Imru' al-Qais

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Imru' al-Qais
امرؤ القيس
Nome completo Imru` al-Qais bin Hujr al-Kindi
Nascimento ca. 526
Néjede
Morte
Ancara
Nacionalidade árabe

Imru` al-Qais bin Hujr al-Kindi (em árabe: إمرؤ القيس ابن حجر الكندي / ALA-LC: Imrū’ al-Qays ibn Ḥujr al-Kindī) foi um poeta árabe do século VI, e também filho de um dos últimos monarcas do reino de Kindá. É às vezes considerado o pai da poesia árabe. Sua qaseeda ou longo poema: "Vamos parar e chorar" (em árabe: قفا نبك) é um dos sete Mu'allaqat, poemas valorizados como os melhores exemplos de versos árabes pré-islâmicos. Imru' al-Qais nasceu na região de Néjede em algum período do início do século VI. É dito que seu pai era Hujr bin al-Harith (حجر ابن الحارث / Ḥujr ibn al-Ḥārith), o regente da monarquia Kindá que reinava sobre as tribos dos asad e dos ghatfan, e acredita-se que Imru' al-Qais nasceu no território dos asad. Diz-se que sua mãe era Fatimah bint Rabi'ah al-Taghlibi (فاطمة بنت ربيعة التغلبي / Fāṭimah bint Ranī‘ah al-Taghlibī).

Diz a lenda que Imru' al-Qais era o caçula dos filhos de seu pai, e começou a compor poesias enquanto ainda era uma criança. Seu pai fortemente desaprovada este hábito de seu filho, acreditando ser a poesia um passatempo impróprio para o filho de um rei. Seu pai também desaprovava o estilo de vida escandaloso de Imru' al-Qais, de beber e perseguir as mulheres, e terminou por ser bani-lo de seu reino, ou assim diz a lenda. Mais tarde, quando a tribo dos asad se rebelou e assassinou seu pai, Imru' al-Qais foi o único dos irmãos a assumir a responsabilidade por vingar sua morte. Renunciando ao vinho e às mulheres, lutou contra a tribo dos asad, exigindo a vingança através do sangue, e passou o resto de sua vida tentando recuperar o reino de seu pai.

Assim como muitas figuras da antiga Arábia, que na época não dispunha de um sistema de escrita formal e contava com a transmissão oral das histórias, os detalhes da vida de Imru' al-Qais são difíceis de serem comprovados. Mesmo assim, os historiadores têm sido capazes de comparar as várias histórias escritas por antigos biógrafos, com pistas dos poemas escritos pelo próprio Imru' al-Qais e informações sobre os principais eventos históricos nos impérios persa e bizantino para reconstruir um provável acontecimento na vida e ascendência deste mais famoso dos poetas jahili (pré-islâmico).

De acordo com um relato, seu nome completo e ascendência era Imru' al-Qais, filho de Hujr, filho de al-Harith, filho de 'Amr, filho de Hujr, o comedor de ervas amargas, filho de Mu'awiyya, filho de Thawr da tribo de Kindá (em árabe: إمرؤ القيس ابن حجر ابن الحارث ابن عمرو ابن حجر اكل المرار ابن معاوية ابن ثور الكندي). Era também referido como "O Rei Perdido" (الملك الضليل / al-Malik aḍ-Ḍalīl), porque nunca foi capaz de recuperar o trono de seu pai.

Linhagem[editar | editar código-fonte]

A tribo de Kindá teve sua origem nas montanhas do sul da Arábia e migraram para o norte de Néjede em algum momento do século IV ou V. Por volta do século V os membros da tribo pediram para o rei do Iêmen para selecioná-los um rei, e Hujr, o "comedor de ervas amargas" se tornou o primeiro rei Kindá.[1] Ele foi sucedido por seu filho 'Amr, que foi sucedido por seu filho al-Harith, que foi o maior de todos os reis Kindá. Um dos filhos de al-Harith foi Hujr, que foi nomeado por seu pai regente sobre as tribos dos asad e dos ghatfan, e Hujr foi o pai de Imru' al-Qais.

