João Abel Manta

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João Abel Manta
João Abel Manta, 1977
Nascimento 1928 (85–86 anos)
Lisboa
Nacionalidade Portugal portuguesa
Ocupação arquitecto, pintor, ilustrador e cartoonista

João Abel Manta (Lisboa, 1928) é um arquitecto, pintor, ilustrador e cartoonistas português.

Autor de uma obra multifacetada, centrada sobretudo na arquitetura, desenho e pintura, João Abel Manta afirmou-se no panorama cultural português a partir do final da década de 1940. Nos anos que se seguiram teve importante atividade no domínio da arquitetura, que abandonaria progressivamente em favor das artes, destacando-se como um dos maiores cartoonistas portugueses das décadas de 1960 e 1970. Nos anos anteriores e posteriores ao 25 de Abril publicou regularmente, em jornais de grande tiragem, trabalhos emblemáticos da situação político-social portuguesa nesse período de transição (queda da ditadura e implantação de um regime democrático). Na década de 1980 redirecionou uma vez mais a sua obra, centrando-se prioritariamente na pintura.

Biografia[editar | editar código-fonte]

O Ornitóptero, c. 1960, tinta-da-china sobre papel, 35,6 x 54,7 cm

João Abel Manta é filho dos pintores Abel Manta e Maria Clementina Carneiro de Moura Manta. É casado com Maria Alice Ribeiro Manta, de quem tem uma filha, Isabel. Vive e trabalha em Lisboa.

"Filho único, [...] cresce numa casa de Santo Amaro de Oeiras [...] convivendo com alguns dos intelectuais mais importantes da época que se tornam amigos de seus pais" [1] , como Manuel Mendes ou Aquilino Ribeiro; viaja longamente com os pais, conhece Espanha, Inglaterra, Holanda, mas serão sobretudos as viagens a Paris e Itália que o irão marcar.

Inscreve-se no curso de arquitectura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que termina em 1951 e onde faz amizade com Sá Nogueira e José Dias Coelho, entre outros; integra-se desde muito cedo na intelectualidade lisboeta ligada aos movimentos de esquerda que se opunham à ditadura fascista de Salazar e Marcelo Caetano; participa no MUD Juvenil. Terminado o curso, trabalha em associação com Alberto Pessoa, mas abandona progressivamente a arquitetura ao longo dos anos de 1960, expandindo a atividade por uma multiplicidade de áreas, das artes plásticas à cenografia, destacando-se em particular como cartoonista na década seguinte.

Obteve vários prémios nacionais e estrangeiros; participou em inúmeras exposições colectivas, em Portugal e no estrangeiro; realizou múltiplas mostras individuais, entre as quais: Galeria Interior, Lisboa, 1971; Institute of Contemporary Arts (ICA), Londres, 1976; Museu Rafael Bordalo Pinheiro, Lisboa, 1992; Palácio Galveias, Lisboa, 2009.

Obra[editar | editar código-fonte]

Pavimento em calçada portuguesa, Praça dos Restauradores, Lisboa

Foi responsável, com Alberto Pessoa e Hernâni Gandra, pelos projectos dos blocos habitacionais da Avenida Infante Santo, (com o qual ganhou o Prémio Municipal de Arquitectura em 1957), e da Associação Académica de Coimbra (1955-59).

Como artista plástico, tem obras nas áreas da pintura, desenho (ilustração, cartoon), artes gráficas, cerâmica, tapeçaria e mosaico. Fez selos e cartazes, ilustrou livros, entre os quais A cartilha do marialva, de José Cardoso Pires. Foi o autor das tapeçarias do Salão Nobre da sede da Fundação Calouste Gunbenkian (c. 1969). Fez os cenários para A Relíquia, de Eça de Queiroz (1970; encenação de Artur Ramos) e O Processo, de Kafka (1970). No contexto da arte pública destacam-se o pavimento na Praça dos Restauradores, Lisboa, e o painel de azulejos na Avenida Calouste Gulbenkian, Lisboa (concebido em 1970 e aplicado em 1982).

João Abel Manta destaca-se em particular nas artes plásticas, sobretudo no desenho, onde se afirmou bastante cedo, com trabalhos de relevo datados da década de 1940. Em 1961 venceu o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian com O Ornitóptero[2] . Dedicou-se à pintura, realizou um vasto conjunto de colagens, expôs em mostras coletivas e individuais. Mas a área em que se distinguiu de forma mais assinalável foi a do cartoon, sendo considerado por muitos como "o caso mais extraordinário do cartoonismo luso do nosso século [século XX], só equiparável [ao] próprio Bordalo Pinheiro" [3] .

Turistas, 1972

A sua atividade como cartoonista estende-se por um período alargado, desde aproximadamente 1954 até 1991, intensificando-se entre 1969 e 1976. Durante cerca de 7 anos os seus trabalhos foram publicados com regularidade em jornais como o Diário de Lisboa, Diário de Notícias, e O Jornal, abordando de forma crítica e profundamente irónica a realidade portuguesa; em 1981 publica novos trabalhos no Jornal de Letras, mas a partir daí a sua actividade como cartoonista torna-se esporádica.

Com um grafismo único, meticuloso, os seus cartoons (veja-se por exemplo Turistas, da série Reportagem Fotográfica, 1972) marcaram a época anterior ao 25 de Abril: "Nenhum pintor daqui e de agora resumiu com tantas subtilezas a temperatura social e política do fascismo agonizante". Nesse "inventário doméstico" cabe praticamente tudo: "estão em causa os desastres e os grotescos duma burguesia, a nossa, com os seus emblemas e heróis". João Abel "aponta à História, ao monumento e em particular à procissão provinciana da nossa burguesia intelectual" [4] .

