História do feminismo

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A história do feminismo envolve a história do movimento feminista e de pensadoras feministas. De acordo com a data, cultura e país, feministas ao redor do mundo tiveram, por vezes, diferentes causas e objetivos. A maioria das historiadoras feministas ocidentais defendem que todos os movimentos que trabalham pela obtenção dos direitos da mulher devem ser considerados movimentos feministas, mesmo que eles não usem ou tenham usado o termo para identificar-se.[1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] Outros historiadores defendem que o termo deva ser restrito aos movimentos feministas modernos e seus descendentes. Estes historiadores utilizam o termo protofeminismo para descrever movimentos mais antigos.[8]

A história dos movimentos feministas modernos no ocidente é dividida em três “ondas”.[9] [10] Cada uma é descrita como preocupada com diferentes aspectos dos mesmos temas feministas. A primeira onda refere-se ao movimento desde o século XIX até o começo do século XX, que lidou majoritariamente com o sufrágio das mulheres, direitos trabalhistas e educacionais para mulheres e garotas. A segunda onda (década de 60-80) lidava com a desigualdade das leis, bem como as desigualdades culturais, e com o papel da mulher na sociedade. A terceira onda (fim da década de 1980-começo da década de 2000) é vista tanto como uma continuação da segunda onda e como uma resposta às falhas nela percebidas.[11]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Os termos “feminismo” ou “feminista” apareceram pela primeira vez na França e nos Países Baixos em 1872 (como les féministes),[12] na Grã-Bretanha na década de 1890 e nos Estados Unidos em 1910.[13] [14] O Oxford English Dictionary apresenta o ano de 1894 como a primeira aparição do termo “feminista” e 1895 do termo “feminismo”.[15] O jornal inglês “The Daily News” introduziu pela primeira vez o termo “feminista” à língua inglesa, importando-a da França e insinuando que era algo perigoso: “O que nosso correspondente em Paris descreve como um grupo ‘feminista’... na câmara francesa de deputados.”[16] Antes deste tempo, “Direitos das Mulheres” era provavelmente o termo mais usado, tanto que há o registro da frase de Rainha Vitória, descrevendo o movimento como um “maluco, imoral, bando de loucos dos ‘Direitos das Mulheres’.”[17] Definir o feminismo pode ser desafiador, mas um entendimento amplo dele inclui a ação, o discurso, a escrita e a defesa dos temas relevantes às mulheres, direitos, além da identificação da injustiça presente em relação às mulheres no status quo.

Protofeminismo[editar | editar código-fonte]

Cristina de Pisano apresenta seu livro à rainha Isabel da Baviera.

Pessoas e ativistas que discutiram ou avançaram os temas relacionados às mulheres antes da existência do movimento feminista são por vezes identificados como protofeministas.[8] Alguns estudiosos, contudo, criticam o uso deste termo.[6] [18] Alguns argumentam que diminui a importância de contribuições mais antigas,[19] enquanto outros argumentam que o feminismo não possui uma história única e linear, como se supõe no uso de termos como “protofeminismo” ou “pós-feminismo”.[16]

A escritora francesa Cristina de Pisano, autora dos livros Le Livre de la Cité des Dames (O Livro da Cidade das Damas) e Epître au Dieu d'Amour (Epístola ao Deus do Amor) é citada por Simone de Beauvoir[20] como a primeira mulher a escrever sobre as relações entre os sexos e a denunciar a misoginia. Mais tarde, Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim e Modesta di Pozzo di Forzi, que trabalharam no século XVI,[21] e outras do século XVII, como Hannah Woolley, na Inglaterra;[22] Juana Inés de la Cruz no México;[23] Marie de Gournay, Anne Bradstreet e François Poullain de la Barre;[21] são por vezes descritos como protofeministas.[por quem?]

Séculos XVII e XVIII[editar | editar código-fonte]

Uma das mais importantes escritoras feministas em língua inglesa no século XVII foi Margaret Cavendish.[24] [25] [26]

Primeira edição impressa de Vindication of the Rights of Woman (Uma Defesa dos Direitos da Mulher), de Mary Wollstonecraft.