De al-Harith, é dito que quando o imperador persa Cavades I adotou os ensinamentos do revolucionário religioso Mazdak, al-Harith também se converteu ao Mazdakismo. Isto fez com que Cavades fizesse de al-Harith o rei de Hira, uma região no sul do atual Iraque, e expulsou o seu anterior vassalo árabe, al-Mundhir. O filho de Cavades, Cosroes I rejeitou o Mazdakismo e repreendeu al-Harith, restaurando o trono da Hira para al-Mundhir.[2] Não se sabe ao certo como al-Harith morreu, mas alguns relatos indicam que foi capturado por al-Mundhir tão logo ele fugiu de al-Hira, e depois, foi morto juntamente com dois de seus filhos e mais de quarenta de seus parentes.[3] Imru' al-Qais lamenta esta tragédia em um dos poemas atribuídos a ele.

Em 525 o Iêmen foi ocupado por Negus (imperador) de Habash (atual Etiópia)[3] . Com seu protetor destruído, a monarquia Kindá rapidamente se desfez. É, provavelmente, durante este período que a tribo dos asad se rebelou e matou o pai de Imru' al-Qais, Hujr.

Juventude[editar | editar código-fonte]

Os historiadores estão divididos quanto ao ano de nascimento de Imru' al-Qais, mas uma estimativa é de que ele nasceu por volta de 526.[3] Era o mais jovem dos filhos de Hujr, rei sobre as tribos dos asad e ghutfan. Alguns historiadores têm apontado que seu pai tinha outras esposas e concubinas além de sua mãe, de acordo com o costume dos reis, neste período, e é possível que ele tenha recebido pouca atenção paternal.[4] Começou a compor poesias ainda na tenra idade, uma atividade que seu pai desaprovava fortemente porque não era considerado adequado para o filho de um rei. Al-Tahir Ahmad Makki comenta que "entre as tribos do norte, da mesma forma, cada tribo tinha seu chefe e seu poeta, e os dois eram quase sempre a mesma pessoa."[5]

Outra fonte de atrito com o pai dele era a dedicação excessiva de Imru' al-Qais em frequentar festas indecentes regadas à bebida e sua busca escandalosa por mulheres. Uma história diz que, preocupado com a falta de responsabilidade de seu filho, Hujr tentou colocar Imru' al-Qais encarregado de cuidar do rebanho de camelos da família, um experimento que terminou em desastre.[6] Outra história diz que Hujr finalmente renegou seu filho depois que Imru 'al-Qais cortejou publicamente sua prima 'Uzayzah, e depois de não conseguir a permissão para casar-se com ela, conseguiu desfrutar de suas afeições em segredo, o que causou um escândalo considerável na família. Porém, outras histórias dizem que Imru' al-Qais pode ter escrito alguns versos lascivos sobre as mulheres de seu pai ou concubinas, e que esta foi a causa de sua expulsão.[7] Seja qual for a razão, a maioria das histórias concorda que Hujr exasperou-se com o comportamento de seu filho e expulsou-o de seu reino. Em seu exílio Imru' al-Qais vagou com o seu grupo de amigos rebeldes de oásis para oásis, parando para beber vinho, recitar poesia, e apreciar o desempenho das meninas cantando, às vezes ficando no mesmo local por dias antes de partir novamente.

As aventuras de Imru' al-Qais com as mulheres também fizeram parte importante de sua juventude, consistindo de acordo com alguns registros de dezenas de casamentos, divórcios e casos amorosos, todos terminando mal por uma razão ou por outra. As amantes de Imru' al-Qais ocupam grande parte de sua poesia, ele faz elogios às suas belezas, critica suas crueldades, e lamenta a sua ausência e a saudade no seu coração.

A morte de seu pai[editar | editar código-fonte]

Algumas histórias contam que Imru' al-Qais estava no exército de seu pai em luta contra a tribo dos asad, quando seu pai foi morto, mas isso não é aceito por todos os biógrafos. A história mais popular nos vem de ibn al-Kalbi (morto em 826). Ibn al-Kalbi sustenta que Imru' al-Qais ainda estava no exílio na época da morte de seu pai, e que a notícia chegou a ele enquanto estava no meio de uma festa com seus amigos. Ao ouvir a notícia, disse: "Que Deus tenha misericórdia de meu pai. Ele me deixou perdido quando eu era pequeno, e agora que estou crescido, ele sobrecarregou-me com seu sangue. Não haverá estado de alerta hoje, e nem embriaguez amanhã", seguido por, talvez, sua mais famosa citação: "Hoje é para beber, e amanhã para assuntos sérios"[3] (em árabe: اليوم خمر وغدا أمر)

