Júlio Saturnino

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Júlio Saturnino

Júlio Saturnino, general encarregado pelo Imperador Aureliano (reinou 270 - 275 dC) da defesa da fronteira oriental, e governador da Síria no tempo do Imperador Probo (reinou 276 – 282 dC), aí tomou o poder no ano 280 ou 281, tendo sido logo a seguir, aparentemente, morto por seus próprios soldados, antes mesmo que Probo pudesse agir. As fontes para a sua vida são a “História Augusta” e uma observação da “História Nova” de Zósimo.

Fontes Históricas[editar | editar código-fonte]

As passagens relevantes da “História Augusta” são as seguintes:

“Saturnino era por nascimento um gaulês, filho pois de uma nação sempre irrequieta e desejosa de proclamar um Imperador ou criar um Império. Dentre todos os seus generais, foi a esse homem que Aureliano confiou a defesa da fronteira oriental, pois lhe parecia o melhor de todos, alertando-o contudo a jamais visitar o Egito. Com efeito, Aureliano, no seu espírito sagaz, conhecia muito bem o caráter gaulês e temia que, se Saturnino visitasse aquele país, uma terra turbulenta, poderia ser facilmente arrastado à rebelião. Isso porque os egípcios, como é bem conhecido, são pessoas orgulhosas, loucas, pretensiosas, maliciosas, de fato mentirosas contumazes, sempre à procura de alguma novidade, dando facilmente ouvidos a cantigas ordinárias, poetas, epigramistas, astrólogos, ledores da sorte e todo o tipo de charlatães.” (“História Augusta”, Vidas de Firmo, Saturnino, Próculo e Bonoso, cap. 7, seções 1 a 4)

“Desse modo, tendo tal opinião acerca dos egípcios, Aureliano proibiu Saturnino de pôr os pés no país, mostrando nisso uma sabedoria verdadeiramente divina. Porque, assim que o viram em seu meio, sendo ele uma pessoa importante, passaram logo a proclamar publicamente: ‘Saturnino Augusto, que os deuses te protejam!’. Ao ouvir isso, Saturnino prudentemente abandonou Alexandria e retornou à Palestina. Lá, contudo, refletiu que lhe era mais seguro tomar o poder do que permanecer como um homem comum; assim, tomou um manto púrpura de uma estátua de Vênus, vestiu-o e recebeu desse modo a sua proclamação dos soldados reunidos.” (idem, cap. 9, seções 1 a 3)

“Mas, quando alguns dos que o haviam proclamado tramavam agora a sua ruína, ao passo que outros queriam defender-lhe a vida e o poder, ele discursou da seguinte forma (…) Esse discurso, de acordo com Marco Salvidieno, foi efetivamente de sua autoria, já que Saturnino não era iletrado, tendo estudado com um retórico na África e freqüentado as escolas de Roma.” (idem, cap. 10, seções 1 e 4)

“Não me alongando muito, devo contudo dizer que esse homem não era o Saturnino que havia usurpado o poder no tempo de Galieno, mas sim um outro, já que ele foi morto no tempo de Probo, que aliás não desejava chegar a aplicar tal punição. Com efeito, é dito que Probo mandou-lhe uma carta oferecendo-lhe perdão, mas os soldados não acreditaram no que nela se encontrava escrito; assim, ele foi capturado e assassinado por aqueles que Probo havia mandado, apesar de não ter sido esse o desejo do Imperador.” (idem, cap. 13, seções 1 a 3)

"Ele (Probo) também teve que lidar com rebeliões de usurpadores, que chegaram a ameaçar-lhe seriamente o governo - pois Saturnino, que havia tomado o poder no Oriente, somente foi eliminado após combates difíceis, vencidos graças ao valor do Imperador. Mas depois da derrota de Saturnino, o Oriente permaneceu tão tranqüilo que, como se diz popularmente, não se ouvia nem mesmo o ruído de um rato rebelde." ("História Augusta", Vida de Probo, cap. 18, seção 4)

Quanto a Zósimo:

“Enquanto tais coisas ocorriam sob Probo, Saturnino, um mouro, o melhor de seus amigos, e por isso encarregado por ele do governo da Síria, revoltou-se. Quando Probo soube disso, resolveu combatê-lo, mas os próprios soldados do Oriente se anteciparam e eliminaram Saturnino e todos os seus aliados.” (Zósimo, “História Nova”, livro I, cap. 66, seção 1).

Análise das Fontes[editar | editar código-fonte]

Os dados constantes em Zósimo parecem, no geral, se coadunar melhor com a realidade do que os da “História Augusta” (onde abunda inclusive a invectiva tanto contra o caráter gaulês quanto contra os egípcios).

