Guerra da Independência da Irlanda

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Guerra de Independência da Irlanda
Warofindep.jpg
Um memorial à Guerra da Independência da Irlanda em Dublin.
Data 21 de janeiro de 1919 - 11 de julho de 1921
Local Irlanda
Desfecho Tratado Anglo-Irlandês
Combatentes
República da Irlanda República Irlandesa Reino Unido Reino Unido
Principais líderes
Líderes militares:
Michael Collins
Richard Mulcahy
Cathal Brugha
Líderes locais do IRA

Líderes políticos:
Éamon de Valera
Arthur Griffith
Líderes militares:
Frederick Shaw
Nevil Macready
Henry Hugh Tudor

Líderes políticos:
David Lloyd George
John French
Hamar Greenwood
Forças
Exército da República da Irlanda: c. 15 000 Exército Britânico:
c. 20 000
Royal Irish Constabulary:
9 700
Black and Tans:
7 000
Auxiliares:
1 400
Vítimas
c. 550 mortos[1]
c. 750 civis mortos[2]
410 mortos do RIC
261 mortos do Exército Britânico[2]

A Guerra da Independência da Irlanda (ou a Guerra Anglo-Irlandesa[3] ) foi uma campanha de guerrilha montada contra o governo Britânico na Irlanda pelo Exército Republicano Irlandês após a proclamação de independência pelo First Dáil, o parlamento Irlandês criado em 1918 pela maioria dos deputados irlandeses eleitos ao Parlamento Britânico. Ele durou de Janeiro de 1919 até a trégua em Julho de 1921.

O exercito da República de Irlanda que lutou neste conflito é frequentemente descrito como o Velho IRA para distingui-lo da ultima organização que usou o mesmo nome.

Origens[editar | editar código-fonte]

Começo da crise[editar | editar código-fonte]

Desde a década de 1880, nacionalistas irlandeses passaram a exigir direito de autogoverno (Home Rule) da Grã-Bretanha.[4] A Irlanda foi invadida pelos normandos no século IX e depois o Reino da Inglaterra fez outras tentativas de exercer total autoridade sobre a ilha nos séculos seguintes, mas a conquista militar completa só veio no século XVII. Mesmo assim, por quase setecentos anos, o país nunca esteve completamente pacificado.[5]

Após períodos de turbulência política e de algumas rebeliões, o direito ao autogoverno foi concedido parcialmente pelas autoridades britânicas em 1912, levando a uma prolongada crise dentro do Reino Unido quando o Partido Unionista do Ulster formou uma organização armada para resistir ao crescente movimento em favor da chamada "devolução", ao menos dentro do território que eles podiam controlar. Em contra partida, os nacionalistas formaram seu próprio grupo paramilitar, os "Voluntários Irlandeses" (Óglaigh na hÉireann).[6]

Em 18 de setembro de 1914, o parlamento inglês passou o Third Home Rule Act como uma emenda ao projeto de Partição da Irlanda, introduzido pelos Unionistas, mas esta lei foi atrasada devido a eclosão da Primeira Guerra Mundial. A maioria dos nacionalistas seguiram as ordens do Partido Parlamentar Irlandês de apoiar o Reino Unido e os Aliados no esforço de guerra. Contudo, os membros da milícia Voluntários Irlandeses se dividiram e alguns viram nisso uma oportunidade para iniciar uma revolta contra a metrópole inglesa.[6]

Revolta da Páscoa[editar | editar código-fonte]

A rua Sackville, em Dublin, após os combates na revolta de Páscoa (1916).

Enquanto boa parte das forças armadas britânicas estavam ocupadas lutando na Primeira Guerra Mundial, os nacionalistas irlandeses iniciaram uma nova rebelião, que viria a ser conhecida como a Revolta da Páscoa de 1916, lideradas pelos chamados Voluntários. Esta insurreição se tornou uma das maiores na história do país e um marco na luta pela independência. O levante, onde mais de quatrocentas pessoas morreram, se concentrou quase que exclusivamente na área de Dublin, a capital, e perdurou por uma semana até que os ingleses sufocaram a revolta, prendendo vários envolvidos e executando seus líderes. A dura repressão fez aumentar a popularidade dos separatistas, que passaram a se representar pelo partido Sinn Féin. Os republicanos deste partido exploraram o sentimento de raiva da população já que o esforço de guerra para apoiar o Reino Unido no fronte de batalha começou a exigir muito do povo irlandês. Além disso, o ressentimento era alto devido ao excesso de violência que as forças britânicas usaram para encerrar a rebelião e também das subsequentes represálias que vieram na forma de diversas prisões e na morte de algumas personalidades conhecidas do país, como Francis Sheehy-Skeffington, um popular escritor. Após a revolta, o governo inglês impôs a lei marcial no país.[6]

Em abril de 1918, o Reino Unido passava por problemas devido a Ofensiva da Primavera alemã lançada perto do fim da primeira guerra mundial, o que forçou o governo inglês a iniciar a conscrição em massa na Irlanda. Isso alienou ainda mais o eleitorado irlandês, o que levou a uma série de manifestações e protestos ao fim de 1918. Em dezembro do mesmo ano, houveram eleições gerais no país e os republicanos separatista da Sinn Féin se saíram muito bem.[7]

Para os republicanos da Irlanda, a guerra de independência do país começou de fato durante a Revolta da Páscoa de 1916, quando os rebeldes proclamaram o nascimento da República Irlandesa. Os republicanos argumentam que o conflito travado entre 1919 e 21 (e a subsequente guerra civil de 1922) foram apenas lutas para garantir a sobrevivência da nova República. De fato, ações contra soldados britânicos e representações do governo inglês na ilha continuaram após a derrota da revolta, ainda que em nível baixo entre 1916 e 1918.[8] Em resposta a escalada da violência, a Inglaterra aumentou sua presença militar no país.[9]

A primeira Dáil[editar | editar código-fonte]

Resultados das eleições gerais na Irlanda em 1918.

