Guerra do Uruguai

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Guerra do Uruguai
Siege of Paysandu 05.jpg
A fortaleza da cidade de Paysandú após o cerco em 1865.
Data 10 de agosto de 1864 a 20 de fevereiro de 1865
Local Uruguai e Império do Brasil
Desfecho Vitória brasileira-colorada
Combatentes
Flag of Empire of Brazil (1822-1870).svg Império do Brasil
Flag of Colorado Party (Uruguay).svg Partido Colorado
Bandera argentina unitaria marina mercante.png Partido Unitário
Flag of Uruguay.svg Uruguai
Flag of the National Party (Uruguay).svg Partido Nacional
Flag of Artigas.svg Partido Federal
Comandantes
Flag of Empire of Brazil (1822-1870).svg Pedro II
Flag of Empire of Brazil (1822-1870).svg Marquês de Tamandaré
Flag of Empire of Brazil (1822-1870).svg Barão de São Gabriel
Flag of Colorado Party (Uruguay).svg Venancio Flores
Flag of the National Party (Uruguay).svg Bernardo Berro
Flag of the National Party (Uruguay).svg Atanasio Aguirre
Flag of the National Party (Uruguay).svg Leandro Goméz
Flag of the National Party (Uruguay).svg Basilio Muñoz
   

A Guerra do Uruguai, por vezes mais conhecida como Guerra contra Aguirre, ocorreu de 10 de agosto de 1864 até 20 de fevereiro de 1865 e foi travada entre o governante Partido Blanco do Uruguai e uma aliança que consistia no Império do Brasil e o Partido Colorado uruguaio, secretamente apoiado pela Argentina. Desde a sua independência, o Uruguai tinha sido devastado por lutas intermitentes entre as facções colorada e blanca, cada uma tentando conquistar e manter o poder por sua vez. O líder colorado Venancio Flores lançou a Cruzada Libertadora em 1863, uma insurreição que visava derrubar Bernardo Berro, que presidia um governo de coalizão fusionista Colorado–Blanco. Flores foi ajudado pela Argentina, cujo presidente Bartolomé Mitre forneceu-lhe suprimentos, voluntários argentinos e transporte fluvial para as tropas.

O movimento fusionista ruiu quanto os colorados abandonaram a coalizão para se juntar aos soldados de Flores. A guerra civil uruguaia rapidamente se transformou, tornando-se uma crise de âmbito internacional que desestabilizou toda a região. Mesmo antes da rebelião colorada, os blancos dentro do fusionismo buscaram uma aliança com o ditador paraguaio Francisco Solano López. O governo blanco agora exclusivamente de Berro também recebeu apoio de federalistas argentinos, que se opunham a Mitre e seus unitários. A situação deteriorou-se quando o Império do Brasil foi arrastado para o conflito. Quase um quinto da população uruguaia era considerada brasileira. Alguns se juntaram à rebelião de Flores, estimulados pelo descontentamento com as políticas governamentais dos blancos que consideravam nocivas aos seus interesses. O Brasil finalmente decidiu intervir no caso uruguaio para restabelecer a segurança das suas fronteiras no sul e sua ascendência regional.

Em abril de 1864, o Brasil enviou o ministro plenipotenciário José Antônio Saraiva para negociar com Atanasio Aguirre, que tinha sucedido Berro no Uruguai. Saraiva fez uma primeira tentativa de resolver a diferença entre blancos e colorados. Confrontado com a intransigência de Aguirre em relação às demandas de Flores, o diplomata brasileiro abandonou o esforço e ficou do lado dos colorados. Em 10 de agosto de 1864, depois que um ultimato brasileiro foi recusado, Saraiva declarou que os militares do Brasil começariam represálias exigentes. O Brasil se recusou a reconhecer um estado formal de guerra, e durante a maior parte de sua duração, o conflito armado uruguaio–brasileiro foi uma guerra não declarada.

Em uma ofensiva combinada contra redutos dos blancos, as tropas brasileiras–coloradas avançaram pelo território uruguaio, tomando uma cidade após a outra. Posteriormente, os blancos ficavam isolados em Montevidéu, a capital nacional. Diante de uma derrota certa, o governo blanco capitulou em 20 de fevereiro de 1865. A guerra de curta duração, teria sido considerada um grande sucesso para os interesses brasileiros e argentinos, houve intervenção do Paraguai em apoio aos blancos (com ataques a províncias brasileiras e argentinas), se não tivessem levado à longa e custosa Guerra do Paraguai.

Guerra Civil Uruguaia[editar | editar código-fonte]

Uruguayan war compilation.JPG
Conflitos na História do Brasil
- Império -
Primeiro Reinado
Guerra da Independência: 1822-1823
Independência da Bahia: 1821-1823
Confederação do Equador: 1824
Guerra contra as Províncias Unidas: 1825-1828
Revolta dos Mercenários: 1828
Período Regencial
Federação do Guanais: 1832
Revolta dos Malês: 1835
Cabanagem: 1835-1840
Farroupilha: 1835-1845
Sabinada: 1837-1838
Balaiada: 1838-1841
Segundo Reinado
Revoltas Liberais: 1842
Revolta Praieira: 1848-1850
Guerra contra Oribe e Rosas: 1851-1852
Ronco da Abelha: 1851-1852
Questão Christie: 1863
Guerra contra Aguirre: 1864
Guerra do Paraguai: 1864-1870
Questão Religiosa: 1872-1875
Revolta dos Muckers: 1874
Revolta do Quebra-Quilos: 1874-1875
Questão Militar: década de 1880

