Homossexualidade na Bíblia

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A Bíblia, uma coleção de livros catalogados e considerados como divinamente inspirados pelas três religiões abraâmicas (cristianismo, islamismo e judaísmo), possui três principais passagens nas quais é supostamente abordado, em contextos de idolatria, um ato homossexual masculino.

Com efeito, a Bíblia também chega a mencionar em Romanos 1:26 - quando fala dos rituais de idolatria dos romanos, sobre a relação para physin ("incomum", "não usual" ou "contrária a natureza") entre mulheres, o que poderia ser entendido como uma quarta referência à homossexualidade. Entretanto, o texto não deixa claro se essas relações são fora do comum por quaisquer razões que não fossem o sexo para fins de procriação - sexo anal, sexo em pé etc.[1] - ou se assim o seriam por se tratar de sexo lésbico. Devido à ambigüidade do texto, não há como se afirmar com certeza que a Bíblia faça menção ao sexo entre mulheres, ao contrário do ato homossexual masculino, que é mencionado. Porém no capitulo 27 fica mais claro "E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro" Romanos 1:27

Não obstante, em especial com a expansão das pesquisas exegéticas e hermenêuticas, não existe um consenso pleno sobre como exatamente deveriam ser interpretadas essas passagens bíblicas. Dentre os cristãos, o protestantismo tem como um de seus principais princípios a interpretação privada ou juízo privado dos textos bíblicos,[2] fruto da Reforma Protestante, quando Lutero, em outubro de 1516, enviou seu escrito "A Liberdade de um Cristão" ao Papa, acrescentando a frase significativa "Eu não me submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus". Isso posteriormente acabou originando o direito fundamental de liberdade religiosa, bem como a própria ideia de democracia,[3] ao consagrar a ideia de horizontalidade dos fieis protestantes, ao contrário da verticalidade do catolicismo, cuja última opinião em matéria de interpretação bíblica pertence ao Papa. Portanto, no protestantismo, a opinião de cada um dos fiéis em matéria de interpretação bíblica tem o mesmo peso.

Além da diversidade de posicionamentos por parte de estudiosos, existem, atualmente muitas denominações religiosas protestantes históricas - como as Igreja Luterana e Anglicana e setores minoritários da Igreja Batista, Metodista, entre outras, que, num processo revisionista, vêm discordando das interpretações mais restritas comuns entre as doutrinas cristãs mais influentes, de modo que elas aceitam membros que são assumidamente gays e lésbicas, e algumas destas igrejas até os ordenam ao sacerdócio, como o famoso caso de Gene Robinson que, mesmo gay assumido, foi eleito bispo da diocese episcopal de New Hampshire na Igreja Episcopal dos Estados Unidos

Referências bíblicas a atos homossexuais[editar | editar código-fonte]

Existem três passagens da Bíblia que fazem referência a atos homossexuais. As duas primeiras no Velho Testamento, no contexto da purificação preconizada pela Lei Mosaica, a Torá. A terceira passagem se situa no Novo Testamento quando o apóstolo Paulo descreve os rituais orgiásticos idólatras dos gentios romanos:

Cquote1.svg Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é toevah (também no grego bdelygma, ambos significam "impureza" ou "ofensa ritual"). Cquote2.svg
Levítico 18:22
Cquote1.svg Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão "toevah"." Cquote2.svg
Levítico 20:13
Cquote1.svg ...visto que, conhecendo a Deus, não lhe renderam nem a glória… pelo contrário… tornaram-se estultos… trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens que representam o Deus corruptível, pássaros, quadrúpedes, répteis… por este motivo, Deus os entregou a paixões infames: as suas mulheres mudaram o uso physiken (natural, usual comum) em outro uso que é para physin (não natural, fora do comum, inusitado). Do mesmo modo também os homens, deixando o uso physiken da mulher, abrasaram-se em desejos, praticando uns com os outros o que é indecoroso e recebendo em si mesmos a paga que era devida ao seu desregramento" Cquote2.svg

Além destas há uma passagem na Primeira Epístola aos Coríntios que gera controvérsias entre os religiosos e teólogos:

Cquote1.svg Não errais: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem malakoi, nem arsenokoitai… herdarão os reino de Deus" Cquote2.svg
I Coríntios 6:9-10

Esta passagem - em que São Paulo lembra aos cristãos de Corinto acerca da lei judaica a fim de alertá-los dos erros que cometiam - tem sido alvo de intensas discussões quanto a sua tradução. As palavras malakoi e arsenokoitai ao longo dos séculos têm sido traduzidas de forma bem distintas.