Nas eleições de 1918, os eleitores irlandeses mostraram nas urnas seu descontentamento com a administração britânica da sua ilha. O Sinn Féin ganhou ao menos 70% (73 dos 105) dos assentos que o país tinha direito no Parlamento. O partido vencedor, contudo, decidiu não tomar seu assento de direito no Parlamento Britânico em Westminster, preferindo se reunir no Parlamento Irlandês em Dublin. Este congresso ficou conhecido como First Dáil (a Primeira Dáil) e seus ministérios foram chamados de Aireacht, e consistiam apenas de membros da Sinn Féin. Reunidos pela primeira vez em 21 de janeiro de 1919, na Mansion House, a Dáil reafirmou a declaração de 1916 e a reforçaram com uma declaração formal de independência. Eles ainda mandaram uma "mensagem para as nações livres do mundo" onde confirmaram que havia um "estado de guerra entre a República Irlandesa e a Inglaterra". Os milicianos dos "Voluntários Irlandeses" se reorganizaram e formaram o chamado Irish Republican Army (ou IRA). Seus combatentes então receberam autoridade de realizar ataques contra alvos ingleses em toda a ilha.[10]

A guerra[editar | editar código-fonte]

Começo das hostilidades[editar | editar código-fonte]

No começo de 1919 não estava claro se a Dáil (o parlamento) pretendia conquistar a independência do país pela via armada e a guerra não estava no manifesto que a Sinn Féin fez pedindo a secessão do país do Império Britânico, porém um incidente que aconteceria em 21 de janeiro de 1919, no primeiro dia em que a primeira Dáil se reuniu, mudaria tudo.[11] Diversos membros do IRA, agindo de forma independente, atacaram a tiros dois oficiais da Royal Irish Constabulary (RIC), em Soloheadbeg, no condado de Tipperary.[12] [13] Dan Breen, um dos agressores, mais tarde recordou:

"...tomamos a ação deliberadamente, pensando sobre o assunto e conversamos entre nós. Seán Treacy havia dito que a única forma de começar uma guerra era matando alguém e nós queriamos começar esta guerra, então nós planejamos matar alguns policiais da Royal Irish Constabulary, que são um braço importante dos ingleses no país. Nosso único arrependimento era que havia apenas dois policiais lá, ao invés dos seis que esperávamos".[14]

O atentado contra o RIC, que foi uma ação unilateral, marcou o início da guerra de independência.[15] [16] [17] [18] A guerra não foi formalmente declarada pela Dáil até que o conflito já estava em andamento. Em 10 de abril de 1919 a Dáil afirmou:

"Sobre os prisioneiros republicanos, nós devemos lembrar que nosso país está em guerra com a Inglaterra e nós precisamos considera-los baixas necessárias neste conflito".[19]

Contudo, foi só em 11 de março de 1921, dois anos após o começo das hostilidades, que o presidente da Dáil Éireann, Éamon de Valera, formalmente "aceitou" a existência do "estado de guerra entre o país e o Reino Unido".[20] O atraso permitiu um equilíbrio entre as realidades militares e políticas.[21] [22]

Escalada da violência[editar | editar código-fonte]

Éamon de Valera, auto-proclamado presidente da República Irlandesa de 1919. Ele foi um dos principais líderes políticos da revolta.

Ainda em 1919, militantes irlandeses começaram a atacar propriedades do governo britânico na ilha, invadindo delegacias e quartéis atrás de armas e matando membros proeminentes da administração inglesa local. Um dos primeiros grandes nomes a ser morto foi o magistrado John C. Milling, baleado em Westport. Ele havia sido responsável pela prisão de diversos dissidentes na sua região.[23] Os membros do IRA usavam principalmente táticas de guerrilha, combatendo sem uniformes em ações rápidas e violentas. Estas táticas não eram aprovadas por alguns líderes republicanos, como Éamon de Valera, que preferia uma tática de guerra mais "convencional" a fim de dar mais legitimidade a nova república perante os olhos do mundo. Porém, vários líderes do IRA, especialmente Michael Collins, eram favoráveis as táticas de guerrilha, lembrando que da última vez que eles tentaram combater os britânicos de forma mais tradicional, eles acabaram sendo derrotados (em 1916). Já outros, como Arthur Griffith, prefeririam ter lançado uma campanha de desobediência civil ao invés da luta armada.[24] A violência excessiva, como as emboscadas e assassinatos a luz do dia, se tornaram, inicialmente, impopulares entre o povo irlandês. Contudo, conforme o conflito se desenrolava, a população foi mudando de ideia, principalmente devido as represálias particularmente violentas do governo britânico.[25]

No começo da guerra, entre 1919 e 1920, a violência ainda não acontecia de forma desenfreada pelo país. Boa parte dos nacionalistas preferia continuar utilizando manifestações e mobilizações populares para aumentar a oposição ao governo inglês da ilha. O jornalista britânico, Robert Lynd, escreveu para o The Daily News em julho de 1920:

"Por enquanto, boa parte da população está apreensiva, a política da vez não é participar mas encarar tudo de forma passiva. Sua política não é bem atacar o governo [inglês], mas sim ignora-lo e então construir um governo próprio paralelo".[26]

Os colaboradores irlandeses se tornam o alvo[editar | editar código-fonte]

Um dos principais alvos do IRA durante o conflito eram os agentes e funcionários trabalhando para a Royal Irish Constabulary (RIC), a Real Polícia Irlandesa a serviço do governo do Reino Unido, composta em sua maioria por oficiais católicos. Seus membros e edifícios desta organização passaram a sofrer com ataques dos guerrilheiros republicanos. Muitas das armas do IRA eram roubadas das delegacias que eles atacavam. A RIC tinha, no começo do conflito, aproximadamente 9 700 homens em 1 500 quartéis espalhados pela Irlanda.[27]

Uma política de ostracismo de homens da RIC foi anunciada pela Dáil em 11 de abril de 1919.[28] Isto conseguiu desmoralizar as forças durante a guerra, enquanto a população virava a cabeça para uma associação que cada vez mais era ligada ao aumento da repressão do governo britânico. Muitos oficiais da polícia desertaram e o recrutamento caiu drasticamente. Denúncias surgiram de que, dada a falta de recursos, agentes da RIC teriam praticado assaltos contra lojas atrás de comida, o que fez com que os comerciantes também se voltassem contra eles. Alguns oficiais da Royal Irish Constabulary começaram a colaborar com o IRA, seja por medo ou simpatia, dando aos republicanos valiosas informações. Em contraste a eficiência do boicote da população ao não apoiar mais a RIC, as ações militares do IRA contra eles no começo do conflito foi limitado. Em 1919, onze homens do RIC e quatro da Polícia Metropolitana de Dublin foram mortos em atentados. Outros 20 ficaram feridos.[29]