Conflitos blancos-colorados[editar | editar código-fonte]

A República Oriental do Uruguai, na América do Sul tinha sido, desde a sua independência em 1828, perturbada por conflitos entre o Partido Blanco e o Partido Colorado. Eles não eram os partidos políticos, no sentido moderno, mas facções que se envolviam em rebeliões mortíferas sempre que o outro dominava o governo. A nação estava profundamente dividida entre os lados colorado e blanco. Estes grupos partidários formaram-se na década de 1830 e surgiram a partir de relações clientelistas promovidas por caudilhos locais nas cidades e no campo. Em vez de uma unidade baseada em sentimentos nacionalistas comuns, cada um tinha diferentes objetivos e lealdades esclarecidas por seus respectivos quadros políticos insulares.[1]

O Uruguai tinha uma densidade populacional muito baixa e um governo fraco.[1] Os cidadãos comuns foram obrigados pelas circunstâncias a procurar a proteção de proprietários—caudilhos locais que eram colorados ou blancos e que usavam seus trabalhadores, em sua maioria cavaleiros gaúchos, como exércitos particulares. As guerras civis entre as duas facções eram brutais. Táticas duras produziram a crescente alienação entre os grupos, e incluíam a apreensão de terra, o confisco do gado e execuções.[2] [3] O antagonismo causado pelas atrocidades, juntamente com as lealdades familiares e os laços políticos, fizeram da reconciliação algo impensável. Imigrantes europeus, que vieram em grande número durante a segunda metade do século XIX, foram atraídos para um partido ou outro; ambas as partes tinham asas liberais e conservadoras, de modo que os pontos de vista sociais e políticos dos recém-chegados poderiam ser conciliados com qualquer um. Os blocos rivais impediam o desenvolvimento de uma administração central nacional amplamente apoiada.[3] [4]

Cruzada Libertadora de 1863[editar | editar código-fonte]

Cavaleiros gaúchos foram usados ​​como milicianos por caudilhos da região platina.

Na segunda metade da década de 1850, os principais membros do grupo colorado e do blanco tentaram uma reconciliação. Com a aprovação de muitos esforços de ambas as partes foram feitas políticas para a implementação do "fusionismo", que começou a mostrar resultados em cooperação nas esferas governamentais e militares.[2] [3] A tentativa de resolver o cisma sofreu um revés em 1858, quando os reacionários do Partido Colorado rejeitaram o plano. A revolta foi derrubada por Gabriel Pereira, ex-presidente colorado e do Uruguai, sob o governo fusionista. Os líderes rebeldes foram executados em Paso de Quinteros ao longo do rio Negro, o que provocou novos conflitos. Os colorados suspeitavam que o fusionismo promovesse os objetivos dos blancos ao seu próprio prejuízo e chamaram os "mártires de Quinteros" para que fossem vingados.[3] [5]

Com as fraquezas internas do fusionismo agora expostas, os colorados moveram-se para afastar os seus apoiantes do governo. Seu líder, o brigadeiro-general Venancio Flores, um caudilho e um dos primeiros defensores do fusionismo, viu-se sem meios militares suficientes para montar uma revolta sustentada e recorreu a pedir uma intervenção por parte da Argentina.[6]

Argentina era uma nação fragmentada (desde a queda do ditador argentino Juan Manuel de Rosas, em 1852), com a Confederação Argentina e o Estado de Buenos Aires brigando por supremacia.[7] Flores se aproximou do Ministro da Guerra de Buenos Aires, Bartolomé Mitre, concordando em dar o apoio aos colorados atrás de Buenos Aires em troca de assistência argentina subsequente na sua luta contra o governo fusionista em Montevidéu (capital do Uruguai).[6] Flores e suas unidades coloradas serviram Buenos Aires com determinação feroz. Eles tiveram um papel decisivo na Batalha de Pavón em 17 de setembro de 1861, em que a confederação foi derrotada e toda Argentina foi reunificada sob o governo de Buenos Aires.[8] [9]

No cumprimento de seu compromisso, o presidente argentino Bartolomé Mitre arranjou à milícia colorada, unidades voluntárias argentinas e suprimentos para serem transportados a bordo de embarcações argentinas ao Uruguai em maio e junho de 1863. Navios da marinha argentina mantiveram navios de guerra uruguaios longe da operação. De volta à sua terra natal, Flores pediu a derrubada do governo constitucional, até essa data liderado por Bernardo Berro. Flores acusou o governo de Montevidéu de ter simpatias com os blancos e emoldurou sua "Cruzada Libertadora" (como ele chamava sua rebelião) nos termos familiares de uma luta dos colorados contra os blancos. Colorados de áreas rurais aderiram aos desertores do serviço militar em resposta ao seu apelo.[10]

Crise internacional[editar | editar código-fonte]

Laços paraguaio–blanco[editar | editar código-fonte]

Buenos Aires, capital da Argentina, 1864.