Conta-se que de todos os de seu pai filhos, Imru' al-Qais foi o único a assumir a responsabilidade de vingar seu pai.[8] Uma história conta que a tribo dos asad enviou um emissário e ofereceu-lhe três opções - a de ele matar um de seus nobres para igualar a morte de seu pai, ou de aceitar um pagamento de milhares de ovelhas e camelos, ou de fazer guerra contra eles, caso em que pediu por um mês para se preparar. Imru' al-Qais escolheu a terceira opção. As tribos de bakr e taghlib concordaram em apoiá-lo e lutaram com ele contra os asad, matando muitos daquela tribo. Os bakr e taghlib retiraram seus apoios, uma vez que julgaram que um número suficiente de asads tinham sido mortos para satisfazer as exigências de vingança.[3]

Exílio e morte[editar | editar código-fonte]

Depois de sua vingança sobre a tribo dos asad perder o apoio dos bakr e dos taghlib, Imru' al-Qais viajou por toda a península Arábica e o Levante, refugiando-se em tribos diferentes, fugindo de seus inimigos e buscando apoio para recuperar o reino de seu pai. Sua última viagem foi para Constantinopla, para conseguir o apoio do imperador Justiniano. Al-Harith bin Shamar al-Gassâni (em árabe: الحارث ابن شمر الغساني), vassalo no norte da Arábia de Justiniano, aceitou dar proteção a Imru' al-Qais, e a maioria dos relatos indica que ele recebeu alguma promessa de ajuda do imperador bizantino, e talvez até um contingente de tropas. Alguns relatos indicam que Justiniano pressionou o Negus de Habash (atual Etiópia) a apoiar Imru' al-Qais, mas que ele recusou devido à disputa em curso entre o Império Habash e a tribo de Kindá.

Depois de deixar Constantinopla, Imru' al-Qais viajou até que adoeceu perto da cidade de Ancara na atual Turquia. Permaneceu lá até que morreu. Há uma história que diz que o Imperador Justiniano ficou zangado com Imru' al-Qais depois que ele partiu, e enviou um mensageiro com uma jaqueta envenenada, e que Imru' al-Qais usou a jaqueta e o veneno o matou. Esta história diz que Justiniano estava com raiva porque descobriu que Imru' al-Qais teve um caso com uma mulher de sua corte. A maioria dos historiadores minimizam a probabilidade desse relato, a favor da história de que Imru' al-Qais morreu de uma doença crônica de pele, uma doença que mencionou em um de seus poemas.[3]

As melhores estimativas dos anos em que Imru' al-Qais esteve com Justiniano e o de sua morte na Anatólia são entre 561 e 565.[3] Tem sido dito que depois da morte de Imru' al-Qais, os gregos fizeram uma estátua dele em seu túmulo, que ainda foi vista em 1262,[9] , e que sua tumba está hoje localizada em Hızırlık, Ancara.

Influências poéticas[editar | editar código-fonte]

Makki resume os relatos dos biógrafos na identificação de três poetas mais antigos e que Imru' al-Qais poderia ter conhecido e ser influenciado por eles. O primeiro foi Zuhayr bin Janab al-Kalbi, um poeta bem conhecido que era amigo e companheiro de bebida de seus pais. Também é possível que Imru' al-Qais aprendeu com Abu Du'ah al-Iyadi, e alguns relatos dizem que o jovem Imru' al-Qais foi seu recitador (um discípulo do poeta que memorizaria todos os seus poemas). Uma terceira possível influência poética foi um 'Amr bin Qami'ah que era membro da comitiva de seu pai, e foi dito que mais tarde se juntou à comitiva de Imru' al-Qais e o acompanhou até sua morte.[10]

Religião[editar | editar código-fonte]

A maioria dos historiadores nos séculos desde a morte de Imru' al-Qais tem se contentado com a suposição de que, como um árabe antes do advento do islamismo, ele era um pagão. Mais recentemente, alguns pesquisadores têm contestado este ponto de vista em questão, notadamente Louis Shaykho (ca. 1898), um missionário jesuíta, que insistiu que Imru' al-Qais era um cristão. A evidência de que Shaykho cita para apoiar sua alegação consiste principalmente de um punhado de referências a práticas e símbolos cristãos em poemas de Imru' al-Qais, bem como alguns exemplos da palavra árabe para Deus (Alá). Outros historiadores dizem que as referências ao cristianismo pode ser explicado pela presença de mosteiros e missionários ao longo da fronteira norte da península arábica, e o fato de que muitos árabes teriam ficado impressionados com essas cenas sem necessariamente converter-se. Outros apontaram que a palavra "Alá" estava em uso pelos árabes pagãos muito antes do advento do islamismo, e apenas se referiam ao Deus supremo (acima de todos os muitos outros). [11]

