Jaquê

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Jaquê (também grafado jaqué, jacquez ou jacquet) é uma casta de uvas da espécie híbrida de origem norte-americana Vitis x bourquina[1] (um híbrido natural entre Vitis aestivalis e Vitis vinifera), que produz vinhos fortes e escuros, de coloração violácea, geralmente conhecidos por jaquês. A casta é muito utilizada na produção de vinhos tradicionais da Macaronésia, sendo a sua utilização comum na ilha da Madeira, nas fajãs mais abrigadas dos Açores e em partes das Canárias e de Cabo Verde. A casta foi introduzida no sul do Brasil, Peru, Argentina e Chile, onde é utilizada para produção de sumo de uva.[2] [3] Fortemente escandente, podendo trepar pela copa das árvores, a casta é pouco exigente em matéria fitossanitária, pouco sensível ao ataque pelo oídio e resistente à ressalga e ao vento.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Inicialmente utilizada como produtor directo, devido à sua alta resistência a doenças (oídio e míldio) e ao ataque da filoxera serviu também como porta-enxertos, especialmente no sul da França e na Península Ibérica, durante a reconstrução dos vinhedos após a crise causada pela introdução da filoxera na década de 1870. Algumas das vinhas então enxertadas em cepas jaquê ainda existem.

Em França a casta jaquê está incluída na lista de castas que foram proibidas em 1935 (em conjunto com as castas Clinton, Herbemont, Isabela, Noah e Othello). A interdição do comércio dos vinhos obtidos a partir desta casta foi incluída nos regulamentos europeus que regulam o comércio do vinho.[4]

A cultura desta casta foi interdita oficialmente por razões sanitárias, citando a presença de metanol nos vinhos produzidos com as suas uvas. Com efeito, a concentração de metanol (tóxico para o nervo óptico) em vinhos como o jaquê e o vinho-de-cheiro é ligeiramente mais elevada que na maioria dos vinhos produzidos a partir de castas de Vitis vinifera, mas análises recentes provam que não é tão elevada que constitua risco para a saúde.[5] Por outro lado, apenas a fermentação do sumo de uva pode produzir o metano, pelo que o seu consumo em fresco não coloca qualquer risco. A pedido da direcção do Parc Naturel Régional des Monts d’Ardèche (região onde o jaquê é ainda cultivado), foi elaborado um estudo universitário que concluiu que o vinho jaquê contém uma taxa de metanol comparável à que se pode encontrar em vinhos produzidos com as castas Merlot, Cabernet, Syrah ou Sauvignon, que não é perigosa para a saúde, a que acresce que apresenta uma concentração de resveratrol muito elevada,[6] a qual é benéfica para a saúde.

A proibição parece dever-se não tanto a questões sanitárias, mas ao contexto político e económico do início do século XX em França e nas regiões mediterrânicas da Europa, incluindo a superprodução de vinho que levou a questionar a cultura de castas muito produtivas, de fácil cultivo e que não necessitavam de tratamentos fitossanitários.[5] A vontade de conservar uma «imagem de qualidade» para a viticultura europeia, associada à pressão dos países produtores de vinhos percebidos como de melhor qualidade, justifica a manutenção da interdição de vinhos produzidos a partir de espécies que não a Vitis vinifera.

O jaquê é cultivado no Texas para o fabrico de um brandy. É comum também no Peru.

Apesar da interdição, a cultura de jaquê persiste em diversas regiões europeias, incluindo a região montanhosa do Lure em França.[7] .

Notas

  1. Comportamento fenológico e produtivo da videira "Jacquez" (Vitis bourquina) no norte do Paraná.
  2. Enologia marginal do Sudeste.
  3. Uvas mais cultivadas no Chile, Brasil e Argentina.
  4. Articles 95 et 96 du code du vin abrogés
  5. a b Lettre à la commission européenne
  6. Le Jacquez, un cépage chargé d'histoire, son adaptation au terroir cévenol et les enjeux de son maintien
  7. André de Réparaz, « La vigne » in Guy Barruol, André de Réparaz, Jean-Yves Royer (directores da publicação), La montagne de Lure, encyclopédie d’une montagne en Haute-Provence, Forcalquier, Alpes de Lumière, collection «Les Alpes de Lumière», no 145-146, 2004, ISBN 2-906162-70-1, 320 p. p. 130

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Pierre Galet, Dictionnaire encyclopédique des Cépages, Hachette Livre, 2000. ISBN 2-01-236331-8

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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