Embora os colorados tivessem desertado para a insurgência de Flores, a Guarda Nacional continuou a apoiar o governo fusionista. Partidários dos blancos encheram seus postos esgotados. Eles também substituirão oficiais do exército que haviam desertado para Flores.[11] Os blancos receberam ajuda de vários Federalistas argentinos que se juntaram a sua causa. Como no Uruguai, a Argentina tinha sido um campo de batalha de partidos rivais, e a vitória de Bartolomé Mitre em Pavón em 1861 havia sinalizado o triunfo do seu Partido Unitário sobre o Partido Federal liderada por Justo José de Urquiza. Mitre negou qualquer envolvimento na rebelião de Flores, apesar de sua cumplicidade ser muito conhecida e dada como certa.[12]

As relações entre Argentina e Uruguai se agravaram, e os dois países chegaram perto de declarar guerra um contra o outro, embora nenhum dos dois podia pagar um conflito militar direto. Argentina tinha recentemente saído de uma longa guerra civil, e ainda estava lutando para reprimir uma rebelião Federalista na sua província de La Rioja. O Uruguai era muito fraco militarmente para se envolver em uma luta sem ajuda.[13] [14]

Desde 1862, os blancos fizeram aberturas repetidas para o Paraguai, governado pelo ditador Carlos Antonio López, em uma tentativa de forjar uma aliança[15] [16] que podia avançar tanto os seus interesses na região platina.[17] [18] Após a morte de Carlos Antonio López, seu filho Francisco Solano López o sucedeu como ditador paraguaio. Ao contrário do velho López, que se esforçou para evitar onerar alianças, Solano recebeu propostas dos blancos com entusiasmo. Ele acreditava que a Argentina estava trabalhando para a anexação de ambos Uruguai e Paraguai, com o objetivo de recriar o Vice-Reino do Rio da Prata, a antiga colônia espanhola que, uma vez englobou os territórios dos três países. Solano López teve, já em 1855, expressado essa preocupação, comentando com o uruguaio Andrés Lamas que "a ideia de reconstruir [o antigo vice-reinado] está na alma dos argentinos, e, como resultado, não é apenas o Paraguai que precisa ficar de guarda: o seu país, a República Oriental [do Uruguai], tem de se dar bem com a minha própria, a fim de se preparar para quaisquer eventualidades".[19] No final de 1863, Solano López foi mobilizar seu exército e estava em negociações com Urquiza, o líder dos dissidentes federalistas argentinos, para convencê-lo a juntar-se à proposta aliança do Paraguai–Uruguai.[20]

Brasil e a guerra civil[editar | editar código-fonte]

Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, c. 1865.

O desenvolvimento no Uruguai foi vigiado de perto pelo Império do Brasil,[21] que tinha interesses vitais na bacia do rio da Prata. Após Rosas cair em 1852, o Brasil tornou-se a potência regional dominante. Sua política externa incluía a subscrição secreta dos partidos de oposição no Uruguai e na Argentina, impedindo que governos fortes pudessem ameaçar a posição estratégica do Brasil na área. Empresas bancárias e comércios brasileiros também tinham empreendimentos na área, promovendo laços na região. No Uruguai, o banco dirigido por Irineu Evangelista de Sousa (então Barão e depois Visconde de Mauá) tornou-se muito fortemente envolvido em empreendimentos comerciais já que a economia dependia desta fonte continua de fluxo de capital.[22] [23]

Cerca de 18 por cento (40 000) da população uruguaia (220 000) falava português e se consideravam brasileiros e não uruguaios.[nota 1] Muitos dentro das linhas de soldados de Flores eram brasileiros, alguns vindos da província brasileira vizinha do Rio Grande do Sul.[24] [25] A vida ao longo da fronteira entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai era muitas vezes caótica, com as hostilidades em erupção entre os partidários de vários barões do gado, abigeato e assassinatos aleatórios. Grandes proprietários de terra em ambos os lados da fronteira há muito estavam em antagonismo com as políticas de Berro.[26] O presidente uruguaio tentou taxar o gado vindo do Rio Grande do Sul, além de impor restrições sobre o uso de escravos brasileiros no território uruguaio; a escravidão havia sido banida anos antes, no Uruguai.[27]

Entre os barões de terras brasileiros estavam David Canabarro e Antônio de Sousa Neto, ambos aliados de Flores e ex-rebeldes separatistas durante a Guerra Farroupilha que tinha devastado o Rio Grande do Sul de 1835 até 1845.[28] Canabarro, um comandante militar de fronteira, enganou o governo do Brasil, negando que os brasileiros estavam cruzando a fronteira para se juntar a Flores.[29] Sousa Neto foi à capital do Brasil para solicitar a intervenção imediata do governo no Uruguai, alegando que os brasileiros estavam sendo assassinados e suas fazendas roubadas.[30] O "fato de que os cidadãos uruguaios tinham apenas reivindicações válidas contra o Brasil quanto os brasileiros tinham contra o Uruguai foi ignorado", disse o historiador Philip Raine.[31] Embora Sousa Neto tinha laços com o partido político de governo, suas reivindicações, inclusive que ele poderia acumular uma força de 40 000 homens para invadir o Uruguai, não foram levadas a sério por todos.[nota 2] A crise uruguaia chegou em um momento difícil para o Brasil, que estava à beira de uma guerra a desabrochar com o Império Britânico por razões não relacionadas. O governo do Brasil decidiu intervir no Uruguai, com medo de mostrar qualquer fraqueza em face de um conflito iminente com a Grã-Bretanha, e acreditando que seria melhor para o governo central assumir a liderança, em vez de permitir que os fazendeiros brasileiros na fronteira decidissem o curso dos acontecimentos.[32]

