Itália fascista

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Itália fascista
Itália fascista
Flag of Italy (1861-1946).svg
1922 – 1943 Flag of Italy (1861-1946).svg
Flag Brasão
Bandeira Brasão
Hino nacional
Marcia Reale
Localização de Itália
Expansão máxima do domínio italiano até 1940.
Continente Europa
Capital Roma
45° 36' N 10° 31' E
Língua oficial Italiano
Governo Ditadura fascista
Rei da Itália
 • 1900-1946 Vítor Emanuel III
Primeiro-ministro
 • 1922-1943 Benito Mussolini
 • 1943-1944 Pietro Badoglio
Período histórico Segunda Guerra Mundial
 • 23 de setembro de 1922 Marcha sobre Roma
 • 8 de setembro de 1943 Armistício com a Itália
Moeda Lira
Membro de: Forças do Eixo (1940-1943)

A Itália fascista, também regime de Mussolini, ditadura de Benito Mussolini ou ditadura fascista é o período da história da Itália do governo do Duce Benito Mussolini, e do desenvolvimento do Fascismo.

O fascismo foi um movimento político autoritário do século XX que surgiu no Reino de Itália após a Primeira Guerra Mundial. Nascido em parte como reação à Revolução Bolchevique de 1917 e as fortes lutas dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadores, culminando no biennio rosso, em parte, como a controvérsia sobre a sociedade liberal-democrática que emergiu a partir da experiência da Primeira Guerra Mundial.

O nome deriva da palavra italiana fascio (em latim: fascis). A palavra, na Roma antiga, foi usada como símbolo da união dos combatentes. O símbolo fascista é o fasces romano, que significava poder do regime, especialmente o poder judicial.

História[editar | editar código-fonte]

Mapa da "Grande Itália": a linha laranja mostra as áreas na Europa e Norte da África a serem incluídos no Projeto de 1940. A linha verde mostra a maior extensão de controle militar italiano na zona do Mediterrâneo, em novembro de 1942 (em vermelho, as áreas controladas pelo Reino Unido).
Projeto para a criação de um império italiano desde o Egito até a Somália (limites em verde) em caso de vitória das Potências do Eixo. Em laranja, o território africano já ocupado pela Itália.

Mussolini fundou o movimento fascista em 23 de março de 1919, numa reunião feita na cidade de Milão. Entre os membros fundadores estavam os líderes revolucionários sindicalistas Agostino Lanzillo e Michele Bianchi.

Em 1921, os fascistas passaram a desenvolver um programa que exigia a república, a separação da Igreja do Estado, um exército nacional, um imposto progressivo para heranças e o desenvolvimento de cooperativas.

O estado fascista de Mussolini foi estabelecido aproximadamente uma década antes da chegada de Adolf Hitler ao poder. Tanto um movimento como um fenômeno histórico, o fascismo italiano foi, em muitos aspectos, uma reação à falha aparente do laissez-faire e ao medo dos movimentos de esquerda, apesar de que as circunstâncias na história intelectual devem ser consideradas, como o abalo do positivismo e o fatalismo generalizado do pós-guerra na Europa.

O fascismo foi de certa forma o resultado de um sentimento geral de ansiedade e medo dentro da classe média na Itália do pós-guerra, que surgiu no seguimento da convergência de pressões inter-relacionadas de ordem econômica, política e cultural. Sob o estandarte desta ideologia autoritária e nacionalista, Mussolini foi capaz de explorar os medos perante o capitalismo numa era de depressão pós-guerra, o ascendente de uma esquerda mais militante, e um sentimento de vergonha nacional e de humilhação que resultaram da "vitória mutilada" da Itália nos tratados de paz pós Primeira Guerra Mundial. Tais aspirações nacionalistas não realizadas (ou frustradas) manchavam a reputação do liberalismo e do constitucionalismo entre muitos setores da população italiana. Adicionalmente, tais instituições democráticas nunca cresceram ao ponto de se tornarem firmemente enraizadas na nova nação-estado.

À medida que essa mesma depressão do pós-guerra fez crescer a sedução pelo Marxismo entre o proletariado urbano, ainda mais desprovido de direitos do que os seus contrapartes no continente, o receio relativamente à força crescente do sindicalismo, o comunismo e o socialismo proliferaram entre a elite e a classe média. De certa forma, Benito Mussolini preenchia um vácuo político. O fascismo emergiu como uma "terceira via" — como a última esperança da Itália para evitar o colapso iminente do "fraco" liberalismo italiano, e a revolução comunista.

