Imigração japonesa no Brasil

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Japão Nipo-brasileiros Brasil
Juliana ImaiJuniti SaitoTizuka Yamasaki
Luiz GushikenDaniele SuzukiLisa Ono
LovefoxxxSabrina SatoGeovanna TominagaHugo HoyamaMitsuyo MaedaIçami TibaFernanda TakaiTomie Ohtake
Notáveis Nipo-brasileiros:
Juliana Imai[1]  · Juniti Saito[2]  · Tizuka Yamasaki[3]
Luiz Gushiken[4]  · Daniele Suzuki[5] [6]  · Lisa Ono[7]
Lovefoxxx[6]  · Sabrina Sato[8]  · Geovanna Tominaga[9]
Hugo Hoyama[10]  · Mitsuyo Maeda[11]  · Içami Tiba[12]
Fernanda Takai[6] [13]  · Tomie Ohtake[14]
População total

Cerca de 1.500.000 (0.7% da população brasileira)[15]

Regiões com população significativa
São Paulo 693.495[16]
Paraná 143.588[16]
Pernambuco 89.442[16]
Minas Gerais 75.449[16]
Línguas
Português e Japonês (minoria)
Religiões
Católica,[17] budista, Xintoísta[18]
Grupos étnicos relacionados
Outros japoneses, nipo-americano, nikkei, nipo-peruano

A imigração japonesa no Brasil começou no início do século XX, através de um acordo entre o governo japonês e o brasileiro. Atualmente, o Brasil abriga a maior população japonesa fora do Japão, com cerca de 1,5 milhão de nikkeis (日系?) (termo usado para denominar os japoneses e seus descendentes).[19] Sendo que nipo-brasileiro (em japonês 日系ブラジル人, nikkei burajiru-jin) é um cidadão brasileiro com ascendentes japoneses. Também são consideradas nipo-brasileiras as pessoas nascidas no Japão radicadas no Brasil.

A imigração japonesa no Brasil teve início oficialmente em 18 de junho de 1908, quando o navio Kasato Maru aportou em São Paulo trazendo 781 lavradores para as fazendas do interior paulista. O fluxo cessou quase que totalmente em 1973, com a vinda do último navio de imigração Nippon Maru,[20] contando-se quase 200 mil japoneses estabelecidos no país.

Atualmente, estima-se que haja cerca mais de um milhão de nipo-brasileiros, cuja imensa maioria reside no estado de São Paulo (capital e municípios como Mogi das Cruzes, Osvaldo Cruz ou Bastos), no norte do Paraná (municípios como Maringá, Assaí ou Londrina) Umuarama e Mato Grosso do Sul (principalmente Campo Grande, Dourados e seus entornos). Há também pequenas coletividades no Pará e no Amazonas, atraídos inicialmente pelo cultivo da pimenta do reino.

Os descendentes de japoneses chamam-se nikkei, sendo os filhos nissei, os netos sansei, os bisnetos yonsei e assim por diante. Os nipo-brasileiros que foram ao Japão trabalhar a partir do fim dos anos 80 são denominados dekassegui.

História dos imigrantes japoneses[editar | editar código-fonte]

Necessidade de emigração no Japão[editar | editar código-fonte]

Cartaz de propaganda da imigração de japoneses para o Brasil.

O Japão estava superpovoado no início século XX.[21] O país tinha ficado isolado do Mundo durante os 265 anos do período Edo (Xogunato Tokugawa), sem guerras, epidemias trazidas do exterior ou emigração. Com as técnicas agrícolas da época, o Japão produzia apenas o alimento que consumia, sem praticamente formação de estoques para períodos difíceis. Qualquer quebra de safra agrícola causava fome generalizada.[19]

O fim do Xogunato Tokugawa deu espaço para um intenso projeto de modernização e abertura para o exterior durante a era Meiji. Apesar da reforma agrária, a mecanização da agricultura desempregou milhares de camponeses. Outros milhares de pequenos camponeses ficaram endividados ou perderam suas terras por não poder pagar os altos impostos, que, na era Meiji, passaram a ser cobrados em dinheiro, enquanto antes eram cobrados em espécie (parte da produção agrícola).

No campo, os lavradores que não tinham tido suas terras confiscadas por falta de pagamento de impostos mal conseguiam sustentar a família. Os camponeses sem terra foram para as principais cidades, que ficaram saturadas. As oportunidades de emprego tornaram-se cada vez mais raras, formando uma massa de trabalhadores miseráveis.[21]

A política emigratória colocada em prática pelo governo japonês tinha como principal objetivo aliviar as tensões sociais devido à escassez de terras cultiváveis e endividamento dos trabalhadores rurais, permitindo assim a implementação de projetos de modernização.[22]

A partir da década de 1880, o Japão incentivou a emigração de seus habitantes por meio de contratos com outros governos.[23] Antes do Brasil, já havia emigração de japoneses para os Estados Unidos (principalmente Havaí), Peru e México. No início do século XX, também houve grandes fluxos de emigração japonesa para colonizar os territórios recém-conquistados da Coreia e Taiwan. Somente no Brasil, Estados Unidos e Peru se formaram grandes colônias de descendentes de japoneses. Praticamente todos os imigrantes que formaram grandes colônias na Coreia e Taiwan retornaram ao Japão depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

Em abril de 1905, chegou ao Brasil o Ministro Fukashi Sugimura, que visitou diversas localidades no Brasil, sendo bem recebido tanto pelas autoridades locais como pelo povo, parte desse tratamento se deve a vitória japonesa na Guerra Russo-Japonesa, frente ao grande Império Russo. O relatório produzido por Sugimura, onde foi descrito a receptividade dos brasileiros, aumentou o interesse do Japão pelo Brasil. Influenciados por este relatório e também pelas palestras proferidas pelo secretário Kumaichi Horiguchi, começaram a surgir japoneses decididos a viajar individualmente para o Brasil.[24]

Necessidade de imigração no Brasil[editar | editar código-fonte]

Ryu Mizuno (centro), que organizou a primeira viagem de imigrantes japoneses ao Brasil

Com a expansão das plantações de café, faltava mão-de-obra na zona rural paulista no final do século XIX e no início do século XX. A economia cafeeira foi o grande motor da economia brasileira desde a segunda metade do século XIX até a década de 1920.

A primeira visita oficial para se tentar buscar um acordo diplomático e comercial, com o Japão, ocorreu em 1880. No dia 16 de novembro daquele ano, o vice-almirante Artur Silveira de Mota iniciou, em Tóquio, as conversações para o estabelecimento de um Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os dois países.[20] Mota foi recebido pelo vice-ministro de Negócios Estrangeiros, Kagenori Ueno.[25] O esforço nesse sentido prosseguiu em 1882, com o ministro plenipotenciário Eduardo Calado,[20] que acompanhou Mota, em 1880.[25] Mas o tratado só seria assinado três anos mais tarde.[25]

O Japão, que só tinha se aberto para o comércio mundial em 1846, até então era considerado muito distante física e politicamente do Brasil. O primeiro Tratado da Amizade, Comércio e Navegação entre Brasil e Japão foi assinado apenas em 5 de novembro de 1895. A assinatura desse tratado marcou o início das relações que persistem até os dias de hoje, com exceção dos anos da Segunda Guerra Mundial.[25]

Além disto, a política de imigração brasileira era executada não só como um meio de colonizar e desenvolver o Brasil, mas também de "civilizar" e "branquear" o país com população europeia.[26] A imigração de asiáticos foi praticamente proibida em 1890. Neste ano, o decreto nº 528 assinado pelo presidente Deodoro da Fonseca e pelo ministro da Agricultura Francisco Glicério determinava que a entrada de imigrantes da África e da Ásia seria permitida apenas com autorização do Congresso Nacional. O mesmo decreto não restringia, até incentivava, a imigração de europeus. Somente em 1892, foi aprovada a lei nº 97 que permitia a entrada de imigrantes chineses e japoneses no Brasil e, assim, o decreto nº 528 de 1890 perdeu seu efeito.[27]

Brasil  Imigração Japonesa no Brasil
Japão   日系ブラジル人
Nipo-brasileiros
Família de imigrantes japoneses em Bastos, São Paulo, 1930
Imigração

Início oficial: 1908 com navio Kasato Maru.
Principais destinos: São Paulo, Paraná, Pará.
Total de imigrantes: cerca de 200 mil.

Artigos sobre Imigração Japonesa no Brasil
Imigração japonesa no Brasil
Cronologia da imigração japonesa no Brasil
Fazenda Santo Antônio   |   Kasato Maru
Shindo Renmei   |   Imigração japonesa
Decasséguis   |   Decasséguis brasileiros

Centenário da imigração japonesa ao Brasil

Nipo-brasileiros

População: cerca de 1.500.000 (0.7% da população brasileira[15] ).
Religião: católica[28] , budista, xintoísta[29] .
Idiomas: Português e Japonês (minoria).
Brasileiros no Japão: cerca de 300 mil[30] .