Primeiros compromissos[editar | editar código-fonte]

Ultimato brasileiro[editar | editar código-fonte]

A fragata a vapor Amazonas serviu como parte da frota naval brasileira durante a guerra.[33]

Em 1º de março de 1864, o mandato de Berro terminou. A guerra civil em curso impedia as eleições; portanto Atanasio Aguirre, presidente do senado uruguaio e um membro da Amapolas (a ala radical do Partido Blanco) substituiu Berro, de forma interina.[34] [35] Em abril, José Antônio Saraiva foi nomeado Ministro Plenipotenciário pelo governo brasileiro e acusado de chegar rapidamente a um acordo que iria resolver as reivindicações do Brasil e garantir a segurança dos cidadãos brasileiros. Seu foco logo mudou de satisfazer condições do Brasil para um objetivo mais imediato de acertar um acordo entre os antagonistas na guerra civil, com a expectativa de que apenas um regime mais estável seria capaz de chegar a um acordo com o Brasil.[36] [37]

O governo de Montevidéu foi inicialmente relutante em considerar as propostas da Saraiva. Com o apoio do Paraguai, que viu pouca vantagem em negociar um fim à guerra civil ou na tentativa de cumprir as exigências do Brasil.[38] O fator principal, como o historiador Jeffrey D. Needell resumiu, foi a de que o "presidente uruguaio havia se recusado a resolver estes, particularmente porque os brasileiros cujas queixas estavam em causa eram aliados de Venancio Flores, um cliente dos argentinos, e um homem que estava em busca de sua derrubada."[39] A inimizade mútua entre o Brasil e seus vizinhos hispano-americanos agravaram as dificuldades, o resultado de uma longa desconfiança e rivalidade entre a Espanha e Portugal, que tinham sido transferidos para as suas ex-colônias americanas.[40] Brasil e Uruguai apresentaram aversão um pelo outro; como Robert Bontine Cunninghame Graham colocou: "os brasileiros julgaram os uruguaios como selvagens sanguinários, e os uruguaios retribuíram a sua aversão à beligerância da guerra dos brasileiros, a quem chamavam de macacos, e olhavam para cima, ao seu sangue misturado".[40]

Por fim, em julho de 1864, a diplomacia persistente de Saraiva moveu o governo uruguaio a concordar com as negociações mediadas incluindo por Edward Thornton (o ministro britânico residente em Buenos Aires), o ministro argentino das relações exteriores, Rufino de Elizalde e o próprio Saraiva.[41] Inicialmente, as negociações pareciam promissoras, mas logo atolaram. Em 4 de agosto, convencidos de que o governo, em Montevidéu não estava disposto a trabalhar em direção a um acordo, um Saraiva frustrado deu um ultimato, que os uruguaios rejeitaram. Em 10 de agosto, o ministro brasileiro informou Aguirre que os comandantes militares brasileiros receberiam ordens para começar a retaliação, marcando o início da guerra.[42]

Aliança com colorados rebeldes[editar | editar código-fonte]

O navio a vapor uruguaio Villa del Salto depois que encalhou e foi incendiado por sua tripulação.

Sob as ordens do vice-almirante Joaquim Marques Lisboa (depois Barão de Tamandaré), a frota brasileira estava estacionada em águas territoriais uruguaias. A força naval era composta de doze navios a vapor: uma fragata, seis corvetas e cinco canhoneiras.[33] Em 11 de agosto de 1864, Tamandaré, como comandante-em-chefe das forças navais e terrestres brasileiras na guerra,[43] recebeu ordens de Saraiva para iniciar as operações de retaliação.[44] Navios de guerra brasileiros foram mobilizados para as cidades uruguaias de Salto, Paysandú e Maldonado para "proteger indivíduos brasileiros".[45] E apenas os navios de guerra do Uruguai, os barcos Villa del Salto e General Artigas, seriam neutralizados. Quando Tamandaré exigiu que estes navios a vapor permanecessem em suas docas, apenas a tripulação do General Artigas obedeceu.[46]

Tamandaré criou um comando naval atribuído ao capitão de mar e guerra Francisco Pereira Pinto (mais tarde Barão de Ivinhema). Composta por duas corvetas e uma canhoneira, a divisão foi enviada para patrulhar o rio Uruguai, um afluente do Rio da Prata e parte da região platina.[33] [45] Em 24 de agosto, Pereira Pinto avistou o Villa del Salto, que estava levando tropas para lutar contra os colorados. O Villa del Salto ignorou tiros de advertência e uma demanda para se render; depois de uma corrida desesperada dos navios de guerra brasileiros, ele fugiu para águas argentinas.[47] Esta primeira batalha da guerra levou o governo uruguaio a cortar todos os laços diplomáticos com o Brasil em 30 de agosto.[48] Em 7 de setembro, Pereira Pinto encontrou novamente as velas do Villa del Salto de Salto a Paysandú. As duas corvetas brasileiras atacaram o navio uruguaio já que novamente tentou fugir para a Argentina. A batalha terminou quando o Villa del Salto encalhou perto de Paysandú, onde sua tripulação ateou fogo para evitar que caísse em mãos brasileiras.[49] Enquanto isso, o General Artigas havia sido vendido para evitar a sua captura pelos brasileiros.[50]

