Identidade nacional

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Identidade nacional é o conceito que sintetiza um conjunto de sentimentos, os quais fazem um indivíduo sentir-se parte integrante de uma sociedade ou nação. Esse conceito começa a ser definido somente a partir do século XVIII, e se consolida no século XIX, não havendo, antes disso, a concepção de nação propriamente dita. Ela é construída por meio de uma autodescrição da cultura patrimonial de uma sociedade, que se pode apresentar a partir de uma consciência de unidade identitária ou como forma de alteridade, buscando demonstrar a diferença com relação a outras culturas. A síntese da cultura consiste na definição de fatores de integração nacional, baseados na língua, monumentos históricos, folclore, modelos de virtudes nacionais, paisagem típica, série de heróis, hino e bandeira. Segundo José Luiz Fiorin, há dois princípios que regem as culturas, princípios esses, que se definem pela exclusão e pela participação. A exclusão se manifesta por meio da triagem e segregação dos indivíduos, já a participação promove a heterogeneidade e a expansão cultural.

O convívio social promove a assimilação da identidade do grupo, além de sua veiculação pela mídia, tradições e mitologia. Identidades são criações, por isso são frágeis, suscetíveis a distorções, simplificações e interpretações variando entre os indivíduos.

Fatores de integração nacional[editar | editar código-fonte]

A ideia de nação e nacionalismo começou a ser mobilizada na Europa a partir do século XVIII para designar a identidade de cada povo. Entre 1830 e 1880, momento do liberalismo triunfante, havia, segundo Eric Hobsbawm, "três critérios que permitiam a um povo ser firmemente classificado como nação, sempre que fosse suficientemente grande para passar da entrada": 1. "O primeiro destes critérios era sua associação histórica com um Estado existente ou com um Estado de passado recente e razoavelmente durável"; 2. "o segundo critério era dado pela existência de uma elite cultural longamente estabelecida, que possuísse um vernáculo administrativo e literário escrito"; 3. "o terceiro critério, que infelizmente precisa ser dito, era dado por uma provada capacidade para a conquista". Para se constituir uma nação era preciso, portanto, já haver um estado de fato, que possuísse uma língua e uma cultura comuns, além de demonstrar força militar. Foi em torno desses três pontos que se formaram as identidades nacionais européias. A construção de uma identidade nacional passa, assim, por uma série de mediações que permitem a invenção de uma língua comum, uma história cujas raÍzes sejam as mais longínquas possíveis, nacionais, um folclore, uma natureza particular, uma bandeira e outros símbolos oficiais ou populares. Os integrantes de cada comunidade são convidados a neles se reconhecer e a eles aderir.

Memória Social[editar | editar código-fonte]

A memória social faz parte da formação da identidade pois a imagem do passado do país, compartilhada ou silenciada por seus integrantes, influencia na imagem que o grupo tem dele mesmo no presente, e vice e versa. Por isso os historiadores tem papel central nesta construção.

Diversos pontos de referência (monumentos, personagens e datas históricas, paisagens, tradições e costumes) inserem a memória individual na coletiva, o que envolve um processo de seleção e negociação para que haja o máximo de pontos de contato e ambas sejam construídas sobre uma base comum. Ela fundamenta e reforça o sentimento de pertencimento e as fronteiras socioculturais, gerando coesão pela adesão afetiva e não pela coerção.

A importância do mito[editar | editar código-fonte]

Carnaval de Veneza
O carnaval de veneza, exemplo de tradição local.

O mito é uma forma de construção da identidade por meio de narrativas sobre a origem de uma comunidade. É uma produção histórica de como as pessoas pertencentes a uma sociedade querem ser vistas. Os florentinos contavam que Cesar fundara sua cidade, querendo legitimar suas raízes nobres e romanas.

Por meio de rituais e celebrações a sociedade define-se, atuando a favor da unificação e diferenciação entre os de dentro e os de fora dela. Dessa forma, os mitos agem em favor da união por meio de hábitos comuns.