Quanto a palavra malakoi (que literalmente significa "mole", "macio") já houve versões bíblicas que a traduziram como "depravados", "pervertidos", "efeminados", "efebos", "meninos prostitutos" e algumas versões modernas chegaram até mesmo a falar em "homossexuais". Entretanto, até a Reforma no século XVI e no Catolicismo no século XX, pensava-se que tal palavra significasse "masturbadores". Sabe-se, porém, que para além de seu sentido literal de "mole" ou "macio", tal termo, quando usado para adjetivar pessoas, pode também ser entendido como "lasso", "irrefreável", "devasso" ou mesmo "efeminado". E é a partir dessa última tradução que se tem entendido por parte dos religiosos tradicionais que, portanto, existiria no texto uma condenação aos homossexuais. Segundo essa concepção um homem lasso, promíscuo e efeminado só poderia se tratar de um homossexual.

Não obstante, há uma séria contra-argumentação a esse entendimento. Uma grande, e hoje crescente, parte dos estudiosos tem questionado essa interpretação, mostrando que a palavra malakoi, mesmo quando traduzida como "efeminado" jamais pode ser entendida como uma referência a homossexuais. Para tal intento, mostram que tal tradução é ambígua uma vez que o termo "efeminado" filologicamente sempre significou, para além de "pusilânime", também "mulherengo", e é esse o sentido que a palavra original tinha nos tempos de Paulo - o que, de fato, é coerente com outras passagens bíblicas que condenam os promíscuos e devassos, como Apocalipse 21:8 e 22:15. Tais críticos lembram também que a palavra "efeminado" só adquiriu conotação de "homossexual" na Modernidade, de modo que inserir essa tradução nos escritos de Paulo seria um gritante anacronismo e algo profundamente descabido. No intuito de comprovar tal entendimento, acrescentam que até a era moderna, nunca, em nenhum texto, em nenhum época sequer a palavra malakoi significou "homossexual" ou conceito semelhante, e desafiam a quem possa mostrar o contrário.

Já em relação à palavra arsenokoitai a controvérsia é ainda maior. Uma vez que ela, em um intervalo de três séculos, somente aparece em dois escritos de Paulo e, posteriormente nos Oráculos Proféticos (Sibylline Oracles) e em mais nenhuma outra literatura na história - e em ambos dois casos a palavra se encontra dentro de uma lista, de modo a seu significado não poder ser alcançado a partir de um contexto - fica impossível determinar seu significado literal. Há, porém, um certo consenso que esta palavra se trata de um neologismo criado por Paulo, que teria juntado as palavras arsen, que significa "homem" e koiten, que significa "cama". Vale notar que para alguns religiosos - como os tradutores da NVI e A Bíblia na Linguagem de Hoje - tal dado já seria suficiente para levá-los a crer que tal palavra se referiria, sim, à "homossexual", uma vez que o pecado que um homem pode fazer na cama seria, em seus pontos de vista, quase certamente, um ato homossexual. Tal entendimento - acusado de simplista e homofóbico pelos liberais - com efeito, não pareceu não dar conta de desvendar a palavra em questão para a maioria dos exegetas e acadêmicos.

Diante da impossibilidade de encontrar o significado literal da palavra arsenokoitai, uma ampla gama de estudos acadêmicos foi feita ao longo do século XX no intuito de compreender de fato o termo e evitar sua tradução de modo precipitado e controverso. É, então, que pelo método histórico-crítico pôde-se, enfim, compreender o que tem sido amplamente aceito como o mais provável sentido do neologismo paulino.

Arsenokoitai remete ao conceito de prostituição cultual muitíssimo comum no Antigo Testamento, quando meninos eram vendidos como kadeshim, ou "prostitutos cultuais", para os templos pagãos, como os de Dionísio, Baal e Diana, ou mesmo homens livres se faziam sacerdotes sexuais para se dedicarem a esses templos de freqüente idolatria orgiástica. A exatidão dessa teoria se provaria uma vez que a Septuaginta, que eram as escrituras sagradas que Paulo lia à sua época, usa os exatos mesmos termos que o apóstolo usou em Levítico 18:22: Como homem (arsenos), não te deitarás (koiten), como mulher…(Kai meta arsenos ou koimethese koiten…), e o texto se finaliza afirmando que tal ato seria toevah, uma palavra que, como vimos, no hebraico é sempre usada num contexto de ritual religioso, de impureza no sentido religioso, o que é praticamente um consenso entre os hermenêutas veterotestamentários.