Artigos sobre Nipo-brasileiros
Nikkei   |   Categoria:Nipo-brasileiros

O preconceito contra o recebimento de imigrantes asiáticos era muito forte. Todos os asiáticos eram considerados raças inferiores que prejudicariam o "branqueamento" que ocorria no Brasil com o recebimento de imigrantes europeus. Havia também o medo do "perigo amarelo", isto é, que as grandes populações de orientais se espalhassem étnica e culturalmente pelas Américas. O medo do "perigo amarelo" tinha sido exacerbado pelo expansionismo militarista do império nipônico que, buscando conquistar terras para colonizar, derrotou a China em 1895 e a Rússia, em 1905 (a terceira derrota de um país europeu em frente a um não-europeu nos tempos modernos, a primeira sendo a Invasão Mongol na Europa em 1241, a segunda a Itália perante a Etiópia em 1896). Finalmente, havia o sentimento de que o imigrante japonês era um "quisto inassimilável" devido a seus costumes e religião.[31]

Francisco José de Oliveira Viana, autor do livro clássico "Populações Meridionais do Brasil" (publicado em 1918), e Nina Rodrigues, criador da Medicina Legal no Brasil, foram os grandes ideólogos do "branqueamento" do Brasil.[32] Oliveira Viana propagava o antiniponismo pois considerava que "o japonês [fosse] como enxofre: insolúvel".[31]

Apesar do preconceito, a necessidade de mão-de-obra era muito grande e a vinda de um navio com imigrantes japoneses começou a ser planejada para 1897. Entretanto houve uma crise de superprodução cafeeira nesta época, os preços internacionais desabaram e a vinda de imigrantes foi então desestimulada.[33]

Por volta de 1901, os preços internacionais do café haviam se recuperado e o governo do Brasil voltou a estudar o recebimento de imigrantes japoneses. O encarregado de negócios da primeira missão diplomática brasileira no Japão, Manuel de Oliveira Lima, foi consultado e deu parecer contrário ao projeto de recebimento de imigrantes japoneses. Escreveu então ao Ministério das Relações Exteriores alertando sobre o perigo de o brasileiro se misturar com "raças inferiores".[31]

Em 1902, o governo da Itália proibiu a emigração subsidiada de italianos para o Brasil. As fazendas de café sentiram uma grande falta de trabalhadores com a diminuição da chegada de italianos e o governo brasileiro aceitou o recebimento de imigrantes japoneses.[21] Em 1907, o Brasil criou a "Lei de Imigração e Colonização"[23] que regularizou a entrada de todos imigrantes e acabou definitivamente com as restrições do decreto nº 528 de 1890.[27]

Em 1906, Ryu Mizuno, presidente da Kokoku Shokumin Kaisha (Companhia Imperial de Emigração) visitou o Brasil, acompanhado de Teijiro Suzuki, que pretendia ir ao Peru e no Brasil trabalhou experimentalmente na Fazenda Tibiriçá. Em novembro de 1907, o empresário Ryu Mizuno firmou um acordo com o Estado de São Paulo. O documento foi assinado, em nome do governo do Estado, pelo secretário de Assuntos da Agricultura, Carlos José de Arruda Botelho.[34] Pelo contrato seriam trazidos 3.000 imigrantes japoneses para trabalhar como agricultores.[33]

A pré-imigração[editar | editar código-fonte]

Os primeiros japoneses que pisaram em solo brasileiro foram quatro tripulantes do barco Wakamiya Maru que naufragou na costa japonesa, em 1803, que foram salvos por um navio de guerra russo que levou-os em sua viagem. No retorno, a embarcação aportou, para conserto, em Porto de Desterro, atual Florianópolis, no dia 20 de dezembro, permanecendo até 4 de fevereiro de 1804. Ali, os quatro japoneses registraram da vida da população local e da produção agrícola da época.[20]

Com a entrada em vigor da lei nº 97, o Japão enviou o deputado Tadashi Nemoto, em 1894, para uma visita aos estados da Bahia, do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. O deputado ficou satisfeito com o que viu e fez um relatórios ao governo e também para as empresas de emigração japonesas, onde ele recomendava o Brasil para os imigrantes japoneses. A partida da primeira leva de japoneses para trabalhar nas lavouras de café em 1897, foi cancelada na véspera do embarque, por causa da crise que o preço do produto sofreu em todo o mundo, e que que se manteria até 1906.[20]

Somente em 1907 chegou ao Brasil um grupo significativo disposto a estabelecer uma colônia. Liderados por Saburo Kumabe, que foi exercia a profissão de juiz em Kagoshima, o grupo situou-se em 1907 na fazenda Santo Antônio, no atual município de Conceição de Macabu, então distrito de Macaé, no estado do Rio de Janeiro. A colônia produziu leite e derivados, além de milho, feijão e arroz. O arroz plantado nas inúmeras várzeas da propriedade, chegando a duas colheitas por ano. Com o passar do tempo os imigrantes foram desistindo do projeto. Outros japoneses foram enviados ao local pela Companhia de Imigração, mas também abandonaram a propriedade. A colônia acabou em 1912, quando Saburo Kumabe e sua família partiram. Vários foram os motivos o fracasso da colônia, tais como a exaustão do solo, falta de investimentos, epidemias de malária e ataques de saúvas nas plantações,[35] o principal problema foi que se tratava de um grupo heterogêneo de pessoas - advogado, professores, funcionários públicos - sem agricultores com experiência em cultivar a terra.[36]

Primórdios da imigração oficial[editar | editar código-fonte]

O navio Kasato Maru atracado no Porto de Santos, 1908
Imigrantes japoneses no Kasato Maru, Porto de Santos, 1908

O Kasato Maru é considerado pela historiografia oficial como o primeiro navio a aportar no Brasil com imigrantes japoneses. A viagem de 52 dias começou no porto de Kobe e terminou no Porto de Santos em 18 de Junho de 1908. Vieram 781 pessoas, sendo 186 mulheres que compunham 165 famílias, havia poucas mulheres, pois, em sua grande maioria, os grupos tinham como núcleo marido e mulher e o restante era formado por parentes ou até mesmo conhecidos que não eram membros da família.[37] Esses imigrantes foram trabalhar nos cafezais do oeste paulista. Naquela época, antes de embarcarem, todos eram obrigados passavam por um processo, onde faziam exames médicos e tinham aulas básicas de português. Em condições normais, a viagem demorava dois meses.[21]

O recebimento não foi especialmente caloroso. Apenas um jornalista elogiou os imigrantes dizendo que eles eram "limpos", coisa não muito comum entre os europeus naquela época. A revista carioca "O Malho" em sua edição de 5 de dezembro de 1908 publicou uma charge de imigrantes japoneses com a seguinte legenda: "O governo de São Paulo é teimoso. Após o insucesso da primeira imigração japonesa, contratou 3.000 amarelos. Teima pois em dotar o Brasil com uma raça diametralmente oposta à nossa".[31]

Na primeira leva de imigrantes de 1908, poucos eram agricultores, e assim relatou o presidente do Estado de São Paulo Manuel Joaquim de Albuquerque Lins em sua mensagem ao Congresso do Estado de São Paulo em 1909:[38]

"A immigração japoneza parece não produzir os resultados esperados. Os 781 primeiros imigrantes, introduzidos na vigencia do contracto de 6 de Novembro de 1907, deram entrada na Hospedaria da Capital em junho do anno indo; mas, na maioria individuos solteiros e pouco habituados á lavoura, esquivaram-se a certos serviços agricolas, que abandonaram aos poucos. Sómente ficaram nas fazendas algumas familias constituidas por verdadeiros agricultores, que trabalham muito a contendo dos fazendeiros em cujas propriedades se localizaram."[38]

Somente em 28 de junho de 1910, chegou a Santos outro navio, o Ryojun Maru, trazendo mais 906 imigrantes japoneses, que constituíam 247 famílias, divididas entre 518 homens e 391 mulheres, que foram enviados para trabalhar em 17 fazendas de café no Estado de São Paulo.[39]

Apesar de tudo, a imigração de japoneses continuou em ascensão. Em 1914, quando o governo de São Paulo interrompeu a contratação de imigrantes, a população japonesa no Brasil era estimada em apenas 10 mil pessoas.[23] Até 1915, chegaram no Brasil mais 3.434 famílias (14.983 pessoas) de imigrantes japoneses.

Dificuldades dos primeiros tempos[editar | editar código-fonte]

Os imigrantes japoneses tiveram muita dificuldade em se adaptar ao Brasil. Idioma, hábitos alimentares, modo de vida e diferenças climáticas acarretaram um forte choque cultural.

A maior parte dos imigrantes japoneses tinha a pretensão de enriquecer no Brasil e retornar para o Japão após poucos anos. Uma parcela considerável nunca aprendeu a falar o idioma português.[19]

Os japoneses tinham a expectativa de acumular dinheiro rapidamente, mas recebiam pouco, pois em seus primeiros pagamentos eram descontadas as parcelas da dívida da viagem, mais os gastos com alimentos e remédios, geralmente comprados na própria fazenda.[21] O contrato previa que a estada dos imigrantes nas fazendas deveria ser de cinco anos, porém as más condições fizeram com que boa parte saísse das fazendas no mesmo ano.[23]

Entretanto, através de um sistema chamado de "lavoura de parceria" em contrato com um proprietário de terras, no qual os trabalhadores se comprometiam a desmatar o terreno, semear o café, cuidar da plantação e devolver a área dali a sete anos, quando a segunda colheita estaria pronta. Em troca, ficavam com os lucros da primeira safra, levando em conta que a cultura do café é bianual e também ficavam com tudo o que plantassem além do café. Dessa forma muitos japoneses conseguiram economizar e comprar seus primeiros pedaços de terra.[21] A primeira compra de terra por japoneses no interior de São Paulo ocorreu em 1911.[23] Com a ascensão social e a vinda de parentes, a maioria dos imigrantes japoneses decidiu-se pela permanência definitiva no Brasil.

Outro fator que facilitou a permanência definitiva no Brasil foi que os contratos de imigração eram feitos com famílias. Japoneses solteiros não podiam imigrar sozinhos, como foi permitido com outras etnias. O padrão comum foi a imigração de famílias de japoneses com filhos pequenos ou de casais recém-casados.

A primeira geração nascida no Brasil viveu de forma semelhante a de seus pais imigrantes. Ainda pensando em regressar, os imigrantes educavam seus filhos em escolas japonesas fundadas pela comunidade. A predominância do meio rural facilitou tal isolamento. Cerca de 90% dos filhos de imigrantes japoneses falavam apenas o idioma japonês em casa. Muitos brasileiros de origem japonesa em zonas rurais ainda possuem dificuldades em falar o idioma português.