Greves também se tornaram parte da resistência ao regime britânico na ilha. Em Limerick, em abirl de 1919, uma greve geral foi convocada pelos comerciantes para protestar contra a presença militar inglesa na região. O governo inglês estabeleceu que era necessário permissão da RIC para adentrar na cidade, o que provocou a ira dos negociantes.[30] Similarmente, em maio de 1920, trabalhadores das docas de Dublin deixaram de fazer comércio com os ingleses e também proibiram a venda de produtos que pudessem ser usados no esforço de guerra inimigo. Essas greves começaram a prejudicar as movimentações das tropas britânica pela Irlanda, devido a falta de suprimentos. Em dezembro de 1920, boa parte das greves já havia acabado.[31] Os britânicos ameaçaram romper os acordos econômicos com os comerciantes irlandeses e donos das redes ferroviárias, o que seria um grande golpe financeiro contra os negociantes.[32]

Com o passar do tempo, as ações violentas do IRA aumentaram consideravelmente. No começo de 1920, eles passaram a fazer ataques violentos contra alvos do RIC, especialmente em regiões isoladas, como a área rural.[32]

Colapso da administração britânica[editar | editar código-fonte]

A cidade de Cork queimada e destruida após combates entre o IRA e o exército britânico entre 11 e 12 de dezembro de 1920.[33]

Em abril de 1920, ao menos quatrocentos quartéis abandonados da RIC foram queimados pelos rebeldes para prevenir que eles fossem usados novamente pelos policiais. Com isso, boa parte dos oficiais da Royal Irish Constabulary tiveram de se retirar da zona rural, que passou a ser controlado quase que totalmente pelo IRA.[34] Por intimidação ou deserções, muitos jurados não participavam das cortes para julgar presos, o que resultaria no colapso do sistema judiciário britânico na ilha, desmoralizando assim a RIC, o que resultou na deserção ou renúncia de diversos policiais. A Irish Republican Police (IRP), comandada por Cathal Brugha, foi fundada entre abril e junho de 1920 sob a autoridade da Dáil Éireann (o auto-proclamado governo republicano irlandês) com o objetivo de substituir a RIC e fazer valer a lei pelas cortes do país. Em 1920, a IRP estava presente em 21 dos 32 condados da Irlanda.[35] As cortes da Dáil eram geralmente conservadoras socialmente, apesar das origens revolucionárias, e rejeitaram as tentativas de latifundiários para redistribuir as terras dos ricos proprietários para os mais pobres.[36]

Com diversas linhas de suprimento sob ataque e boa parte do interior do país controlado por rebeldes do IRA, uma grande fatia dos impostos recolhidos para o governo britânico não chegava ao destino. Boa parte da população também preferia dar dinheiro ao chamado "National Loan" ("Empréstimo Nacional"), criado por Michael Collins com a finalidade de financiar o jovem governo irlandês e seus exércitos. Ao fim de 1920, o empréstimo já havia chegado a £358 000 libras. Um total maior, de cerca de cinco milhões de dólares, foi arrecadado nos Estados Unidos por irlandeses que moravam por lá e a quantia foi enviada para a Irlanda.[32] As alíquotas eram pagas em conselhos locais, a maioria controlados pela Sinn Féin, que não repassavam os valores para o governo inglês.[36] Assim, em meados de 1920, a República Irlandesa (que, na teoria, existia apenas no papel) passou a se tornar uma realidade para muitas pessoas, fazendo valer a lei e a ordem, mantendo um exército próprio e coletando tributos. Um jornal liberal britânico, o The Nation, escreveu em agosto de 1920 que o "fato central da atual situação da Irlanda é que a república irlandesa realmente existe".[26]

As forças britânicas, tentando restabelecer seu controle no país, frequentemente recorriam a represálias arbitrárias contra os ativistas republicanos e contra a população civil. Uma política de repressão começou oficialmente em setembro de 1919 em Fermoy, Condado de Cork, quando duzentos militares ingleses saquearam e queimaram a cidade, após um dos seus soldados ter sido morto em uma emboscada orquestrada pelo IRA.[37] Arthur Griffith estimou que nos primeiros dezoito meses do conflito, as tropas britânicas realizaram pelo menos 38 720 ataques contra propriedades privadas, prenderam 4 982 pessoas, cometeram 1 604 assaltos, indiscriminadamente causaram cento e dois tiroteios e queimaram diversas cidades e vilas, matando ao menos setenta e sete pessoas, incluindo mulheres e crianças.[38]

Organização e operações do IRA[editar | editar código-fonte]

Michael Collins, um dos principais líderes do IRA durante a guerra. Na atualidade, Collins é um herói nacional.

Michael Collins foi um dos principais líderes do movimento de independência irlandês. Nominalmente, ele exercia o cargo de Ministro das Finanças do auto-proclamado governo republicano. Ele também era diretor de inteligência do IRA, o que o fazia tomar uma posição fundamental de liderança no movimento, encontrando fundos e armas para os rebeldes. O carisma e a capacidade organizacional de Collins o tornou muito popular entre os nacionalistas pró-independência e entre a população em geral. Ele também estabeleceu uma eficiente rede de espiões entre as forças policiais locais que trabalhavam para a Inglaterra. Ele também tinha infiltrados nas instituições da administração britânica da ilha. Em sua rede de espionagem, seu principal alvo era a Dublin Metropolitan Police, especialmente a chamada "Divisão G" formada por irlandeses que tinham a missão de subverter os movimentos separatistas. Essa divisão era muito odiada pelo IRA devido a esta colaboração com os ingleses. Collins formou então um grupo chamado de "O Esquadrão", formado por jovens homens cuja única função era procurar e matar os "G-men" (agentes irlandeses a serviço da Coroa britânica) e outros colaboradores e espiões ingleses. O esquadrão de Michael começou a atacar e matar diversos oficiais de inteligência da RIC a partir de meados de 1919.[39] Muitos G-men receberam cartas do IRA oferecendo a eles a chance de renunciar seus cargos ou deixar a Irlanda. A maioria, contudo, recusou a proposta e vários acabaram sendo assassinados.[40]

O chefe de estado-maior do IRA era Richard Mulcahy, que foi o responsável por organizar e distribuir as unidades do IRA pelo país. Em teoria, Collins e Mulcahy respondiam a Cathal Brugha, o ministro da defesa da Dáil. Porém, na prática, Brugha apenas supervisionava, recomendando ou fazendo objeções a ações específicas. Boa parte das ações militares do IRA eram, na verdade, coordenadas por iniciativa de líderes locais (como Liam Lynch, Tom Barry, Seán Moylan, Seán Mac Eoin e Ernie O'Malley) que organizavam as atividades de guerrilha contra as forças britânicas na ilha. Durante boa parte do conflito, as atividades do IRA se concentravam, na maioria dos casos, nas regiões de Munster e Dublin, com algumas unidades rebeldes isoladas espalhadas pelo país também realizando atentados nas regiões norte, oeste e sul.[26]