Para Flores, operações militares do Brasil contra o governo blanco representaram uma oportunidade inestimável, já que ele tinha sido incapaz de alcançar resultados duradouros durante a rebelião. Entrou em conversações com Saraiva, vencendo o governo brasileiro acabou, depois de prometer resolver suas reivindicações recusado pelo governo blanco. O ministro plenipotenciário brasileiro deu instruções a Tamandaré para formar uma ofensiva conjunta com o líder colorado e derrubar os blancos.[51] Em 20 de outubro, depois de uma troca rápida de cartas, Flores e o vice-almirante brasileiro formaram uma aliança secreta.[52]

Ofensiva conjunta do Colorado–Brasil[editar | editar código-fonte]

Cercos de cidades uruguaias[editar | editar código-fonte]

Os civis partindo de Paysandú durante o cerco de 1864.

A frota naval brasileira no Uruguai deveria trabalhar em conjunto com uma força terrestre brasileira. Mas meses se passaram, e o "Exército do Sul" (chamado de "Divisão de Observação", até o ultimato) estacionado em Piraí Grande (no Rio Grande do Sul) ainda não estava pronto para cruzar o território uruguaio. Seus principais objetivos eram a ocupação das cidades uruguaias de Paysandú, Salto e Melo; uma vez tomadas, elas estavam a serem entregues a Flores e seus colorados.[53]

Em 12 de outubro, uma brigada liderada pelo brigadeiro José Luís Mena Barreto separou-se do exército principal. Dois dias depois, perto da cidade brasileira de Jaguarão, a força invadiu o departamento uruguaio de Cerro Largo. Após escaramuças não conseguírem deter a sua marcha, os blancos abandonaram Melo, e a brigada entrou nesta capital de Cerro Largo por unanimidade, em 16 de outubro. Depois de entregar o controle de Melo aos colorados uruguaios, os brasileiros se retiraram em 24 de outubro, para reunirem seu Exército do Sul.[54] A próxima meta brasileira era Salto. Pereira Pinto enviou dois navios de guerra sob o primeiro-tenente Joaquim José Pinto para bloquearem a cidade. Em 24 de novembro, Flores chegou com suas tropas e começou o cerco. O coronel José Palomeque, comandante da guarnição do Uruguai, rendeu-se quase sem disparar um tiro, na tarde de 28 de novembro.[55] O exército de Flores capturou e incorporou quatro partes da artilharia e 250 homens; 300 colorados e 150 brasileiros foram deixados para trás para ocupar Salto.[56]

Paysandú, a última meta brasileira, já estava sob bloqueio por Pereira Pinto.[57] Tamandaré, que estava em Buenos Aires, até este ponto, assumiu o comando do bloqueio em 3 de dezembro. Foi executada por uma corveta e quatro canhoneiras.[58] [59] A cidade foi guarnecida por 1 274 homens e 15 canhões, sob o comando do coronel Leandro Gómez.[60] Flores, que tinha vindo de Salto, liderou uma força de 3 000 homens, em sua maioria de cavalaria.[58] Ele investiu Paysandú, a implantação de 800 soldados de infantaria, 7 canhões (3 dos quais foram saqueados), e o destaque de um adicional de 660 brasileiros.[61] Gómez recusou a oferta de se render.[58] [59] De 6 a 8 de dezembro, os brasileiros e colorados fizeram tentativas para invadir a cidade, avançando pelas ruas, mas não foram capazes de capturá-la.[62] Tamandaré e Flores optaram por esperar a chegada do exército do sul.[62] Enquanto isso, Aguirre tinha enviado o general Juan Sáa com 3 000 homens e 4 canhões para aliviar a cidade sitiada, forçando os brasileiros e colorados a levantarem brevemente o cerco ao lidar com esta nova ameaça. Sáa abandonou seu avanço antes de encontrar a força inimiga, e fugiram para o norte do rio Negro.[63]

Exército do Sul em Paysandú[editar | editar código-fonte]

Tropas da marinha e exército brasileiro durante o cerco de Paysandú, 1865.

Mais do que a demonstração de força que havia sido destinada pelo governo brasileiro, a guerra revelou a falta de prontidão militar do império. O Exército do Sul, estacionado em Piraí Grande, foi comandado pelo marechal de campo João Propício Mena Barreto (mais tarde Barão de São Gabriel), com duas divisões. A 1ª Divisão, sob o brigadeiro Manuel Luís Osório (mais tarde Marquês de Erval), era formada por unidades do exército regular. A 2ª Divisão, sob o brigadeiro José Luís Mena Barreto (que já havia retornado de seu ataque a Melo), era composta inteiramente de guardas nacionais. Ao todo, ele contava apenas 5 711 homens — todos (exceto alguns oficiais) nativos do Rio Grande do Sul.[nota 3] O exército estava mal preparado para operações de cerco: não trouxeram nenhum engenheiro (que poderia direcionar a construção de trincheiras); estavam mal equipados, faltavam até mesmo machadinhas (necessárias para cortar cercas, quebrar portas e paredes de escala); e seus 12 canhões (uma mistura de La Hittes e Paixhans) eram de pequenos calibres mal adequados para atacar fortificações.[64]