A partir de 1912, grupos de japoneses passaram a residir na ladeira Conde de Sarzedas em São Paulo.[31] Em 1912, 92,6% dos japoneses dedicavam-se principalmente ao cultivo do café.[40] O local era próximo do centro da cidade e alugar cômodos ou porões de sobrados era o melhor que os pobres imigrantes podiam pagar. Na década de 1920, a rua Conde de Sarzedas já era conhecida como o local preferido de residência dos japoneses que deixavam o campo. Com o crescimento da comunidade, o entorno do bairro da Liberdade tornou-se então um bairro japonês com lojas e restaurantes típicos.[23]


A grande imigração nipônica[editar | editar código-fonte]

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o fluxo de imigrantes japoneses para o Brasil cresceu enormemente. Entre 1917 e 1940, vieram 164 mil japoneses para o Brasil. A maior parte dos imigrantes chegou no decênio 1920-1930. Destaque-se, a partir de 1930, a presença dos imigrantes chamados kôtakusei, formados pela Kokushikan Kôtô Takushoku Gakkô (Tóquio), instituição onde eles eram preparados, durante cerca de um ano, a fim de virem para o Brasil. Trata-se de um grupo diferente, que vinha com a intenção de se estabelecer permanentemente, com o objetivo não só de trabalhar mas também de pesquisar.

O crescimento da imigração para o Brasil foi estimulado quando os Estados Unidos baniram a entrada de imigrantes japoneses através da United States Immigration Act de 1924. Outros fatores para o crescimento da imigração eram as propagandas de enriquecimento rápido no Brasil divulgados pelo governo do Japão. Outros países, como Austrália e Canadá, também colocaram restrições a entrada de imigrantes japoneses. O Brasil tornou-se então um dos poucos países no mundo a aceitar imigrantes do Japão.

Também houve projetos de restrição de imigração de japoneses no Brasil. Em 22 de outubro de 1923, o deputado Fidélis Reis apresentou um projeto de lei de regulação da entrada de imigrantes com um artigo que dizia: É proibida a entrada de colonos da raça preta no Brasil e, quanto ao amarelo, será ela permitida, anualmente, em número correspondente a 5% dos indivíduos existentes no Brasil.[41]

A imigração de japoneses, entretanto, cresceu durante a década de 1930. Cerca de 75% dos imigrantes japoneses foram para São Paulo, estado que tinha grande necessidade de mão-de-obra para trabalhar nos cafezais. Com a abertura de novas frentes de trabalho, os imigrantes japoneses iam trabalhar também no cultivo de morango, chá e arroz. Pequenas comunidades nipo-brasileiras surgiram no Pará com imigrantes japoneses atraídos pelo cultivo da pimenta do reino.

Na década de 1930, o Brasil já abrigava a maior população de japoneses fora do Japão. Muitos imigrantes japoneses continuaram a chegar neste período, muitos deles atraídos pelos parentes bem sucedidos que já tinham emigrado.

O nacionalismo da Era Vargas[editar | editar código-fonte]

A Assembleia Nacional Constituinte de 1933 foi local de discussões de "teses científicas" de eugenia racial que propunham a necessidade do "branqueamento" da população brasileira. O grande defensor destas idéias foi o médico Miguel Couto (eleito pelo Distrito Federal, hoje Rio de Janeiro) apoiado por outros deputados médicos como o sanitarista Artur Neiva da Bahia e Antônio Xavier de Oliveira do Ceará. Juntos, eles pediram o fim da imigração dos "aborígenes nipões".[31]

A consequência foi a aprovação por larga maioria de uma emenda constitucional que estabelecia cotas de imigração sem fazer menção a raça ou nacionalidade, e que proibia a concentração populacional de imigrantes. Segundo o texto constitucional, o Brasil só poderia receber, por ano, no máximo 2% do total de ingressantes da cada nacionalidade que fora recebido nos últimos 50 anos.[31] Apenas os portugueses foram excluídos dessa lei. Estas medidas não afetaram a imigração de europeus como italianos e espanhóis que já tinham ingressado em grande quantidade e cujo fluxo migratório era descendente. Entretanto, o regime de cotas, que irá vigorar até a década de 1980, restringiu a imigração de japoneses, assim como, futuramente, a de coreanos e chineses.

Na década de 1930 foi muito debatido a questão da imigração japonesa, sendo que o material escrito na época chegava a eram publicados das mais diversas formas sendo que haviam milhares de páginas de artigos, anúncio e livros sobre a imigração japonesa. Os que se opunham à entrada de japoneses usavam argumentos essencialmente nacionalistas como: "ele [os japoneses] estão roubando nossos empregos e nossas terras", também haviam as declarações racistas, eugenistas, do tipo, "ele irão poluir nossa raça". Os favoráveis a ela tendiam a enfocar os níveis de produção, sendo que em 1936, os agricultores japoneses produziam 46% do algodão, 57% da seda e 75% do chá brasileiros. Outros argumento dado pelos defensores da imigração japonesa era quanto a necessidade de uma maior força de trabalho.[42] Um dos defensores da imigração japonesa, Alfredo Ellis Júnior, então deputado, propôs que as cotas fossem contornadas pelo uso das chamadas "cartas de chamada", sendo que o uso desses documentos lhes permitiriam que permitiam que tantos cidadãos brasileiros quanto imigrantes com residência permanente no Brasil "chamassem" seus parentes e esses poderiam imigrar ao Brasil.[43] Num discurso proferido na Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo, Bento de Abreu Sampaio Vidal, presidente da Sociedade Rural Brasileira, falou em defender a "raça" brasileira dos imigrantes indesejáveis, mas não colocava os japoneses nessa categoria, em discurso proferiu:[44]

"Conheço como ninguém o valor dos japoneses. Marília, a minha querida cidade, é o maior centro de japoneses no Brasil. É a gente mais eficiente para o trabalho, educada, culta, sóbria... Durante a noite escura, em que os fazendeiros não podiam pagar regularmente seus colonos, não se viu um colono japonês impaciente ou reclamando. Quanto à raça, não sei se os grandes médicos (os médicos antijaponeses Neiva e Couto) terão razão, porque em Marília existem entre os colonos homens e mulheres bonitos e robustos."[44]

A ditadura do Estado Novo implantado por Getúlio Vargas em 1938 procurou ressaltar o nacionalismo brasileiro através da repressão à cultura de imigrantes que formavam comunidades fechadas como os japoneses e alemães. Também foi declarado o confisco dos bens dos imigrantes. Nas décadas seguintes após a Segunda Guerra Mundial, vários decretos foram editados determinando condições para a devolução do que foi confiscado, mas atualmente os bens e ações continuam sob a guarda do Banco do Brasil, sendo que a instituição e a Secretaria do Tesouro Nacional admitem a existência dessa riqueza, mas não se pronunciam oficialmente sobre o fato.[45]

O decreto nº 383 de 18 de abril de 1938 determinou várias proibições aos estrangeiros: não poderiam participar de atividades políticas, formar qualquer tipo de associação, falar línguas estrangeiras em público ou usá-las como língua de alfabetização de crianças;[46] para a maioria dos nipônicos no país, essa era a única forma de se comunicar.[31] No mesmo ano o governo ordenou o fechamento dos "nihongakus" que eram as escolas onde os filhos de imigrantes aprendiam não só a ler e escrever em japonês, mas a ser e agir como japoneses.[46]

A transmissão de programas de rádio em línguas estrangeiras foi proibida. As publicações impressas (jornais, revistas, livros) em língua estrangeira também foram proibidas, a não ser que fossem bilíngue, japonês-português, por exemplo. Como a publicação bilíngue era muito cara, jornais e revistas deixaram de circular. Em 1939, uma pesquisa da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, de São Paulo, mostrou que 87,7% dos nipo-brasileiros assinavam jornais em idioma japonês, um índice altíssimo para qualquer língua e qualquer época no Brasil.[31] O decreto nº 383 de 1938 praticamente acabou com a disseminação de informações na comunidade japonesa, pois boa parte desta sequer compreendia o idioma português.

A partir de então, a entrada de imigrantes japoneses ficou cada vez mais difícil. O ministro da Justiça Francisco Campos, em 1941, defendeu a proibição do ingresso de 400 imigrantes japoneses em São Paulo escrevendo: "seu padrão de vida desprezível representa uma concorrência brutal com o trabalhador do país; seu egoísmo, sua má-fé, seu caráter refratário, fazem deles um enorme quisto étnico e cultural localizado na mais rica das regiões do Brasil".[22]

Segunda Guerra Mundial[editar | editar código-fonte]

Distribuição dos nipo-brasileiros
por estados[16]
Estado População
nipo-brasileira
São Paulo 693.495
Paraná 143.588
Pernambuco 89.442
Outros estados 489.898
Total 1.405.685

A segunda geração de japoneses no Brasil desistiu, definitivamente, de retornar ao Japão, principalmente quando a eclosão da Segunda Guerra Mundial tornou impossível sair do Brasil. Em 1941, o governo ordenou que os jornais da comunidade fossem fechados e nesse momento as notícias que os imigrantes tinham era a de que o Japão estava em vantagem na guerra.[46] Nessa época os cidadãos de origem alemã, italiana e japonesa eram considerados "súditos do Eixo",[47] sendo que partir de 1942 o governo de Getúlio Vargas apoiou oficialmente os Estados Unidos na guerra, fazendo com que esses habitantes fossem vistos como "inimigos" em território brasileiro.[48]

Antes mesmo de entrar em guerra, o governo brasileiro tomou medidas que afetavam a comunidade nipo-brasileira. Quando houve os torpedeamentos de navios brasileiros por submarinos alemães, o bairro da Liberdade já concentrava a maior população de nipo-brasileiros na cidade de São Paulo. Alguns dias depois, na noite de 2 de fevereiro de 1942, agentes policiais do DEOPS - Departamento Estadual de Ordem Pública e Social, acordaram os nipo-brasileiros residentes nas ruas Conde de Sarzedas e da rua dos Estudantes e, sem qualquer ordem judicial, avisaram que eles teriam que abandonar a área em 12 horas. Sem ter para onde ir, a maioria ficou. Entretanto, o mesmo se repetiu na noite de 6 de setembro, quando se deu um prazo de dez dias para os nipo-brasileiros se mudarem definitivamente da região.[31]