Makki relata que alguns historiadores têm sugerido que Imru' al-Qais poderia ter sido influenciado pela suposto mazdakismo de seu avô, mas também afirma que, em sua opinião, há pouca evidência direta que suporte isso. [12]

Impacto cultural[editar | editar código-fonte]

Hoje em dia Imru' al-Qais continua a ser o mais conhecido dos poetas pré-islâmicos, e tem sido uma fonte de inspiração literária e nacional para os intelectuais árabes em todos os tempos até o século XX. Abrindo sua entrada no Dicionário de Biografia Literária, Al-Tahir Ahmad Makki diz o seguinte sobre Imru' al-Qais:

O Príncipe-poeta Imru' al-Qais, da tribo de Kindá, é a primeira figura importante da literatura árabe. Os versos de seu Mu'allaqah, um dos sete poemas valorizados acima de todos os outros por árabes pré-islâmicos, ainda são no século XX os mais famosos, e possivelmente os mais citados, em todas as linhas da literatura árabe. O Mu'allaqah também é uma parte integrante da educação linguística, poética e cultural de todos os falantes do árabe.[13]

Ibn Sallam al-Jumahi (morto em 846) disse de Imru' al-Qais em seu "Gerações dos Poetas Stallion" (em árabe: طبقات فحول الشعراء):

Imru' al-Qais foi o criador de muitas coisas que os árabes consideram bonito, e que foram adotadas por outros poetas. Estas coisas incluem chamar seus companheiros para parar, chorar sobre as ruínas de acampamentos abandonados, descrevendo sua amada com requinte e delicadeza, e usando uma linguagem que era fácil de entender. Foi o primeiro a comparar as mulheres a gazelas e ovos, e a comparar os cavalos a aves de rapina e a aduelas. Ele 'mancava como um animal em fuga' [uma referência à sua famosa descrição de seu cavalo] e separou o prelúdio erótico do corpo de seu poema. Na cunhagem de similitudes, ultrapassou todo mundo de sua geração.[14]

Alguns historiadores têm enfatizado a importância histórica da monarquia Kindá como a primeira tentativa de unir as tribos da Arábia central, antes do sucesso do Islamismo, e o trágico lugar de um dos últimos príncipes de Kindá. Outros têm-se centrado em sua vida colorida e violenta, apresentando-a como um exemplo da imoralidade e da brutalidade que existia na Arábia pré-islâmica.

O escritor iraquiano Madhhar al-Samarra'i (em árabe: مظهر السامرائي) em seu livro de 1993 Imru' al-Qais: Poeta e Amante(em árabe: إمرؤ القيس الشاعر العاشق), chama Imru' al-Qais de o "poeta da liberdade":

O poeta Imru' al-Qais tinha um coração manso e uma alma sensível. Ele queria o melhor não só para si mas para todas as pessoas de sua sociedade. A liberdade que ele buscava não se limitava às relações românticas e eróticas entre ele e sua amada Fatimah, e não estava limitada às suas exigências para abolir as restrições sobre as relações sexuais entre homens e mulheres, mas ultrapassava tudo isso, de modo que foi cantando pela liberdade de toda a humanidade - e a partir deste ponto somos capazes de nomeá-lo, o Poeta da Liberdade.[15]


Notas

  1. Makki 2005, pg 213
  2. Makki 2005, pg 213
  3. a b c d e f g "A Note on the Poet"
  4. Makki 2005, pg 215
  5. Makki 2005, pg 215
  6. Makki 2005, pg 215
  7. Makki 2005, pg 215
  8. Makki 2005, pg 220
  9. Arabic theology, Arabic philosophy: from the many to the one, Richard M. Frank,James Edward Montgomery. p.60
  10. Makki 2005, pg 220
  11. Makki 2005, pg 216
  12. Makki 2005, pg 216
  13. Makki 2005, pg 212
  14. Makki 2005, pg 222
  15. al-Samarra'i 1993, pg 40

Referências

Leituras adicionais[editar | editar código-fonte]

  • Wilhelm Ahlwardt, The Divans of the six ancient Arabic Poets (Londres, 1870)
  • William McGuckin de Slane, Le Diwan d'Amro'lkats (Paris, 1837)
  • Friedrich Rückert, Amrilkais der Dichter und König (Stuttgart, 1843)
  • Kitab al-Aghani, vol. viii. pp. 62–77