História de Goioerê

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Pioneirismo[editar | editar código-fonte]

No final da década de 1.940, as terras devolutas do Estado do Paraná foram colocadas à venda, em um processo de colonização que atraiu um grande contingente de agricultores e homens de negócios de todo o Brasil. Carlos Scarpari, fazendeiro em Lins - SP, pioneiro e desbravador daquela região, era um dos grandes entusiastas do novo Paraná e acabou influenciando o seu irmão mais velho, Francisco Scarpari, e, seu sobrinho Wladimir Antonio Neves Scarpari e, com isso eles requereram junto ao Governo do Estado do Paraná a concessão de uma gleba devoluta.

Em 1.949, Carlos Scarpari dirigiu-se a então já comentada região do Rio Goioerê, a fim de verificar pessoalmente a qualidade das terras e a possibilidade de estabelecer a posse das terras requeridas.

Naquela época, de Campo Mourão até Pinhalzinho (atual Janiópolis) se podia ir de jipe. Dali para frente só em lombo de burro e, foi o que Carlos Scarpari fez e abrindo picada na mata virgem, tomou a decisão de se estabelecer naquelas terras, pois outras melhores não poderiam existir. Ele extasiou-se diante da exuberância da mata, dos perobais, do palmital, da vegetação que evidenciava terra fértil e generosa. Era ali que ele iria formar a sua fazenda de café.

Após um longo trabalho político e administrativo, Francisco e Wladimir conseguiram obter, em 21 de abril de 1.950, as ordens de ocupação das terras da Gleba 12, primeira parte, Colônia Goioerê, com área de 1.200 alqueires.

Tão logo recebeu a notícia da concessão, Carlos Scarpari começou a preparar a ocupação das terras. Por intermédio de Pedro Parigot de Souza, Prefeito de Campo Mourão, foram contratados os serviços do engenheiro agrimensor Ladislau Trausinski, que foi o profissional a realizar a medição de terras nesta região.

Com o agrimensor contratado, iniciou-se a difícil peregrinação de reconhecimento das terras. Em Campo Mourão, Pedro Parigot e Francisco (Chico) Albuquerque, chefes políticos da época, deram decidido apoio a Carlos Scarpari, indicando inclusive, a pessoa de Marins Belo para assegurar a posse das terras.

Com fama de valente e, até truculento na opinião de alguns, Marins Belo era na realidade um homem destemido, ambicioso e leal aos amigos, mas que gostava de alardear, sem nenhuma modéstia, as suas façanhas.

Com a ordem de ocupação das terras, aa caravana formada, Carlos Scarpari se preparou para a primeira incursão no então chamado Sertão de Goioerê.

==A ocupaçao de goioere Iniciamos a penetração na mata a cavalo, seguindo com cargueiros e alguns utensílios pelo picadão existente. À beira de um riacho, que foi denominado Água Bela, fizemos o primeiro rancho. Preparamos uma roçada em volta para abrigar os animais e, alguns dias depois, iniciamos a derrubada da mata para o plantio do café. Marins Belo retornou a Campo Mourão para ajustar mais gente e, comprar mais ferramentas e alimentos . Logo no início dos serviços tivemos a primeira vítima: um trabalhador, derrubando o palmital, descuidou-se e uma árvore caiu sobre ele, provocando sua morte instantânea. Não conseguimos achar nenhum documento e ninguém no grupo o conhecia. Providenciamos a sua remoção em cargueiro para Pinhalzinho, onde foi sepultado. "Veja você, Wladimir, que caso trágico!".

O relato acima foi descrito por Carlos Scarpari em 12 de maio de 1.950, quando descreveu a Wladimir Scarpari as primeiras ações da colonização da região de Goioerê.

O pequeno rancho construído por Carlos Scarpari às margens do rio Água Bela logo se transformou em um acampamento que servia de pouso a todos os pioneiros que se dirigiam às várias glebas com ordens de ocupação liberadas naquela época. Os agrimensores Ladislau Trausinski, José Geraldo de Souza e o "Minho" faziam do acampamento seu ponto de reunião e trabalho. Em alguns meses a gleba estava demarcada e pronta à derrubada de parte da mata para o plantio de café.

