História da paleontologia

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Duria Antiquior é uma gravura pintada em 1830 pelo geólogo Henry De la Beche baseado em fósseis encontrados por Mary Anning. O final do século XVIII e o início do século XIX compõem um momento de grandes mudanças na compreensão da história da vida na Terra.

A paleontologia é a disciplina científica que estuda o registro fóssil deixado pelos organismos vivos, procurando compreender a história da vida na Terra. Apesar de ser um campo da biologia, durante o seu desenvolvimento inicial esteve mais relacionada com a geologia, pois os fósseis eram objeto de estudo de áreas como a mineralogia e a estratigrafia. Até praticamente o final do século XVIII a palavra fóssil denominava qualquer objeto escavado, não importando sua origem, e mediante este tratamento os fósseis eram estudados por aquelas áreas científicas.

A história da paleontologia analisa a trajetória da relação que o homem estabeleceu com os fósseis desde a pré-história humana. Primeiramente, vistos como "joguetes da natureza" ou curiosidades, os fósseis somente passaram a ser objeto de um estudo sistematizado, após a constatação de sua origem biológica e de sua posição em uma escala de tempo, também ampliada por este mesmo estudo.[1] Assim o estudo dos fósseis (o termo paleontologia, somente viria a ser cunhado no século XIX, por Ducrotay de Blainville) emergiu como parte integral das mudanças na filosofia natural que ocorreram durante a Idade da Razão.

A origem dos fósseis e o seu significado na História Natural passaram a ser melhor compreendidos no final do século XVIII e início do século XIX, quando a comunidade científica passou a adotar como modelo os resultados dos trabalhos de Georges Cuvier (1769-1832). Estes estudos estavam baseados em seus princípios da anatomia comparada e levaram a instauração da paleontologia como ciência moderna, assim como da geologia .[2] . Desta forma, durante a primeira metade do século XIX houve um grande incremento na aquisição do conhecimento sobre a história da vida na Terra e também uma ampliação na escala de tempo geológico. Isto possibilitou a constatação de que houve algum tipo de ordenamento sucessivo no desenvolvimento da vida na Terra. Este fato contribuiu para a formulação de teorias de transmutação de espécies. [3]

Após 1859, com a publicação do livro de Charles Darwin, A Origem das Espécies, a paleontologia passou a ter como um de seus principais objetivos a composição de sequências filogenéticas, procurando estabelecer as vias evolutivas.[4]

Durante a segunda metade do século XIX houve uma grande expansão na atividade paleontológica, especialmente na América do Norte. A tendência continuou no século XX, com regiões adicionais da Terra tornando-se abertas ao estudo sistemático dos fósseis, como por exemplo a China, onde importantes descobertas foram realizadas. Na última metade do século XX intensificou-se o interesse no esclarecimento das extinções em massa e o seu papel na evolução da vida na Terra.[5]

Antes do século XVIII[editar | editar código-fonte]

Ainda no século VI a.C., Xenófanes de Cólofon foi mencionado por escritores posteriores de ter observado os restos de conchas de moluscos pelágicos nas montanhas, impressões de folhas em rochas de Paros, assim como várias evidências da presença antiga do mar nas terras altas de Malta, e atribuiu essas aparições às invasões periódicas do mar.[6] O historiador Xanthus da Sardenha (circa 500 a.C.) também chamou a atenção para a ocorrência de conchas fósseis na Armênia, Frígia e Lídia, regiões distantes do mar, e concluiu que as localidades onde tais restos ocorriam tinham sido anteriormente o leito do oceano, e que os limites da terra e do oceano vinham constantemente sofrendo mudanças.[7]

Leonardo da Vinci (1452-1519), em um trabalho não publicado, chegou à mesma conclusão dos antigos gregos sobre as variações dos oceanos. No entanto, em ambos os casos, os fósseis eram restos completos de organismos marinhos que detinham grande semelhança com espécies atuais e como tal fáceis de serem identificadas, permanecendo a questão se os fósseis não assemelhados à nenhuma forma de organismo conhecida, também tinham origem orgânica.[8]

No século XVII Nicolau Steno (1638 - 1686), estabeleceu um ordenamento temporal para os estratos geológicos, nos quais os fósseis eram encontrados. Esta relação estendeu-se para os fósseis contidos nestes estratos, levando-os a serem tratados como registros da história da vida na Terra.[9] Com este tratamento surgiu o questionamento sobre o destino dos organismos que somente eram encontrados na forma fóssil. Os naturalistas que estudavam os fósseis, dividiam-se entre a defesa da ocorrência da extinção e a defesa da hipótese que propunha que tais organismos ainda deveriam ser descobertos em algum lugar do Globo. Somente após os trabalhos da anatomia comparada de Georges Cuvier serem aceitos pela comunidade científica, esta questão foi resolvida, pois possibilitaram as reconstruções paleontológicas, inclusive destes organismos extintos.

