Isotta Nogarola

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Isotæ Nogarolæ Veronensis
(1418-1466)
Gravura de Nogarola feita em 1497, De vita van Isotta Nogarola in de catalogus van Jacobus Philippus Bergomensis (1434-1520)[1]
Nacionalidade  Itália
Data de nascimento 1418
Local de nascimento Verona,  Itália
Data de falecimento 1466
Local de falecimento Verona,  Itália
Ocupação Humanista, escritora, religiosa, intelectual e feminista italiana

Isotta Nogarola (1418–1466) (* Verona, 1418Verona, 1466), foi humanista, intelectual, religiosa e autora de uma coletânea de cartas endereçadas aos humanistas da sua época, refletindo a sua paixão pela educação e aos direitos femininos. Sua obra mais conhecida é um "Diálogo sobre Adão e Eva", onde ela discute o pecado relativo de Adão e Eva, abrindo um debate que durou muitos séculos na Europa a respeito do gênero e da natureza da mulher.

Humanismo e renascimento[editar | editar código-fonte]

Em sua época os homens governavam os processos políticos, portanto, não havia lugar para mulheres na sociedade pública. Os rapazes estudavam humanismo, que começou em Florença no século XIV, e se espalhou pela Itália, e constituía o estilo de aprendizado da classe rica. Ao focar seus interesses nas culturas romana e grega clássicas, os eruditos acreditavam que a educação humanística produziria homens mais capacitados e melhor compreensão do conhecimento. As escolas estavam preparadas para ensinar poesia, gramática, retórica, história e filosofia moral, o que ajudaria qualquer jovem em seu futuro político. Um verdadeiro humanista, costumava escrever cartas para um grupo já respeitado e reconhecido, e esperar por uma resposta. Se a resposta trouxesse apoio e louvor ao aprendiz em potencial, essa notícia iria se espalhar, ganhando terreno para a construção da sua carreira.

Vida intelectual[editar | editar código-fonte]

Nascida no seio de uma família rica de Verona, Nogarola tinha dez irmãos, sete dos quais sobreviveram à idade adulta. Durante a sua vida, a Itália passava pelo Renascimento do século XV. Uma nova forma de apreciar a arte, a educação e o enriquecimento da cultura sombreava a cultura italiana. Politicamente, a Itália estava dividida entre cidades-estados governadas por famílias extremamente ricas e Gênova, Florença e Veneza são alguns exemplos.

A mãe de Nogarola, que já era viúva, pois seu marido havia morrido entre os anos 1425 e 1433, permitiu que ela e a sua irmã tivessem uma boa educação e para isso contratou Martino Rizzoni (1404-1488)[2] , um dos mais brilhantes alunos de Guarino da Verona (1370-1460), o renomado humanista e pensador. Nogarola e suas irmãs tiveram praticamente a mesma educação que um garoto de uma família abastada teria recebido, com exceção da retórica, que era considerada irrelevante para o aprendizado de uma mulher, levando-se em consideração a falta de importância em uma sociedade dominada por homens.

Isotta demonstrou ser uma estudante extremamente hábil, tendo criado obras literárias que começaram a conquistar reconhecimento por toda a região. Sua eloquência em Latim era muito respeitada, e sua fama não era proveniente do grande volume de conhecimentos que ela parecia possuir, mas da inovação do seu gênero. Em 1437, ela escreveu uma carta para Guarino da Verona. A notícia se espalhou por toda Verona, o que se constituía em muita vergonha para as mulheres da cidade. Muito tempo se passou sem que ela recebesse uma resposta, até que, furiosa, decide mandar uma segunda carta onde ela diz:

