História do estudo da sexualidade

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Desde o aparecimento do ser humano no mundo, a sexualidade já era um fenômeno existente, mas a história do estudo da sexualidade só vem sendo pensada nos últimos séculos. Durante todo este percurso encontramos diferentes formas de expressão dessa sexualidade, carregadas de valores, estigmas e preconceitos de cada época e sociedade. Longe de ser somente um ato físico, acabou adquirindo significado simbólico bastante complexo e hoje funciona como uma estrutura social e cultural situada dentro de um sistema de poder.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Justine ou les Malheurs de la vertu (Justine e os infortúnios da virtude).

As curiosidades sobre a sexualidade e os sentimentos que ela desperta sempre esteve presente ao longo da história da humanidade. Podemos verificar diversas obras de arte da Antiguidade, ou até mesmo desenhos pré-históricos que retratam o corpo humano; e muitos com ênfase nos órgãos genitais. O pênis, por exemplo, conhecido como "falo" ao estar ereto, já foi idolatrado como o símbolo de fertilidade, de sorte, de proteção, de poder e de liderança pelas mais diversas culturas do globo terrestre e ainda tem vital importância simbólica na atualidade. Referências sobre esse estudo podem ser encontradas desde a Idade Antiga, nos escritos do filósofo Platão, onde ele identificava o deus Eros como o deus do amor e dos apetites sexuais, deus do instinto básico da vida e responsável pela atração entre os corpos[1] . Em contrapartida, ao analisarmos os discursos a partir do século XVII, percebemos que o ato sexual passou a ser colocado pela burguesia e principalmente pela Igreja em outro patamar, retirando-lhe a centralidade. Foucault[2] analisa que, apesar de marcada por relações de poder, a sexualidade não pode ser vista como uma mera extensão de conflitos marcados pela luta de classes. Se para a aristocracia a “pureza” estava no sangue, para a burguesia ela se encontraria apenas na busca de uma sexualidade garantidora da diferenciação frente aos demais componentes da sociedade. Somente quando se colocam problemas econômicos, como, por exemplo, o controle das populações, que a sexualidade do trabalhador passará a constituir problema. Assim é que a burguesia desempenha papel significativo na evolução de uma nova visão de sexualidade, mas não necessariamente sob a forma de “censura”. Quanto à Igreja, sobretudo a Católica, que dominava de uma certa forma a mentalidade da sociedade da época, a sexualidade ficou restringida à ideia de procriação donde qualquer tipo de controle de natalidade, ao contrário do propagado pelos especialistas da demografia, é visto como pecado.

Entretanto, com a difusão dos estudos e princípios da Revolução Científica, a medicina se tornou um ator fundamental neste processo, ao instaurar uma série de procedimentos pelos quais as práticas sexuais passaram a ser analisadas, a partir de uma visão “científica”. Tal discurso se torna poderoso à medida que não fala em nome de especulações e de falsas crenças determinadas pela Igreja, dando um lugar central à objetividade junto as observações criteriosas baseadas nos métodos científicos que garantem uma “verdade” irretocável e, por isso mesmo, que se coloca na condição de guia para o estudo e prática sexual.

O estudo da sexualidade hoje[editar | editar código-fonte]

Nos tempos atuais, destacou-se no estudo da sexualidade o surgimento da psicanálise, com os estudos de Sigmund Freud, que se referiu a esse mesmo deus Eros de Platão como a libido, força vital de amor.

O tema da sexualidade foi primeiro abordado por Michel Foucault que problematiza essa questão confrontando-a com a moral contemporânea. De acordo com o contexto social do mundo moderno, o papel do homem e da mulher na sociedade seria paralelo aos papéis dos dois gêneros no mundo greco-romano. Neste caso, os gêneros não são caracterizados em um aspecto biológico, mas sim pelo caráter social [3] . Para os estudiosos de cultura contemporânea, o sexo não seria uma ação natural, e sim uma construção de cada época. Portanto, significa que o conceito de sexo muda de acordo com a convenção de cada sociedade. Sendo assim, o que é convenção seria considerado natural e adequado porque assim como "praticamente toda configuração imaginável de prazer pode ser institucionalizada como convenção."[4]

Hoje, o interesse pelo estudo da Sexualidade é cada vez mais forte no mundo inteiro. Verificamos um avanço na tentativa de melhor capacitar os profissionais de diferentes áreas visando aumentar seus desempenhos em suas diferentes funções. Atualmente, além de médicos, temos psicólogos, enfermeiros e educadores investindo nessa área através do desenvolvimento de trabalhos de pesquisa aprofundados no tema. É importante ressaltar que, para uma melhor compreensão da dinâmica da sexualidade, é necessário uma desvinculação de valores próprios que podem trazer conclusões preconceituosas de uma determinada sociedade.

Referências

  1. Suas ideias estão expostas principalmente nos diálogos Lísis e O Banquete. Cf. Reeve, C. D. C., "Plato on Friendship and Eros", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2011 Edition), Edward N. Zalta (ed.).
  2. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade, vol. I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988. 17ª edição.
  3. Blanshaard, 2007: 328.
  4. WINKLER, 1990: 171.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. 3 vols. Rio de Janeiro: Graal, 1988
  • BLANSHARD, Alastair J. L. Gender and Sexuality. In: KALLENDORF, Craig w. (ed). A Companion to the Classical Tradition. Oxford: Blackwell, 2007.
  • HALPERIN, D. M.; WINKLER, J. J.; ZEITLIN, F. I. (eds). Before Sexuality: The Construction of Erotic Experience in the Ancient Greek World. Princeton: Princeton University Press, 1990.

Ver também[editar | editar código-fonte]