Estima-se que cerca de 100 mil pessoas estavam envolvidas nas atividades pró-independência pelo país, sendo que Michael Collins estimou que apenas 15 000 serviam ativamente no IRA durante a guerra, com cerca de 3 000 participando dos combates. Várias organizações, como movimentos de mulheres e jovens, também apoiavam a revolução. Boa parte da população civil também simpatizava com os republicanos e se recusavam a colaborar com a RIC ou com o exército inglês, e frequentemente disponibilizavam suas casas para os homens do IRA utilizarem, normalmente para se esconderem das autoridades britânicas. O apoio do povo aos rebeldes vinha, em grande parte, do desgosto nutrido devido as represálias do governo britânico contra as atividades terroristas das facções irlandesas.[41]

Entre 1919 e meados de 1920, Éamon de Valera visitou os Estados Unidos para tentar buscar mais apoio político a causa. Ao retornar, ele pediu para que a Dáil insistisse com o IRA para que eles abrissem mão das ações terroristas de emboscada e assassinatos, que eram usadas pelos britânicos como arma de propaganda contra os republicanos. Ele preferiria ações militares mais convencionais. A proposta, contudo, foi dispensada pois acreditava-se que bater de frente com os ingleses de forma convencional seria 'suicídio'.[26]

Lei marcial[editar | editar código-fonte]

Um grupo de militares da "Black and Tans" e da "Divisão de Auxiliares" em Dublin (abril de 1921).

Os britânicos responderam ao aumento da violência na Irlanda aumentando sua presença na ilha. Relutante em colocar forças militares regulares em peso no país, eles criaram duas unidades paramilitares para ajudar a RIC. A milícia Black and Tans foi uma das primeiras organizações criadas e se tornaria uma das mais ativas no conflito. Com cerca de sete mil homens, eles eram compostos, em sua maioria, por ex-soldados britânicos, muitos veteranos da Primeira Guerra Mundial. Mandados para a Irlanda em 1920, a maioria destes recrutas vinham de cidades inglesas ou escocesas. Apesar de oficialmente parte da RIC, em realidade eles eram uma unidade paramilitar totalmente independente. Eles rapidamente ganharam uma reputação muito ruim de indisciplina e de beber muito, e acabaram prejudicando mais ainda a simpatia do povo para com a administração britânica. Em resposta as ações cometidas pelo IRA, no verão de 1920, os homens da "Tans" queimaram e saquearam diversas cidades pela Irlanda, incluindo Balbriggan, Trim, Templemore e outras. Eles também passaram a ser acusados de brutalizar as populações de vários municipios.[42]

Em julho de 1920, uma nova força militar, a chamada Divisão Auxiliar, que consistia de 2 215 combatentes (a maioria ex-militares britânicos), chegaram na Irlanda. A reputação dos Auxiliares era tão ruim quanto a dos Tans devido aos abusos cometidos contra a população civil irlandesa, contudo eles eram considerados mais eficientes em combate. A política de represálias foi famosamente satirizada pelo lorde Hugh Cecil quando ele disse: "Parace que concorda-se que não existe essa coisa de represálias, mas ela está sendo eficiente".[43]

Em 9 de agosto de 1920, o Parlamento Britânico aprovou o "Ato de Restauração da Ordem na Irlanda de 1920". Esta lei substituía os julgamentos com juris por cortes marciais em áreas onde as atividades do IRA eram mais regulares. Em 10 de dezembro de 1920, lei marcial foi proclamada nos condados de Cork, Kerry, Limerick e Tipperary em Munster; em janeiro de 1921, ela foi estendida ao resto de Munster nos condados de Clare e Waterford, e também em Kilkenny e Wexford em Leinster. A maioria dos tribunais civis foram suspensos e substituidos por tribunais militares. Além disso, os poderes de cortes marciais foram estendidos para toda a população e as forças de segurança tinham poderes de prender qualquer um que quisessem e até executar pessoas sem julgamento. Finalmente, o pagamento governamental e o repasse de recursos à regiões controladas pela Sinn Féin foram suspensos. Estas ações são interpretadas pelos historiadores como uma escolha do primeiro-ministro inglês, David Lloyd George, de tentar enfraquecer a rebelião na Irlanda ao invés de tentar negociar diretamente com as lideranças republicanas. Como resultado, a violência e os combates se intensificaram no verão seguinte e chegaram ao seu ápice entre novembro de 1920 e julho de 1921.[44]

Intensificação dos combates: Outubro–Dezembro de 1920[editar | editar código-fonte]

Homens da inteligência britânica enviados a Irlanda durante a guerra. Conhecidos como Cairo Gang, muitos deles foram assassinados em 21 de novembro de 1920 durante uma série de ataques perpetrados pelo IRA. Irlandeses que ajudavam os ingleses também se tornaram alvos dos guerrilheiros republicanos.

Uma sucessão de eventos acabaram por aumentar a violência no país ao fim de 1920. Primeiro, o lorde prefeito de Cork, Terence MacSwiney, morreu durante uma greve de fome na Prisão de Brixton, em Londres, enquanto outros prisioneiros do IRA, como Joe Murphy e Michael Fitzgerald, também morreram em Cork devido a greves de fome. Então, em novembro de 1920, houve um dia sangrento em Dublin.[6]

Em uma manhã de novembro de 1920, "O Esquadrão" do IRA, liderado por Michael Collins, tentou eliminar, em uma única ação, o coração da inteligência britânica em Dublin. Diversos agentes e espiões ingleses foram atacados. Registra-se que ao menos dezenove pessoas foram baleadas, sendo que quatorze morreram e outras cinco ficaram feridas. A maioria eram oficiais britânicos, policiais ou civis que colaboravam com a ocupação. Entre os mortos, estavam os homens da chamada "Cairo Gang" (que era um grupo de agentes da MI-6) e oficiais das cortes marciais.[6]