Em 1º de dezembro, quase quatro meses após Saraiva apresentar o ultimato, o Exército do Sul invadiu o Uruguai.[65] Suas tropas foram acompanhadas por uma unidade da milícia semi-independente, composta por não mais que 1 300 cavaleiros gaúchos brasileiros, sob o ex-farroupilha Antônio de Sousa Neto.[66] As forças fortes com 7 011 homens (com 200 carroças de abastecimento)[65] marcharam pelo território uruguaio sem oposição, indo em direção a Paysandú, no sudoeste. Os grupos desorganizados e indisciplinados de gaúchos, que formavam os exércitos de ambos os blancos e colorados, não eram páreos para as tropas brasileiras. Os gaúchos uruguaios "tinham experiência de combate, mas nenhum treinamento e estavam mal armados para guardar os habituais mosquetes, boleadeiras e facas façon", observou o historiador Thomas L. Whigham.[67] "Eles [os gaúchos uruguaios] raramente possuíam armas de fogo", disse Cunninghame Graham, "ou se por acaso eles possuíam um par de pistolas longas montadas em bronze ou um bacamarte de pederneira, que eram, em geral, fora de ordem e sem condições de uso. Por outro lado, um pouco de treinamento fizeram deles adversários formidáveis, com o sabre e a lança".[68]

O marechal de campo João Propício Mena Barreto chegou a Paysandú em 29 de dezembro com duas brigadas de infantaria e um regimento de artilharia sob o tenente-coronel Emílio Luíz Mallet (mais tarde Barão de Itapevi).[65] [69] A cavalaria do Exército do Sul estabeleceu seu acampamento a poucos quilômetros de distância.[65] [70] Enquanto isso, Gómez decapitou quarenta colorados[71] e quinze presos brasileiros e "ainda baixaram a cabeça pingando acima de suas trincheiras, à vista dos seus compatriotas."[72] Em 31 de dezembro, os brasileiros e colorados recomeçaram seu ataque e invadiram as defesas da cidade, depois de uma luta amarga, em 2 de janeiro de 1865.[70] [73] Os brasileiros capturaram Gómez e entregaram-lhe aos colorados. O coronel Gregorio "Goyo" Suárez baleou Gómez e três de seus oficiais.[74] [75] Segundo Whigham, "as ações de Suárez não eram realmente inesperadas, como vários membros de sua família imediata foram vítimas da ira de Gómez contra os colorados."[76]

Capitulação dos blancos[editar | editar código-fonte]

Outras operações[editar | editar código-fonte]

Em 12 de novembro de 1864, após a queda de Salto e antes do cerco de Paysandú, o ditador paraguaio Solano López apreendeu o navio brasileiro Marquês de Olinda, o que foi considerado pelo governos brasileiro como um ato de guerra que deu origem à Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança. Enquanto o Exército do Sul cruzava o Uruguai indo em direção a Paysandú, o governo do Brasil enviou José Maria da Silva Paranhos (mais tarde Visconde de Rio Branco) para substituir Saraiva. Ele chegou à capital argentina de Buenos Aires em 2 de dezembro e, alguns dias depois, procurou uma aliança formal com Mitre contra os blancos. O presidente argentino recusou, insistindo que nem ele nem seu governo tinham qualquer papel na rebelião de Flores, e que a Argentina permaneceria neutra.[77] Em 26 de dezembro, os paraguaios invadiram a província de Mato Grosso, devastando cidades e zonas rurais.[78] [79]

À medida em que a situação se deteriorava, o governo brasileiro mobilizou unidades do exército de outras regiões do Império. Em 1º de janeiro de 1865, uma brigada (composta por dois batalhões de infantaria e um batalhão de artilharia), com 1 700 homens da província do Rio de Janeiro desembarcaram e ocuparam a cidade uruguaia de Fray Bentos.[80] Paranhos, juntamente com Tamandaré, conheceu Flores na cidade uruguaia e decidiram lançar um ataque combinado contra Montevidéu.[81] Era evidente que os paraguaios levariam muito tempo para chegar ao Uruguai e nenhuma ajuda viria de Urquiza e seus federalistas argentinos.[82] Cada vez mais isolado, Aguirre esperava que as potências estrangeiras pudessem intervir, mas quando, em 11 de janeiro, ele pediu ao corpo diplomático em Montevidéu se eles iriam prestar assistência militar a ele e seu governo, não teve respostas positivas.[83] [84] João Propício Mena Barreto partiu de Fray Bentos, em 14 de janeiro, com a infantaria brasileira, com destino a um patamar próximo à foz do Rio Santa Lucía perto de Montevidéu.[85] No caminho, ocuparam a cidade uruguaia de Colônia do Sacramento, guarnecida com 50 soldados.[86]

A cavalaria e artilharia foram colocadas sob Osório e partiram por terra. Eles se encontraram com João Propício Mena Barreto e a infantaria, no seu local de pouso. A partir daí, o Exército do Sul se reuniu marchando em Montevidéu.[86] Em 31 de janeiro, o Brasil e os colorados sitiaram a capital uruguaia.[86] [87] Entretanto, em 19 de janeiro, Paranhos tentou esclarecer a natureza das operações brasileiras contra os blancos. Ele emitiu notas ao corpo diplomático estrangeiro em Buenos Aires declarando que existia um estado de guerra entre o Brasil e o Uruguai. Até então, não tinha havido nenhuma declaração formal de guerra, e as operações militares do império no Uruguai, desde agosto de 1864 tinham sido "represálias" menores — o termo vago usado pela diplomacia brasileira desde o ultimato.[88]

Armistício[editar | editar código-fonte]

Montevidéu, capital do Uruguai, em 1865.

