Ifrane Atlas Saghir

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Marrocos Ifrane Atlas Saghir
جماعة إفران الأطلس الصغير
 
—  Comuna rural  —
Entrada de Ifrane Atlas Saghir
Entrada de Ifrane Atlas Saghir
Ifrane Atlas Saghir está localizado em: Marrocos
Ifrane Atlas Saghir
Localização de Ifrane Atlas Saghir em Marrocos
29° 13' 22" N 9° 29' 22" O
Região Guelmim-Es Semara
Província Guelmim
Altitude 830 m (2 723 pés)
População (2004)[1]
 - Total 11 950
Zoco semanal domingo
Sítio www.ifrane.org

Ifrane Atlas Saghir, Ifrane Anti-Atlas ou Ifrane de l'Anti-Atlas (em árabe: جماعة إفران الأطلس الصغير) é uma localidade do sul de Marrocos, situada na cordilheira do Anti-Atlas, 23&nbspkm a leste de Bouizakarne e 180 km a sul de Agadir, que faz parte da província de Guelmim e da região de Guelmim-Es Semara. Em 2004 tinha 11 950 habitantes,[1] praticamente todos de etnia berbere. Foi um dos primeiros locais habitados no sul de Marrocos e até meados do século XX teve uma forte presença judaica que, segundo a lenda remonta ao século VI a.C.[2] Os judeus chamavam ao lugar Oufrane.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Ifrane (singular: ifri) significa "grutas" em tamazight (berbere), e tem origem nas numerosas grutas que existem na região.[nt 1] Outra teoria sobre a origem do nome é que este teria derivado de Bene Efraim (filhos de Efraim), o clã judaico que se estabeleceu no local.[3]

Na realidade, Ifrane é um conjunto de três douars (aldeias) que rodeiam um núcleo central designado souk (mercado), que funciona como centro comercial e administrativo. O conjunto estende-se ao longo do vale do uádi (rio) Assif n Ifrane, situado a uma altitude entre 750 e 850 m e que se abre a sul depois de percorrer as montanhas com cerca de 1 200 m que rodeiam a localidade a norte. Cada douar tem o seu próprio casbá[2] e é ocupado por um clã tribal e a proximidade entre eles é mais geográfica do que cultural.[nt 1]

Além daqueles douars (Idaouchkera, Amsra, Rba n Tuzzunt e Tankert),[nt 1] existe ainda a mellah, o bairro dos judeus, atualmente semi-arruinada e onde já não vivem quaisquer judeus,[2] embora algumas casas tenham sido ocupadas por famílias locais após a saída dos judeus. A sinagoga da mellah foi restaurada em 1999[4] por iniciativa conjunta do Ministério da Cultura marroquino e da Fundação do Património da comunidade judaica de Marrocos.[2]

Nas inúmeras grutas da região há vestígios arqueológicos, muitos deles inexplorados. Ifrane é também conhecida pela sua prestigiada escola alcorânica, célebre pelo seu nível académico no estudo aprofundado do árabe e teologia islâmica e por ter acolhido Mokhtar El-Soussi como estudante durante quatro anos.[nt 1]

Ifrane são quatro pequenos castelos edificados pelos numidas, distantes uns dos outros por um espaço de três milhas, sobre um pequeno rio, que corre no inverno e seca no verão [...] nos castelos há diversos artesãos, alguns deles que fazem trabalhos de fundição e de recipientes de cobre [...] os habitantes são de uma grande civilidade na sua atitude, e têm hábitos de honestidade muito arreigados e uma ordem muito agradável [...] quanto às coisas criminais, outra punição não é ordenada além do banimento.
 
Leão, o Africano, Descrição de África (século XVI)[nt 1] ,

Judeus de Ifrane Atlas Saghir[editar | editar código-fonte]

Segundo a tradição oral, Ifrane Anti-Atlas foi o local de Marrocos onde existiram judeus em tempos mais remotos. Segundo essa tradição, alguns israelitas abandonaram a Palestina no tempo de Nabucodonosor, rei da Babilónia, depois da primeira destruição do Templo de Jerusalém, em 587 a.C., e foram-se deslocando cada vez mais para ocidente, atravessando o Egito e a orla setentrional do Saara, acabando por chegar aos limites do Anti-Atlas em 361 a.C., tendo começado por instalar-se nas grutas das margens do assif Ifrane após terem pago aos amazighs autóctones para que os autorizassem a fazê-lo.[nt 1]

Segundo outra versão da lenda, os judeus teriam chegado a Ifrane logo no século VI a.C.[2] e Oufrane foi a capital de um reino judaico fundado ainda antes da destruição do segundo templo de Jerusalém.[3] Os judeus continuaram a habitar a região depois do reino ter desaparecido e nos séculos seguintes a população judia foi aumentou com a chegada de mais judeus durante o período romano e após a chegada dos árabes.[5] Embora esteja por esclarecer a veracidade destas histórias, há indícios de que a presença judaica em Ifrane seja anterior ao Islão e a área foi uma das últimas do sul de Marrocos a ser convertida ao islamismo.[2] No século XVI também se instalaram em Oufrane alguns sefarditas ibéricos fugidos à perseguições da Inquisição.[5]

Os judeus da região eram chamados Ait Yussouf. Viviam não só em Ifrane, onde residia o seu patrono sagrado, mas por toda a parte inferior do vale do Drá, entre Akka e a costa atlântica. Mantinham boas relações com as tribos berberes locais.[5]

