na região achavam-se sufocando as revoltas no Mandato Britânico da Mesopotâmia, enquanto França e Itália enfrentavam dificuldades similares no Mandato Francês da Síria e Antalya controlado pelos italianos.[1] A Geórgia declarou a neutralidade durante o conflito[4] e somente a Grécia proporcionou um certo apoio, embora insuficiente para se opor à ofensiva turca.[1]

Acordo de Erevão[editar | editar código-fonte]

A 11 de outubro, o enviado soviético Boris Legran chegou a Erevão com um texto para negociar um acordo soviético-armênio.[11] O tratado foi assinado a 24 de outubro e com ele a República Democrática da Armênia garantia-se o apoio soviético.[11] [12]

A questão mais importante estava relacionada com Kars, já que assegurava o controlo desta província ao governo armênio.[11] Perante os termos do acordo, os nacionalistas turcos voltaram a mobilizar o seu exército do leste. Karabekir foi informado pela Grande Assembleia Nacional da Turquia e em 24 de outubro dirigiu as suas tropas para Kars.

Kars e Alexandropol[editar | editar código-fonte]

As forças de Karabekir marcharam para a cidade de Kars, que foi abandonada pelas tropas armênias, ficando sob controlo turco a 30 de outubro.[1] [2] Novamente a população civil foi vítima de saques, violações e assassinatos.[2]

As forças turcas continuaram o seu avanço e uma semana depois tomaram e ocuparam a cidade de Alexandropol (atual Gümrü, na Armênia).[1] [2] A 12 de novembro, capturaram o povoado estratégico de Agin, a nordeste das ruínas do antigo reino armênio medieval de Ani, para avançar daí para Erevão.[4] A 13 de novembro a Geórgia rompeu a sua neutralidade após as tropas armênias invadirem a zona disputada de Lorri, que figurava como Zona Neutral (o Condomínio Shulavera) no acordo estabelecido entre ambas as nações em princípios de 1919. No fim de novembro a RDA ficou definitivamente derrotada.

O tratado de Alexandropol[editar | editar código-fonte]

As tropas turcas estabeleceram o seu quartel-general em Alexandropol, e apresentaram um ultimato à RDA. Diante de um possível colapso total do país, o governo da Armênia solicitou um armistício, e a 18 de novembro foram acordados os termos dum cessar-fogo. Duas semanas mais tarde, a 2 de dezembro, representantes de ambas as nações assinaram o Tratado de Alexandropol ou "Tratado de Gümrü" cujas condições para a RDA foram muito severas: a Armênia devia desarmar a maioria das suas forças militares e ceder mais da metade do território com o que contava antes da guerra. A RDA perdia desse jeito todas as concessões outorgadas pelas potências europeias no Tratado de Sèvres.[1]

Grigorii Ordzhonikidze.

Contudo, enquanto Karabekir e o Ministro de Assuntos Exteriores armênio Alexander Khatisian negociavam os termos da derrota, o governo soviético ordenou a Sergo Ordjonikidze que invadisse a RDA a partir do Azerbaijão com o fim de estabelecer um novo governo pró-bolchevique no país. A 29 de novembro, o 11º Exército soviético penetrou na Armênia por Karavansarai (atual Ijevan).[2]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Fim da República Democrática da Armênia, dezembro de 1920[editar | editar código-fonte]

A invasão do exército soviético não encontrou resistência por parte das forças armênias. A segunda guerra entre ambos os países durou apenas uma semana. Esgotados pelos seis anos de permanentes guerras e conflitos, o exército e a população armênia foram incapazes de articular qualquer tipo de oposição.

O 11º Exército do Exército Vermelho entrando em Erevão em 1920.

Quando a 4 de dezembro de 1920, o 11º Exército entrou em Erevão,[7] o governo armênio entregou o poder. A 5 de dezembro, o Comité Revolucionário Armênio (Revkom), composto nomeadamente por armênios procedentes do Azerbaidjão, tomou o poder na capital. Desse jeito pôs-se fim à existência da República Democrática da Armênia.[2]

Sua substituta, a República Socialista Soviética da Armênia, proclamou-se sob comando de Aleksandr Miasnikyan.

Tratado de Kars[editar | editar código-fonte]

A fronteira turco-soviética estabelecida no Tratado de Kars.

Os confrontos armados na região da Transcaucásia resolveram-se finalmente mediante a assinatura de dois tratados de amizade entre a Grande Assembleia Nacional Turca - que posteriormente declararia o nascimento da República de Turquia em 1923 - e a União Soviética.

O primeiro deles foi o "Tratado de Amizade e Irmandade", também chamado Tratado de Moscou, assinado a 16 de março de 1921. Mediante este tratado, a Turquia cedia a Adjara à URSS em troca do território de Kars que incluía as atuais províncias turcas de Kars, Iğdır, e Ardahan.

O segundo dos acordos foi o Tratado de Kars, datado a 23 de outubro de 1921, e no qual participaram os representantes nacionalistas turcos e os da República Socialista Soviética do Azerbaijão, a República Socialista Soviética da Armênia e a República Socialista Soviética da Geórgia.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Ter Minassian, Anahide (1989), La République d'Armenie: 1918-1920. ISBN OCLC 21560887
  • Ternon, Yves (2002), Empire ottoman, le déclin, la chute, l'effacement. ISBN OCLC 50598584
  • Zürcher, Erik J. (2004), Turkey a modern history. ISBN OCLC 56987767
  • Vahakn Dadrian, Histoire du génocide arménien, éditions du Stock (em francês).
  • S. A direction de Gérard Dédéyan, Histoire du peuple arménien, éditions Fayard (em francês).

Referências

  1. a b c d e f g h Andrew Andersen, Turkish-Armenian war: Sep.24 – Dec.2, 1920
  2. a b c d e f g h i Robert H. Hewsen. Armenia: A Historical Atlas, p. 237. ISBN 0-226-33228-4
  3. a b c Andersen, Andrew. Atlas of Conflicts: Turkish-Armenian War
  4. a b c d (em russo) Turkish-Armenian War of 1920
  5. a b Minassian, Anahide Ter: La république d'Arménie. 1918-1920 La mémoire du siècle., éditions complexe, Bruxelas 1989 ISBN 2-87027-280-4, p. 220
  6. Dadrian, Vahakn N.: The History of the Armenian Genocide: Ethnic Conflict from the Balkans to Anatolia to the Caucasus Berghahn Books, Providence, Oxford 2004, ISBN 978-1-57181-666-5, p. 361
  7. a b c Anahide Ter-Minassian, "La République d'Armenie: 1918-1920".
  8. Yves Ternon, "Empire ottoman, le decline, la chute, l'effacement".
  9. Caucasian Knot (Agência de imprensa radicada em Moscou)
  10. Erik J. Zürcher, "Turkey a modern history".
  11. a b c The Republic of Armênia, Vol. IV: Between Crescent and Sickle: Partition and Sovietization Berkeley, Os Angeles, Londom: University of California Press, 1996, p. 259
  12. Hrand Pasdermadjian, "Histoire de l'Armenie, des origins jusqu'au traité de Lausanne", Éditions Libraire Orientale H. Samóliam.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]