No dia 23 de novembro de 1950, às 9 horas, Carlos Scarpari lançou na terra virgem a primeira semente de café de toda a região. O ato não representou apenas a formação de um cafezal pioneiro, mas também o marco pioneiro inicial do progresso e da riqueza e uma região promissora.

Foram testemunhas do plantio das primeiras sementes de café os pioneiros Marins Belo, Marinho Tavares, Joaquim Fuentes, Romero Munis, Genecy Ribeiro, Antonio Teixeira Júnior, Ricardo Moreno e todos os trabalhadores em serviço.

Com a primeira plantação de café e a instalação de ranchos nos diversos pontos da gleba, conseguia-se atendimento as exigências do Estado para a emissão dos títulos de domínio (cultura efetiva e moradia habitual).

Localizado em ponto estratégico, o acampamento da Fazenda Scarpari era o ponto de parada obrigatória por todos que buscavam a região e o movimento era constante.

Ameaças dos Invasores[editar | editar código-fonte]

A demarcação das terras, implantação do cafezal e a construção dos ranchos atendia às exigências do Estado, mas não garantiam que estas posses e outras localizadas mais ao fundo do sertão, do lado dos rios Piquiri e Água Branca seriam transformadas em "pleno domínio".

Aventureiros de vários lugares, especuladores imobiliários, protegidos quase sempre por políticos inescrupulosos, conseguiam obter ordens de localização para os mesmos lugares onde já existiam posses e, pela força aterrorizavam e expulsavam os ocupantes de boa fé.

O registro de mortes estúpidas, provocadas por pistoleiros contratados não eram difíceis de acontecer. Na região de Goioerê não foi diferente. O pequeno acampamento às margens do riacho Água Bela estava localizado em lugar estratégico, junto às precárias estradas abertas nas divisas das glebas que demandavam ao Rio Piquiri e ao Rio Água Branca. Desta forma, o caminho para todas as glebas em fase de ocupação passava necessariamente pelo acampamento.

Certa ocasião apareceram alguns aventureiros acompanhados de agrimensores e cerca de 40 trabalhadores, insistiam em se apossar de parte das terras e seguir adiante, demarcando outras posses de agricultores, num total de aproximadamente 25 mil alqueires, buscando ocupar todas as posses legítimas dos primeiros pioneiros.

A reação de Carlos Scarpari, diante da ameaça, foi imediata. Ele armou alguns homens e impediu o grupo de atravessar o rio Água Bela.

O clima ficou tenso na região e inconformados dos fatos, Pedro Parigot em Campo Mourão e, Wladimir Scarpari em Curitiba, fizeram ver as autoridades o perigo iminente de se estabelecer um conflito em uma região que estava tendo uma colonização pacífica e ordeira.

Com a intervenção da polícia de Campo Mourão e de um emissário do Departamento de Terras do Estado, os invasores foram deslocados para outro local.

Esta tentativa de invasão alertou a todos os pioneiros da região, inclusive os Moreira Salles, que estabeleciam suas posses do outro lado do rio Água Branca. Os pioneiros decidiram, então, a contratar Marins Belo para garantir todas as propriedades das glebas 12, 14 e outras. Foi graças a esta medida que se evitou novas tentativas de invasão e assegurou-se para a região uma colonização pacífica.

Nasce uma cidade[editar | editar código-fonte]

O primeiro cafezal implantado na Fazenda Scarpari vicejava a olhos vistos e impulsionados pelo entusiasmo de Carlos Scarpari, muitos agricultores da região Noroeste de São Paulo também vieram para a região a fim de conquistar seu quinhão de terra, entre eles Otávio Batista Pereira, Ranulfo Quintino, Antonio Moulin, João de Oliveira Dias, Marinho Tavares, Piza de Toledo, Paulo Novak e muitos outros.

Em 1.951 foram tituladas muitas glebas na região de Goioerê entre elas a dos Scarpari, com 1.200 alqueires, que foi registrada no dia 21 de janeiro de 1.951. Nesta época o acampamento já crescia e até mesmo uma pequena casa de madeira que serviria de sede da Fazenda, foi construída.