A comunidade nipo-brasileira foi duramente atingida por medidas restritivas quando o Brasil declarou guerra ao Japão em agosto de 1942. No mesmo ano a porcentagem dos nipo-brasileiros que se dedicavam ao cultivo do café diminuiu em comparação a 1912, sendo que passaram a representar 24,3%, havendo um aumento daqueles que se dedicavam ao cultivo do algodão, representando 39,2% do total de nipo-brasileiros e um aumento também das chamadas culturas suburbanas, tais como: verduras, legumes, frutas e da avicultura sendo 19,9%.[40]

Nipo-brasileiros não podiam viajar pelo território nacional sem salvo-conduto expedido por autoridade policial; mais de 200 escolas da comunidade japonesa foram fechadas; os aparelhos de rádio foram apreendidos para que não se ouvissem transmissões em ondas curtas do Japão.[31] Os nipo-brasileiros foram proibidos de dirigir veículos automotores, mesmo se fossem táxis, ônibus ou caminhões de sua propriedade. Os motoristas contratados pelos nipo-brasileiros tinham que ter uma autorização da polícia.[31]

Os bens das empresas japonesas foram confiscados[31] e várias empresas de nipo-brasileiros sofreram intervenções, entre as quais o recém-fundado Banco América do Sul, que teve um papel importante para os nikkeis, pois era onde boa parte dos imigrantes aplicavam o dinheiro das lavouras e do comércio nas cidades. Mas no período da guerra o Banco do Brasil enviou interventores para tomar o América do Sul das mãos dos japoneses, com a demissão dos funcionários de origem japonesa que foram substituídos por funcionários brasileiros sem qualquer ascendência nipônica e a maioria sem experiência bancária, por consequência o banco entrou em uma crise administrativa. A situação apenas voltou ao normal anos após a Segunda Guerra Mundial, com a compra do bando pelos seus antigos donos, pois a instituição estava nacionalizada.[49]

Os imigrantes e descendentes de italianos e alemães sofreram diversas formas de discriminação oficial ou não durante a Segunda Guerra Mundial, porém o sentimento foi mais forte contra os nipo-brasileiros. Milhares de imigrantes japoneses foram presos ou expulsos do Brasil por suspeitas de espionagem.[23] A delação anônima de atividades "contra a segurança nacional" surgia de desavenças entre vizinhos, cobrança de dívidas e até brigas de crianças.[31] Nipo-brasileiros foram presos por atividades suspeitas quando se aglomeravam, por exemplo, em dezembro de 1942, o jornalista Hideo Onaga e alguns companheiros foram presos em um piquenique, pois , havia a suspeita que eles estavam construindo um submarino.[31]

O medo de contatos entre imigrantes e submarinos inimigos exacerbou-se. No dia 10 de julho de 1943, cerca de 10 mil imigrantes japoneses e alemães que residiam em Santos foram obrigados, em 24 horas, a fechar suas casas e negócios e a se mudar para longe do litoral brasileiro. A polícia agiu sem qualquer aviso prévio. Cerca de 90% das pessoas deslocadas eram nipo-brasileiros.[31] Restaram em Santos apenas nipo-brasileiros com cidadania brasileira, porém muitos também tiveram que se mudar para acompanhar seus pais ou cônjuges. Essa decisão foi tomada pelo governo devido a rumores infundados sobre imigrantes disfarçados de pescadores para, supostamente, fornecer informações aos submarinos alemães que infestavam a costa brasileira. Inclusive os doentes foram forçados a se mudar e foram carregados em redes. Após o despejo, as casas abandonadas foram invadidas por estranhos. O jornal de santos denominado "A Tribuna", noticiou a situação dos que tentavam se desfazer de seus pertences: "no Marapé, na Ponta da Praia e em Santa Maria, houve verdadeira corrida para a venda de suínos, galináceos, muares, etc. Muitos proprietários de chácaras puseram à venda quase tudo que possuiam. Vendiam a qualquer preço, pois não havia tempo para regatear".[50] Para residir na baixada Santista, os japoneses passaram a dever possuir um salvo-conduto concedido conforme a vontade das autoridades policiais.[31]

Nunca foi confirmada qualquer suspeita de atividades de nipo-brasileiros contra a "segurança nacional". Apesar disto, em 1942, a colônia japonesa que introduziu o cultivo da pimenta em Tomé-Açu, no Pará, foi praticamente transformada em um "campo de concentração" (expressão da época) do qual nenhum nipo-brasileiro poderia sair.[31] Nesta época, o embaixador brasileiro em Washington, Carlos Martins Pereira e Sousa, incentivava o governo do Brasil a transferir todos os nipo-brasileiros para "campos de internamento" sem necessidade de apoio jurídico, do mesmo modo como tinha sido feito com os nikkeis residentes nos Estados Unidos.[31]

A irreverência popular foi incentivada com marchinhas de Carnaval que ironizavam o imperador Hiroito e a "terra do micado".[31] Um nipo-brasileiro sentia-se muito mais ofendido quando troçavam do imperador Hiroito do que um teuto-brasileiro quando troçavam de Hitler ou um ítalo-brasileiro quando troçavam de Mussolini. Na época, o imperador Hiroito não era somente Chefe de Estado, mas também a figura central da religião oficial japonesa, o xintoísmo, sendo venerado em altares domésticos como descendente dos deuses.

Notícias degradantes sobre os japoneses foram comuns na imprensa brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, David Nasser e Jean Marzon, a dupla de jornalista-fotógrafo mais famosa do país, publicaram em "O Cruzeiro", a revista de maior tiragem da época, uma matéria ilustrada na qual pretendiam ensinar aos brasileiros a distinguir um japonês de um chinês. David Nasser escreveu, entre outras coisas, que o japonês podia ser distinguido pelo "aspecto repulsivo, míope, insignificante". Segundo o escritor Roney Cytrynowicz, "a opressão contra os imigrantes japoneses, diferente do que ocorreu com italianos e alemães em São Paulo, deixa claro que o Estado Novo moveu contra eles -a pretexto de acusação de sabotagem- uma campanha racista em larga escala".[31]

Pós-guerra[editar | editar código-fonte]

Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, os imigrantes começaram a receber novamente as cartas de seus parentes que estavam no Japão, e relatavam as dificuldades do país após a guerra. Para a maioria quase absoluta das famílias que aqui no Brasil, era o fim do sonho de retornar ao Japão. Os imigrantes se convenceram, então, da necessidade de preparar os filhos, para ascender na sociedade brasileira. Para isso, boa parte dos nipo-brasileiros foram do campo para a cidade.[46]

O forte antiniponismo continuou no Brasil além do final da Segunda Guerra Mundial.

Nesta época, surgiu a Shindo Renmei, uma organização terrorista formada por nipo-brasileiros que assassinava os nipo-brasileiros que acreditavam na derrota japonesa. Os assassinatos cometidos pela Shindo Renmei e o sentimento antinipônico da época causaram vários conflitos violentos entre brasileiros e nipo-brasileiros.

Os políticos brasileiros continuaram a valorizar o imigrante europeu como o mais desejado. O decreto-lei nº 7.967 de 1945 regulava a política imigratória e dizia que o ingresso de imigrantes dar-se-ia considerando a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia.[41]

Por causa de alguns acontecimentos ocorridos após o assassinato do caminhoneiro Pascoal de Oliveira, pelo caminhoneiro japonês Kababe Massame, após uma discussão, em julho de 1946, a população de Osvaldo Cruz, interior do estado de São Paulo, que já estava irritada com os dois atentados da Shindo Renmei na cidade, saiu às ruas e invadiu casas disposta a maltratar os japoneses. O linchamento dos japoneses só foi totalmente controlado com a intervenção de um destacamento do Exército, vindo de Tupã.[31]

Além de preferir o imigrante europeu, alguns políticos brasileiros propuseram medidas extremamente antinipônicas. Durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1946, foi colocada em votação a emenda no 3165 proposta pelo deputado carioca Miguel Couto Filho (filho do deputado constituinte de 1934) que dizia apenas: "É proibida a entrada no país de imigrantes japoneses de qualquer idade e de qualquer procedência". Frequentemente, o deputado Miguel Couto Filho discursava na tribuna da assembleia constituinte defendendo seu projeto de emenda constitucional citando um livro que tinha escrito, cujo título era: "Para o futuro da pátria – Evitemos a niponização do Brasil".[51] O senador Luiz Carlos Prestes fez com que o Partido Comunista Brasileiro fechasse questão a favor da emenda no 3165 e deputados como Jorge Amado e João Amazonas votaram a seu favor.[31] Noutro extremo, o deputado Aureliano Leite sustentou inflexivelmente a posição contrária.[51] O deputado José Eduardo do Prado Kelly também opôs-se veementemente, discursou dizendo que a emenda a "amesquinharia a nossa obra" e propôs que, caso aprovada, ela fosse deslocada para as disposições transitórias. Na votação final, houve um empate com 99 votos contra e 99 a favor. O senador Fernando de Melo Viana, que presidia a sessão constituinte, exerceu então o voto de Minerva recusando a emenda. Por apenas um voto, a imigração de japoneses não foi proibida pela Constituição de 1946.[31]

Imigração japonesa para o Brasil por períodos[52]
1884-1893 1894-1903 1904-1913 1914-1923 1924-1933 1934-1944 1945-1949 1950-1954 1955-1959
- - 11.868 20.398 110.191 N/A 12 5.447 28.819
Distribuição dos imigrantes oriundos do Japão,
naturais e brasileiros, segundo as Unidades da Federação - 1940/1950[53]
Unidade da Federação Dados absolutos Proporções (%)
1940 1950 1940 1950
Pernambuco 636 836 0,351 0,456
Pará 467 421 0,323 0,326
Minas Gerais 893 917 0,618 0,710
Rio de Janeiro 380 1.086 0,263 0,841
Distrito Federal 538 392 0,372 0,303
São Paulo 132.216 108.912 91,484 84,302
Paraná 8.064 15.393 5,580 11,915
Mato Grosso do Sul 1.128 1.172 0,780 0,907
Brasil 144.523 129.192 100 100