O Iluminismo foi caracterizado pela razão secular intelectual, e um florescimento da escrita filosófica. Vários filósofos iluministas do século XVIII defenderam os direitos das mulheres, como Marie Jean Antoine Nicolas Caritat, Marquês de Condorcet; Jeremy Bentham; e, mais notavelmente, Mary Wollstonecraft.[27]

Jeremy Bentham[editar | editar código-fonte]

O filósofo inglês utilitarista e liberal clássico Jeremy Bentham afirmou que era a colocação da mulher em uma posição legalmente inferior que o fez escolher a carreira de reformista, aos onze anos de idade. Bentham defendia uma completa igualdade entre os sexos, incluindo o direito ao voto e a participação no governo. Além disto, opunha-se fortemente aos padrões morais fortemente discrepantes entre homens e mulheres.[28]

Em seu livro, “Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação” (1781), Bentham condena entusiasticamente a prática, comum em vários países, de negar direitos às mulheres devido às suas mentes supostamente inferiores.[29] Bentham fornece vários exemplos de capazes mulheres regentes.

Marquês de Condorcet[editar | editar código-fonte]

Nicolas de Caritat, o Marquês de Condorcet, foi um matemático, político liberal clássico, revolucionário e voltairiano anti-clerical. Ele era um defensor ferrenho dos direitos humanos, incluindo a igualdade entre mulheres e homens e a abolição da escravatura, já na década de 1780. Ele apoiou o sufrágio das mulheres para o novo governo, escrevendo um artigo para o Journal de la Société de 1789 e também ao publicar De l'admission des femmes au droit de cité (Pela Admissão dos Direitos das Mulheres à Cidadani) em 1790[30] [31]

Wollstonecraft and A Vindication[editar | editar código-fonte]

Mary Wollstonecraft por John Opie (c. 1797).

Possivelmente, a mais citada escritora feminista da época foi Mary Wollstonecraft, frequentemente caracterizada como a primeira escritora feminista. Uma Defesa dos Direitos da Mulher (1792) é um dos primeiros que podem indubitavelmente serem chamados feministas, embora para os padrões modernos a comparação que a autora faz com a nobreza, a elite da sociedade (mimada, frágil, à beira da ociosidade intelectual e moral) pode parecer um argumento feminista datado. Mary Wollstonecraft identificou a educação e a criação de mulheres como criadoras das suas expectativas limitadas baseadas na imagem que possuíam de si mesmas, ditada pelo Olhar (Lacan) dos homens.[carece de fontes?] Apesar de suas visíveis inconsistências (Brody a aborda falando de “as duas Wollestonecrafts”[32] ), reflexos de problemas que até então não tinham respostas fáceis, este livro continua sendo uma fundação do pensamento feminista.[3]

Mary acreditava que mulheres e homens contribuíam para a desigualdade. Ela entendia como evidente que mulheres possuíam considerável poder sobre os homens, mas que os dois careciam de reeducação para garantir que mudanças necessárias nas suas atitudes sociais. Seu legado continua na necessidade contemporânea das mulheres em ganhar voz e contar as suas histórias.[carece de fontes?] Suas próprias conquistas são descritivas de sua própria determinação, dado que veio de uma família pobre e teve pouquíssimo acesso à educação. Mary atraiu o desprezo de Samuel Johnson, que a descreveu, bem como as pessoas que com ela simpatizavam, como “Amazonas da Caneta”. Dado o seu relacionamento com Hester Thrale[33] , aparentemente o problema de Johnson não era com mulheres educadas e inteligentes, mas com o fato de que elas adentrariam no território até então masculino da escrita. Para muitos comentaristas, Mary representa a primeira codificação de um feminismo preocupado com a “igualdade” entre os gêneros, em oposição às diferenças. Ademais, trazia uma recusa da feminilidade, ambas abordagens de Mary que foram percebidas como resultantes do Iluminismo.