Ao mesmo tempo que falhava em delinear um programa coerente, o fascismo evoluiu para um novo sistema político e econômico que combinava o corporativismo, o totalitarismo, nacionalismo, e anti-comunismo num estado desenhado por forma a unir todas as classes num sistema capitalista, mas um novo sistema capitalista no qual o estado detinha o controlo da organização de indústrias vitais. Sob a bandeira do nacionalismo e poder estatal, o fascismo parecia sintetizar o glorioso passado romano com uma utopia futurista.

A sedução pelo movimento, a promessa de um capitalismo mais ordenado após uma era de depressão econômica do pós-guerra, no entanto, não se confinava à Itália ou mesmo à Europa. Por exemplo, uma década mais tarde, quando a Grande Depressão originou uma queda da economia brasileira, uma espécie de proto-fascismo iria emergir como reação aos problemas socio-econômicos, e consciência nacionalista do estatuto periférico da economia do Brasil. O regime de Getúlio Vargas adotou uma extensa influência fascista com a Constituição do Estado Novo, redigida por Francisco Campos, eminente jurista filiado ao Partido Fascista Brasileiro.

Bandeira do chefe de governo do Reino de Itália. De fato, a bandeira pessoal de Benito Mussolini.

Fundado como uma associação nacionalista (o Fasci di Combattimento) de veteranos da Primeira Guerra Mundial em Milão a 23 de março de 1919, o movimento fascista de Mussolini converteu-se num partido nacional (o Partido Nacional Fascista) após ter ganho 35 assentos no eleições ao parlamento de maio de 1921. Inicialmente combinando elementos ideológicos da esquerda e da direita, ele alinhava pelas forças conservadoras pela sua oposição às ocupações a fábricas de setembro de 1920.

Apesar dos temas da reforma social e econômica no manifesto fascista inicial de junho de 1919, o movimento foi apoiado por seções da classe média, receosos do socialismo e do comunismo, enquanto que industriais e donos de terra viram-no como uma defesa contra a militância trabalhista. Sob a ameaça de uma "Marcha sobre Roma fascista," Mussolini assumiu em outubro de 1922 a liderança de um governo de coligação de direita incluindo inicialmente membros do partido popular, pro-Igreja.

A transição para uma ditadura assumida foi mais gradual do que na Alemanha uma década mais tarde, apesar de em julho de 1923 uma nova lei eleitoral ter dificultado a constituição de uma maioria parlamentar fascista, e o assassínio do deputado socialista Giacomo Matteotti onze meses mais tarde mostrou os limites da oposição política. Em 1926 os movimentos de oposição tinham sido declarado ilegais, e em 1928 a eleição ao parlamento era restrita a candidatos aprovados pelos fascistas.

O feito político mais duradouro deste regime foi talvez o Tratado de Latrão de fevereiro de 1929 entre o Estado italiano e a Santa Sé, pelo qual ao Papado foi concedida a soberania sobre a Cidade do Vaticano e recebeu a garantia do livre exercício do Catolicismo como a única religião do estado em toda a Itália em retorno da sua aceitação da soberania italiana sobre os anteriores domínios do Papa.

Os sindicatos e associações de trabalhadores foram reorganizados em 1934 em 22 corporações fascistas combinando trabalhadores e empregadores por setor econômico, cujos representantes em 1938 substituíram o parlamento como a "Câmara de Corporações". O poder continuava investido no Grande Conselho Fascista, o corpo governativo do movimento.

Nos anos 1930, a Itália recuperava da Grande Depressão, e obtinha o crescimento econômico em parte pela substituição de importações pela produção doméstica (Autarchia).

A drenagem dos pântanos de Pontine a sul de Roma, empestados de malária, foi um dos orgulhos badalados do regime. Mas o crescimento foi minado pelas sanções internacionais impostas à Itália no seguimento da invasão da Etiópia em outubro de 1935 (a Segunda Guerra Ítalo-Etíope), e pelo forte esforço financeiro que o governo fez para apoiar militarmente os nacionalistas de Franco na Guerra Civil Espanhola.