Nessa época os nipo-brasileiros começaram a ter um papel mais ativo na área política, um dos primeiros acontecimentos políticos aconteceu após uma medida imposta pelo governo do Estado de São Paulo, que tinha o objetivo de aumentar a popularidade entre os eleitores, para que fosse feito um tabelamento dos preços dos serviços das tinturarias, sendo que um dos resultados disso seria a redução do valor de lavagem de um terno que seria reduzido de 25 para 16 cruzeiros.[54] Nessa época, finais dos anos 40 e início da década de 50, apenas na cidade de São Paulo, havia em torno de 1,5 mil tinturarias e cerca de dois terços pertenciam aos japoneses e seus descendentes.[55] Após reuniões que aconteceram entre a comunidade foi tomada a decisão de eleger o primeiro representante nikkei na Assembléia Legislativa, para que defendesse os direitos dos japoneses e nipo-brasileiros, e escolheram Yukishige Tamura, que já havia sido eleito vereador em 1947 na Câmara Municipal de São Paulo. Como os japoneses não podiam votar, a campanha aconteceu para com os clientes das tinturarias, sendo que Tamura foi eleito deputado estadual em 1950. Após Tamura outros nipo-brasileiros tiveram suas passagens pela política, sendo que,[54] após a eleições de vários deputados estaduais e federais nipo-brasileiros, o primeiro nikkei a se tornar ministro foi Fábio Riodi Yassuda, em 1969, que foi ministro da Indústria e Comércio no governo Médici.[4]

Apesar de tudo, o fluxo de imigração japonesa recomeçou no início da década de 1950 e só cessou quase que totalmente em 1973. No total, quase 200 mil japoneses foram recebidos como imigrantes no país.

No início da década de 60, a população nipo-brasileira das cidades já superava a do campo. Como a grande maioria das famílias que se mudaram para São Paulo e para cidades do Paraná tinham poucos recursos e era chefiada por isseis e nisseis, era obrigatório que o negócio não exigisse grande investimento inicial nem conhecimentos avançados de português. Assim, boa parte dos colonos passou a se dedicar ao pequeno comércio ou à prestação de serviços básicos, onde se destacaram as tinturarias. Na década de 70, 80% dos 3 500 estabelecimentos que lavavam e passavam as roupas dos cidadãos de São Paulo pertenciam aos japoneses. Segundo a antropóloga Célia Sakurai: "O negócio era conveniente para as famílias, porque elas podiam morar nos fundos da tinturaria e fazer todo o serviço sem precisar contratar funcionários. Além disso, a comunicação exigida pela atividade era breve e simples".[56]

Após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu um grande êxodo rural que levou a maior parte da comunidade nipo-brasileira do campo para as cidades, nas regiões metropolitanas ou interior, tornando-se principalmente comerciantes, sendo proprietários de lavanderias, mercearias, feiras, cabeleireiros, oficinas mecânicas, entre outros. Aumentando os cuidados com a educação dos filhos. Outras famílias decidem morar na zona suburbana, para se dedicar nas atividades horti-fruti-granjeiras, sendo que também visavam à proximidade de boas escolas para os filhos nas cidades maiores.[40] Sendo que em 1952, 34,1% dos imigrantes japoneses estavam voltados para as atividades horti-fruti-granjeiras, enquanto os que os cafeicultores japoneses tinham baixado para 27,5% e de algodão para 20,5%.[40] A cidade de São Paulo tornou-se, assim, a cidade com maior número de japoneses fora do Japão.

No ambiente urbano, os japoneses começaram a trabalhar principalmente em setores relacionados com a agricultura como feirantes ou donos de pequenos armazéns de frutas, legumes ou peixes. O trabalho com quitandas e barracas de feira era facilitado pelo contato que os japoneses urbanos tinham com os que haviam ficado no campo, pois, os fornecedores eram, geralmente, amigos ou parentes. Qualquer que fosse a atividade escolhida pela família, cabia aos primogênitos a tarefa de trabalhar junto com os pais. O costume era uma tradição japonesa de delegar ao filho mais velho a continuação da atividade familiar e também da necessidade de ajudar a custear os estudos dos irmãos mais novos. Sendo que enquanto os mais velhos trabalhavam, os irmãos mais jovens ingressavam em cursos técnicos, como o curso de contabilidade, principalmente, pois era mais fácil lidar com números do que com o português. Quanto às faculdades, as preferidas eram engenharia, medicina e direito, que garantiam dinheiro e prestígio social. Em 1958, os descendentes de japoneses já representavam 21% dos brasileiros com formação acima da secundária. Em 1977, eles, que eram 2,5% da população de São Paulo, somaram 13% dos aprovados na Universidade de São Paulo, 16% dos que passaram no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e 12% dos selecionados na Fundação Getulio Vargas (FGV).[56]

Inversão do fluxo migratório[editar | editar código-fonte]

Praça do Japão, Curitiba

A partir do fim dos anos 80, ocorreu uma inversão do fluxo migratório entre o Brasil e Japão, pois, com os reflexos da crise econômica da década de 80, além das consequências do Plano Collor e a demanda do Japão por mão-de-obra, fizeram com que, entre 1980 e 1990, cerca de 85 000 japoneses e descendentes residentes no Brasil decidissem tentar a vida no Japão.[56] Os nipo-descendentes e seus cônjuges, com ou sem ascendência japonesa, e seus filhos mestiços ou não, passaram a emigrar para o Japão à procura de melhores oportunidades de trabalho. Estes emigrantes brasileiros são conhecidos como dekasseguis (出稼ぎ?), embora a palavra no Japão inclua todos trabalhadores migrantes, até mesmo, japoneses de áreas rurais que vão trabalhar nos grandes centros urbanos.

Vivem no Japão mais de 300.000 brasileiros em condições legais, a grande maioria trabalhando como operários na indústria. As cidades com mais brasileiros são: Hamamatsu, Aichi, Shizuoka, Kanagawa, Saitama e Gunma[57]

A comunidade brasileira no Japão por sua vez, é a terceira maior comunidade de trabalhadores estrangeiros residentes no Japão.[57]

Aspectos sociais[editar | editar código-fonte]

Cultura[editar | editar código-fonte]

Uma das contribuições da colônia japonesa no desenvolvimento brasileiro é o campo das artes plásticas, onde a arte dos nipo-brasileiros chega a ser denominada de "escola nipo-brasileira".[58] A constância dos nipo-brasileiros em participar dos salões, exposições e eventos foi decisivo para chamar a atenção, manter contatos entre os artistas.[59] Com a chegada dos imigrantes japoneses pós-guerra, essas atividades tomaram novo impulso – ceramistas, artistas plásticos, artesões, fotógrafos chegaram no Brasil trazendo novidades nas concepções estéticas que ajudaram a "compor e dar novo formato as artes plásticas do Brasil", nas palavras de Antônio Henrique Bittencourt Cunha Bueno.[40]

O bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, representa um um exemplo da influência japonesa no Brasil, com vários pórticos vermelhos de templos xintoístas. Restaurantes de yakisoba, sushi e sashimi, estabelecimentos de karaokê e supermercados nos quais se pode comprar o nattō e vários tipos de molho de soja.[60] Até mesmo o drinque brasileiro mais famoso, a caipirinha, ganhou uma versão japonesa com saquê: a sakerinha.[61]

Demografia[editar | editar código-fonte]

Nikkei (日系?) é uma denominação em língua japonesa para os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão ou para japoneses que vivem regularmente no exterior.[62]

Há no Brasil 1,8 milhão de nipo-brasileiros e 61% são mestiços ou multirracial, dos quais cerca de 80% apenas no estado de São Paulo. A cidade de São Paulo concentra a maioria dos nipo-brasileiros - 326 mil segundo o censo de 1988.[63] O bairro da Liberdade, no centro da capital paulista, foi o bairro japonês da cidade, embora hoje só mantenha o comércio e restaurantes característicos, com influência cada vez maior de comunidades chinesas e coreanas. Os municípios paulistas com maior população de nipo-brasileiros são Mogi das Cruzes, Osvaldo Cruz e Bastos.

Outros focos importantes de presença nipo-brasileira são o Paraná, o Rio de Janeiro e Pernambuco. No Paraná, a maioria dos nipo-brasileiros vive na capital Curitiba e em municípios populosos do norte do estado como Maringá, Londrina e municípios de menor porte como Assaí e Uraí, mas com maior porcentagem de nikkeis em sua população.[64]

Em termos relativos, os municípios de Assaí no Paraná e de Bastos em São Paulo são os que possuem maior concentração de nipo-brasileiros – respectivamente, 15% e 11,4% de seus habitantes.

Apesar da origem agrícola da maior parte dos imigrantes japoneses, atualmente cerca de 90% da comunidade nipo-brasileira vive nas cidades.