Em resposta a este ataque do IRA, Auxiliares e outros paramilitares britânicos partiram em caminhões para o estádio Croke Park, em Dublin, durante uma partida de futebol gaélico e abriram fogo contra a multidão que assistia o jogo. Ao menos quatorze civis foram mortos, incluindo o popular jogador Michael Hogan, e outras sessenta e cinco pessoas foram feridas.[45] Dias depois, dois agentes republicanos, Dick McKee e Peadar Clancy, além de um amigo, Conor Clune, foram presos e sumariamente executados no Castelo de Dublin. A administração local afirmou que os homens foram baleados ao tentar fugir, afirmação esta rejeitada pelos nacionalistas irlandeses que acreditavam que eles foram, na verdade, presos, torturados e mortos sem julgamento. Este episódio ficou conhecido como "Domingo Sangrento" ("Bloody Sunday") e teve repercussão muito ruim dentro e fora da Irlanda.[46] Vários países, como os Estados Unidos (que tinha uma enorme população de descendentes de irlandeses), condenaram a ação violenta das forças britânicas e até parlamentares ingleses começaram a questionar a conduta de suas tropas na guerra.[47]

Em 28 de novembro de 1920, uma semana depois do Domingo Sangrento em Dublin, uma unidade do IRA em Cork emboscou uma patrulha de Auxiliares ingleses em Kilmichael, matando cerca de dezessete dos dezoito homens que estavam na coluna. Estas ações aumentaram a violência na região. Em resposta, os condados de Cork, Kerry, Limerick e Tipperary – todos na província de Munster — foram colocados sob lei marcial em 10 de dezembro. Outras regiões também foram afetadas por esta lei semanas depois. Pouco tempo depois, em janeiro de 1921, as "represálias oficiais" foram sancionadas pelos britânicos e em um incidente, sete casas foram queimadas em Midleton, Cork, por soldados ingleses. Em 11 de dezembro, o centro da cidade de Cork foi queimado pelos Black and Tans, que também dispararam contra os bombeiros que tentavam apagar o fogo. Esta ação seria uma represália a uma emboscada do IRA na manhã do mesmo dia, que terminou com a morte de um militar inglês e deixou outros onze feridos.[48]

Auge da violência: Dezembro de 1920 – Julho de 1921[editar | editar código-fonte]

A Custom House em Dublin. Ela foi queimada pelo IRA em 1921, mas foi reconstruida anos depois pelo Estado Livre Irlandês.

Durante os últimos meses do conflito houve um crescimento do número de mortos. As fatalidade somaram, apenas entre janeiro e julho de 1921, mais de mil, incluindo policiais da RIC, militares britânicos, voluntários do IRA e civis. Isso representa um total de 70% no número de mortes nos primeiros dois anos de guerra. Além disso, cerca de 4 500 membros ou simpatizantes do IRA foram presos neste período. No meio de toda esta violência, a Dáil formalmente declarou guerra ao Reino Unido em março de 1921. Entre 1 de novembro de 1920 e 7 de junho de 1921, vinte e quatro pessoas foram executadas pelos ingleses.[49] Em 1 de fevereiro, a primeira execução sob a lei marcial de um homem do IRA foi autorizada. Cornelius Murphy, de Millstreet, Cork, foi morto por um pelotão de fuzilamento. Ao fim do mesmo mês, mais seis pessoas foram executadas, apenas em Cork.[50]

Em 19 de março de 1921, Tom Barry e um grupo de cem homens do IRA combateram cerca de mil e duzentos soldados britânicos – a Emboscada de Crossbarry. Esta foi uma das maiores batalhas convencionais da guerra. Os homens de Barry conseguiram evitar serem encurralados e conseguiram furar o cerco inglês. Ao todo, trinta militares ingleses e seis militantes irlandeses republicanos foram mortos. Dois dias depois, em 21 de março, os rebeldes atacaram uma linha ferroviária em Headford, perto de Killarney. Cerca de vinte militares britânicos foram mortos ou feridos, e ao menos dois homens do IRA e três civis também perderam a vida. Poucos combates na guerra foram batalhas em larga escala, sendo que o IRA tinha muito mais sucesso em emboscadas de pequena escala. Uma paranoia com relação a informantes dentro do movimento republicano levou o IRA a executar muitos irlandeses suspeitos de colaborações com as forças britânicas.[49]

Em 25 de maio de 1921, centenas de combatentes do IRA atacaram e queimaram a The Custom House (prédio considerado o centro do governo britânico na Irlanda) que fica no centro de Dublin. Simbolicamente, esta ação pretendia mostrar aos ingleses que seu governo sobre a ilha era inaceitável e insustentável. Contudo, de um ponto de vista militar, foi um desastre. Militares britânicos expulsaram os membros do IRA da área, matando cinco deles e prendendo outros oitenta.[51] Isto mostrou que o IRA não estava pronto, treinado ou equipado para enfrentar as forças inglesas em um combate convencional. A chamada "Brigada de Dublin" do Exército Republicano Irlandês realizou ao menos cento e sete ataques na cidade em maio e outros 93 em junho, antes de diminuir o volume de ações e emboscadas. A redução nas atividades do IRA deveu-se, principalmente, a falta de suprimentos, armas e outros materiais bélicos, sendo que em julho de 1921 a situação de falta de munição começou a ficar crítica. Apesar de toda a eficiência da luta de guerrilha, os republicanos, como Richard Mulcahy apontou, falharam em "expulsar o inimigo (os britânicos) da ilha".[52]

Combatentes do IRA com suas armas em 1921.

Ainda assim, em meados de 1921, as ações do IRA, que não foram bem sucedidos em derrotar os ingleses, conseguiram coloca-los em um impasse. Muitos políticos em Londres e a população em geral no Reino Unido começou a questionar se o preço da guerra valia a pena. O governo britânico também começou a concluir que derrotar o IRA militarmente talvez não fosse possível.[53] O fracasso da administração britânica em acabar com os guerrilheiros irlandeses teve repercussões nas eleições de 13 de maio de 1921. Nas eleições gerais para o Parlamento do Sul da Irlanda, a Sinn Féin ganhou 124 dos 128 assentos, mas novamente os parlamentares se recusaram em assumir seus mandatos sob a prerrogativa inglesa. Pelos termos do Ato do Governo da Irlanda de 1920, o Parlamento do Sul foi então dissolvido e toda a autoridade política da Irlanda do Sul passou para as mãos do Lorde Tenente (ajudado por assessores indicados pela Coroa). Entre os dias 14 e 15 de maio, o IRA assassinou quinze policiais. A violência pelo país continuou nos dias seguintes. Isso mostrou um fracasso das políticas inglesas para restabelecer o controle e a lei na ilha irlandesa. Em junho de 1921, oficiais do governo britânico, em um movimento inédito na guerra, contactaram a Sinn Féin para abrir negociações.[6]