O isolamento internacional e o seu envolvimento comum na Espanha vão fazer ressaltar uma crescente colaboração diplomática entre a Itália e a Alemanha Nazi. Isto fez-se refletir também nas políticas domésticas do regime fascista italiano, as primeiras leis anti-semitas foram passadas em 1938.

A intervenção da Itália (com início em 10 de junho de 1940) na Segunda Guerra Mundial como aliado da Alemanha trouxe o desastre militar e resultou na perda das colónias no norte e leste africanos bem como a invasão americano-britânica da Sicília em julho de 1943 e o sul de Itália em setembro de 1943.

Mussolini foi demitido como primeiro-ministro pelo rei Vítor Emanuel III da Itália a 25 de julho de 1943, e subsequentemente preso. Foi libertado em setembro por pára-quedistas alemães e instalado como chefe de uma "República Social Italiana" fantoche em Salo, no norte da Itália, então ocupado pela Alemanha. Sua política econômica é a socialização. A sua associação com o regime de ocupação alemão erodiu muito do pouco apoio que lhe restava. A sua execução sumária em 28 de abril de 1945 por guerrilheiros, durante uma fase final da guerra particularmente violenta, foi vista por muitos observadores então como o final apropriado para o seu regime.

Após a guerra, os resquícios do fascismo italiano reagruparam-se largamente sobre a égide do "Movimento Social Italiano" (MSI) neo-fascista. O MSI coligou-se em 1994 com a antiga "Democrazia Cristiana" conservadora para formar a Alleanza Nazionale (AN), que proclama o seu compromisso com o constitucionalismo, o governo parlamentar e pluralismo político.

O fascismo segundo Mussolini[editar | editar código-fonte]

O duce Benito Mussolini, em cartaz de propaganda
"O fascismo é uma grande mobilização das forças materiais e morais. O que se propõe? Dizemos isto sem falsa modéstia: para governar a nação. Como? De modo necessário para garantir a grandeza moral e material do povo italiano. Vamos falar francamente: não importa especificamente como, não é ético, ou convergente com o socialismo, em particular aspira a reorganização nacional e política do nosso país. Mudamos os valores tradicionais que o socialismo continue ou desapareça, mas, acima de tudo, o espírito fascista se refugia em tudo o que é arbitrário em relação ao futuro misterioso."
Benito Mussolini, 19 de agosto de 1921 — Diario della Volontà

Em 28 de outubro de 1922, as milícias fascistas iniciam a Marcha sobre Roma, promovendo uma passeata de cerca de 50 mil fascistas em Roma. Pressionado, o rei Vítor Emanuel III convoca Mussolini para chefiar o governo em uma Itália que atravessa uma grave crise económica e financeira, marcada por uma elevada inflação, agravada por grande agitação social, com greves e manifestações de trabalhadores urbanos e rurais.

O regime de Mussolini pode ser dividido em duas fases:

  • Consolidação do Fascismo (1922 a 1924) - Benito Mussolini governa de forma conciliatória, não se sobrepondo ao poder do rei Vítor Emanuel III. Paralelamente, fortalece as organizações fascistas com a fundação das Milícias de Voluntários para a Segurança Nacional, também denominado "Camisas negras". Utilizando de todos os métodos possíveis, inclusive da fraude eleitoral, os fascistas garantiram a vitória do Partido nas eleições parlamentares em abril de 1924.
  • Ditadura Fascista (1925 a 1943) - Entre 1925 e 1926, com o apoio do rei, dos empresários e do Exército, Mussolini promove uma ampla perseguição política, impondo o Partido Nacional Fascista como partido único, e iniciando a ditadura fascista. Os sindicatos dos trabalhadores passam a ser controlados pelo Estado; é criado um tribunal especial para julgar crimes considerados ofensivos à segurança do Estado; a censura é instaurada; os partidos de oposição são dissolvidos; milhares de pessoas são presas e outras expulsas do país. A OVRA, a polícia secreta fascista, utiliza os mais terríveis tipos de violência na perseguição aos opositores.
Mussolini tenta então alargar a influência italiana, em uma tentativa de recuperação da grandeza da Roma Imperial, a "Grande Itália": conquista a Etiópia (1936); intervém na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e conquista a Albânia em 1939 (ver: protetorado da Albânia) que esgotaram as finanças do país e pouco acrescentou em termos de preparação para uma guerra moderna. O Estado fascista estava ecônomica e militarmente despreparado quando se envolveu no turbilhão da Segunda Guerra Mundial, o que levaria à Itália a diversas derrotas militares e colocaria um fim no governo de Mussolini. Dominou a Itália até 25 de julho de 1943, quando terminou sua ditadura e a Itália foi ocupada pelas tropas aliadas. De 1943 a 1945, o fascismo sobreviveu na República Social Italiana.