A população aumentava e também as dificuldades para se adquirir gêneros alimentícios e ferramentas, já que dependia de Campo Mourão para tudo.

Diante desta situação Carlos Scarpari começou a alimentar o sonho de formar uma cidade . Não um lugarejo ou uma vila, mas uma cidade de verdade.

O sonho não demorou para ser colocado em prática. No dia 29 de novembro de 1.951 era publicado no Diário Oficial do Estado o edital para o registro da planta do Patrimônio Goioerê, de propriedade da Sociedade Imobiliária do Oeste Paulista, da qual eram sócios Carlos Francisco e Wladimir Scarpari.

Conscientes que não podiam lançar uma cidade apenas para especulação imobiliária, como havia muitas na época, os três pioneiros resolveram ampliar o negócio e constituíram a Sociedade Imobiliária Terraplanagem Goioerê, tendo como sócio os pioneiros, mais Mansueto Serafini, que trabalhava com Wladimir Scarpari.

Em fevereiro de 1.952 máquinas de terraplanagem faziam a abertura das ruas da cidade de Goioerê, a partir do marco inicial, onde hoje esta localizado o Posto Esso.

No projeto já foram definidos os nomes das ruas, escolhidos por Carlos Scarpari, homenageando os primeiros pioneiros que entraram no sertão, inclusive o agrimensor Landislau Trausinsk, que faleceu logo após ter concluída a medição da gleba.

Pioneiros da cidade[editar | editar código-fonte]

Corria o ano de 1.952. A implantação de infra-estrutura prosseguia rapidamente, a iluminação elétrica, precária a princípio, era fornecida por um grupo de gerador a gasolina, instalado no hotel de madeira recém construído, e distribuía energia para a rede de iluminação da avenida Moisés Lupion no período das 20:00 às 24:00 horas.

A empresa colonizadora vendia os lotes urbanos em prestações em longo prazo, facilitando enormemente as condições para as pessoas que procuravam se instalar no comércio, pequenas industrias ou oficinas, chegando a doar os terrenos, diante do compromisso de se acelerar a instalação do estabelecimento.

A primeira serraria foi instalada por Henrique Schimidt, que foi influenciado por Carlos Scarpari, que algum tempo depois montaria a primeira olaria, às margens do riacho Água Bela, entregando sua administração a José das Dores, o "seo Dedé" e, logo surgiram as primeiras casa de alvenaria.

De Goioerê ao rio Piquiri a colonização foi feita por pessoas vindas do noroeste de São Paulo, que tinham recebido influência direta ou indiretamente de Carlos Scarpari. Do mesmo modo que trabalhadores, especializados ou não, se transferiram para Goioerê, atraídos por seu poder de persuasão ou mesmo contratado por ele.

A cidade cresceu[editar | editar código-fonte]

No ano de 1.953 foi criado o distrito de Goioerê, pertencente ao município de Campo Mourão, sendo que no mesmo ano foi instalado o primeiro cartório, tendo como oficial Luiz Gonçalves Pereira, que logo transferiu os direitos a Mauro Mori, que auxiliado por seu irmão Koiti Mori, consegue homologação definitiva para ser o titular deste tabelionato.

Koiti Mori desfrutava de grande influência junto à colônia japonesa em Londrina e pode se dizer que indiretamente foi um dos incentivadores da entrada dos primeiros japoneses e descendestes em Goioerê.

À medida que a cidade crescia, tornava-se mais urgente à melhoria das estradas e a abertura de outras. Não se podia esperar nenhuma medida do Governo de Estado, contava-se apenas com as providências de Prefeitura de Campo Mourão, cujo prefeito, Daniel Portela, apesar de boa vontade não dispunha de recursos para atender a um município tão extenso.

A estrada ligando Goioerê ao rio Piquiri foi feita aproveitando os picadões abertos pelos agrimensores nas divisas das glebas, mas ela era precária por atravessar muitas aguadas, o que impossibilitava o trafego no tempo de chuvas.