Perto do fim do conflito, muitos líderes republicanos, incluindo Michael Collins, estavam convencidos de que se a guerra continuasse por mais tempo a situação do IRA ficaria crítica devido a falta de suprimentos, especialmente munição. Por causa disso, muitos queriam "levar a guerra até a Inglaterra". Foi decidido que alvos de importância econômica seriam priorizados, como os portos em Liverpool. Segundo os britânicos, cerca de dezenove armazéns foram queimados por lá pelo IRA. Contudo, outros planos de novos ataques tiverem de ser abandonados devido a trégua que fora convocada.[54]

Trégua: Julho–Dezembro de 1921[editar | editar código-fonte]

As hostilidades terminaram em 11 de julho de 1921 quando uma trégua foi convocada. O conflito havia chegado a um impasse. Anteriormente, o primeiro-ministro britânico, David Lloyd George, havia insistido que o IRA entregasse suas armas como uma pré condição para conversações de paz. Contudo, o líder do governo inglês começou a ser pressionado pelo parlamento, especialmente pelo líder da oposição, Herbert Henry Asquith, pelo Partido Liberal, pelo Partido Trabalhista e pelo Trades Union Congress, e então a trégua acabou sendo chamada.[55]

Do ponto de vista britânico, parecia que a campanha de guerrilha do IRA poderia durar indefinidamente e seria necessário um alto custo em vidas e dinheiro pra reassumir o controle total da Irlanda. Mais importante, o governo inglês estava sofrendo criticas severas de dentro e fora do país devido as ações de suas forças armadas na ilha vizinha. Em 6 de junho de 1921, os britânicos fizeram seu primeiro gesto conciliatório ao revogar a política de queimar casas em represálias. Por outro lado, vários líderes rebeldes e particularmente Michael Collins, achavam que o IRA não poderia seguir com a guerra a todo vapor indefinidamente. Eles estavam sendo acuados devido a chegada de mais brigadas de soldados profissionais ingleses a Irlanda e pela crescente falta de armas e munição.[55]

Uma multidão se aglomera na Mansion House, em Dublin, dias antes da formalização da trégua.

Os movimentos iniciais que levaram a trégua são creditados a três pessoas: o rei Jorge V, o primeiro-ministro da África do Sul general Jan Smuts e ao primeiro-ministro inglês David Lloyd George. O rei Jorge já havia expressado ao governo sua infelicidade com o comportamento dos Black and Tans na Irlanda e ficou insatisfeito com o discurso que foi preparado para ele para ser dado na abertura do Parlamento da Irlanda do Norte. Smuts, um amigo próximo do rei, disse que o discurso poderia ser usado para reforçar o apelo para uma reconciliação na Irlanda. Jorge V pediu para ele anotar suas ideias. Smuts assim o fez e deu uma cópia das sua anotações ao rei e a Lloyd George. Lloyd então convidou Smuts para uma reunião de gabinete de sua administração para discutir a situação. Foi então acertado que o rei daria sim um 'discurso conciliatório'. Ele acabou sendo feito em Belfast, no dia 22 de junho, e foi bem recebido por ambos os lados. Em uma parte, o rei disse: "aos irlandeses, parem. Estiquem suas mãos a tolerância e a conciliação, para esquecer e perdoar, e para se juntar para trazer a terra que amam a uma era de paz, contentamento e boa vontade".[56]

Em 24 de junho de 1921, o gabinete do conselho de governo britânico decidiu propor conversas de paz a liderança da Sinn Féin. Liberais e Unionistas concordaram que as negociações fortaleceriam a posição do governo caso os rebeldes republicanos se recusassem a conversar. Austen Chamberlain, líder do Partido Unionista, disse que o "discurso do rei deve ser seguido e observado como uma última tentativa de se fazer paz antes de irmos até as últimas consequências com a lei marcial". Aproveitando o momento, Lloyd George escreveu para Éamon de Valera como "o líder escolhido pela maioria da Irlanda do Sul" e pediu uma conferência. A Sinn Féin respondeu afirmando que concordava com as negociações. De Valera e Lloyd então firmaram a trégua para encerrar a luta e assim iniciar as conversações. Em 11 de julho, a trégua entrou em vigor oficialmente. As negociações foram atrasadas devido a exigências do governo britânico para que o IRA se desarmasse, mas o pedido foi negado. Os republicanos concordaram em cessar todas as ações de guerrilha, contanto que os ingleses ficassem nos quartéis e não saissem.[57]

Muitos oficiais do IRA interpretaram a trégua como apenas uma pausa e continuaram com suas preparações e com o recrutamento e treinamento dos voluntários. Os ataques da RIC e do exército britânico também não cessaram completamente. Entre dezembro de 1921 e fevereiro do ano seguinte, foram reportados ao menos oitenta ataques pelo IRA contra policiais, deixando ao menos doze mortos. Em 18 de fevereiro de 1922, unidades de militantes republicanos, liderados por Ernie O'Malley, atacaram um quartel da RIC em Clonmel, fazendo quarenta oficiais de polícia prisioneiros e apreenderam seiscentas armas e muita munição. Em abril de 1922, em Dunmanway, um grupo de republicanos irlandeses mataram dez supostos informantes da polícia em Cork, como represália ao assassinato de um dos seus homens na cidade. Os protestantes também passaram a ser alvos do IRA, pois a maioria simpatizava com os britânicos. Mais de cem famílias de protestantes fugiram da região de Cork perto do começo da trégua.[58]

Muitos oficiais do IRA continuariam a lutar, mesmo após a assinatura de um tratado entre a Inglaterra e a Irlanda. Isso seria um dos fatores que levariam a guerra civil que assolaria o país meses depois.[59]

Tratado[editar | editar código-fonte]

As negociações que se iniciaram após a decretação da trégua resultaram no Tratado Anglo-Irlandês (6 de dezembro de 1921), que foi ratificado pela Dáil Éireann em 7 de janeiro de 1922, dando assim legitimidade perante a lei da República Irlandesa. Pouco tempo depois foi aprovado pelo Parlamento da Irlanda do Sul, tornando o documento legítimo perante a lei do regime britânico na ilha. Por fim, o tratado também foi ratificado por ambas as casas do parlamento inglês. Nascia assim o Estado Livre Irlandês (em irlandês: Saorstát Éireann ou em inglês: Irish Free State).[60]