Economia[editar | editar código-fonte]

Os imigrantes japoneses aperfeiçoaram as técnicas agrícolas e de pesca dos brasileiros.[65] Ajudaram na difusão de técnicas de produção de alimentos através da hidroponia e da plasticultura.[40] É notável o seu trabalho na aclimatação ou desenvolvimento de vários tipos de frutas e vegetais antes desconhecidos no Brasil, no total trouxeram mais de 50 tipos de alimentos,[65] entre os quais o caqui, a maçã Fuji, mexerica poncã e o morango.[65] Além dos alimentos trazidos pelos imigrantes japoneses no Brasil destaca-se também a grande expansão da avicultura brasileira que só cresceu de vez quando foram trazidas aves-matrizes do Japão e com a experiência dos imigrantes japoneses nas granjas.[65] Como consequência os estados que receberam os imigrantes tiveram um aumento na renda e a elevação do PIB.[66] Com a oferta de novos alimentos eles mudaram os hábitos alimentares dos brasileiros, pois, introduziram vários produtos que não faziam parte da dieta nacional.[60] A fruticultura, anteriormente, restrita às propriedades próximas dos centros consumidores, com a influencia dos imigrantes expandiu-se para as diferentes cidades do interior do Estado de São Paulo e outros estados brasileiros, havendo o emprego das mais avançadas tecnologias a ponto de representar um importante item na balança comercial do país.[40]

Além das novas tecnologias na área agrícola desenvolvida pelos imigrantes japoneses, outra característica dos agricultores nipo-brasileiros foi a do cooperativismo. Em declaração dada pelo ex-ministro da agricultura do Brasil, João Roberto Rodrigues, resume o movimento cooperativista dos imigrantes japoneses: "Graças ao seu modo de produção, principalmente no segmento de hortifrutigranjeiros, foram instalados cinturões verdes próximos aos principais centros urbanos, garantindo a auto-suficiência em verduras, legumes, frutas e produtos animais como ovos e frangos. A mentalidade associativista, por outro lado, deu origem às grandes cooperativas agropecuárias que serviram de modelo para várias iniciativas de organização do mercado". Outra contribuição fundamental que os agricultores japoneses trouxeram para o país foi a técnica inovadora da agricultura intensiva, sendo isso um resultado de técnicas de plantio desenvolvidas no Japão, pois nesse país, devido à falta de espaço, produzia-se grande quantidade em áreas pequenas e isso não era feito no Brasil que dispunha de grandes áreas para plantio.[67]

Na área agrícola deve-se destacar a introdução da pimenta-do-reino na região de Tomé-Açu, no Pará, que viria a ser chamado de "diamante negro" da Amazônia. Através dos imigrantes japoneses Tomé-Açu tornou-se então o maior produtor mundial de pimenta-do-reino,[68] pois com esses imigrantes houve a introdução do cultivo da pimenta-do-reino na região, sendo que os imigrantes importaram as primeiras sementes de Singapura para o Brasil, com a prosperidade alavancada pelos japoneses a população do município mais que triplicou em vinte anos no município, chamando a atenção de muitas pessoas em busca de oportunidades de trabalho, na maioria, migrantes capixabas ou nordestinos.[69] Mesmo suas plantações sendo atacadas pela fusariose, os japoneses não desistiram da pimenta-do-reino, combateram a doença, mas isso abriu a oportunidade para os nipo-brasileiros começarem o cultivo de outras culturas tropicais, como a açaí, também chamado de "diamante negro",[68] onde o Pará se destaca como principal produtor da fruta. O crescimento das exportações do açaí foi de tal forma que chegou a despertar atenção de grandes jornais como o francês “Le Monde” e o norte-americano “The New York Times”.[70]

Embora já houvessem plantações de rami no Brasil desde o ano de 1884, a maior produção dessa cultura aconteceu na cidade paranaense de Uraí, como resultado do trabalho da Companhia de Terras Sul América, que após ser fundada fez a concessão do terreno à Companhia Nambei Toshi Kabushiki Kaisha, que deu início à colonização do que hoje é Uraí. Com o resultado do primeiro cultivo, a produção começou a ser expandida, tendo sido comercializada tanto no Brasil quanto no exterior. Na década de 70, a cidade se tornou a maior produtora de rami do mundo, ganhando o apelido de "Capital Mundial do Rami", sendo que a cultura chegou a ocupar 22% da área total do município e o nikkei Susumo Itimura chegou a ser conhecido como o "rei do rami". Com a concorrência da fibra sintética a produção do rami diminuiu e os produtores rurais da região procuraram a diversificação de culturas.[71]

Além do rami, outra cultura importante para a produção de fibras que teve os japoneses como principais cultivadores foi a juta, pois, os japoneses foram os introdutores da juticultura no Brasil. O pioneiro desse projeto foi o deputado Tsukasa Uyetsuka, que via o potencial da região amazônica como grande produtora de juta, pelo seu clima. A fibra era indispensável ao comércio internacional, usada nos sacos de café e outras mercadorias, por absorver umidade e preservar seus conteúdos, mas poucos países a produziam em larga escala.[72] Em 1930, Uyetsuka comprou 1.500 hectares em Parintins, atualmente denominada de Vila Amazônia, além disso o deputado também criou a Escola Superior de Colonização do Japão (Nihon Koto Takushoku Gakko) criada com o objetivo de formar especialistas no trabalho de colonização, esses estudantes eram conhecidos como koutakusseis,[73] que aprendiam noções de técnicas de cultivo, noções de construção civil e língua portuguesa.[72] No início a juticultura não deu bons resultados, pois a planta não se adaptou muito bem na região, mas com o trabalho de aclimatização feito por Riota Oyama[72] com a criação da "variedade Oyama",[74] fato esse que viabilizou a atividade da juta naquela região, além disso, em 1935, Uyetsuka conseguiu recursos junto a empresas como Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo, e fundou a Companhia Industrial Amazonense, subsidiária no Brasil da Cia. Industrial da Amazônia, criada no Japão.[72] A lavoura de juta atingiu seu auge na década de 1960, com mais de 50 mil agricultores envolvidos no seu plantio e representou mais de um terço do Produto Interno Bruto do Estado do Amazonas, levando o Brasil a autossuficiência de fibra de juta em 1952.[75]

A contribuição dos japoneses no setor industrial a partir da década de 60 é ressaltada pelo fato de que muitas indústrias do Japão instalaram suas filiais no Brasil, muitas delas associando-se aos empreendimentos nipo-brasileiros. Sendo que não foram implementadas somente a tecnologia, mas também os novos sistemas administrativos que revolucionaram a produtividade de muitas fábricas brasileiras. Além disso, a partir da década de 70, o capital japonês voltou-se para a expansão da fronteira agrícola do país através da exploração da região do cerrado. Também, para a produção de matérias-primas, concentrando-se na exploração dos minérios.[40]

Educação[editar | editar código-fonte]

Na sociedade brasileira o senso comum é a de que descendentes de japoneses são estudiosos, disciplinados, vão bem na escola, passam no vestibular com mais facilidade e, em boa parte dos casos, têm grandes afinidades com as carreiras de exatas.[76] De acordo com uma pesquisa feita pela USP e da UNESP os nipo-brasileiros que são 1,2% da população da cidade de São Paulo, representam 4% nos inscritos no vestibular e cerca de 15% nos aprovados. Nas carreiras mais concorridas, como Medicina e Engenharia, eles chegam a representar, em média, 15% e 20% dos estudantes matriculados, respectivamente. Segundo dados do IBGE, 28% dos nipo-brasileiros possuem o ensino superior completo, enquanto a média nacional está em aproximadamente 8%.[76] O bom desempenho desses estudantes deve-se carregarem valores como a disciplina, o respeito à hierarquia, o esforço e a dedicação, além do sentimento de que a melhor maneira de ascender economicamente é por meio da educação.[76]

As escolas também tiveram um papel ativo na história da comunidade japonesa no Brasil, pois, enquanto comunidade ocidentais, como alemães e poloneses tinham a igreja como principal núcleo sociabilizante, os japoneses tinham a escola que fazia esse papel, além disso a escola realizava seu papel de reprodutor da cultura de seus ancestrais e mantinham a mentalidade nacionalista, pois os primeiros imigrantes tinham planos de retornar ao Japão. O governo japonês também enviava fiscais para observar a situação das colônias, além de aconselhar as comunidades em seus afazeres e ensino nas escolas.[77] A escola era uma das principais instituições em uma comunidade japonesa agrícola pioneira. O nissei devia receber educação japonesa, para ser um japonês. A escola, portanto, cumpria o papel de formar o nissei segundo os preceitos da educação japonesa, informá-los sobre o Japão e transmitir disciplina.[77] Segundo dados da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, em relação aos imigrantes que desembarcaram no porto de Santos entre 1908 e 1932, maiores de 12 anos, a taxa de pessoas alfabetizadas era de 89,9% entre os japoneses; 71,36% entre italianos e 51,7% entre os portugueses.[78]

A primeira escola japonesa no Brasil foi fundada pelo professor Shinzo Miyazaki em sua residência, no ano de 1914, no ano seguinte foi oficialmente reconhecida. A escola se chamava "Taisho Shogakko". Inicialmente as escolas japonesa ensinavam as matérias relacionadas ao Japão, o motivo disso é que os isseis queriam ensinar o idioma natal aos filhos para quando voltassem ao Japão, pois, na época, eles ainda tinham a esperança de empreender a viagem de volta à terra natal. Posteriormente as escolas fundadas por nipo-brasileiros passaram a incorporar currículos acadêmicos brasileiros.[79]

Desde 1924, com a maior intervenção do governo japonês sobre a imigração, o governo, através do consulado japonês passa a criar entidades de apoio, como escolas e hospitais. Em 1938 havia em São Paulo 294 escolas japonesas, a título de comparação, havia 20 escolas alemãs e 8 italianas. Após a Segunda Guerra, os japoneses passam a ocupar um número crescente de vagas na Universidade de São Paulo. Em 1960, o número era de 10% de alunos de origem japonesa. O ingresso de descendentes de japoneses nas universidades públicas se intensifica na década de 1970.[77] Segundo dados do Datafolha de 1995, 53% dos nipo-brasileiros em idade adulta, ou seja, em idade de terminar uma faculdade, possuíam educação universitária, enquanto no restante da população brasileira 9% da população possuía educação universitária.[80]

Os imigrantes também foram os responsáveis pela inserção do soroban no Brasil, que é um instrumento de cálculo matemático, que facilita a compreensão dos sistemas de numeração, auxiliando na educação matemática, pois, ajuda na melhoria e do desenvolvimento da concentração, coordenação motora e destreza, e da agilidade de cálculos mentais e desenvolvimento do raciocínio lógico. O primeiro divulgador de soroban no Brasil foi o professor Fukutaro Kato, que em 1958 publicou o primeiro livro do gênero no Brasil, intitulado "O Soroban pelo Método Moderno". O soroban foi regulamentado pelo Ministério da Educação em 2002, como instrumento facilitador no processo de inclusão de alunos portadores de deficiência visual nas escolas.[81]