Fernando Pessoa
"Minha pátria é a língua portuguesa", Fernando Pessoa.

Língua: Laço Social[editar | editar código-fonte]

A língua afirma a identidade cultural, simboliza a união de um grupo por ser uma forma simples e eficiente de solidariedade. Ela permite reconhecer membros da comunidade, diferenciar estrangeiros e transmitir tradições. Assim, pode ser vista como um dos pilares para a delimitação de uma nação.

A Nova Filosofia da Linguagem realizou pesquisas sociolinguísticas nos séculos XVIII e XIX que confirmaram os laços entre língua e consciência de grupo, enfatizando como a primeira influencia seus usuários. Porém esta associação pode sofrer mudanças ao longo do tempo.

Símbolo, Empatia e Preconceito[editar | editar código-fonte]

Os símbolos são extremamente necessários para a compreensão humana do mundo. Quanto ao tema identidade nacional, existem duas formas de simplificação da realidade. A primeira são os símbolos pátrios propriamente ditos: cores das bandeiras, um herói nacional, um lema. Já a segunda são os estereótipos, tanto a caricatura de estrangeiros, como a que o próprio povo faz de si.

bandeira
A bandeira nacional representando a vitória.

Os símbolos são importantes por que, a partir do momento em que os indivíduos de um determinado grupo assimilam o mesmo símbolo, eles compartilham uma identidade, passam a ter algo em comum. O próprio nome da nação pode ser um de união. Os estereótipos facilitam a diferenciação mental entre o self e os outros. Porém, acaba por segregar grupos humanos, a partir de um "narcisismo de pequenas diferenças" (termo de Freud). Mitos como o da existência de um "sangue especial", de um "povo escolhido" por Deus ou de uma "raça superior" suplantam a realidade de que todos fazemos parte de uma mesma espécie.

É interessante também analisar a empatia humana a partir do ângulo da identidade nacional. Grupos unidos por uma identidade tentem a sentir maior empatia entre si do que pelo resto da humanidade. Em contrapartida, o estabelecimento dessas barreiras abstratas acaba por ocasionar na segregação de outros indivíduos, os quais não serão tidos como iguais e não serão tratados da mesma forma. A utilização de estereótipos torna a falta de sentimento de alteridade ainda mais nociva. A fronteira de grupo somada aos estereótipos pode levar ao preconceito e até a perseguições. Sem os estereótipos, existiria apenas um distanciamento.

Identidade Nacional e consolidação do Estado[editar | editar código-fonte]

A identidade nacional não é a única dentro do país. Existem outras formas de identidade cultural que rivalizam com ela e em alguns períodos da história foram até mais importantes. Elas dividem a nação em grupos menores, de acordo com região, etnia, religião, gênero, classe social, intelectualidade, ou qualquer outra característica que os indivíduos tenham em comum.

Ao analisarmos por esta perspectiva notamos que a identidade nacional deve ser fortalecida para que haja a consolidação do Estado. O período histórico em que este fenômeno se torna mais evidente é durante o século XIX, na formação dos Estados Nacionais na Europa, quando países como Itália e Alemanha, constituídos de várias províncias, se unificaram. Era preciso a criação de uma consciência transregional para que a população se considerasse parte de todo e não representes das partes divididas, podendo mais tarde se organizar em uma unidade política.

Quando outras identidades têm mais força do que a nacional, surgem conflitos internos no país. Como exemplo podemos citar os Bascos na Espanha, que não se consideram parte integrante da nação e possuem um movimento separatista, o ETA. Há também países africanos que tiveram suas fronteiras determinadas por outros que sofrem muito com esta questão.

Referências

BURKE, Peter. A arte da conversação. São Paulo, Unesp, 1995.Capítulo 3 Língua e identidade no início da Itália Moderna [1]

FIORIN, José Luiz. A construção da identidade nacional brasileira. São Paulo: Bakhtiniana, 2009. [2]

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento e silêncio. in: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15. [3]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]