Benito Mussolini, num discurso proferido na Câmara dos Deputados no dia 26 de maio de 1927, disse uma frase que define concisamente a ideologia do fascismo: "Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado".[nota 1] [1] [2]

Mais tarde, num artigo da Enciclopedia Italiana, de 1931,[3] escrito por Giovanni Gentile e Benito Mussolini, o fascismo é, além de explicitado nas suas principais linhas filosóficas, descrito como uma doutrina cujo "fundamento é a concepção do Estado, da sua essência, das suas competências, da sua finalidade. Para o fascismo o Estado é um absoluto, perante o qual indivíduos e grupos são o relativo. Indivíduos e grupos são "pensáveis" enquanto estejam no Estado".[nota 2]

Nesse texto de 1932, Mussolini identifica, "no grande rio do fascismo", as correntes que nele vão desaguar e que terão as suas fontes em Georges Sorel, Charles Péguy e Hubert Lagardelle, do Movimento Socialista, e nos sindicalistas italianos, que, entre 1904 e 1914, teriam trazido um novo tom ao ambiente do socialismo italiano - Angelo Oliviero Olivetti da Pagine Libere, Paolo Orano, de La Lupa e Enrico Leone, de Divenire sociale.

Em 1928, na "Autobiografia" ditada a Richard Washburn Child, Mussolini disse que estudou muito o risorgimento e o desenvolvimento da vida intelectual italiana depois de 1870, que "meditou muito com os pensadores alemães", que admirava os franceses, e que um dos livros que mais o tinha interessado fora "A Psicologia das Multidões" de Gustave Le Bon. Colocando-se o problema da revolução, Mussolini rejeitava o bolchevismo, e que, a ser realizada uma revolução em Itália, esta deveria ser "tipicamente italiana", firmando-se "nas dimensões magnificentes das ideias de Giuseppe Mazzini e com o espírito de Carlo Pisacane"[4]

Em 1932 Mussolini diz que o fascismo terá recebido muitas influências, mas que estas não constituíram o fascismo: "um partido que governa totalitariamente uma nação, é um fato novo na história".[nota 3] E acrescenta que "não há pontos de referência ou de comparação" com os seus antecessores. No entanto, Mussolini diz também no mesmo texto que o francês Ernest Renan teve "iluminações pré-fascistas"[nota 4] e que o fascismo fez seu o duplo conselho de Mazzini: "Pensamento e Acção".[5]

Entre os antecessores, em 1932, "Renan e Mazzini são afinal os únicos autores a quem Mussolini aceita pagar algum tributo intelectual." Com estas ressalvas, Mussolini insiste no entanto em proclamar a "novidade do fascismo", apresentando, em apêndice (edição de 1935), as referências que remetem para os seus próprios discursos e textos.[6]

Mussolini diz-nos também neste texto o que o fascismo não é. O fascismo não se filia no pensamento contrarrevolucionário: Mussolini não toma "Joseph de Maistre como seu profeta"; Mussolini diz que o fascismo respeita a Igreja mas recusa a sua religião, a "eclesiolatria",[nota 5] como lhe chama.

O corpo do texto está dividido em duas partes: 1ª. Ideias fundamentais; e 2ª. Doutrina Política e Social.

Ideias fundamentais[editar | editar código-fonte]

Benito Mussolini dando um discurso em Milão em 1930. Fonte: Bundesarchiv.

