Hans Martin Sutermeister

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Hans Martin Sutermeister
Foto da campanha eleitoral municipal, Berna 19671
Pseudônimo(s) Hans Moehrlen
Nascimento 29 de setembro de 1907
Schlossrued
Morte 5 de maio de 1977 (69 anos)
Basileia
Nacionalidade Suíça suíça
Cidadania Suíça
Parentesco Heinrich Sutermeister e Peter Sutermeister (irmãos)
Ocupação médico
Principais trabalhos Summa Iniuria, Schiller als Arzt, Zwischen zwei Welten2
Ideias notáveis Instituição de uma Polícia Criminal Federal na Suíça (nunca realizada)
Principais críticos Franz Keller
Religião pensamento livre (de origem protestante)

Hans Martin Sutermeister (Schlossrued, 29 de setembro de 1907 - Basileia, 5 de maio de 1977) foi um controvertido médico, escritor e político suíço (Aliança dos Independentes) que publicou mais de 150 artigos e livros em diversas áreas (Medicina, História, Educação, Direito).

Biografia[editar | editar código-fonte]

Hans Martin Sutermeister é neto do escritor Otto Sutermeister e irmão do compositor Heinrich Sutermeister. Doutorou-se em medicina sob orientação de seu tio Hans Hunziker na Universidade de Basileia em 1941. Sob o pseudônimo de Hans Möhrlen publicou a novela autobiográfica Entre dois mundos em 1942 (proibida na Alemanha Nazi)2 e duas valsas breves (uma para violino e piano, outra para piano só) em 1949.3

A fim de receber a habilitação em história da medicina e em psicologia médica (psicossomática), Sutermeister depositou, no começo dos anos 1950, subsequentemente, três publicações na Faculdade de Medicina da Universidade de Berna:4

  • Sobre as mudanças na percepção das enfermedades (1947);
  • Psicosomática do riso e do choro (1952); e
  • Schiller como médico: uma contribuição para a história da pesquisa psicossomática (1955);

mas a sua habilitação foi reprovada pelo professor Erich Hintzsche5 apesar de diversas boas críticas de personalidades como Henry E. Sigerist5 , Jakob Klaesi4 , Marcel Florkin6 e Rudolph Seiden7 .

De 1968 até 1971 foi eleito membro do poder executivo do município de Berna, capital da Suíça, e diretor das escolas (Schuldirektor) daquela cidade, época na qual promoveu o ensino unificado (Gesamtschule, baseado na teoria de Horst Mastmann, Werner Correll e Heinz-Rolf Lückert)8 e fez uma campanha contra a importação do polêmico Pequeno Livro Vermelho dos Estudantes na Suíça.9

Nos anos 1960 foi membro do grêmio do ombudsman da sociedade Migros (Büro gegen Amts- und Verbandswillkür), e neste contexto foi conhecido por seu ativismo a favor de vitimas de erros judiciais, particularmente Pierre Jaccoud10 (seu envolvimento neste caso é ambíguo)11 . Publicou seus resultados em 1976 na sua obra Summa iniuria: Ein Pitaval der Justizirrtümer, reconhecidamente o mais volumoso e um dos mais importantes trabalhos sobre erros judiciais na língua alemã.12

A Psicossomática do riso e do choro[editar | editar código-fonte]

No seu trabalho sobre a psicossomática do riso e do choro de 195213 , sua segunda tese de habilitação, Hans Martin Sutermeister parte da idéia de que quase todos os grandes filósofos desde Aristóteles teriam sido tentados pelo problema do riso e do choro, sem, portanto, chegar a uma conclusão definitiva acerca do problema. Teria sido sobretudo Sigmund Freud, na sua obra sobre Os chistes e a sua relação com o inconsciente de 1905 quem descobriu que se trataria de fenômenos irracionais e afetivos, provindo do subconsciente. Mas para Sutermeister, apenas o ponto de vista psicossomático pode reunir simultaneamente os fatos psicológicos e fisiológicos a fim de aproximar-nos de uma melhor compreensão destes psiquismos.13