Há fartas outras comprovações bíblicas que suportam essa teoria de que Paulo quando fala em sua Carta aos Coríntios 6:9-10, ele esta a afirmar que são os prostitutos cultuais que não herdarão o reino dos céus, da mesma forma que o texto de Levítico o faz. A começar pela própria introdução do texto da Lei Mosaica que se inicia (Levítico 18:3) mostrando que as proibições do capítulo são proibições de práticas que os egípcios e canaanitas faziam por "estatuto", o que deixa, assim, inquestionável que se tratam de práticas de cunho religioso pagão. Vários outros textos como Deuteronômio 12:30, I Reis 14:23, Deuteronômio 23:4, 1 Reis 15:12-13, Deuteronômio 23:17, I Reis 22:46 e II Reis 23:7 fazem comprovar que Paulo, em Coríntios, em vez de falar de homossexuais, apenas repete o claro mandamento bíblico de condenação aos prostitutos cultuais.

Devido a esses fortes argumentos, muitas igrejas cristãs históricas, e mesmo muitos setores da Igreja Romana têm em definitivo desconsiderado esta passagem de Coríntios, e mesmo a de Romanos, como referentes à homossexualidade. Entendem que os textos condenam somente o sexo idolátrico, lascivo e promíscuo (entre pessoas do mesmo sexo ou não). Essa interpretação é ratificada por importantes círculos acadêmicos, especialmente na Europa e Canadá, e mesmo nos EUA, nos seus setores mais liberais. Na América Latina, em especial no Brasil, somente a Igreja Evangélica de Confissão Luterana e a Igreja Anglicana parecem adotar posicionamentos similares. A Nova Bíblia Anotada Oxford, considerada uma das mais relevantes academicamente do mundo, traz notas que validam a não condenação dessas passagens aos homossexuais, também a Bíblia de Jerusalém, umas das traduções mais respeitadas no mundo teológico, não aceita a tradução desses textos como sendo referentes aos homossexuais. No entanto, alguns religiosos levantam fortes críticas a essa teologia - também chamada de Teologia Inclusiva - acusando-a de excessivamente liberal. Afirmam que, mesmo que em se tratando de prostituição idólatra, as condenações de Paulo também incluiriam os homossexuais de nosso tempo pois estes, ao adotarem o estilo de vida gay, estariam optanto por uma prática sexual caída, antinatural e aversa aos valores dividos e, por isso, recairiam da mesma forma em uma forma também de paganismo idólatra.

É fato notório, não obstante, que importantes teólogos cristãos, até mesmo não liberais, têm se manifestado a favor da teologia inclusiva em nossos dias. Philip Yancey, Desmond Tutu, Leonardo Boff, Caio Fábio, Frei Beto, Neemias Mariem, Dom Evaristo Arns, Martin Luther King Jr, entre outros grandes intelectuais do mundo teológico, têm se manifestado sistematicamente contra a homofobia da Igreja e pela inclusão teológica dos homossexuais. No início do ano de 2008, o pastor Philip Yancey, considerado um dos maiores e mais influentes autores cristãos atuais, colunista da famosa revista Christianity Today, deu uma polêmica entrevista à revista gay americana Whosoever na qual afirma que os homossexuais que não são aceitos em suas igrejas como eles são, deveriam deixá-las para se socorrerem em outros grupos que os aceitem, pois "estas igrejas precisam de educação". Já o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, um dos mais importantes líderes anti-apartheid, quando ganhou o Prêmio Nobel da Paz, em 1984, declarou também que o ódio contra gays é tão condenável quanto o racismo. "Penalizar alguém por sua orientação sexual é o mesmo que penalizar alguém por algo que a pessoa nada pode fazer a respeito, como a cor da pele. Ao fazer isso, a Igreja persegue um grupo que já é perseguido", disse. Leonardo Boff, por sua vez disse que "é fundamental reconhecer a criação do amor de Deus e dizer que onde há amor entre casais, ou entre homossexuais, seja mulher ou homem, onde há amor há ato de Deus, porque Deus é amor.