Sob o título "ideias fundamentais", os assuntos surgem distribuídos por 13 parágrafos, mas com as notas arrumadas no anexo em 11 títulos:[7]

  • 1. Concepção filosófica. Apresenta o fascismo como ação (prática) e pensamento (ideia) político. Considera que toda a ação é contingente ao espaço e ao tempo, havendo no seu pensamento um "conteúdo ideal que a eleva a fórmula de verdade na história superior do pensamento".[nota 6] Diz que "para se conhecer os homens é preciso conhecer o homem; e para conhecer o homem é preciso conhecer a realidade e as suas leis";[nota 7] não há um conceito de Estado que não seja uma concepção da vida e do mundo.
  • 2. Concepção espiritual. É a partir de uma "concepção espiritual" que o homem é definido pelo fascismo. Na sua concepção, o homem é um "indivíduo que é nação e pátria";[nota 8] há, na sua perspectiva, "uma lei moral que liga os indivíduos e as gerações numa tradição e numa missão";[nota 9]
  • 3. Concepção positiva da vida como luta. A sua "concepção espiritual" define-se por oposição ao materialismo filosófico do século XVIII; sendo antipositivista, é porém positiva ([nota 10] ); não é céptica, nem agnóstica, nem pessimista.[nota 11] Pretende o homem activo e impregnado na acção com toda a sua energia. O que se aplica ao indivíduo, aplica-se à nação;
  • 4. Concepção ética. Tem uma concepção ética da vida, "séria, austera, religiosa";[nota 12] o fascismo desdenha a vida "cômoda";
  • 5. Concepção religiosa. O homem é visto numa relação imanente com uma lei superior, com uma Vontade objectiva que transcende o indivíduo particular e o eleva a membro de uma sociedade espiritual.[nota 13]
  • 6. Concepção histórica e realista. O homem é visto como um ser na história, num fluxo continuo em processo de evolução; tem no entanto uma visão "realista", não partilhando o optimismo do materialismo filosófico do século XVIII que via o homem a caminho da "felicidade" na terra;
  • 7. O indivíduo e a liberdade. A concepção fascista é definida como "anti-individualista", colocando o Estado antes do indivíduo;[nota 14] o liberalismo negou o Estado no interesse dos indivíduos particulares, o fascismo reafirma o Estado como a verdadeira realidade do indivíduo.[nota 15] Para o fascismo, tudo está no Estado - a sua concepção é totalitária.[nota 16] Para o fascismo, fora do Estado não há valores humanos ou espirituais.
  • 8. Concepção do Estado corporativo. "Não há indivíduos fora do Estado, nem grupos (partidos políticos, associações, sindicatos, classes)";[nota 17] defende um corporativismo no qual os interesses são conciliados na unidade do Estado;[nota 18] diz-se contrário ao socialismo que reduz o movimento histórico à luta de classes e, analogamente, é também contrário ao sindicalismo.
  • 9. Democracia. O fascismo opõe-se à democracia que entende a nação como a maioria, descendo o seu nível ao maior número; o fascismo considera-se no entanto como "a mais pura forma de democracia se o povo for considerado do ponto de vista da qualidade em vez da quantidade", como uma "multidão unificada por uma ideia, que é vontade de existência e de potência: consciência de si, personalidade".[nota 19] O fascismo defende "uma democracia organizada, centralizada, autoritária", exercida através do partido único.
  • 10. Concepção do Estado. Para o fascismo a nação não cria o Estado; é o Estado que cria a nação. Considera o Estado como a expressão de uma "vontade ética universal", criadora do direito, e "realidade ética". Na sua concepção é o Estado "que dá ao povo unidade moral, uma vontade, e portanto uma efectiva existência".[nota 20]
  • 11. Realidade dinâmica. Na concepção fascista o Estado deve ser o educador e o promotor da vida espiritual. Para alcançar o seu objetivo, quer refazer não a forma da vida humana, mas o conteúdo, o homem, o carácter, a fé.[nota 21]

A filosofia do fascismo, tal como a definiu Mussolini, é assim uma filosofia essencialmente moderna e modernista.

Doutrina política e social[editar | editar código-fonte]

Benito Mussolini (centro) e Italo Balbo (esquerda) durante a Marcha sobre Roma.

Na segunda parte do texto, acerca da "Doutrina Política e Social"[7] do fascismo, Mussolini começa por traçar o itinerário do seu pensamento e ação. Ponto de partida, o Socialismo; ponto de chegada, o fascismo.