É assim mais provável que Saturnino fosse de origem moura e não gaulesa, ou seja, que fosse nativo de uma das duas Mauritânias (região correspondente ao moderno Marrocos e à parte ocidental da Argélia). Como tal, sua alfabetização na "África" (presumivelmente na província da África, ou seja, na região da atual Tunísia) é bastante plausível. Sua família deve ter sido de posses, de modo a poder financiar-lhe tanto uma educação básica quanto um posterior período de aprendizado em Roma. Pertencia, assim, àquele grupo de provincianos ambiciosos, capazes e preparados que, desde as reformas de Galieno, preencheram a máquina administrativa romana, a partir do serviço militar. O fato de ocupar, por ocasião de sua usurpação, o cargo de governador da Síria pode ser tomado como certo. Uma moeda em seu nome, com a inscrição IVLIVS SATVRNINVS AVGVSTVS, foi encontrada no Egito [Rev. Numism. xiv (1896), p. 133], o que parece indicar que seu governo foi lá reconhecido, mas ele quase certamente foi proclamado Imperador em Antioquia, aliás como implícito na "História Augusta", que o faz assumir a púrpura após seu retorno à Palestina; não é necessário postular uma ida sua a Alexandria. Na própria narrativa da Vida de Probo se diz que sua revolta centrou-se no "Oriente", palavra que, à época, dizia respeito à região da Síria e da Palestina.

Quanto aos detalhes acerca do final de sua usurpação, se foi vencido por Probo "após combates difíceis", ou assassinado por seus soldados antes que o Imperador pudesse atacá-lo, a segunda versão deve ser preferida, tendo em vista o testemunho tanto da "História Augusta" quanto de Zósimo. A versão constante na Vida de Probo tem quase certamente uma finalidade laudatória para com o Imperador, enaltecendo-lhe o gênio militar (do mesmo modo que, nas vidas dos usurpadores, enalteceu-lhe a clemência: a "História Augusta" sempre mostra uma imagem bastante favorável de Probo).

Origens Sociais[editar | editar código-fonte]

As fontes históricas apontam a origem de Saturnino na pequena nobreza provincial (quase certamente "moura", ou seja, de uma das duas províncias da Mauritânia, no norte da África) que, munida de um módico de estudos e via carreira militar, especialmente a partir das reformas de Galieno, pôde ter acesso à máquina administrativa romana, assimilando-se rapidamente à camada dirigente. Por outro lado, não há nenhuma base histórica, quer literária, quer epigráfica, para ligá-lo aos nobres Volúsios Saturninos do séc. I dC, e nem aos seus descendentes, quer por linha masculina, quer por linha feminina, rastreáveis na aristocracia senatorial até meados do séc. III dC. Se Saturnino tivesse alguma ligação, longínqua que fosse, com a aristocracia senatorial italiana, e, mais ainda, com as antigas famílias da época Júlio-Cláudia, tal detalhe não escaparia a uma menção explícita na "História Augusta", escrita no ambiente aristocrático romano do séc. IV. A confusão ocorre pelo fato de se considerar, erradamente, que o cognome “Saturnino”, presente em ambos os casos, seja um sinal de parentesco, esquecendo-se que o parentesco, nas famílias romanas, seguia o gentílico (nomen, ou gentilicium), e não o cognome.

Quanto à reconstituição genealógica dos Volúsios Saturninos e dos Volúsios Torquatos, pode-se consultar Christian Settipani, Continuité Gentilice et Continuité Familiale dans les Familles Sénatoriales Romaines à l´époque Imperiale – Mythe et Réalité, Unity for Prosopographical Research, Linacre College, University of Oxford, UK, 2000, páginas 247 a 268).

O Usurpador "Saturnino" da época de Galieno[editar | editar código-fonte]

A "História Augusta" enumera, na "Vida dos Trinta Tiranos", uma série de usurpadores da época do governo unitário de Galieno (260 - 268 dC), dentre os quais um outro "Saturnino". Ele teria sido um dos melhores generais de Valeriano (253 - 260 dC) e, desapontado com o governo pusilânime de seu filho Galieno, aceitou de seus soldados o título imperial. Esses mesmos soldados, contudo, o teriam depois assassinado, inconformados com a sua estrita disciplina ("História Augusta", Vida dos Trinta Tiranos, cap. 23). Contudo, a "Vida dos Trinta Tiranos" é uma parte extremamente não confiável de um trabalho que, por si só, já apresenta uma série de problemas. Vários dos usurpadores listados nos "Trinta Tiranos" não possuem nenhuma confirmação histórica de sua existência (é o caso desse Saturnino, bem como de Trebeliano e de Celso), alguns outros efetivamente existiram, mas não se rebelaram contra Galieno, e muitos dos dados constantes nas várias biografias são inventados.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

As citações das fontes são traduções livres, em língua portuguesa, dos originais constantes nos referidos endereços, em latim e/ou em língua inglesa.

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