Outro legado dos nikkeys no Brasil foi a introdução do método Kumon, com a abertura da primeira unidade de ensino do método Kumon na América do Sul, em Londrina, em 1977, após a visita ao Japão de um brasileiro, descendente de japoneses, que se impressionou ao conhecer uma unidade do Kumon. Em contato com o instituto japonês, obteve autorização para trazer o método para o país.[82] No Brasil o método Kumon possui cerca de 100 mil estudantes e constitui uma das principais marcas do Japão na educação brasileira.[78]

Esportes[editar | editar código-fonte]

Os nipo-brasileiros foram os responsáveis pela introdução e disseminação de esportes, tais como: aikidô, caratê,[83] gateball,[84] jiu-jitsu, kendo, softbol,[83] sumô.[85] Apesar de o beisebol já ser praticado antes da chegada dos imigrantes japoneses foi através desses imigrantes que se deve o desenvolvimento do beisebol no Brasil.[86] Destaca-se também a presença de nipo-brasileiros no judô, que renderam ao Brasil três medalhas olímpicas de bronze, sendo que a primeira foi conquistada por Chiaki Ishii nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972, a segunda por Luiz Onmura nos Jogos Olímpicos de Verão de 1984 e a terceira por Felipe Kitadai nos Jogos Olímpicos de Verão de 2012. No judô sempre houve ao menos um medalhista nipo-brasileiro em todas as edições dos Jogos Pan-Americanos em que houve a participação do judô brasileiro.[87]

No tênis de mesa houve a contribuição dos nikkeis, sendo que a prática desse esporte na colônias foi um dos fatores para o surgimento de muitos mesa-tenistas no Brasil.Um fator para o desenvolvimento do tênis de mesa brasileiro foi o intercâmbio com outros países. E o primeiro país com o qual o Brasil estabeleceu relações foi o Japão, uma das forças do esporte desde a década de 1950. Sendo que o nikkei Ricardo Inokuchi foi o primeiro jogador brasileiro a fazer estágio no Japão, sendo que isso foi possível graças aos contatos que os jogadores brasileiros tinham com japoneses que tinham ligações com o esporte no Japão. Ricardo Inokuchi torno-se uma referência para uma nova geração de jogadores, como Cláudio Kano e Hugo Hoyama.[88]

Idiomas[editar | editar código-fonte]

A maioria dos nipo-brasileiros prefere ou sabe apenas falar o idioma português. A primeira geração, em grande parte, só têm fluência em idioma japonês. A segunda geração é geralmente bilíngue em idiomas japonês e português. Hoje, 18,1% fala somente português, 68,8% fala ambas as línguas e 13,3% fala apenas japonês. Cerca de 53% da segunda geração usou a língua japonesa apenas na infância. A terceira geração é mais luso-falante, com 39,3% falando somente o idioma português, 58,9% falando ambas as línguas e 1,8% falando apenas o idioma japonês.

Os primeiros nipo-brasileiros chamados de isseis, que são os imigrantes vindos diretamente do Japão, tinham esperança de voltar para sua terra natal após alguns anos trabalhando no Brasil, isso fez que a maior parte dos imigrantes educasse os filhos dentro de casa, onde só se conversavam usando a língua japonesa e após estudar na escola brasileira, as crianças frequentavam os "nihongakus", escolas onde aprendiam a ler e a escrever em japonês.[21]

O japonês falado no Brasil ainda pode apresentar mais uma característica, que é o uso de palavras da língua portuguesa, essa língua é chamada de koronia-go, ou seja, "língua da colônia", e é comumente caracterizada pelos japoneses como "o japonês antigo misturado de o português". Na comunidade nipo-brasileira o uso da língua japonesa não se limita apenas ao meio de comunicação oral, mas também na forma escrita na forma publicações, como jornais, que foram interrompidas, juntamente com a proibição de falar japonês em público, no período da Segunda Guerra. Além disso, desde o início da imigração, diferentes manifestações literárias têm sido desenvolvidas na comunidade sob a forma de contos, romances, e poemas.[89]

Após a Segunda Guerra, a língua japonesa volta a ser ensinada na perspectiva de língua de herança, pois os descendentes passaram a dar continuidade aos estudos na escola brasileira, com a presença nikkei nos níveis mais altos do cenário educacional, favorecendo o bilinguismo entre as novas gerações de então. Antes da proibição do ensino de línguas estrangeiras no Brasil, os professores recebiam orientação direta de representantes do governo japonês, no pós-guerra, houve a elaboração de livros didáticos no Brasil e surgem, também, entidades, como a Federação das Escolas de Ensino Japonês no Brasil, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e a Aliança Cultural Brasil-Japão. Mais tarde, em 1985, as três entidades se uniram para formar o atual Centro Brasileiro de Língua japonesa, com sede em São Paulo.[90]

O idioma japonês falado no Brasil é uma mistura de diversos dialetos com vários vocábulos emprestados da língua portuguesa, além de outros que os japoneses modernos consideram arcaicos ou típicos de linguagem de camponês. Com o retorno dos emigrantes brasileiros do Japão, é provável que o número de falantes do idioma japonês cresça no Brasil.[91]

Os dados mostram que, entre os imigrantes no Brasil, italianos e espanhóis foram aqueles que mais rapidamente adotaram o português como língua, e japoneses e alemães foram aqueles que mais resistiram. A assimilação linguística, então, variava consideravelmente de um grupo ou nacionalidade para outro, pesando a questão da identidade e da similaridade de idiomas. Ademais, tinha influência a força do ambiente (nas regiões onde os imigrantes ficaram reunidos em grupos isolados, a língua materna pode sobreviver por gerações, enquanto que nas regiões onde houve maior fusão entre os imigrantes e os brasileiros, a língua-mãe foi rapidamente suplantada pelo português).[92]

Estrangeiros e brasileiros naturalizados que falavam preferencialmente a língua-mãe (censo de 1940)[92]
Nacionalidade Falam preferencialmente a língua materna
Japoneses 84,71%
Alemães 57,72%
Russos 52,78%
Poloneses 47,75%
Austríacos 42,18%
Espanhóis 20,57%
Italianos 16,19%

Miscigenação[editar | editar código-fonte]

Distribuição dos Nipo-brasileiros em Gerações
Geração Denominação Proporção
(%)[91]
Mestiços
(%)[91]
Japonês Português
1a Isseis Imigrantes 12,51% 0%
2a Nisseis Filhos 30,85% 6%
3a Sanseis Netos 41,33% 42%
4a Yonseis Bisnetos 12,95% 61%

Em relação aos grupos de imigrantes europeus, a miscigenação dos nipo-brasileiros levou tempo maior para acontecer. O casamento com pessoas de origem não-japonesa (gaikokujin) não era aceito pela maioria dos imigrantes japoneses (issei) devido às grandes diferenças étnico-culturais: idioma, religião, costumes, tradições e preconceitos contra os nipônicos. Outra razão era que eles não queriam criar laços definitivos no Brasil, esperando assim retornar para o Japão. Inicialmente, o casamento entre japoneses e não-descendentes era mais raro, apesar de acontecer esporadicamente.[93]

Durante muito tempo os casamentos entre os imigrantes aconteciam por meio de um costume japonês chamado miai, um casamento arranjado, onde havia um intermediador entre famílias japonesas. No Brasil, aconteceu algo que não era muito comum no Japão, que era o casamento entre pessoas de províncias japonesas distantes. Uma exceção era com pessoas de Okinawa, pois por séculos havia um certo preconceito entre os okinawanos e japoneses devido às diferenças culturais.[93]

Necessitava-se mostrar que os japoneses também podiam se integrar com o restante da população brasileira e alguns dos que eram a favor da imigração japonesa necessitaram mostrar que os japoneses podiam ter filhos com os brasileiros e gerar filhos tão "brancos" quanto os dos europeus. Na década de 30, organizações culturais financiaram publicações com fotos de homens japoneses casados com mulheres brasileiras e de seus filhos "brancos". A estratégia deu resultados e chegou a receber o apoio de membros da elite brasileira. Em 1932, por exemplo, Bruno Lobo, professor de medicina no Rio de Janeiro, publicou um livro intitulado "De Japonês a Brasileiro", com fotos de famílias de japoneses com brasileiras, com o intuito de comprovar que a união entre os brasileiros e japoneses geraria crianças ditas brancas. Três anos mais tarde, em 1935, um dos defensores da imigração japonesa na Câmara dos Deputados em São Paulo chegou a afirmar que os colonos japoneses eram "até mais brancos que os portugueses".[94]

Depois da guerra, aconteceu entre os integrantes da colônia a prática de combinar casamentos com pessoas do Brasil e do Japão, onde eram enviadas fotografias ao Japão, na esperança de encontrar uma pessoa que aceitasse viajar para o Brasil.[93] No final da década de 60, muitas moças viajaram para o Brasil com a intenção de se casar, mesmo sem conhecer seus pretendentes pessoalmente. Inclusive foram enviadas ao Japão, pessoas que tinham se casado dessa forma para dar seu testemunho através de palestras e buscar jovens que estivessem interessadas em casar e viver no Brasil.[95]

Um censo realizado no final da década de 1950, com cerca de 400 mil integrantes da colônia, revelou que casamentos entre japoneses e não japoneses representava menos de 2% entre imigrantes e menos de 6% entre os nikkeis.[96] Os imigrantes japoneses raramente se casavam com um não-japonês, porém, seus descendentes, a partir das segunda e terceira gerações, começaram cada vez mais a se casar com pessoas de origem não-japonesa.[96] Atualmente, os casamentos entre descendentes e não-descendentes superam os 50%.[93]

O isolamento étnico dos nipo-brasileiros enfraqueceu a partir da década de 1970. Os descendentes de imigrantes japoneses - cuja maior parte atualmente é a terceira ou quarta geração no Brasil - integraram-se definitivamente à sociedade brasileira. Os bisnetos de japoneses, em sua maioria jovens, estão totalmente integrados no Brasil e 61% são mestiços ou multirracial.[97] Geralmente os vínculos com a cultura japonesa são mínimos: boa parte sabe falar pouco ou nada do idioma japonês, geralmente sabem palavras de uso doméstico.[97] Isso se deve ao fato de que 90% dos yonseis vivem na região urbana, tendem a assimilar mais os costumes brasileiros do que os japoneses.[97]