O tratado também permitiu que a Irlanda do Norte, que havia sido criada pelo Ato do Governo da Irlanda de 1920, optasse, se quisesse, por não fazer parte do Estado Livre, o que eles o fizeram em 8 de dezembro de 1921. Conforme concordado, uma comissão foi formada para decidir precisamente qual seria a fronteira da Irlanda do Sul e do Norte. Os negociadores republicanos entendiam que a comissão refaria a fronteira de acordo com os desejos dos nacionalistas locais ou dos unionistas. Desde 1920, eleições locais no norte da Irlanda normalmente pendiam para o lado dos nacionalistas. Michael Collins, um dos responsáveis pelo tratado, queria moldar as fronteiras do norte para tornar aquela parte do país inviável economicamente. A comissão porém não mudou as divisões territoriais do país; em troca, a dívida financeira da jovem nação para com a Grã-Bretanha seria perdoada, segundo os termos do acordo.[61]

W. T. Cosgrave
O primeiro presidente do Estado Livre.

Um novo sistema de governo foi criado para o Estado Livre Irlandês. Durante o primeiro ano, dois governos paralelos existiam de fato; a Aireacht, que respondia a Dáil e era liderada pelo presidente Griffith. E também havia o Governo Provisório, que respondia a Casa dos Comuns da Irlanda do Sul e era apontada pelo Lorde Tenente governador. Por fim, o Lorde FitzAlan apontou Collins como o chefe do Governo Provisório. Pela teoria legal britânica, o governador inglês da ilha se encontrou com Collins para o "beijar de mãos". Na teoria legal republicana, eles se encontraram para que Michael aceitasse a rendição do Castelo de Dublin. Assim, após as cerimônias, 700 anos de governo inglês na ilha chegavam finalmente a um fim.[62]

A maioria da liderança do movimento irlandês de independência eram a favor dos termos do tratado, pelo menos naquele momento, apesar de muitos republicanos fanáticos não concordarem. O líder revolucionário Liam Lynch e a maioria dos veteranos da guerra de independência do IRA se recusaram a aceitar o tratado e em março de 1922 repudiaram a autoridade da Dáil e do novo Estado Livre, acusando-os de trair os ideais da República.[63] A facção anti-tratado do IRA era apoiado pelo ex auto proclamado presidente da República Irlandesa, Éamon de Valera, e pelos ministros Cathal Brugha e Austin Stack.[1]

Enquanto a violência no Norte continuava, a situação no Sul também ficava tensa enquanto a Dáil e o IRA se dividiam entre apoiar ou não o tratado. Em abril de 1922, uma executiva de oficiais do Exército Republicano Irlandês que repudiavam o acordo com os ingleses e também não aceitavam a autoridade do Governo Provisório se reuniram. Estes republicanos afirmavam que a Dáil não tinha o direito de desestabelecer a República Irlandesa. Então, um grupo de membros radicais do IRA invadiram diversos prédios públicos em Dublin para tentar desfazer o tratado e reiniciar a guerra contra os britânicos. Este foi o primeiro de uma série de confrontos entre forças contrárias e a favor do tratado. Em junho de 1922, querendo firmar o Estado Livre Irlandês e garantir sua sobrevivência, e ainda sob pressão do governo inglês, Michael Collins e suas tropas atacaram os rebeldes por toda a Dublin, o que instigou as hostilidades pelo país.[64]

A subsequente Guerra Civil Irlandesa, que durou até meados de 1923, custou a vida de vários personagens notáveis da guerra de independência, incluindo o líder do Governo Provisório, Michael Collins, do ex-ministro Cathal Brugha e dos republicanos anti-tratado Harry Boland, Rory O'Connor, Liam Mellows, Liam Lynch e vários outros. O número de mortos neste conflito nunca foi estimado com precisão, mas alguns acreditam que seria maior do que as perdas totais sofridas durante a guerra contra a Inglaterra. O presidente da Dáil, Arthur Griffith, também morreu durante o conflito, mas de derrame.[1] Após a morte de Griffith e de Collins, W. T. Cosgrave se tornou o novo chefe de governo. Em 6 de dezembro de 1922, o Estado Livre Irlandês passou a existir oficialmente e Cosgrave se tornou o primeiro presidente do Conselho Executivo (Taoiseach), que acabou se tornando o primeiro governo irlandês independente reconhecido internacionalmente.[49]

A guerra civil oficialmente terminou em 1923 e terminou com a derrota das forças anti-tratado. O novo país se tornou uma nação praticamente independente, embora ainda fizesse parte do Império Britânico como um domínio, com a autoridade da nação ainda investida na figura do rei inglês mas com o controle do país de facto caindo nas mãos do governo irlandês eleito pela casa baixa da Câmara, a chamada Dáil Éireann. O Estado ainda teria um sistema judicial independente e um nível de independência interna que não excedeu o que os republicanos que lutavam pela independência queriam. Na verdade, o "Saorstat Eireann" (como o Estado Livre era chamado) era, de fato, o título usado pela República Irlandesa na proclamação do governo provisório em 1916. Em 1937, cerca de quinze anos após a independência do país, uma nova constituição seria escrita, transformando a Irlanda em uma república, criando assim o atual Estado Irlandês.[49]

Evacuação das forças britânicas[editar | editar código-fonte]

Um soldado de cavalaria inglês deixando Dublin, em 1922.

Em outubro de 1921, haviam pelo menos 57 mil homens do exército britânico na Irlanda, junto com 14 200 policiais da RIC e outros 2 600 auxiliares e paramilitares da Black and Tans. A evacuação em larga escala dos militares ingleses e seus equipamentos começaram de fato em 12 de janeiro de 1922, após a assinatura do tratado, e demorou cerca de um ano para ser completada. Foi uma grande operação logística, contudo, após alguns meses, o Castelo de Dublin e os quartéis de Beggar foram transferidos para o controle do governo provisório irlandês. A Royal Irish Constabulary (RIC) foi dispensada e oficialmente extinta em 31 de agosto de 1922. Em novembro do mesmo ano, o número de soldados ingleses na ilha era de apenas 6 600, concentrados em sua maioria em Dublin. Em dezembro, os últimos prédios e instalações militares britânicas na Irlanda foram abandonadas e transferidas para controle do novo exército irlandês. As últimas guarnições de estrangeiras deixaram a ilha na mesma noite.[65]

Perdas em vidas[editar | editar código-fonte]