Devido à sua localização estratégica nas rotas comerciais das caravanas que atravessavam o Saara, nomeadamente as do Sudão, a mellah prosperou entre os séculos XVII e XIX. As principais mercadorias das caravanas eram goma, incenso, plumas de avestruz, marfim, ouro e peles. Sob a proteção do reis de Tazeroualt, os judeus de Ifrane transacionavam nos mercados regionais e no porto de Tassourt (Essaouira, Mogador para os portugueses), onde outros judeus tinham um papel importante no comércio de exportação.[5]

Ifrane perdeu grande parte da sua importância económica no século XIX, à medida que o transporte comercial feito por caravanas foi substituído pelo transporte marítimo. Apesar disso,[5] a comunidade judaica de Ifrane persistiu até à década de 1950, quando se iniciou a debandada dos judeus de Ifrane para Israel e, em menor escala, para Casablanca e Rabat.[2] Em 1958, os últimos judeus emigraram em grupo para Israel,[4] mas ainda hoje os mais velhos se recordam dos penosos adeus, apesar das diferenças religiosas, pois esses judeus berberes faziam parte da história e da cultura de Ifrane e sempre viveram em paz e fraternidade com os seus vizinhos muçulmanos.[nt 1]

O rabino Youssef ben Mimoun (supostamente morto em 5 a.C.) foi um dos santos judeus mais venerados e a sua reputação ainda hoje atrai alguns turistas judeus a Ifrane vindos de todas as partes do mundo, que também vão ao cemitério de Ifrane para venerar os túmulos de outros santos aí enterrados,[nt 1] apesar do cemitério estar de tal forma arruinado que mal se distinguem as lápides funerárias.[6] Outro dos santos judeus sepultados em Ifrane é Ed Mrara.[5]

Os Cinquenta Mártires[editar | editar código-fonte]

Em 1790, o sultão alauita Moulay Yazid iniciou o seu reinado tirânico, que foi marcado por pogroms comntras os judeus por todo o Marrocos. Em Ifrane 50 judeus foram executados na fogueira, provocando a fuga do resto da população até ao fim do reinado de Yazid em 1792.[3] O acontecimento tornou-se uma lenda e é relatado por Pierre Flamand no seu livro Diaspora en Terre d'Islam, Les Communautés Israelites du Sud ("Diáspora em Terra do Islão, As Comunidades Israelitas do Sul"):[5]

Sessenta judeus de Ifrane estavam a trabalhar no souk. Um feiticeiro chamado Bouhalassa chegou ao souk acompanhado de bandidos armados. Bouhalassa[nt 2] queria provar o seu poder. Inspirado pelo Sultão Moulay Yazid, ele acorrentou os sessenta judeus e torturou-os. A população local, que tinha tratado os judeus muito bem, conseguiu libertar dez deles.

Bouhalassa deu a escolher aos restantes judeus entre a conversão ao Islão ou a morte. Ele preparou uma grande fogueira. Os judeus decidiram atirar-se para o fogo em grupo, em vez de permitirem que um só deles se convertesse. Um a um, todos se atiraram para o fogo. A lenda conta que uma coluna de fumo se ergueu até ao céu, e à noite um candelabro de fogo desceu dos céus. Em resultado disso, as perseguições aos judeus pararam. Dez judeus e trinta muçulmanos juntaram as cinzas e levaram-nas para o cemitério em Ifrane. As cinzas dos mártires foram enterradas e tornaram-se um local importante de peregrinação.

Segundo outra versão do martírio, a decisão de se lançarem para a fogueira foi do líder da comunidade, Yehuda Ben-Nathan Effiat, que, dando o exemplo se atirou para o fogo. As cinzas dos mártires foram enterrados numa gruta que ainda hoje existe, afastada cerca de 1 km da mellah. Os descendentes de Yehuda Effiat emigraram depois para Londres, onde se tornaram mercadores de sucesso.[3]

Notas

  1. a b c d e f g h Trechos baseados no artigo artigo «Ifrane Atlas Saghir» na Wikipédia em francês (acessado nesta versão).
  2. "Bouhalassa" ou "Bou Halatza".

Referências

  1. a b Recensement général de la population et de l'habitat 2004 (em francês). www.hcp.ma. Royaume du Maroc - Haut-Comissariat au Pan. Página visitada em 9 de dezembro de 2011.
  2. a b c d e f g Ellingham, Mark; McVeigh, Shaun; Jacobs, Daniel; Brown, Hamish. The Rough Guide to Morocco (em inglês). 7ª ed. Nova Iorque, Londres, Deli: Rough Guide, Penguin Books. 824 p. p. 619-621. ISBN 9-781843-533139
  3. a b c d Ifrane d’Anti-Atlas Cemetery (em inglês). JewishMorocco.org. Digital Heritage Mapping, Inc. D'fina: Jewish Treasures of Southern Morocco, presented by the Diarna Project and the Cahnman Foundation. Página visitada em 9 de dezembro de 2011.
  4. a b Ifrane d’Anti-Atlas Synagogue (em inglês). JewishMorocco.org. Digital Heritage Mapping, Inc. D'fina: Jewish Treasures of Southern Morocco, presented by the Diarna Project and the Cahnman Foundation. Página visitada em 9 de dezembro de 2011.
  5. a b c d e f g Gold, Rick. Ifrane Anti-Atlas (Oufrane) (em inglês). rickgold.home.mindspring.com. Visiting Jewish Morocco. Arquivado do original em 4 de abril de 2009. Página visitada em 9 de dezembro de 2011.
  6. Kjeilen, Tore. Ifrane d'Anti-Atlas - Jewish heritage (em inglês). LookLex.com (Lexic Orient). Página visitada em 9 de dezembro de 2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]