Política[editar | editar código-fonte]

O decreto nº 383 de 18 de abril de 1938 determinou várias proibições aos estrangeiros, inclusive a de que não poderiam participar de atividades políticas.[46] Nos anos 40, os imigrantes japoneses, alemães e italianos foram perseguidos e tratados como agentes do Eixo, após a guerra, houve a tentativa de proibir a imigração japonesa, através de uma emenda constitucional, ao qual não foi aprovada por um voto e a comunidade nipo-brasileira estava dividida por causa dos acontecimentos envolvendo a Shindo Renmei. Perseguida e dividida, a comunidade percebeu que deveria mudar sua imagem tanto para a sociedade brasileira, como dentro da própria colônia e uma das formas escolhidas foi através da política.[98]

Nas eleições que ocorreram em 1947, após o fim do Estado Novo, voltaram a ocorrer as eleições municipais, naquele ano, os nisseis (filhos dos imigrantes) entraram como candidatos, e o advogado Yukishigue Tamura ficou como suplente, mas como houve a cassação de candidatos comunistas, Tamura conseguiu uma vaga como vereador, tornando-se então o primeiro nikkei a se tornar vereador no estado de São Paulo.[98] Em 1951, Tamura foi eleito deputado estadual, sendo também o primeiro nikkei a assumir essa função.[54] Em 1955, também foi pioneiro entre os nipo-brasileiro, ao se tornar o deputado federal, cargo que assumiu por quatro vezes.[98] Além de Tamura, houveram ainda vários representantes da comunidade japonesa que conseguiram os mais diversos cargos políticos.[54] [4]

Com a presença dos nikkeis na assembléia legislativa de Assembleia Legislativa de São Paulo, houve um aumento de registros em relação ao intercâmbio Brasil-Japão, sendo que ambos os países passaram a receber delegações de deputados, diplomatas, empresários, governadores, presidentes e outras autoridades, no sentido de dinamizar a relação entre os dois países.[99] Com o auxílio dos políticos nipo-brasileiros, muitos investimento feitos japoneses no Brasil puderam ser realizados, tendo como resultado a criação de empresas, como por exemplo, a Usiminas,[98] ou a implantação de industrias dos mais diversos segmentos no Brasil.[100]

No Poder Executivo a primeira presença de um nikkei foi a de Fábio Riodi Yassuda, em 1969, que foi ministro da Indústria e Comércio no governo Médici.[4] Na década de 70, Shigeaki Ueki tornou-se Ministro de Minas e Energia, durante o Governo Geisel.[101] Muitos descendentes de japoneses se destacaram na medicina brasileira, um deles foi o cirurgião cardiovascular Seigo Tsuzuki que foi Ministro da Saúde no governo de José Sarney.[102] Durante o Governo Lula, assumiu como ministro da Secretaria de Comunicação Social, Luiz Gushiken, além de amigo pessoal do presidente, era capaz de mudar uma decisão de Lula.[4]

Religião[editar | editar código-fonte]

Uma moça nipo-brasileira durante uma celebração xintoísta em Curitiba

Os imigrantes japoneses eram na sua maioria budistas e xintoístas. Nas colônias japonesas houve a forte presença de padres brasileiros para catequizar os imigrantes. O casamento com pessoas católicas também contribuiu para o crescimento dessa religião na comunidade nipo-brasileira. Segundo dados do IBGE do ano 2000, cerca de 63,9% dos descendentes de japoneses no Brasil são católicos, sendo que a adoção do catolicismo representou o abandono das religiões comumente seguidas no Japão, tais como o budismo e xintoísmo, em nome de uma maior integração na sociedade brasileira.[103]

Uma parte dos imigrantes eram descendentes dos kakure kirishitan, que eram católicos japoneses que viviam na clandestinidade quando o catolicismo se tornou ilegal no Japão. Segundo Rafael Shoji, do Instituto para Religião e Cultura da Universidade Nanzan, em Nagoia, esse grupo foi muito importante para a “conversão dos japoneses e nikkeis brasileiros ao cristianismo. Eles ofereceram um tipo de catolicismo com o qual os japoneses puderam se identificar”, entre esse grupo de japoneses católicos estava o monsenhor Domingos Nakamura,[104] que viajou ao Brasil para atender os imigrantes nos estados de São Paulo, Mato Grosso, Paraná e Minas Gerais.[105] Para a comunidade nipo-brasileira foi criada a Pastoral Nipo-Brasileira, uma associação cívico-religiosa, sem fins lucrativos, que trabalha na evangelização e catequese dos japoneses e seus descendentes ou outros, radicados no Brasil, além de outras atividades.[106]

O budismo chegou ao Brasil com os primeiros imigrantes japoneses, numa época que havia um movimento contrário à vinda de religiosos não cristãos e os monges tinham de se vestir como agricultores. O budismo chegou ao Brasil como forma de preservação da cultura japonesa atualmente está passando por uma fase em que o número de seguidores está diminuindo dentro da comunidade nipo-brasileira. De forma geral, segundo dados do IBGE, observa-se uma queda no número de budistas, sendo que em 1991 havia mais de 230 mil adeptos dessa religião e em 2000 o número caiu para um pouco mais de 214 mil seguidores, sendo que segundo dados de 2000, os seguidores não-orientais representavam a maioria dos budistas brasileiros, mais de 130 mil e os budistas com ancestralidade oriental representavam mais 81 mil pessoas.[107]

Saúde[editar | editar código-fonte]

Quando os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil o atendimento médico era precário, e os imigrantes enfrentaram dificuldades com a comunicação, não se adaptaram às condições locais e consequentemente contraíram doenças. Essa situação fez com que os imigrantes se organizassem para melhorar a situação e também houve a ajuda dada pelo governo japonês para tentar sanar a situação. Um exemplo dessa mobilização foi a criação do Hospital Santa Cruz, em São Paulo, inaugurado em 1939, com cinco andares e um subsolo, com quase 10 mil metros quadrados de área construída.[108]

Também nos primeiros tempos da imigração foi importante a criação do Dōjinkai, entidade responsável pela saúde e pelo bem-estar dos imigrantes japoneses no Brasil. O governo japonês enviava médicos ao Brasil para atender os imigrantes, mas esses médicos não eram suficientes para atender toda a população. Além do problema de que naquela época a população brasileira de forma geral tinha um atendimento precário, no caso dos japoneses esse problema era agravado pela não compreensão da língua portuguesa.[109]

Em 1959, foi fundada a Associação de Assistência aos Imigrantes Japoneses, que mudou o nome para Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo, em 1972, que tem como objetivo oferecer assistência social, moral e material aos imigrantes que, de alguma forma, apresentam vulnerabilidade e risco social. Na comunidade nikkei, é conhecida como Enkyo.[110] A instituição é mantenedora do Hospital Nipo-Brasileiro,[111] que foi fundado em 1988, em comemoração aos 80 anos da imigração japonesa, que na inauguração contou com a presença do príncipe Aya-no-miya e do então presidente da República, José Sarney. O hospital teve seu custo dividido com recursos enviados pelo governo japonês e com recursos arrecadados no Brasil, por meio de contribuições de membros da comunidade japonesa, doações de pessoas jurídicas e recursos da Enkyo.[112]

Além do Hospital Nipo-Brasileiro, a Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo é mantenedora de outras instituições de apoio a população em geral, como o Hospital de São Miguel Arcanjo, localizado na cidade de São Miguel Arcanjo, fundado em 2013,[113] se configurado então no único hospital da cidade.[114] Outros exemplos são a Clínica Ortopédica e de Reabilitação Guarulhos, localizada em Guarulhos,[115] o Centro Médico Liberdade, em São Paulo capital,[116] a Assistência Médica Móvel, que tem por finalidade levar assistência médica, realizando consultas e exames a pessoas da Região Metropolitana de São Paulo e cidades do interior paulista, além de conscientizar e orientar o público atendido sobre doenças crônicas, saúde e nutrição.[117] A Beneficência também mantém um projeto para crianças autistas denominada Projeto de Integração Pró-Autista,[118] um centro de tratamento de pessoas com transtornos mentais, Yassuragui Home, em Guarulhos,[119] e também mantém varias casas de repouso em diversas localidades do Estado de São Paulo.[120]

A Beneficência Nipo-Brasileira da Amazônia é uma instituição, criada em 1965, que é mantenedora do Hospital Amazônia,[121] localizado em Belém,[122] do Hospital Amazônia de Quatro-Bocas[123] em Tomé-Açu[122] e do Centro de Reabilitação Social, em Ananindeua,[122] que é uma casa de repouso que atende mais de uma centena de idosos.[124]

Atualmente, no Brasil existem aproximadamente 14 mil descendentes de japoneses atuam como médicos, sendo que vários médicos descendentes de japoneses se destacaram na medicina brasileira, como por exemplo o cirurgião cardiovascular Seigo Tsuzuki que foi Ministro da Saúde no governo de José Sarney.[102] Também houve a contribuição do médico inventor Kentaro Takaoka, que inventou o respirador Takaoka, em 1955, antes disso os respiradores artificiais eram grandes e de difícil uso. Em 2005, Takaoka recebeu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o troféu Finep Inventor Inovador.[125]

Há também o caso dos médicos psiquiatras nikkeis que se tornaram proeminentes na área ao qual atuam no Brasil, como por exemplo Içami Tiba, que também atua como escritor com vários livros publicados, Tiba é palestrante com milhares de palestras proferidas[126] em vários países,[127] dezenas de milhares de atendimentos psicoterápicos, também participa com frequência de vários programas na televisão e no rádio, como participante ou em quadros[126] e também como apresentador de programas.[127] Outro reconhecido psiquiatra é Roberto Shinyashiki, que escreveu vários livros que se tornaram best-sellers, onde abordas os temas de carreira, felicidade e sucesso. Além disso Shinyashiki profere palestras tanto no Brasil como no exterior é consultor organizacional e já ministrou cursos de especialização nos EUA, na Europa e Japão.[128]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]