Queda de Sodoma e Gomorra[editar | editar código-fonte]

Muitos religiosos, especialmente os tidos como conservadores, e também o senso-comum associam a queda de Sodoma e Gomorra com a prática de relações homossexuais,[4] o que teria feito com que as cidades fossem destruídas. No entanto, estudiosos mostram que o pecado cometido teria sido o da falta de hospitalidade com os estrangeiros, e a intenção de estupro dos visitantes, já que o termo conhecer, fundamental para o entendimento de tal trecho, significaria ali claramente um abuso sexual[carece de fontes?], e em nada se vincularia a um relacionamento homoafetivo, mas sim ao abuso e à violência.

Segundo o relato bíblico, os habitantes dessa terra seriam cananeus.[5] O território antes do cataclismo, era paradisíaco. Ocupava uma área aproximadamente circular no vale inferior do Mar Morto (chamada de Distrito ou Bacia, do hebr. Kik.kár).[6]

Após o retorno de Abrão (Abraão) do Egipto, menciona que "eram maus os homens de Sodoma, e grandes pecadores contra YHVH (traduzido comumente como SENHOR)".[7] Mas isso não chegou a impedir uma tolerância entre os habitantes de Sodoma (cidade-estado) com o patriarca Abrão, e com o seu sobrinho, .[8]

Dois anjos de Deus, materializados, teriam dito a Abrão que "o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito." Abrão intercede 3 vezes pelos sodomitas. A resposta final é: "Se houver em Sodoma 10 pessoas justas, não será destruída".[9] Qual era o pecado grave dos Sodomitas?

Esses dois anjos entram na cidade, que fica em uma região desértica, para pedir abrigo e proteção. Ló se apiedou desses viajantes e os hospedou em sua casa, porém, sem conhecer a real identidade angelical destes.[10] Antes de se deitarem, os homens da cidade, descontentes com o fato de Ló, que também era um homem de fora, ter trazido dois outros estranhos para a cidade, cercaram então sua casa, desde do rapaz até o velho, todo o povo numa só turba, exigindo que Ló pusessem os visitantes para fora de sua casa para que fossem estuprados,[11] o que era uma prática freqüente na Antigüidade, quando prisioneiros, guerreiros, ou exércitos vencidos eram comumente violentados sexualmente como forma de desonra, humilhação ou castigo. Ló roga para que os homens não fizessem esse mal ao seus visitantes, mas a turba, ainda mais irada com ele, o ataca dizendo que faria, então, a Ló ainda mais maldades do que com os visitantes. O texto então termina afirmando que os anjos protegeram, ao fim, a Ló e a sua família e, em seguida, toda a cidade teria sido destruída por Deus com fogo e enxofre.

Há atualmente teológos e acadêmicos que afirmam que esta passagem do livro de Gênesis não se refere à homossexualidade, mas ao abuso, ao desamor e a falta de piedade. A Bíblia Anotada New Oxford afirma: "…a questão principal aqui é a hospitalidade aos visitantes divinos. Nesta passagem a sacralidade da hospitalidade é ameaçada pelos homens da cidade que queriam violentar os hóspedes. O ponto principal desta passagem parece ser a ameaça que os habitantes representam ao valor da hospitalidade. Esta é tão valorizada neste contexto, a ponto de neutralizar a negatividade da atitude de Ló ao oferecer suas filhas em lugar de seus hóspedes o que, hoje, seria uma atitude impensável e repugnante à qualquer leitor". Segundo hermenêutas, a história de Sodoma e Gomorra faz, assim, uma alusão profética à vinda de Cristo que, assim como os anjos, é o enviado de Deus à terra e seria acolhido pelos homens justos, mas também seria recebido cruelmente pelos homens sem piedade e maus que aviltariam e atacaram seu corpo, mas, ao fim, sua glória e justiça prevaleceriam.