"Porque será que eu nasci mulher, seria para ser zombada pelos homens com palavras e gestos? Faço esta pergunta em solidão para mim mesma... A sua injusta decisão de não me escrever resultou em muito sofrimento para mim, a ponto de não haver sofrimento maior... Você próprio me falou que não existiam metas que não pudessem ser realizadas. Mas, agora que as coisas não estão saindo como deveriam, a minha alegria se transformou em tristeza... Pois, zombam de mim por toda a cidade, as mulheres de mim escarnecem." Em 10 de Abril de 1437 Guarino lhe responde e estimula Isotta e sua irmã Ginevra a prosseguirem os estudos e a ler particularmente as obras de Virgílio, Lactâncio e Cícero. Não obstante, ele contesta:

"Acreditei e confiei que eras detentora de uma alma viril... Porém, te mostrastre tão desprezível e abjeta, para uma mulher tão sincera, que não revelas nenhuma qualidade apreciável que eu imaginei que possuísses."

Correspondência e críticas[editar | editar código-fonte]

Muito do seu trabalho literário foi expresso em cartas para conhecidos de sua época. Ela continuou a receber críticas, que atingiram o nível mais alto quando foi acusada de ser extremamente promíscua, evidência essa que tinha sua origem no conceito de que um mulher inteligente não deveria ser virgem. No entanto, o acusador jamais se revelou. Cansada da rejeição de Verona, mudou-se para Veneza em 1439, que era uma cidade comercial e um porto muito importante, repleto de pessoas finas e muitas catedrais e palácios. Ela continuou os seus estudos e sua fome de conhecimento aumentava cada vez mais, e ela se tornou mais conhecida, no entanto, era rotulada como uma "mulher inteligente" ao invés de apenas "inteligente". Sua permanência em Veneza foi curta, e ela voltou para Verona, onde passou a viver com seu irmão e a família dele. Ela vivia no celibato e na solidão, tornou-se devotadamente religiosa, preferindo se submeter à Deus e ao estudo da Bíblia do que ao humanismo.

Esta situação era mais adequada para uma mulher. Recebia visitas esporádicas e mantinha alguma correspondência com intelectuais, particularmente com Lodovico Foscarini (1409-1480)[3] , político e literato veneziano. os dois gostavam de discutir temas filosóficos, principalmente sobre a questão do pecado original. Ele a visitava frequentemente em sua casa, para participar de discussões também com outros membros da família, e o relacionamento deles sempre foi de amizade. Em 1453, ela recebeu proposta de casamento de outro pretendente, porém, declinou, aconselhada por Foscarini. Com o tempo, sua saúde começou a ficar instável, vindo a morrer em 1466, aos 48 anos de idade. Foi sepultada na Igreja de Santa Cecília, em Verona.

Suas irmãs eram Antonia Nogarola e Ginevra Nogarola (1419-1465). Era também sobrinha da poetisa Angela Nogarola.

Obras[editar | editar código-fonte]

  • Foi autora de inúmeras cartas[4] , onde cita Virgílio, Valério Máximo, Juvenal e Petrônio. A primeira é data do ano 1434 e endereçada para Ermolao Barbaro (1410-1471)[5] . Muitas também foram endereçadas a políticos e literatos da época, tais como: Guarino Veronese, Damiano dal Borgo, Ermolao Barbaro, o Velho e Lodovico Foscarini.
  • Em 1435, iniciou uma série de troca de missivas com Giacomo Foscari, filho do doge Francesco Foscari.
  • (em inglês) Diálogo sobre Adão e Eva - Complete Writings: Letterbook, Dialogue on Adam and Eve, Orations[6]
  • De pari aut impari Evae atque Adae peccato

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Veja também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. (em italiano) Jacobus Philippus Bergomensis (1434-1520).
  2. Martino Rizzoni (1404-1488): humanista de Verona e discípulo de Guarino da Verona (1370-1460).
  3. (em italiano) Lodovico Foscarini (1409-1480).
  4. Eugenius Abel (a cura di), Isotae Nogarolae. Opera quae supersunt omnia, I-II, Vienna-Budapest 1886.
  5. (em italiano) Ermolao Barbaro (1410-1471)
  6. Dialogus, quo, utrum Adam vel Eva.