Outras autoras importantes[editar | editar código-fonte]

Outras importantes autoras do tempo incluem Catharine Macaulay, que argumentou em 1790 que a aparente fraqueza das mulheres era causada pela sua educação precária.[34] Em outras partes da Europa, Hedvig Charlotta Nordenflycht estava escrevendo na Suécia, e o que se supõe ser a primeira sociedade científica para mulheres foi fundada em Midelburgo, no sul da Holanda, no ano de 1785. Tratava-se da Natuurkundig Genootschap der Dames (Sociedade das Mulheres pelo Conhecimento Natural),[35] [36] que encontrava-se regularmente desde 1881, dissolvendo-se somente em 1887. Jornais voltados às mulheres que focavam-se na ciência se tornaram populares durante este período também.[37] Outros autores, porém, apontam que mulheres já têm sido cientistas há 4.000 anos.[38]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Spender, Dale. There's always been a women's movement. Pandora Press, Londres 1983
  2. Lerner, Gerda. The Creation of Feminist Consciousness From the Middle Ages to Eighteen-seventy, Oxford University Press, 1993
  3. a b Walters, Margaret. "Feminism: A very short introduction". Oxford University 2005 (ISBN 0-19-280510-X)
  4. Kinnaird, Joan.Mary Astell: Inspired by ideas (1668-1731) em Spender, op. cit. at 29
  5. Witt, Charlotte. Feminist History of Philosophy 2006 (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
  6. a b Allen, Ann Taylor. Feminism, Social Science, and the Meanings of Modernity: The Debate on the Origin of the Family in Europe and the United States, 1860–1914. The American Historical Review 1999 October 104(4)
  7. Woolf, Virginia A room of one's own. 1928
  8. a b Botting, Eileen H, Houser, Sarah L., '"Drawing the Line of Equality": Hannah Mather Crocker on Women's Rights' in American Political Science Review (2006), 100: 265-278
  9. Humm, Maggie. 1995. The Dictionary of Feminist Theory. Columbus: Ohio State University Press, p. 251
  10. Walker, Rebecca, 'Becoming the Third Wave' in Ms. (Janeiro/Fevereiro 1992) pp. 39-41
  11. Krolokke, Charlotte e Anne Scott Sorensen, "From Suffragettes to Grrls" in Gender Communication Theories and Analyses:From Silence to Performance (Sage, 2005)
  12. Feminista neerlandesa pioneira, Mina Kruseman, em carta a Alexandre Dumas – em: Maria Grever, Strijd tegen de stilte. Johanna Naber (1859-1941) en de vrouwenstem in geschiedenis (Hilversum 1994) ISBN 065503951, pág. 31
  13. Offen, Karen. "Les origines des mots 'feminisme' et 'feministe'". Revue d'histoire moderne et contemporaine. Julho–Setembro 1987 34: 492-496
  14. Cott, Nancy F. The Grounding of Modern Feminism. New Haven: Yale University Press, 1987 em 13-5.
  15. Oxford English Dictionary. 2ª. ed. [S.l.]: Clarendon Press, 1989.
  16. a b Ferguson, Margaret. (Março 2004). "Feminism in Time". Modern Language Quarterly 65 (1): 7–8. DOI:10.1215/00267929-65-1-7.
  17. Carta a Sir Theodore Martin 1870. Citado por Amartya Sen, em Many faces of gender inequality. Frontline 18(22) 9 de novembro de 2001, arquivado 18 de maio 2009 acessado em 14 de dezembro de 2012.
    Também disponível em: Victoria Station Queen Quotes: Março de 1970, excerto:

    "I am most anxious to enlist everyone who can speak or write to join in checking this mad, wicked folly of 'Women's Rights', with all its attendant horrors, on which her poor feeble sex is bent, forgetting every sense of womanly feelings and propriety. Feminists ought to get a good whipping. Were woman to 'unsex' themselves by claiming equality with men, they would become the most hateful, heathen and disgusting of beings and would surely perish without male protection."