Porém, o entendimento laico comum da passagem é, não obstante, que Sodoma e Gomorra teriam de fato sido destruídas porque os habitantes dessas cidades seriam todos homossexuais. Essa concepção popular é fruto da filosofia de São Tomás de Aquino que, na Idade Média, pela primeira vez se referiu ao sexo entre homens como "sodomia". Tal autor inclui a homossexualidade entre os pecados contra naturam, junto com a masturbação e a relação sexual com animais. Para Tomás esses pecados sexuais são mais graves do que os pecados secundum naturam, embora estes se oponham gravemente à ordem da caridade, por exemplo: adultério, violação, sedução. Isto porque, para Aquino, a ordem natural foi fixada por Deus e sua violação constitui uma ofensa ao Criador, o que seria para ele mais grave do que uma ofensa feita ao próximo (cf. Suma Teológica, II-II, questão 154, artigo 11, corpo). Santo Tomás de Aquino chega a colocar a prática da homossexualidade no mesmo plano de pecados torpíssimos, como o de canibalismo.

A partir de então, devido a enorme influência do pensamento tomista no cristianismo, a palavra "sodomia" popularmente foi-se desvinculando de seu sentido filológico original e passou a ser, em quase todo mundo, conotativa de homogenitalidade, ou então sexo anal, seja este hétero ou homossexual. Muitos religiosos da Teologia Inclusiva salientam, porém, que este entendimento seria homofóbico e conflitante com a própria Bíblia que em todas as vezes que se refere novamente a Sodoma e Gomorra e aos sues pecados (como em Ezequiel 16:49-50) não mencionaria nada referente à homossexualidade - e mesmo a única menção à questão da sexualidade nessas cidades (Judas 6-7), somente se condena a intenção de intercurso sexual entre seres humanos e anjos, conforme também se fez em Gênesis 6: 1-2,4.

Portanto, não se pode afirmar que exista qualquer índicio real e direto, de que o comportamento homossexual é condenado por Deus nas escrituras bíblicas.

Referências bíblicas de apoio à homossexualidade[editar | editar código-fonte]

Três secções da Bíblia são analisadas como podendo ter contexto homossexual.

Rute e Noemi[editar | editar código-fonte]

Noemi era viúva com dois filhos. Rute é a viúva de um dos filhos de Noemi.

Cquote1.svg Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus; 17 Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. Faça-me assim o SENHOR, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti." Cquote2.svg
[12]

Tal passagem bíblica apresenta uma declaração de amor entre duas mulheres que firmam um pacto de comprometimento por toda a vida. O caráter amoroso e conjugal da passagem é tão marcante que ela é frequentemente utilizada em sermões matrimoniais bem como em epígrafes de convites de casamento. O pensamento majoritário no cristianismo tradicional é, porém, que ambas seriam apenas amigas solitárias. A exegese conservadora aponta que, vendo que sendo Noemi velha, e, não tendo marido, ela poderia se encontrar em grande vulnerabilidade, pois não tinha mais quem a protegesse, já que a tutela masculina seria papel do homem em sua época. Tal leitura não explica, porém, porque Rute não preferiu se casar novamente:

Cquote1.svg Morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela com seus dois filhos,os quais casaram com mulheres moabitas; era o nome de uma Orfa, e o nome da outra, Rute; e ficaram ali quase dez anos. Morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando, assim, a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido. Então, se dispôs ela com as suas noras e voltou da terra de Moabe, porquanto, nesta, ouviu que o Senhor se lembrara do seu povo, dando-lhe pão. Saiu, pois, ela com suas duas noras do lugar onde estivera; e, indo elas caminhando, de volta para a terra de Judá, disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo. O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido. E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz e lhe disseram: Não! Iremos contigo ao teu povo. Porém Noemi disse: Voltai, minhas filhas! Por que iríeis comigo? Tenho eu ainda no ventre filhos, para que vos sejam por maridos? Tornai, filhas minhas! Ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: tenho esperança ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos, esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas! Porque, por vossa causa, a mim me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão. Então, de novo, choraram em voz alta; Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. Cquote2.svg
Livro de Rute verc. 3 ao 14

De acordo com a posição majoritária cristã - que busca negar a tese homoafetiva - essa parte comprovaria que elas não seriam homossexuais, pois, a própria Noemi diz que, "seria amargoso" se absterem de maridos. Em argumentação contrária, os liberais afirmam que amargura em questão trata-se não da dureza de não possuir um homem para lhes proteger principalmente do preconceito e exclusão que ambas teriam sem o álibe e proteção de um marido, o que as exporia à condição de mulheres solitárias.

David e Jónatas[editar | editar código-fonte]

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David e Jônatas, "La Somme le Roy", 1290. Detalhe de iluminura de manuscrito francês.
Museu Britânico.