Até ao inverno de 1914, Mussolini é um socialista. Em 1919, quando são lançados os fasci em Milão, não têm uma doutrina, mas têm um programa e, sobretudo, têm a "fé". Rejeitam o socialismo reformista de Eduard Bernstein, integrando a "esquerda revolucionária" que privilegia a "doutrina da acção". Depois da guerra, o Socialismo reformista estaria já morto como doutrina. Nessa altura, com as expedições punitivas da Itália decorrendo em pano de fundo, os fasci estavam confrontados com várias forças políticas - "liberais, democratas, socialistas, maçons, e com o Partito Popolare" – , e respectivas doutrinas. Isto enquanto enfrentavam vários problemas; como o da relação entre o indivíduo e do Estado; o da relação entre autoridade e liberdade; e o problema nacional italiano.

Entre a Marcha sobre Roma (outubro de 1922) e os anos 1926, 1927, e 1928, o fascismo foi sendo espelhado nas leis e instituições do regime fascista. A doutrina do fascismo é apresentada por Mussolini como um produto do seu exercício do poder na Itália dos anos 1920. Em 1932, por fim, o fascismo estaria já definido como regime e como doutrina.

Neste texto, em 1932, Mussolini começa por negar três ideias-chave:

  1. O pacifismo;
  2. O internacionalismo
  3. A equação "bem-estar = felicidade".

Mas nega também três doutrinas políticas modernas que lhe são anteriores: o socialismo, o liberalismo e a democracia.

Estas doutrinas têm a sua própria história, que Mussolini enuncia com brevidade: do socialismo utópico (Charles Fourier, Robert Owen, Conde de Saint-Simon) saíra o socialismo científico de Karl Marx; do Iluminismo do século XVIII saíra o liberalismo do século XIX; do enciclopedismo saíra a doutrina democrática. Cada uma dessas doutrinas terá chegado ao século XX, superando as respectivas origens em resposta a novas necessidades.

Segundo Mussolini, o fascismo estaria agora a abrir uma nova época realizando uma síntese doutrinária que a todas superaria. Encontrara um campo de doutrinas em ruína, a partir das quais construíra um novo edifício - "O fascismo, das ruínas das doutrinas liberal, socialista, e democrática, extrai aqueles elementos que têm ainda um valor de vida.".[nota 22]

Diz-nos pouco acerca do que aproveita, mas esclarece o que rejeita. O fascismo, segundo Mussolini, do socialismo científico, rejeita o materialismo histórico (determinismo económico) e o conceito de luta de classes; do liberalismo, recusa a economia e a política, e tanto por razões doutrinárias como por razões históricas (a Itália sofrera a derrocada sob o liberalismo); da democracia, recusa o sufrágio universal que "dá ao povo a ilusão de ser soberano, enquanto a verdadeira e efectiva soberania está noutras forças irresponsáveis e secretas" (.[nota 23] Até 1922, o fascismo fora republicano; o dilema república ou monarquia estaria porém já ultrapassado. Uma invocação histórica justifica o argumento, fazendo-nos pensar uma vez mais em Giuseppe Mazzini: "A República Romana foi morta por uma República irmã, a da França".

O fascismo de Mussolini vinha colocar uma concepção da "vida como luta" no centro da sua doutrina; afirma-se "pragmático", no seu desejo de poder, desejo de viver, na sua atitude face à violência, na afirmação da violência como valor. "Activismo, quer dizer nacionalismo, futurismo, fascismo."

Para Mussolini, assim como o século XIX fora o século do indivíduo, o século XX seria o século do Estado. Foram referidas acima as ideias essenciais da sua doutrina do Estado. Mas falta citar a "iluminação pré-fascista" de Ernest Renan, que a teria motivado:

"A razão, a ciência – dizia Renan, que teve uma iluminação pré-fascista numa das suas Meditações filosóficas - são produtos da humanidade, mas querer a razão directamente pelo povo e através do povo é uma quimera. Não é necessário pela existência da razão que todo o mundo a conheça. Em todo o caso se tal iniciação se devesse fazer não seria feita através da baixa democracia, que parece conduzir à extinção da alta cultura, e da mais elevada disciplina. O princípio de que a sociedade existe somente para o bem estar e a liberdade dos indivíduos que a compõem não parece estar em conformidade com os planos da natureza, planos nos quais a espécie só é tomada em consideração e o indivíduo parece sacrificado. É de temer fortemente que a última palavra da democracia assim entendida (…) não seja um estado social no qual uma massa degenerada não teria outra preocupação que gozar os ignóbeis prazeres do homem vulgar".