A história do humor mostra, segundo Sutermeister, que há uma espécie de evolução do medo do homem primitivo (termo antropológico antiquado usado por Sutermeister) diante das ameaças de uma natureza indomada na direção do riso, do riso homérico perpétuo (ἄσβεστος γέλως) dos deuses dos gregos. Esta evolução “do pathos na direção da ironia” através do domínio técnico e científico das forças selvagens da natureza - e da sociedade (“democratização”) continuaria até hoje; ou seja, a visão de Sutermeister é teleológica nesse sentido. Sutermeister cita como passos importantes nessa evolução a ironia de Sócrates, o humor do Renascimento, aquele dos moralistas franceses, a “auto-ironia profunda e sincera” de Georg Christoph Lichtenberg14 e o humor industrializado dos Estados Unidos da época de Sutermeister (inflação do humor).13

Sutermeister faz alusão ao que, como em outras áreas da vida, a ontogenia seguiria à filogenia; assim, segundo Sutermeister, o recém-nascido começa sua existência com o choro, para já abalado pelas primeiras impressões do mundo exterior depois do parto. Apenas gradualmente adquiriria um comportamento mais adequado e ganharia assim um domínio progressivo dessas influências externas, o que o levaria até ao riso. Mas o choro continuaria sendo uma válvula de segurança importante para sua afetividade viva, e, além disso, ele teria o significado biológico de um sinal de alerta para a mãe. Da mesma forma, o riso é, para Sutermeister, uma forma primitiva do “contato social” entre a criança e a mãe. Enquanto o choro significaria psicologicamente (como reflexo de proteção) uma retirada em si mesmo, o riso seria mais expansivo e, como Thomas Hobbes e Charles Darwin já teriam demonstrado, é basicamente agressivo. O gesto do riso provem, segundo Sutermeister, na filogenia de um gesto ameaçador (demonstração dos dentes), depois suprimido, como ainda o encontrariamos no jogo dos animais superiores (Scheinbeissen em alemão). Se, além disso, o riso, como o choro, são “contagiosos”, é porque eles nascem no subconsciente, onde se encontra ao mesmo tempo a alma coletiva (a koinopsyche de Karl Kleist). Portanto, no riso há, além do elemento agressivo, mais um item que poderiamos chamar de “alegria de contato emocional e coletivo”. Especialmente em adultos podem ser distinguidas, neste sentido, um “riso de boas-vindas”, onde domina aquele elemento de contato, de um riso agressivo, chamado por Alfred Stern15 também de “riso de exclusão”, porque a agressão teria aqui quase sempre o caráter de uma exclusão de um grupo, o triunfo de um grupo sobre o indivíduo (“riso corretivo”). Por outro lado, no seu riso, o indivíduo também poderia se livrar de ressentimentos frente ao grupo; ele pode assim, sobretudo, “desafogar-se”, numa forma socialmente inofensiva, de instintos primitivos, que, infelizmente, nunca podem ser sublimados sem deixar vestígios. Normalmente, o adulto aprendeu a controlar estas emoções, a inibir a “ambivalência afetiva”, que ainda reinaria no “tronco do subconsciente”. Mas com irritações exteriores extremas, isto é, com emoções fortes, uma “regressão” (como reflexo de proteção) ocorre, uma liberação funcional dos centros striotalámicos sob forma de risos e choros. Teria sido especialmente a “psicologia fisiológica” estadunidense e francesa que visava, assim, toda emoção em termos de uma regressão ou liberação de reflexos (o chamado neojacksonismo (referente a John Hughlings Jackson) de Henry Head, Jules Baillarger, Larry Freeman16 , Théodule Ribot, Jean Delay, Henri Ey e outros) uma concepção que explicaria também o problema exposto por Sutermeister de uma maneira nova e superior às doutrinas de Sigmund Freud. Enquanto que no início da psicologia do riso, o racionalismo das antigas escolas da filosofia (René Descartes, Immanuel Kant, Arthur Schopenhauer e outros) limitou-se aos fatos da paradoxia lógica sendo a base de todo humor, foi Freud quem teria descoberto o fundo emotivo destes psiquismos, mas ele só teria falado de uma “satisfação simbólica dos instintos sexuais, primitivos e mal reprimidos”. Mas desde Charles Darwin e Alfred Adler sabe-se, segundo Sutermeister, que a agressão teria um papel muito maior nesta regressão. Ela se faria, como seria mostrado pela “psicologia dos valores” de Erich Stern, Max Scheler e outros, principalmente na forma de uma “desvalorização” dos valores sociais, que seriam para a existência humana os mais importantes valores. A técnica do bon-mot consiste, então, num choque duplo (Theodor Reik). Primeiro, uma associação inesperada assusta o ser humano de surpresa e muitas vezes por um sentido agressivo e tirando proveito de uma regressão à “pré-lógica afetiva” (Henri Lévy-Bruhl17 ). Mas para Sutermeister, revela-se que esta ameaça não se justificaria, e como, nesta ocasião, temos “ab-reagido” ao mesmo tempo emoções pessoais, em seguida sentiriamo-nos, de alguma forma, superiores. A “regressão de choque” transformar-se-ia, assim, numa “regressão recreativa”.13

