Velha Igreja Católica

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Catedral Vétero de Utrech
Ignaz von Döllinger, teólogo principal do movimento Vétero

Os termos Velha Igreja Católica, Antiga Igreja Católica ou Igreja Veterocatólica referem-se às Igrejas Católicas nacionais e às Católicas independentes surgidas após o Concílio Vaticano I (1869-1871), sob a orientação do papa Pio IX.

Atualmente, a Igreja Veterocatólica não está em comunhão com a Santa Sé. Entretanto, encontra-se em plena comunhão com a Comunhão Anglicana [1] e é um membro do Conselho Mundial das Igrejas.[2]

História[editar | editar código-fonte]

Os primeiros grupos veterocatólicos se organizaram em 1870, quando vários intelectuais, sacerdotes e bispos católicos romanos da Áustria, Suíça e Alemanha rejeitaram as decisões do Concílio Vaticano I (1869-1871), que definiu o dogma da Infalibilidade Papal. Estes contestatários organizaram os congressos de Munique (1871) e de Colonia (1872), que resultaram mais tarde na declaração de Utrecht (1889), na qual os veterocatólicos esclarecem suas posições doutrinárias.

O teólogo e historiador bávaro, Johann Joseph Ignaz von Döllinger (1799–1890), foi o principal líder dos velhos católicos, mas curiosamente nunca se considerou um cismático, apesar de ter sido excomungado pela Santa Sé devido sua ordenação como bispo veterocatólico. A Igreja Anglicana e a Igreja Jansenista Holandesa de Utrecht reconheceram e providenciaram a ordenação episcopal dos bispos das então recém-formadas Igrejas veterocatólicas, mantendo a sua sucessão apostólica.

O Arcebispo de Utrecht é o líder da Igreja Veterocatólica Holandesa de Utrecht constituindo a União de Utrecht. A Igreja Holandesa, que é a raiz e precursora do veterocatolicismo, foi fundada no século XVIII,devido às tensões entre a Cúria Romana e uma parte da hierarquia católica local (influenciada pelo jansenismo).

Por volta de 1890, o movimento começou a fragmentar-se em vários grupos independentes entre os quais alguns passaram a professar doutrinas heterodoxas. Este é o caso da Igreja Católica Liberal, que foi fundada em 1916 e incorporou doutrinas teosóficas. Posteriormente surgiram também bispos e Igrejas fictícias originando um grande número de denominações independentes, como os episcopi vagantes.

Doutrinas distintivas[editar | editar código-fonte]

Em geral, os veterocatólicos possuem uma doutrina semelhante à doutrina da Igreja Católica, rejeitando apenas os novos dogmas (dogmas tardios) proclamados pela Igreja Católica Romana nos séculos XIX e XX: a Infalibilidade Papal (1871), a Imaculada Conceição da Virgem Maria (1854) e a Assunção Corporal de Maria aos Céus (1950). Reconhecem o primado de honra do Bispo de Roma, mas não aceita o primado jurisdicional nem a infalibilidade papal definidas pelo Concílio Vaticano I. Eles repudiam o Ultramontanismo e os jesuítas e defendem uma maior participação dos leigos na Igreja. Tal qual a Igreja Católica Romana, aceitam a Bíblia e a Tradição como fontes da Revelação divina.

As Igrejas veterocatólicas tendem a ser mais liberais e abertas do que a Igreja Católica Romana. Muitas Igrejas da União de Utrecht ordenam mulheres ao sacerdócio e celebram casamentos homossexuais e são favoráveis aos modernos métodos contraceptivos e ao aborto. Devido a essas práticas liberais e heterodoxas , em 2003, a Igreja Católica Nacional Polonesa, que discorda destas posições, rompeu com a União de Utrecht, tornando-se uma Igreja veterocatólica independente.

Declaração de Utrecht (1889)[editar | editar código-fonte]

Segue-se aqui a Declaração de Utrecht, promulgada em 1889 pela União de Utrecht das Igrejas Vétero-Católicas e assinada por Heykamp, Rinkel, Diependaal, Reinkens e Herzog:[3]

1. Aderimos a Regra de Fé formulada por São Vicente de Lérins nestes termos: "Teneamus Id, quod quod, semper ubique, quod ab omnibus est Creditum; hoc est etenim Catholicum proprieque vere"(Afirmemos aquilo em que se tem acreditado em todas as partes, sempre e por todos, porque isso é verdadeiro e propriamente Católico). Assim sendo, conservamos e professamos nossa fé nas doutrinas da Igreja Primitiva expostas nos Símbolos Ecumênicos e especificadas nas decisões dos Concílios realizados pela Igreja indivisa do primeiro milênio.

2. Por isso, rejeitamos os decretos do Concílio Vaticano, que foram promulgados em 18 de Julho de 1870 relativos à infalibilidade e ao Episcopado Universal do Bispo de Roma, decretos que estão em contradição com a fé da Igreja Antiga, e que destroem sua constituição canônica, atribuindo ao Papa a plenitude dos poderes eclesiásticos sobre todas as Dioceses e sobre todos os fiéis. Pela negação de sua competência primacial, não queremos negar a primazia histórica que vários Concílios Ecumênicos e os Padres da Igreja antiga atribuíram ao Bispo de Roma, reconhecendo-o como o Primus inter pares.

3. Rejeitamos o dogma da Imaculada Conceição promulgado pelo Papa Pio IX em 1854, a despeito das Sagradas Escrituras e em contradição com a Tradição dos primeiros séculos.