Jónatas era o filho do Rei Saúl e primeiro na linha de sucessão. Mas Samuel indicou David para ser o próximo rei o que trouxe grande preocupação a Saúl:

"a alma de Jónatas se ligou com a alma de David; e Jónatas o amou, como à sua própria alma"[13]
"E Saul naquele dia o tomou, e não lhe permitiu que voltasse para casa de seu pai. 3 E Jônatas e Davi fizeram aliança; porque Jônatas o amava como à sua própria alma. 4 E Jônatas se despojou da capa que trazia sobre si, e a deu a Davi, como também as suas vestes, até a sua espada, e o seu arco, e o seu cinto."[14]

(…)

"E, indo-se o moço, levantou-se Davi do lado do sul, e lançou-se sobre o seu rosto em terra, e inclinou-se três vezes; e beijaram-se um ao outro, e choraram juntos, mas Davi chorou muito mais."[15]

(…)

"Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; quão amabilíssimo me eras! Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres."[16]

O relato apresenta um intenso relacionamento de amor entre dois homens e, de forma textual, compara este amor como superior ao amor das mulheres, tendo eles inclusive feito uma aliança de compromisso com a relação. Tal aliança se provou verdadeira pois Jônatas, segundo a passagem, amou David até sua velhice, mesmo depois da morte de seu companheiro. Em função do explícito caráter homoafetivo do relato bíblico, tal é tido como fonte de constrangimento à maioria dos cristãos tradicionais, a ponto da maioria das versões bíblicas deixarem de traduzir a palavra "amor" (na passagem "...mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres") como "amizade". Assim, busca-se adequar o texto à posição majoritária dos religiosos cristãos que aponta todos esses trechos como se referindo a apenas relações amistosas muito fortes, a despeito do texto falar literalmente em "amor" de um pelo outro, sendo este sentimento, como vimos, relatado como ainda maior do que o tido pelas mulheres, em uma possivel referência ao amor erótico. Os religiosos consideram essas passagens bíblicas como forma de demonstração de comprometimento fraternal entre Davi e Jônatas, interpretando o texto conforme as tradições do oriente médio à época, considerando que a lei mosaica reprovaria o ato homossexual, e concluindo que o Senhor não escolheria para rei de seu povo um homossexual. Dessa forma tentam explicar os hermeneutas conservadores em um esforço de retirar o possível conteúdo homoafetivo do relato bíblico:

1. Jonatas tinha amado Davi, pois, sabia da sua vocação para com Deus. Em outra passagem mostra-se a sua fidelidade com a religião, e o amor declarado um pelo outro, em meio a beijos e lágrimas, seria pela expectativa de que David viria a ser o grande rei que fora profetizado, ou seja, amor à vitória e ao ápice de Israel.

2. Beijar-se sempre teria sido um costume do oriente-médio, que, não expressaria sexualidade de acordo com a aquela cultura.

3. Davi, no caso, considerado segundo o coração de Deus, estava se referindo que, o amor fraternal valeria mais que a paixão. No caso, o amor farterno seria expresso através da amizade, e Jonatas, que era fiel, tinha preferido Davi a seu Pai, pois, Davi fora escolhido por Deus, logo era mais justo em caráter. Desta forma o amor farterno e a amizade superiariam o amor erótico.

O Centurião romano e seu jovem amado[editar | editar código-fonte]

Os eunucos de nascença[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. O sexo procriativo seria a única forma natural em que o sexo era pensado na cultura judaica, especialmente em se tratando das mulheres[carece de fontes?]
  2. Christ Church (Reformed Presbyterian Church of North America). Private Interpretation (em inglês). Visitado em 16 de outubro de 2009.
  3. SWEET, William Warren. American Culture and Religion. Six Essays. Dallas: Southern Methodist University Press, 1951, p. 36.
  4. Bible.org Homosexuality: The Christian Perspective, Q. 3; White-Neill 2002; Bahnsen 1978
  5. Génesis 10:19
  6. 13:10
  7. Génesis 13:13
  8. Génesis 13 e 14
  9. Génesis 18:20-33
  10. Génesis 19:1-3
  11. 19:4,5
  12. Ruth e Noemi (Rute 1:16-17 e 2:10-11
  13. I Samuel 18:1
  14. I Samuel 18:2
  15. I Samuel 20:41
  16. II Samuel 1:26

Ligações externas[editar | editar código-fonte]