Guerra das Areias

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Guerra das Areias
Data Outubro de 1963
Local Antiga colónia francesa de Saoura (hoje Tindouf, Béchar e Adrar.)
Desfecho Fecho da fronteira sul de Figuig, Marrocos/Béni Ounif, Argélia
Mudanças
territoriais
nenhum
Combatentes
 Marrocos  Argélia

A Guerra das Areias foi um conflito fronteiriço entre Marrocos e Argélia em Outubro de 1963, na sequência da reivindicação por parte de Marrocos das províncias de Tindouf e Béchar que a França havia anexado à Argélia Francesa décadas antes.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Antes da colonização francesa no século XIX, partes do sul e oeste da Argélia pertenciam a Marrocos.[1] Na década de 1930 e depois na década de 1950, a França integrou-as no que era conhecido como o Departamento Ultramarino da Argélia Francesa, nas áreas de Tindouf e Béchar. Quando Marrocos se tornou independente, quis reaver a soberania sobre essas áreas. Num esforço para cortar o apoio que o movimento de libertação da Argélia tinha em Marrocos, a França ofereceu-se para devolver essas áreas em troca de Marrocos cancelar o seu apoio às guerrilhas. O rei Mohammed V de Marrocos recusou-se a fazer tal acordo com França, nas costas dos "irmãos argelinos", e acordou com o governo provisório argelino e seu líder nacionalista Ferhat Abbas, que quando a Argélia ganhasse a sua independência renegociaria o estatuto das áreas de Tindouf e Béchar.

Todavia, logo depois da independência da Argélia, e antes de que o acordo com Mohammed V pudesse ser formalmente ratificado, Abbas foi afastado da Front de Libération Nationale por uma coligação apoiada pelos militares e conduzida pelo líder radical Ahmad Ben Bella. Os últimos e sangrentos anos da rebelião da FLN foram combatidos essencialmente para prevenir a França de dividir as regiões no Deserto do Saara e entregá-las a Marrocos, e assim nem Ben Bella nem os restantes dirigentes da FLN estavam particularmente receptivos às reclamações de Marrocos. Os argelinos assim não reconheceram as reclamações históricas e políticas de Marrocos, e, pelo contrário, encararam as demandas marroquinas como tentativas de agastar o recém-independente vizinho e pressioná-lo quando estava ainda fraco em termos de consolidação de estruturas de defesa. A Argélia estava ainda a recuperar da longa e desgastante Guerra da Argélia, e o governo mal tinha controlo sobre a totalidade do território - significativamente, uma rebelião dos Berberes anti-FLN sob a liderança de Hocine Aït Ahmed tinha-se iniciado pouco antes nas montanhas da Cabília. A tensão escalava, e nenhum lado queria ceder.

A guerra[editar | editar código-fonte]

Escaramuças ao longo da linha de fronteira acabaram por dar origem a um confronto com combates intensos em redor dos oásis de Tindouf e Figuig. O exército da Argélia, acabado de se formar a partir da guerrilha da FLN (a ALN, Armée de Libération Nationale) dispunha quase somente de equipamento e armas ligeiras.[2] Tinha, no entanto, dezenas de milhar de veteranos com experiência de guerra, prontos para o combate, e motivados pelo governo militar pós-Guerra da Argélia. Por outro lado, enquanto o exército moderno e bem-equipado de Marrocos era superior no campo de batalha,[1] [3] não conseguiu penetrar na Argélia.

Os aliados da Argélia foram a União Soviética, Cuba e Egipto. Marrocos recebeu uma ajuda mais discreta de França e dos Estados Unidos da América.

A guerra entrou em impasse e foi parada com a intervenção da Organização de Unidade Africana (OUA) e a Liga Árabe, e terminou em cerca de três semanas. A OUA conseguiu obter um cessar-fogo em 20 de Fevereiro de 1964[4] . Um acordo de paz foi feito então pela mediação da Liga Árabe e uma zona desmilitarizada instituída, embora a hostilidade permanecesse.

Resultado[editar | editar código-fonte]

A Guerra das Areias foi a base de uma permanente e por vezes hostil rivalidade entre Marrocos e Argélia, exacerbada pelas diferenças políticas entre a conservadora monarquia marroquina e o revolucionário e nacionalista árabe governo militar argelino[1] [5] . A marcação final da fronteira na área de Tindouf apenas foi acordada muitos anos depois, num processo de negociação que se estendeu de 1969 a 1972, com a Argélia a oferecer a Marrocos a partilha dos lucros do minério de ferro de Tindouf em troca do reconhecimento de fronteiras.

Tanto em Marrocos como na Argélia, os governos usaram a guerra para denominar os movimentos de oposição como antipatrióticos. A UNFP marroquina e a argelina-berbere FFS de Aït Ahmed sofreram ambas com esta atitude. No caso da UNFP, o seu líder Mehdi Ben Barka alinhou com a Argélia, e foi condenado à morte in absentia. Na Argélia, a rebelião armada da FFS na Cabília ficou parada, porque os comandantes desertaram para se juntar às forças armadas nacionais contra Marrocos.

Muitos argumentaram que a Guerra das Areias e o seu amargo legado foram um factor importante na atitude da Argélia em relação ao conflito no Saara Espanhol no início da década de 1970. Em 1975, Marrocos tomou o controlo desse território, agora conhecido como Saara Ocidental, enquanto a Argélia começou a apoiar política e militarmente a Frente Polisário, a guerrilha independentista Sahrawi.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Pennell, C. R. (2000), Morocco since 1830. A History, New York University Press (ISBN 0-8147-6676-5)
  • Stora, Benjamin (2004), Algeria 1830-2000. A Short History, Cornell University Press (ISBN 0-8014-3715-6)

Referências