Ibn Quzman

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Muhammad ibn Abd al-Malik ibn Quzman, (em árabe, محمد بن عبد الملك بن قزمان; Córdova (Espanha), c. 1078 - ibid., 1160) conhecido simplesmente como Ibn Quzman ou Ibn Quzmán (ابن قزمان), e nalguns casos também pelas corruptelas espanholas Abén ou Abán Quzmán, foi um famoso poeta do Al-Andaluz, conhecido pelas suas peculiares zejeis[1] escritos no árabe coloquial do Al-Andalus.

Há quem pretenda ver no nome Guzmán uma arabização do alemão[2] algo que era frequente no Al-Andalus, mas outras fontes assinalam que o nome Quzmān já aparece documentado na Arábia pré-islamica, pelo que poderá ser árabe, embora seja um nome pouco usual.

A sua obra ficou preservada praticamente num único conjunto, que foi descoberto em São Petersburgo em finais do século XIX, o seu Cancioneiro ou Diwan (antologia poética), que é também a principal fonte de informação sobre a sua vida, já que nas suas composições fala também de si próprio: que tinha entre seis e oito anos quando ocorreu a Batalha de Zalaca, permitindo assim aproximar a sua data de nascimento.

Ibn Quzman conhecia bem a poesia árabe clássica, de autores célebres como Abu Tammam, Al-Mutanabbi, Du r-Rumma, etc. Chegaram até aos nossos dias alguns poemas seus ao estilo árabe clássico, consideradas de pouco valor quando comparadas com o seu Cancioneiro: esta é uma obra original, tanto pela forma utilizada, o zéjel, escrito não na habitual língua literária habitual mas no dialecto coloquial local, como pelos temas que aborda, nos quais frequentemente reinterpreta de forma irónica alguns tópicos da poesia árabe clássica.

O Diwan[editar | editar código-fonte]

Pensa-se que Ibn Quzman foi o primeiro grande escritor que empregou o zéjel, que había sido criado por Ibn Bayya, o poeta de Saragoça, dando-lhe a sua forma definitiva, polindo-o das imperfeições que a seu ver ainda tinha.

O seu Diwan, ou Cancionero, contem 149 zéjeis. O estudioso árabe, Stern, organizou-os em duas classes:

  • Os zéjeis moaxajeños, que são poemas de entre cinco e sete estrofes, em tudo semelhantes às moaxajas (temas, forma, jarcha), excepto por serem escritos na língua coloquial, e não no árabe clássico. Constituem cerca de um terço do Diwan.
  • Os zéjeis propriamente ditos, sem limite de estrofes, de temas diversos, e que constituem os dois terços restantes.

Quzman dedicou uma boa parte dos seus zéjeis a descrever as suas relações com jovens varões, as festas a que assistia, ou os bailes e instrumentos musicais que as animavam. Fala ainda de si próprio e faz, como outros poetas, o elogio dos seus mecenas e protectores. Segundo relata um dos seus zéjeis, já perto do final dos seus dias, pareceu arrepender-se da sua vida desperdiçada:

Cquote1.svg Ibn Quzman arrependeu-se.
Melhor seria se preserverasse!
Passou os seus dias em festas entre os dias.
Mas depois de soarem os atabales e adufes e de se arranjar para o baile
Agora sobe e desce a torre do muezim.
Fez-se imam na mesquita e reza prostrando-se e inclinando-se.
Cquote2.svg
Ibn Quzman

E também deixou instruções escritas para quando morresse:

Cquote1.svg Quando morrer estas são as minhas instruções para o enterro:
dormirei com uma vinha entre as sobrancelhas.
Que me envolvam entre as suas folhas como mortalha
e me ponham na cabeça um turbante de rebentos de vide.
Cquote2.svg
Ibn Quzman

Referências

  1. forma poética andaluza muito popular no século XI, que poderia ser a origem, em Portugal e Galiza, das cantigas
  2. Darío Fernández-Morera, "The Myth of the Andalusian Paradise", The Intercollegiate Review, 2006, pp. 7, [1]