Segundo historiadores atuais, mais de duas mil pessoas foram mortas na guerra. Durante a sua fase de guerrilha (1919–21) os embates entre militantes republicanos e forças inglesas terminaram com mais de 3 400 baixas infligidas (entre mortos e feridos). Dos quais, 363 eram policiais, 261 soldados profissionais do exército britânico, ao menos 550 voluntários do IRA (incluindo 24 execuções oficiais) e pelo menos 200 civis. Outras fontes afirmam que o número de mortos pode ter sido bem mais alto.[1]

Referências

  1. a b c d (Hopkinson, Irish War of Independence pp. 201–202).
  2. a b Hopkinson, Irish War of Independence.
  3. A guerra e frequentemente descrita como a "Guerra de independência da Irlanda" na Irlanda e como a "Guerra Anglo-Irlandesa" na Grã-Bretanha, a "Guerra Tan" pelos anti-Treaty republicanos e foi conhecida pelos contemporâneos como "the Troubles", (não confundir com o último conflito na Irlanda do Norte, que é também descrito como "the Troubles".
  4. Hugh F. Kearney. Ireland: Contested Ideas of Nationalism and History (NYU Press, 2007)
  5. Patrick J. Duffy, The Nature of the Medieval Frontier in Ireland, 1982–83, pp. 21–38; Gaelic Ireland c.1250-c.1650:Land, Lordship & Settlement, 2001
  6. a b c d e f Collins, M. E. (1993), Ireland 1868–1966, Educational Company, ISBN 0-86167-305-0.
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  8. Mícheál Ó Súilleabháin. "The Mouth of the Glen" in Where Mountainy Men Have Sown. p39-45, 1965
  9. Sinn Féin 100 years of unbroken continuity 1905–2005. Página acessada em 24 de novembro de 2013.
  10. Tim Pat Coogan, The I.R.A., 1970. ISBN 0-00-653155-5
  11. Ireland, 1798–1998: Politics and War (A History of the Modern British Isles) por Alvin Jackson (ISBN 978-0631195429), p. 244.
  12. Breen, Dan (1981), My fight for Irish freedom, Anvil, p. 50, ISBN 978-0-900068-58-4, http://books.google.com/?id=dZgNAAAAIAAJ&q=%22the+dead+men,+Constables+James+McDonnell+and+Patrick+O%27Connell.%22&dq=%22the+dead+men,+Constables+James+McDonnell+and+Patrick+O%27Connell.%22 
  13. Police Casualties in Ireland, 1919–1922 por Richard Abbott (ISBN 978-1856353144), p. 49.
  14. História da Irlanda, maio de 2007, p. 56.
  15. Sean Treacy and the 3rd. Tipperary Brigade por Desmond Ryan (1945), p. 74.
  16. The Irish War of Independence por Michael Hopkinson (ISBN 978-0773528406), p. 115.
  17. A Military History of Ireland por Thomas Bartlett and Keith Jeffery (ISBN 978-0521629898), p. 407.
  18. Michael Collins: A Life por James Mackay (ISBN 1-85158-857-4), p. 106.
  19. Dáil Éireann – Volume 1 – 10 April 1919.
  20. Dáil Éireann – Volume 1 – 11 March 1921.
  21. The IRA por Tim Pat Coogan (ISBN 0-00-653155-5), p. 25.
  22. Dáil Éireann – Volume 1 – 25 January 1921.
  23. Hopkinson, Irish War of Independence, p. 26.
  24. M.E. Collins, Ireland 1868–1966, p. 254.
  25. The Irish War por Tony Geraghty (ISBN 978-0-00-638674-2), p. 330.
  26. a b c d Hopkinson, Irish War of Independence, p. 42.
  27. Junho de 1921, Hopkinson, Irish War of Independence, p. 49.
  28. Hopkinson, War of Independence, p. 26.
  29. Hopkinson, Irish War of Independence pp. 201–202.
  30. The Irish Times, "The Limerick soviet of 1919". Página acessada em 29 de novembro de 2013.
  31. Charles Townshend, "The Irish Railway Strike of 1920: Industrial Action and Civil Resistance in the Struggle for Independence", Irish Historical Studies 21, no. 83 (Maio de 1979): 265–82.
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  33. White, Gerry; O'Shea, Brendan (2006). The Burning of Cork. Mercier Press. pp. 104–110. ISBN 1-85635-522-5.
  34. M.E. Collins, Ireland 1868–1966, p. 258.
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  38. Irish Self-Determination League of Great Britain, 1919–24.
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  41. Comerford, Richard (2003), Ireland: Inventing the Nation, Hodder.
  42. The Black and Tans - Bennet, Richard - 1959, página 222.
  43. Richard Bennett, The Black and Tans, E Hulton and Co Ltd, London, 1959, p. 107, ISBN 1-56619-820-8.
  44. Ainsworth, John S.. British Security Policy in Ireland, 1920–1921: A Desperate Attempt by the Crown to Maintain Anglo-Irish Unity by Force. Perth, Austrália: Murdoch University, 2000. p. 5.
  45. Michael Collins por Tim Pat Coogan (ISBN 0-09-968580-9), p. 144.
  46. The Secret Army: The IRA por J. Bowyer Bell (ISBN 1560009012), p. 23.
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  48. Tom Barry: IRA Freedom Fighter por Meda Ryan (ISBN 1-85635-480-6), p. 98.
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  56. Britain Between the Wars, 1918–40 por Charles Loch Mowat (ISBN 978-0416295108), pp. 84–85.
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  62. O'Connor, Frank. The Big Fellow. [S.l.: s.n.], 1937. ISBN 0-312-18050-0
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • M.E. Collins, Ireland 1868-1966 (Educational Company 1993)
  • F.S.L. Lyons, Ireland Since the Famine
  • Dorothy MacCardle, The Irish Republic (Corgi paperback)
  • Lord Longford, Peace by Ordeal
  • Michael Hopkinson, The Irish War of Independence (Gill & Macmillan, 2002)
  • Michael Hopkinson, Green against Green, the Irish Civil War (Gill & Macmillan, 2004)
  • Peter Hart, The IRA at War 1916-1923 (Oxford: Oxford University Press, 2003 ISBN 0-19-925258-0) e The IRA and Its Enemies: Violence and Community in Cork, 1916-1923 (OUP 1998, ISBN 0-19-820806-5)
  • Meda Ryan, Tom Barry: IRA Freedom Fighter (Cork: Mercier Press, 2003). ISBN 1-85635-425-3
  • Richard English, Armed Struggle, a History of the IRA, (MacMillan 2003)
  • Richard Comerford, Ireland Inventing the Nation (Hodder 2003).

Ligações externas[editar | editar código-fonte]