Em uma tentativa de desviar a atenção do Brasil a partir do cerco da capital, o governo blanco ordenou ao "Exército Vanguarda da República do Uruguai", composto por 1 500 homens sob o general Basilio Muñoz, para invadir terras brasileiras. Em 27 de janeiro de 1865, Muñoz cruzou a fronteira e trocaram tiros com 500 cavaleiros de unidades da Guarda Nacional do Brasil. Os brasileiros se retiraram para a cidade de Jaguarão, onde se juntaram a 90 soldados de infantaria também da Guarda Nacional, e trincheiras construídas às pressas. Havia também dois navios pequenos e um outro grande navio, cada um equipado com uma peça de artilharia, para proteger Jaguarão. O exército blanco atacou a cidade na batalha do Jaguarão, mas foram repelidos. Muñoz estabeleceu um breve cerco e perguntou ao coronel Manuel Pereira Vargas (o comandante da guarnição brasileira) para se renderem, porém sem efeito. Na madrugada de 28 de janeiro, Muñoz retratou com seus homens ao Uruguai, saqueando propriedades e capturando todos os escravos que pudessem encontrar.[nota 4]

Em 2 de fevereiro, Tamandaré declarou aos diplomatas estrangeiros que Montevidéu estava sob cerco e bloqueio.[89] A capital uruguaia era defendida por cerca de 3 500 a 4 000 homens armados com pouca ou nenhuma experiência de combate e 40 peças de artilharia de diversos calibres.[90] Em 16 de fevereiro, o Exército do Sul foi reforçado por 1 228 homens do 8º Batalhão de Caçadores que chegaram da província da Bahia, elevando seus números a 8 116 homens.[91] Sousa Neto e seus gaúchos haviam separado a principal força semanas antes de Muñoz e seu exército prosseguiu.[92] Cidadãos britânicos e franceses foram evacuados para Buenos Aires. O "êxodo geral de estrangeiros que fugiram causaram aqueles que permaneceram em Montevidéu a sentirem o terror pela primeira vez. Todos concordaram que um ataque em grande escala contra a cidade não poderia ser adiado."[93] No entanto, nem Paranhos nem o seu governo estavam dispostos a arriscar a destruição de Montevidéu e enfrentar o clamor inevitável de outras nações que seguiriam.[94]

Em 15 de fevereiro, o mandato de Aguirre expirou.[95] Contra a vontade dos Amapolas, o moderado Tomás Villalba foi eleito pelo Senado para substituir o presidente. As tropas francesas, italianas e espanholas desembarcaram em Montevidéu, a pedido de Villalba para dissuadir os blancos radicais de tentar um golpe para retomar o poder.[96] Villalba entrou em conversações com Flores e Paranhos. Com o ministro residente italiano Raffaele Ulisse Barbolani servindo como intermediário, foi alcançado um acordo. Flores e Manuel Herrera y Obes (representando o governo de Villalba) assinaram um acordo de paz em 20 de fevereiro, na Villa de la Unión. A anistia geral foi concedida a ambos os blancos e colorados, e Villalba passou a presidência para Flores em caráter provisório até que eleições pudessem ser realizadas.[97]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Tropas brasileiras no Rio Grande do Sul indo ao teatro de operações na Guerra do Paraguai.

No início de março, Flores montou um gabinete composto inteiramente de colorados, entre eles e um irmão do blanco Leandro Gómez.[98] O novo presidente uruguaio limpou departamentos governamentais dos funcionários com as associações fusionistas ou dos blancos. Todos os oficiais do partido e homens alistados foram subtraídos do exército e substituídos pelos colorados e legalistas brasileiros que permaneceram com Flores durante todo o conflito. Comemorações públicas glorificaram os colorados, e um monumento dedicado aos "Mártires de Quinteros" foi erguido.[99] Os custos da Cruzada Libertadora são desconhecidos. Perdas de Flores ascenderam a cerca de 450 mortos e feridos;[100] não há estimativas sobre o número de civis que morreram de fome e doenças, nem se sabe quanto dano foi sustentado pela economia nacional. Os efeitos da Guerra do Uruguai têm recebido pouca atenção por parte dos historiadores, que foram elaborados a se concentrarem na devastação dramática sofrida pelo Paraguai na subsequente Guerra da Tríplice Aliança.[nota 5]

Notícias do fim da guerra foram trazidas por Pereira Pinto e encontraram-se com alegria no Rio de Janeiro. O imperador brasileiro Dom Pedro II se viu emboscado por uma multidão de milhares de pessoas nas ruas em meio a aclamação.[101] [102] Porém a opinião pública rapidamente mudou para pior, quando os jornais começaram a circular com histórias que pintaram o acordo de 20 de fevereiro como prejudicial para os interesses brasileiros, na qual o gabinete foi responsabilizado. O recém criado Visconde de Tamandaré e Mena Barreto (agora Barão de São Gabriel) haviam apoiado o acordo de paz.[103] Tamandaré mudou de ideia logo depois e jogou junto com as alegações. Paranhos (um membro do partido de oposição) foi usado como bode expiatório pelo imperador e o governo, e foi revogado em desgraça para a capital imperial.[104] Eventos subsequentes mostram que a acusação era infundada. Paranhos não só tinha conseguido resolver todas as reivindicações brasileiras, mas evitou a morte de milhares de pessoas, ele ganhou um aliado uruguaio disposto e agradecido, não uma nação duvidosa e ressentida — um aliado que forneceu ao Brasil uma importante base de operações durante a guerra com o Paraguai que se seguiu.[105]