O último parágrafo do texto explica a razão de ser da sua doutrina: o Estado fascista é uma vontade de potência e de império. A tradição romana é aqui uma ideia de força.[nota 24]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Discorsi del 1927, Milão, Alpes, 1928, p. t57
  2. (em inglês).
  3. La Dottrina del fascismo.
  4. Benito Mussolini, My Autobiography, Nova Iorque, Charles Scribner's Sons, 1928, p. 25; 82
  5. Nas notas à edição de 1935, Mussolini cita a Carta de Mazzini para Michele Bianchi, escrito em 27 de Agosto de 1921, para a abertura da Escola de Cultura e Propaganda Fascista em Milão, in Messaggi e Proclami, Milão, Libreria d'Italia, 1929, p. 39)
  6. (edição com o apêndice, en).
  7. a b (em inglês) [http://wings.buffalo.edu/litgloss/mussolini/text.shtml "La Dottrina del fascismo" (em italiano)].

Notas

  1. Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato
  2. Caposaldo della dottrina fascista è la concezione dello Stato, della sua essenza, dei suoi compiti, delle sue finalità. Per il fascismo lo Stato è un assoluto, davanti al quale individui e gruppi sono il relativo. Individui e gruppi sono «pensabili» in quanto siano nello Stato
  3. Un partito che governa totalitariamente una nazione, è un fatto nuovo nella storia
  4. Renan, che ebbe delle illuminazioni prefasciste"
  5. ecclesiolatria
  6. un contenuto ideale che la eleva a formula di verità nella storia superiore del pensiero
  7. Per conoscere gli uomini bisogna conoscere l'uomo; e per conoscere l'uomo bisogna conoscere la realtà e le sue leggi
  8. L'uomo del fascismo è indivíduo che è nazione e patria
  9. legge morale che stringe insieme individui e generazioni in una tradizione e in una missione
  10. antipositivistica, ma positiva
  11. non scettica, né agnostica, né pessimistica
  12. tutta librata in un mondo sorretto dalle forze morali e responsabili dello spirito
  13. l'uomo è veduto nel suo immanente rapporto con una legge superiore, con una Volontà obiettiva che trascende l'indivíduo particolare e lo eleva a membro consapevole di una società spirituale
  14. Antiindividualistica, la concezione fascista è per lo Stato
  15. Il liberalismo negava lo Stato nell'interesse dell'indivíduo particolare; il fascismo riafferma lo Stato come la realtà vera dell'indivíduo
  16. per il fascista, tutto è nello Stato, e nulla di umano o spirituale esiste, e tanto meno ha valore, fuori dello Stato. In tal senso il fascismo è totalitario, e lo Stato fascista, sintesi e unità di ogni valore, interpreta, sviluppa e potenzia tutta la vita del popolo
  17. Né individui fuori dello Stato, né gruppi (partiti politici, associazioni, sindacati, classi)
  18. nel sistema corporativo degli interessi conciliati nell'unità dello Stato
  19. moltitudine unificata da un'idea, che è volontà di esistenza e di potenza: coscienza di sé, personalità
  20. che dà al popolo, consapevole della propria unità morale, una volontà, e quindi un'effettiva esistenza
  21. Vuol rifare non le forme della vita umana, ma il contenuto, l'uomo, il carattere, la fede
  22. Il fascismo dalle macerie delle dottrine liberali, socialistiche, democratiche, trae quegli elementi che hanno ancora un valore di vita
  23. dà al popolo l'illusione di essere sovrano, mentre la vera effettiva sovranità sta in altre forze talora irresponsabili e segrete
  24. Lo Stato fascista è una volontà di potenza e d'imperio. La tradizione romana è qui un'idea di forza

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Giacomo Debenedetti, 16 octobre 1943, Allia, 2001 (em italiano)
  • Emilio Gentile, Fascismo. Storia e interpretazione, Editori Laterza, 2002, ISBN 8842075442 (em italiano)
  • Eric Hobsbawm, L'Âge des extrêmes|L'Âge des extrêmes : le court XXe siècle, 1914-1991, 1999. (em francês)
  • Pierre Milza et Serge Berstein, Le Fascisme italien, 1919-1945, Le Seuil, 1980 (em francês)