    British History of Women's Suffrage:

    "I am most anxious to enlist everyone who can speak or write to join in checking this mad, wicked folly of "Women's Rights", with all its attendant horrors, on which her poor feeble sex is bent, forgetting every sense of womanly feeling and propriety. Lady Amberley ought to get a good whipping. Were woman to unsex themselves by claiming equality with men, they would become the most hateful, heathen and disgusting of beings and would surely perish without male protection."
  18. Cott, Nancy F. "What's In a Name? The Limits of ‘Social Feminism’; or, Expanding the Vocabulary of Women's History". Journal of American History 76 (Dezembro 1989): 809–829
  19. Urbanski, Marie Mitchell Olesen. 'Margaret Fuller: Feminist writer and revolutionary' (1810-1850) em Dale Spender (ed.) Spender, Dale (ed.) Feminist theorists: Three centuries of key women thinkers (Pantheon, 1983), pág. 75-89, ISBN 978-0-394-53438-7
  20. de Beauvoir, Simone. The Second Sex. [S.l.]: Vintage Books, 1989. p. 105. ISBN 0-679-72451-6.
  21. a b Schneir, Miram. Feminism: The Essential Historical Writings. [S.l.]: Vintage Books, 1994. p. xiv. ISBN 0-679-75381-8.
  22. Hannah Woolley b. 1623, England; d. c. 1675, England Dinner Party Database of notable women (20 de março de 2007).
  23. Majfud, Jorge (25 de fevereiro de 2007). The Imperfect Sex: Why Is Sor Juana Not a Saint? Mr Zine.
  24. [Kegl, Rosemary. ‘“The World I Have Made”: Margaret Cavendish, feminism and the Blazing World’’, Feminist Readings of Early Modern Culture: Emerging Subjects. Valerie Traub, M. (ed.), Lindsay Kaplan (ed.), e Dympna Callaghan (ed.). Cambridge: Cambridge University Press, 1996, pág.119-141]
  25. Martin Griffiths 31 de agosto de 2008. The feminism, fiction, science and philosophy of Margaret Cavendish
  26. A Science Turned Upside down: Feminism and the Natural Philosophy of Margaret Cavendish. Lisa T. Sarasohn. Huntington Library Quarterly. Vol. 47, Nº. 4 (Autumn, 1984), pág. 289-307
  27. Tomalin, Claire. The Life and Death of Mary Wollstonecraft. 144–155. Rev. ed. 1974. Nova Iorque: Penguin, 1992. ISBN 0-14-016761-7
  28. Miriam Williford, Bentham on the rights of Women
  29. Miriam Williford, Bentham on the rights of Women, Journal of the History of Ideas, 1975
  30. [http://www.pinn.net/~sunshine/book-sum/condorcet4.html
  31. Marie-Jean-Antoine-Nicolas Caritat, Marquis de Condorcet, On the Admission of Women to the Rights of Citizenship (1790), The First Essay on the Political Rights of Women. A Translation of Condorcet’s Essay “Sur l’admission des femmes aux droits de Cité” (On the Admission of Women to the Rights of Citizenship). Por Dra. Alice Drysdale Vickery (c/ prefácio e notas) (Letchworth: Garden City Press, 1912).
  32. Brody, Miriam. Mary Wollstonecraft: Sexuality and women's rights (1759-1797), em Spender, Dale (ed.) Feminist theorists: Three centuries of key women thinkers, Pantheon 1983, pág. 40-59 ISBN 0-394-53438-7
  33. Prose, Francine. The lives of the muses. Harper Collins New York 2002 pp. 29-56
  34. Walters, Margaret. Feminism: A Very Short Introduction. USA: Oxford University Press, 2006. ISBN 0-19-280510-X.
  35. Jacob, Margaret C., Sturkenboom, Dorothée. A women's scientific Society in the west: The late-18th-century assimilation of science. Isis 2003 9492): 217-52
  36. The electric kiss: Ladies, physics and friendship in the 18th and 19th centuries
  37. Phillips, Patricia. The scientific lady: A social history of women's scientific interests 1520-1918. St Martin's, N.Y. 1990
  38. Crocker, Deborah e Sethanne Howard. 4000 years of women in science

Ligações externas[editar | editar código-fonte]