Shen Kuo (chinês: 沈括) (1031 - 1095), da dinastia Song, usou a evidência de fósseis marinhos escavados nas montanhas Taihang para inferir a existência de processos geológicos de geomorfologia e alterações do nível do mar ao longo do tempo.[10] Usando a suas observações de bambus preservados e petrificados, encontrados soterrados em Yan'an, região de Shanbei, província de Shaanxi province, defendeu uma teoria de mudança do clima gradual, uma vez que Shaanxi ao se tratar de uma região de clima seco não seria um habitat propício para o crescimento de bambus.[11]

Como resultado da nova enfase na observação, classificação e catalogação da natureza, os filósofos naturais do século XVI na Europa começaram a estabelecer extensivas coleções de objetos fósseis, assim como também coleções de espécimes vegetais e animais, que eram frequentemente armazenados em gabinetes construídos para ajudá-los a organizar as coleções. Conrad Gesner publicou em 1565 um trabalho sobre fósseis que continha uma das primeiras descrições detalhadas sobre gabinetes e coleções. A coleção pertencia a um membro da extensa rede de correspondentes que Gesner se baseou para suas obras. Tais redes de correspondência informal entre os filósofos naturais e colecionadores tornou-se cada vez mais importante durante o curso do século XVI e foram precursores diretos das sociedades científicas que começam a se formar no século XVII. Essas coleções de gabinete e redes de correspondência desempenharam um papel importante no desenvolvimento da filosofia natural.[12]

Entretanto, a maioria dos europeus do século XVI não reconheciam que os fósseis eram os restos de organismo vivos. A etimologia da palavra fóssil veio do latim para as coisas que havia sido desenterradas. Como isso indica, o termo foi aplicado a uma grande variedade de pedra e objetos semelhantes à pedras sem levar em conta se eles poderiam ter uma origem orgânica. Escritores do século XVI, como Gesner e Georg Agricola estavam mais interessados em classificar tais objetos por suas propriedades físicas e místicas do que na determinação da origem de tais objetos.[13] Além disso, a filosofia natural do período incentivou explicações alternativas para a origem dos fósseis. Tanto as escolas aristotélica e neoplatônica de filosofia deram apoio para a ideia de que os objetos de pedra poderiam crescer dentro da terra para se parecer com as coisas vivas. A filosofia neoplatônica sustentou que poderia haver afinidades entre objetos vivos e não-vivos que poderiam levar um a se assemelhar ao outro. A escola aristotélica sustentou que as sementes de organismos vivos poderiam entrar no solo e gerar objetos que lembrassem aqueles organismos.[14]

Século XVII[editar | editar código-fonte]

Johann Jakob Scheuchzer tentou explicar os fósseis usando o dilúvio biblíco em seu livro Herbarium of the Deluge (1709).

Durante a Idade da Razão, mudanças fundamentais na filosofia natural foram refletidas na análise dos fósseis. Em 1665, Athanasius Kircher atribuiu os ossos gigantes à extintas raças de humanos gigantes em seu livro Mundus subterraneus. No mesmo ano, Robert Hooke publicou o Micrographia, uma coleção ilustrada das suas observações com um microscópio. Uma dessas observações foi intitulada Of Petrify'd wood, and other Petrify'd bodies, que incluia uma comparação entre madeira comum e petrificada. Hooke acreditou que os fósseis provinham evidência sobre a história da vida na Terra, escrevendo em 1668:

...if the finding of Coines, Medals, Urnes, and other Monuments of famous persons, or Towns, or Utensils, be admitted for unquestionable Proofs,that such Persons or things have, in former times had a being, certainly those Petrifactions may be allowed to be of equal Validity and Evidence, that there have formerly been such Vegetables or Animals... and are true universal Characters legible to all rational Men.[15]

Ilustração do artigo de Steno de 1667 mostrando a cabeça de tubarão e seu dente ao lado de um dente fóssil para comparação.

Em 1667, Nicholas Steno escreveu um artigo sobre uma cabeça de tubarão que tinha dissecado. Ele comparou os dentes do tubarão com o com objetos fósseis comuns conhecidas como línguas de pedra. Ele concluiu que os fósseis deviam ter sido dentes de tubarão. Steno então teve um interesse na questão dos fósseis, e para abordar algumas das objeções à sua origem orgânica começou a estudar estratos rochosos. O resultado deste trabalho foi publicado, em 1669, como um precursor para a Forerunner to a Dissertation on a solid naturally enclosed in a solid. Neste livro, Steno estabeleceu uma distinção clara entre objetos como cristais de rocha que realmente se formaram dentro das rochas e dos fósseis, como conchas e dentes de tubarão, que se formaram fora dessas rochas. Steno percebeu que certos tipos de rochas foram formados pela deposição sucessiva de camadas horizontais de sedimentos e que os fósseis eram os restos de organismos vivos que tinham sido enterrados naqueles sedimentos. Steno que, como quase todos os filósofos naturais do século XVII, acreditava que a Terra tinha apenas alguns milhares de anos, recorreu ao dilúvio bíblico como uma possível explicação para os fósseis de organismos marinhos que estavam longe do mar.[16]