Consciente da importância da ligação com a região de Cascavel, os colonizadores determinaram a locação de uma nova estrada, passando pelos espigões e desviando o máximo das aguadas. Atravessando apenas a Água do Dez, a estrada foi aberta com grande trabalho e sacrifício. Havia trechos em que os tratores tinham de atravessar densas matas.

Foram 30 quilômetros de estradas que mudaram o destino da cidade, pois consolidou a posição como centro de uma região rica e produtiva. Para a construção da estrada muitos donos de terras colaboraram com uma cota de óleo diesel para auxiliar no custeio da obra. Eles entenderam o sacrifício que a empresa estava fazendo, pois sem possuir terras uma colonizadora, esta se portando como tal, construindo uma estrada que passava por terras que nem eram suas, com o objetivo de estimular o desenvolvimento de uma cidade.

Foi gratificante para os colonizadores verem o Departamento de Estrada de Rodagem (D.E.R) manteve o traçado original da estrada depois que assumiu a sua conservação e que o mesmo traçado foi mantido quando ela foi pavimentada (atual rodovia PR-180).

Goioerê crescia a olhos vistos e aos poucos as ruas iam ficando cheias de casas evidenciando que ali seria uma grande cidade.

Emancipação política[editar | editar código-fonte]

Ao mesmo tempo em que a cidade se desenvolvia, os colonizadores desenvolviam um trabalho de suma importância, que era o de atrair pequenos e médios agricultores para a região.

Dos 1.200 alqueires da família Scarpari, 150 foram destinados à cidade, 500 para as fazendas e os 550 alqueires restantes divididos em lotes de 5 a 10 alqueires, para venda. Essa tarefa de promover a venda e direcionar agricultores para Goioerê foi desenvolvida por Carlos Scarpari.

Nesta época, Francisco Scarpari executava um intenso trabalho de apoio ao desenvolvimento da cidade. Dedicava-se ativamente na construção da Primeira escola primária, da Delegacia de Polícia e do Novo Hotel. Wladimir Scarpari cuidava da parte administrativa, vendas e construção de estradas, abertura de ruas, campo de aviação e garantia a assistência técnica às maquinas. Mansueto Serafini, em Curitiba, colaborava com todo o processo, adquirindo materiais, providenciando projetos, inclusive modificações no projeto original do loteamento.

Goioerê era uma grande oficina de trabalho. O movimento comercial crescia em função das lavouras que se expandiam. A primeira safra de café dava novo ânimo aos agricultores e comerciantes.

As dificuldades, porém eram muitas e havia falta de tudo: escolas, hospitais, estradas, etc. Os poderes políticos nada faziam para amenizar a situação e começou a crescer o desejo da emancipação política.

O espírito comunitário e político começava a ganhar corpo em Goioerê. Dário Moreira Castilho constituiu o diretório do PTB e Francisco Scarpari fundou o PSD, que mais tarde viria a dar apoio maciço a eleição de Moisés Lupion para um segundo mandato como governador do Estado.

A emancipação política, contudo não foi fácil. Jaracatiá, então um pequeno povoado dentro da fazenda de Adão de Almeida, era administrado por João Lavadeira, político hábil, maneiroso, muito bem relacionado com deputados em Curitiba.

Lavadeira chegou a convencer um grupo de deputados que a sede do novo município deveria ser em Jaracatiá, que possuía na época não mais de 40 ou 50 casas.

Alertados sobre a situação, Wladimir e Francisco Scarpari fretaram um avião e tiraram fotografias aéreas das duas localidades. As fotografias foram levadas a Curitiba e ajudaram a convencer os deputados sobre o absurdo que estavam prestes a cometer.

Conseguiu-se assim, finalmente, a aprovação da lei que criava o município de Goioerê, que foi promulgada no dia 10 de agosto de 1.955.

Na primeira eleição para prefeito Francisco Scarpari foi candidato único, pela coligação PTB/PSD, iniciando uma nova fase na história de Goioerê.

Referências

  • Revista SUCESSO - Agosto/2002 - "Goioerê 47 anos".
  • Relato de Wladimir Scarpari, conta à história como surgiu a idéia da família vir para a região, até sua emancipação.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]