O sorriso é, para Sutermeister, uma forma mais “cortical” e desempenha, de acordo com Alfred Stern, o importante papel de uma “ficção social benéfica” porque desvaloriza os valores negativos que se opõem ao contato social. O “sorriso de boas-vindas” desvalorizaria assim o “negativismo” primitivo que se opõe a cada novo conhecimento, etc. O “keep smiling”, que se tornou um princípio importante da educação anglo-saxã, exerce ao mesmo tempo uma ação retrógrada sobre aquele que sorri, sob a forma de um estimulante otimista. Segundo o autor, é especialmente a auto-ironia que torna o contato afetivo e coletivo muito próximo e elimina o mais possível o elemento agressivo. Ao contrário de Freud, que distingue entre o bon-mot, a cômica e o humor com base no grau de “poupança de esforço de repressão/recalque” (em alemão: Ersparnis an Verdrängungsaufwand), o autor acredita que é antes a proporção entre auto-ironia e agressão que determina esses diferentes gêneros. A evolução vai, então, do riso ao sorriso, especialmente ao que Sutermeister chama de “auto-ironia democrática”. Neste sentido, os bon-mots se desenvolvem e se tornam cada vez mais finos. O autor propõe então um “teste de jogo de palavras” como um teste de inteligência, teste ético, teste de temperamento, de agressividade masculina, e assim adiante. O que hoje se chamaria de eurocentrismo se culmina com a afirmação de que “especialmente os jogos de palavra em Inglês muito complicados e complexos converiam muito bem” para esse tipo de testes. Mas foi também proposto o humor como recurso terapêutico nas depressões e neuroses (que o autor reconhece em si mesmo em outros textos anteriores), entre outras coisas. e até mesmo para a higiene mental contra repressões/recalques afetivos, aos quais a civilização moderna tenderia a forçar-se cada vez mais. Especialmente o filme cômico parece, para Sutermeister, ter um efeito benéfico, e talvez até mesmo os “cartoons” estadunidenses, concebida como forma industrializada de humor. Trata-se, para Sutermeister, de uma “inflação do humor” que quer proteger a humanidade contra o “mal-estar na cultura” (o Unbehagen in der Kultur de Sigmund Freud), a náusea existencialista provinda da consciência intelectual dos estreitos limites do esoace na vida de cada um no espaço e no tempo (Sutermeister se refere a Jean Paul Sartre). O humor teria aqui, então, o papel de uma “regressão recreativa do subconsciente”, de uma desaceleração temporária no centro de vitalidade, mas o “existencialismo ateu não iria encontrar muito por estes meios o asbestos gelos, o sorriso perpétuo, que o homem teria sonhado desde o início de sua existência”.13

Para o psiquiatra suíço Jakob Klaesi, o trabalho Psicossomática do riso e do choro de Sutermeister representa, em primeiro lugar, uma crítica à teoria dos chistes de Sigmund Freud, tratando-o psicossomaticamente. Klaesi não concorda com que Sutermeister, na parte sobre o humor na Antiguidade clássica, alega que o homem pré-histórico e Johann Wolfgang von Goethe teriam sido sem senso de humor. Não obstante, Klaesi elogia o trabalho como instigante, como “levando à crescente curiosidade e oposição do leitor”.4

Publicações (seleção)[editar | editar código-fonte]