Apesar da influência considerável de Forerunner, naturalistas como Martin Lister (1638-1712) e John Ray (1627-1705) continuaram a questionar a origem orgânica de alguns fósseis. Eles estavam particularmente preocupados com objetos como fósseis de amonitas, que Hooke alegou terem uma origem orgânica, e que não se pareciam com nenhuma espécie viva conhecida. Isso levantou a possibilidade da extinção, que eles acharam difícil de aceitar, por razões filosóficas e teológicas.[17] Em 1695, Ray escreveu para o naturalista galês Edward Lluyd queixando-se de tais pontos de vista: "... there follows such a train of consequences, as seem to shock the Scripture-History of the novity of the World; at least they overthrow the opinion received, & not without good reason, among Divines and Philosophers, that since the first Creation there have been no species of Animals or Vegetables lost, no new ones produced".[18]

Referências

  1. Faria, F.Felipe de A.. O Homem e os Fósseis: da Relação Mística à Interpretação Científica-Disserttação de mestrado-UFSC 2006, pp:9-66. [S.l.]: Dissertação de Mestrado-UFSC, 2006. ISBN 34-654-354.374.
  2. Faria, Felipe. Georges Cuvier: do estudo dos fósseis à paleontologia, 2012. [S.l.: s.n.], 2012. ISBN 978-85-7326-487-6.
  3. Ernst Mayr. O desenvolvimento do pensamento biológico, 1998, pp:122-135. [S.l.]: Ed.UNB, 1998. ISBN 85-230-0375-4.
  4. Faria, F.Felipe de A; (eds.)Prestes, M.E.B.;Martins, L.A.P.;Stefano, W.. O Despontar de um Paradigma na Paleontologia (in) Filosofia e História da Biologia I, 2006, p.135. [S.l.]: Fundo Mackenzie de Pesquisa, 2006. ISBN 85-89328-11-2.
  5. Bowler, Peter, 1989. Evolution: The History of an Idea, pp:351-353
  6. Zittel 1901, p. 3
  7. Zittel 1901, p. 3
  8. Rudwick 1985, p. 39
  9. Rudwick 2005, p. 194-203
  10. Shen Kuo,Mengxi Bitan (梦溪笔谈; Dream Pool Essays) (1088)
  11. Needham 1986, p. 614
  12. Rudwick 1985, p. 9-17
  13. Rudwick 1985, p. 23-33
  14. Rudwick 1985, p. 33-36
  15. Bowler 1992, p. 118-119
  16. Rudwick 1985, p. 72-73
  17. Rudwick 1985, p. 61-65
  18. Bowler 1992, p. 117

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bowler, Peter J.. 'Evolution:The History of an Idea'. [S.l.]: University of California Press, 2003. ISBN 0-520-23693-9.
  • Bowler, Peter J.. 'The Earth Encompassed:A History of the Environmental Sciences'. [S.l.]: W. W. Norton, 1992. ISBN 0-393-32080-4.
  • Bowler, Peter J.; Iwan Rhys Morus. Making Modern Science. [S.l.]: The University of Chicago Press, 2005. ISBN 0-226-06861-7.
  • Cadbury, Deborah (2000), The Dinosaur Hunters: A True Story of Scientific Rivalry and the Discovery of the Prehistoric World, Fourth Estate, ISBN 978-1-85702-963-5 
  • Desmond, Adrian (1975). "The Discovery of Marine Transgressions and the Explanation of Fossils in Antiquity". American Journal of Science, Volume 275.
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  • McGowan, Christopher. 'The Dragon Seekers'. [S.l.]: Persus Publishing, 2001. ISBN 0-7382-0282-7.
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  • Greene, Marjorie; David Depew. The Philosophy of Biology:An Episodic History. [S.l.]: Cambridge University Press, 2004. ISBN 0-521-64371-6.
  • Needham, Joseph. 'Science and Civilization in China: Volume 3, Mathematics and the Sciences of the Heavens and the Earth'. [S.l.]: Caves Books Ltd, 1986. ISBN 0-253-34547-2.
  • Robert Hooke (1665) Micrographia The Royal Society
  • Palmer, Douglas (2005) Earth Time: Exploring the Deep Past from Victorian England to the Grand Canyon. Wiley, Chichester. ISBN 978-0-470-02221-4
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  • Rudwick, Martin J.S.. 'Worlds Before Adam: The Reconstruction of Geohistory in the Age of Reform'. [S.l.]: The University of Chicago Press, 2008. ISBN 0-226-73128-6.
  • Zittel, Karl Alfred von. History of geology and palaentology to the end of the Nineteenth Century. [S.l.]: Charles Scribner's Sons, London, 1901.