A vitória trouxe resultados mistos para o Brasil e Argentina. Como o governo brasileiro esperava, o conflito teve uma vida curta e foi o caso relativamente fácil que levou à instalação de um governo amigo no Uruguai. As estimativas oficiais incluíram 549 feridos no campo de batalha (109 mortos, 439 feridos e um desaparecido) da marinha e do exército e um número desconhecido que morreu de doença.[98] O historiador José Bernardino Bormann colocou o total em 616 (204 mortos, 411 feridos e um desaparecido).[100] A guerra teria sido considerada um sucesso extraordinário para o Brasil, se não fosse por suas terríveis consequências. Em vez de demonstrar força, o Brasil revelou fraqueza militar que um Paraguai encorajado procurou explorar. Do ponto de vista argentino, a maioria das expectativas de Bartolomé Mitre foram frustradas pelo resultado da guerra. Ele tinha conseguido trazer ao poder seu amigo e aliado, mas o risco e custos mínimos à Argentina que ele tinha imaginado no início provaram ser ilusórios. O ataque resultante pelo Paraguai em províncias brasileiras e argentinas provocou a longa e devastadora Guerra do Paraguai.[106]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Segundo o censo de 1860, haviam 220 000 habitantes no Uruguai. Deste número, 120 000 falavam espanhol e consideravam-se uruguaios. Todos os outros foram considerados estrangeiros, incluindo 18 000 espanhóis, 10 000 italianos e 9 000 franceses. Estes eram os imigrantes europeus que chegaram depois da independência uruguaia em 1828. Descendentes de casamentos entre as nacionalidades brasileira e de outros que viviam no Uruguai não foram contados entre as 40 000 pessoas. O ministro das relações exteriores do Uruguai, Juan José de Herrera, confirmou estes números a Saraiva em 1864 (Golin 2004, pp. 194, 249).
  2. Luís Alves de Lima e Silva (então Marquês e mais tarde Duque de Caxias) melhor ilustrou o ceticismo de oposição a Sousa Neto, quando ele respondeu sem rodeios que nem mesmo 1 000 homens poderiam ser reunidos, e muito menos 40 000, para lutar esta guerra (Costa 1996, p. 133).
  3. O Império não dependia de recrutamento geral, e só mais tarde mobilizou unidades adicionais de outras províncias. José Paranhos, o Barão do Rio Branco, em suas notas sobre a obra de Louis Schneider, e José Bernardino Bormann disse que o Exército do Sul tinha 5 711 homens (Schneider 2009, p. 63; Bormann 1907, p. 180). Gustavo Barroso e Augusto Tasso Fragoso deram números redondos: 5 700 e 6 000 homens, respectivamente (Barroso 1935, p. 207; Tasso Fragoso 2009, Vol 1, p. 146).
  4. Alguns livros afirmam que os homens de Muñoz estupraram mulheres brasileiras durante o seu retiro de Jaguarão (Tasso Fragoso 2009, Vol 1, pp. 246–247; Osório & Osório 1915, pp. 20–21). A única fonte contemporânea a mencionar os estupros foi um artigo num jornal oficial (Schneider 2009, p. 102). O ataque em Jaguarão só se tornou amplamente conhecido após um relatório oficial apresentado pelo presidente (governador) do Rio Grande do Sul, em que não há nenhuma menção de violência contra as mulheres brasileiras, só de saques e o sequestro de escravos (Schneider 2009, pp. 88–89, 102; Golin 2004, pp. 304–305; Bormann 1907, pp. 210–215). Sabe-se que um brasileiro (um ex-oficial farroupilha) foi castrado e teve suas orelhas cortadas depois de ser morto, uma prática comum entre os gaúchos (Bormann 1907, p. 215).
  5. Nenhum número é dado em obras contemporâneas clássicas como The War in Paraguay (publicado em 1869) por George Thompson, Seven eventful years in Paraguay (1870) de George Frederick Masterman, Letters from the battlefields of Paraguay (1870) de Richard Francis Burton, The History of Paraguay (1871) de Charles Ames Washburn, Reisen in Amerika und der Südamerikanische Krieg (1872) de Max von Versen e Der Krieg der Triple-Allianz (1872-1875) de Louis Schneider. O assunto também é ignorado posteriormente, histórias bem conhecidas, como A Campanha do Uruguai (1907) de José Bernardino Bormann, História da Guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai (1934) de Augusto Tasso Fragoso e Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai (2002) de Francisco Doratioto. A mesma omissão é encontrada em obras de língua inglesa que lidam com a guerra, como The Paraguayan War: Causes and early conduct (2002) de Thomas L. Whigham, To the bitter end: Paraguay and the War of the Triple Alliance (2002) de Chris Leuchars, I die with my country: perspectives on the Paraguayan War, 1864–1870 (2004) de Hendrik Kraay e Thomas L. Whigham e The Paraguayan War (2008) de Terry D. Hooker.

Referências

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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