4. Quanto as encíclicas publicadas pelos Bispos de Roma nos últimos anos, por exemplo, a Bula Unigenitus e Auctorem Fidei, e o "Syllabus" de 1864 - nós as rejeitamos em todos os pontos, pois estão em contradição com a doutrina da Igreja primitiva, e não as reconhecemos como obrigatórias às consciências dos fiéis. Renovamos os protestos da Igreja Católica da Holanda contra os erros da Cúria Romana, e contra os ataques aos direitos das Igrejas nacionais.

5. Nos recusamos a aceitar os decretos do Concílio de Trento em matéria de disciplina, bem como as decisões dogmáticas deste Concílio, e iremos aceitá-las apenas na medida em que estejam em harmonia com os ensinamentos da Igreja primitiva.

6. Considerando que a Santa Eucaristia sempre foi o verdadeiro ponto central do culto católico. É nosso dever declarar que conservamos com perfeita fidelidade a antiga doutrina católica sobre o Sacramento do Altar, acreditando que recebemos o Corpo e o Sangue de nosso Salvador Jesus Cristo sob as espécies do pão e do vinho. A celebração eucarística na Igreja não é uma repetição contínua, nem a renovação do sacrifício expiatório que Jesus ofereceu de uma vez por todas na cruz, mas é um sacrifício porque é a comemoração perpétua do sacrifício oferecido na Cruz, e é o ato pelo qual nós representamos na Terra a oferta que Jesus Cristo faz no Céu, de acordo com a Epístola aos Hebreus 9:11-12, para a salvação da humanidade redimida, intercedendo por nós na presença de Deus (Heb. 9:24). A Santa Eucaristia é, ao mesmo tempo um banquete sacrificial por meio da qual os fiéis, ao receberem o Corpo e o Sangue de Nosso Salvador, entram em comunhão íntima com Ele e uns com os outros (1 Cor . X. 17).

7. Esperamos que os teólogos católicos, mantendo a fé da Igreja indivisa, tenham êxito em estabelecer acordos sobre as questões controversas que provocaram divisões na Igreja. Nós exortamos aos sacerdotes sob nossa jurisdição que ensinem e preguem aos jovens as verdades cristãs essenciais professadas por todas as confissões cristãs, evitando as discussões sobre temas controversos que levem a violação da verdade e da caridade, oferecendo através de nossas palavras e atos o exemplo para nossos fiéis.

8. Mantendo e professando fielmente a doutrina de Jesus Cristo, recusando os erros que se infiltraram na Igreja Católica, os abusos eclesiásticos e as tendências mundanas da hierarquia, acreditamos que seremos capazes de combater eficazmente os grandes males dos nossos dias que são a incredulidade e indiferença religiosa.

Veterocatólicos no Brasil[editar | editar código-fonte]

A Igreja Veterocatólica foi instalada no Brasil, a 22 de Maio de 1932, na cidade de Curitiba, capital do Estado do Paraná, e registrada a 20 de Julho de 1932 sob o n. 43 do livro A, pelo Pe. Teófilo Bartnick, proveniente da Igreja Católica Nacional Polonesa. Foi trazida para a cidade de São Paulo pelo bispo Dom Iam Piotr Perkowiski. Tanto Bartnick como Perkowiski tornaram-se Arcebispos primazes do Brasil dos Veterocatólicos.

A Igreja cresceu entre imigrantes germânicos e poloneses entre 1932-1945, atraíndo também adeptos brasileiros. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, a Igreja experimentou um declínio que resultou em sua extinção em fins da década de 1940.

No final da década de 1990, surgiram vários grupos que reclamaram a herança veterocatólica, sem, contudo, terem ligações históricas com a Igreja de Utrecht, nos Países Baixos. Todos esses grupos tem origem na Igreja Católica Apostólica Brasileira e em suas jurisdições dissidentes. Também deve ser ressaltado que os mencionados grupos não tem a descendência dos missionários poloneses que fundaram, nos anos de 1930, a Igreja Veterocatólica no Brasil na cidade de Curitiba, Estado do Paraná. Os grupos que assumiram a identidade veterocatólica no Brasil, sem possuir ligações históricas com o sistema eclesial veterocatólico europeu foram:

  • Igreja Antiga Católica no Brasil - jurisdição extinta que foi dirigida por Dom John Wesley, ex-Arcebispo Veterocatólico de Minas Gerais desde 2001.
  • Arcebispado Veterocatólico do Brasil e América - fundado por Dom Estevão Maurício Lima Vasquez.
  • Igreja Apostólica Vetero CAtólica do Brasil-Fidelitas - Igreja com sucessão apostólica válida e liderada pelo bispo Dom Paulo Nunes, que é o atual Patriarca da Igreja

- Arcebispos primazes dos veterocatólicos no Brasil:

01 - Dom Teófilo Barnick
02 - Dom Iam Piotr Perkowiski
O atual arcebispo primaz dos veterocatólicos no Brasil é o Chefe da Igreja, o hoje Patriarca Dom Paulo Nunes, residente na cidade de Curitiba, PAraná.


Referências

  1. Churches in Communion with the Church of England. Europe.anglican.org (2009-04-08). Página visitada em 2010-04-25.
  2. Old-Catholic Church in the Netherlands. Oikoumene.org. Página visitada em 2010-04-25.
  3. Declaration of Utrecht - the Union of Utrecht of the Old Catholic Churches (em inglês)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]