  • Zwischen zwei Welten: Novelle (em alemão). Berna: Mettler & Salz, 1942. 76 p. ISBN 978-32260003062
  • (1947) "Über die Wandlungen in der Auffassung des Krankheitsgeschehens" (em alemão). Gesundheit und Wohlfahrt (12): 417–460. Zurique: Orell Füssli. OCLC 176764933.
  • (1952) "Psychosomatik des Lachens und Weinens" (em alemão). Gesundheit und Wohlfahrt (6): 337–371. Zurique: Orell Füssli. PMID 12989438.
  • (1955) "Schiller als Arzt: ein Beitrag zur Geschichte der psychosomatischen Forschung" (em alemão). Berner Beiträge zur Geschichte der Medizin und der Naturwissenschaften (13). Berna: Paul Haupt. ISSN 1010-1950.
  • Möglichkeiten einer inneren und äusseren Schulreform im Sinne der Gesamtschule in der Stadt Bern: Prolegomena zu einer Projektstudie „Integrierte Gesamtschule Brünnen“ entsprechend der Motion Theiler (em alemão). Berna: Direção das Escolas de Berna, 1971. 225 p.
  • Summa Iniuria: Ein Pitaval der Justizirrtümer (em alemão). Basileia: Elfenau, 1976. 810 p. ISBN 978-3226000962
  • Grundbegriffe der Psychologie von heute (em alemão). Basileia: Elfenau, 1976. 523 p.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Votem na Aliança dos Independentes: Dr. med. Hans–Martin Sutermeister à autoridade municipal. Coleção Suíça de Cartazes.
  2. a b c Fredi Lerch: Depoimento precoce de não-conformismo suíço. Revista Espaço Acadêmico, v. 11, n. 134 (2012), p. 181-183. (em português)
  3. Kleiner Walzer für Klavier e Kleiner Walzer.
  4. a b c Jakob Klaesi: Betrifft Habilitationsgesuch des Dr. med. H. M. Sutermeister. Carta para Bernhard Walthard (o então decano da Faculdade de Medicina da Universidade de Berna), 6 de setembro de 1954.
  5. a b Marcel H. Bickel. Henry E. Sigerist: Vier ausgewählte Briefwechsel mit Medizinhistorikern der Schweiz (em alemão). Berna: Peter Lang, 2008. 378, 572–574 p. ISBN 978-3-03911-499-3
  6. Marcel Florkin. (1956). "Resenha de “Schiller como médico”". Archives internationales d'histoire des sciences 9 (34/37).
  7. Rudolph Seiden. (1956). "Resenha de “Schiller como médico”". Books Abroad 30 (1): 59.
  8. Hans Martin Sutermeister. Möglichkeiten einer inneren und äusseren Schulreform im Sinne der Gesamtschule in der Stadt Bern: Prolegomena zu einer Projektstudie „Integrierte Gesamtschule Brünnen“ entsprechend der Motion Theiler (em alemão). Berna: Schuldirektion der Stadt Bern, 1971. 225 p.
  9. Hans-Peter Stalder. (1 de Julho de 1970). Kontroverse um kleines rotes Schülerbuch. Zurique: Schweizer Fernsehen. (em alemão)
  10. Gerhard Mauz. (1965). "Schuldig, weil wir keinen anderen haben: über die Fehlurteilsjäger Hans Martin Sutermeister und Gustav Adolf Neumann" (em alemão). Der Spiegel 18: 116,118,120,121. ISSN 0038-7452. Página visitada em 22-04-2011.
  11. Jürgen Thorwald. Blutiges Geheimnis (em alemão). Munique: Knaur, 1966. p. 257–258. 1 vol. ISBN 978-3426032107
  12. Karl Peters. (1976). "Sutermeister, Hans M.: Summa iniuria. Ein Pitaval der Justizirrtümer. Basel 1976" (em alemão). Zeitschrift für die gesamte Strafrechtswissenschaft 88: Abstract. DOI:10.1515/zstw.1976.88.4.978. ISSN 0084-5310. Página visitada em 22-04-2011.
  13. a b c d e Hans Martin Sutermeister. Psychosomatik des Lachens und Weinens. Gesundheit und Wohlfahrt, Zurique, n. 6, p. 337–371, 1952. Cf. especialmente o resumo em francês, p. 370-371.
  14. Sutermeister refere-se à obra Aforismos de Georg Christoph Lichtenberg.
  15. Sutermeister refere-se à obra Filosofia do riso e do choro de Alfred Stern.
  16. Sutermeister refere-se à obra Physiological psychology de Larry Freeman (Nova Iorque: D. Van Nostrand Co., 1948).
  17. Sutermeister refere-se à obra Sociologia do direito de Henri Lévy-Bruhl.
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