A sua intervenção pública intensifica-se em 1974 e 1975, logo após a queda da ditadura, lançando-se "à batalha com redobrado ardor, multiplicando-se em caricaturas, posters e cartazes de orientação vincadamente revolucionária", e tornando-se no "artista máximo, talvez o único afinal, que a revolução de Abril suscitou". É o que vemos em desenhos como "Um problema difícil", de 1975, onde um grupo de notáveis – de Marx e Lenin a Gandhi e Sartre –, se interrogam perante um pequeno mapa de Portugal. João Abel Manta "ficará associado dum modo muito particular ao melhor e ao pior que em Portugal vivemos nesses dois anos" [5] .

Um problema difícil, 1975, tinta-da-china sobre papel, 37 x 62 cm

A partir de 1976 "o artista alistado João Abel eclipsa-se: os ventos são outros, o MFA (Movimento das Forças Armadas) dissolveu-se", e só em 1978 "emerge do silêncio e lança ao público um […] novo álbum: Caricaturas dos Anos de Salazar" [6] , onde "narra uma história – a nossa história […] onde se encaixam, se alternam ou se encadeiam […] o ridículo e a tragédia da colonização e da guerra colonial, o miguelismo e o liberalismo […] a submissão popular e a sua revolta […] o folclore musical e o artesanato, o teatro, o cinema ou a pintura" [7] .

A partir de 1981 dedica-se quase exclusivamente à pintura, num trabalho intimista que contrasta com o carácter de intervenção político-social dos seus cartoons. Em 2009 expõe no Palácio Galveias: "Nestas obras pratico uma inocente pintura a óleo sobre tela, […] para explicar a quem interesse o que penso do mundo e das coisas do passado e do presente" [8] .

"A minha atração […] por alguns artistas do chamado impressionismo, deriva do modo notável como utilizam a técnica da pintura e talvez também pela tranquilidade dos temas, tranquilidade curiosa numa época agitada e revolucionária: intimidade da vida burguesa, paisagens repousantes, gente feliz, bailarinas" [9] . Mas a sua aparente proximidade formal com o impressionismo é enganadora, e nas suas pinturas das décadas de 1980 a 2000 deparamos frequentemente com um universo sombrio de onde emergem "figuras inomináveis e terríveis, produtos da alucinação" [10] . A visão perturbante de João Abel Manta funde o "quotidiano e o fantástico, em paisagens lisboetas invadidas de seres estranhos"[11] , a par de uma recorrente presença de auto-figurações que remetem para um território auto-confessional até aí desconhecido na sua obra.

Algumas obras[editar | editar código-fonte]

Algumas exposições e prémios[editar | editar código-fonte]

  • 1947/53 – Exposições Gerais de Artes Plásticas, SNBA, Lisboa.
  • 1953 – 20 Artistas Contemporâneos em Portugal, Galeria de Março; II Bienal de S. Paulo.
  • 1954/60 – Blanco e Nero, Lugano, Suiça.
  • 1957 – I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
  • 1958/62 – Salões de Arte Moderna, SNBA, Lisboa.
  • 1959 – 50 Artistas Independentes, Lisboa.
  • 1961 – II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa – Prémio de Desenho.
  • 1965 – Exposição Internacional de Artes Gráficas de Leipzig, Leipzig – Medalha de Prata.
  • 1967 – Bienal de Tóquio, Japão.
  • 1969/71 – Exposições do Grupo da Galeria Interior, Lisboa.
  • 1969 – Gravura Portuguesa Contemporânea, Paris.
  • 1971 – Exposição Individual – João Abel Manta: Pintura, Galeria Interior, Lisboa.
  • 1971 – Obras de Pintura Contemporânea, SEIT e Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
  • 1972 – Exposições Itinerantes de Pintura Portuguesa, Fundação Calouste Gulbenkian.
  • 1975 – Artistas Portugueses, Berlim.
  • 1975 – Exposição Internacional de Artes Gráficas de Leipzig, Leipzig – Prémio de Ilustração.
  • 1976 – Exposição Individual – João Abel Manta: Drawings, Institute of Contemporary Arts, Londres.
  • 1976 – 20 Anos de Gravura, Fundação Calouste Gulbenkian.
  • 1978 – Arte Moderna Portuguesa 68-78, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa.
  • 1979 – Arte Moderna Portuguesa, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa.
  • 1986 – O Fantástico na Arte Portuguesa, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
  • 1986 – 1ª e 2ª Exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
  • 1987 – Arte Contemporânea Portuguesa, Museo Español de Arte Contemporáneo, Madrid.
  • 1988 – Recebe o Prémio Stuart-Regisconta / 88
  • 1991 – Lisboa Século XX nas Artes Plásticas, Museu da Cidade, Lisboa.
  • 1992 – Exposição Individual – João Abel Manta: Obra Gráfica, Galeria Municipal da Amadora.
  • 1992 – Arte Portuguesa nos Anos 50, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
  • 1992 – Exposição Individual – João Abel Manta: Obra Gráfica, Museu Rafael Bordalo Pinheiro, Lisboa.
  • 1999 – Exposição Individual – João Abel Manta, Centro Cultural de Cascais.
  • 2009 – Exposição Individual – João Abel Manta: Pintura 1991-2009, Câmara Municipal de Lisboa, Galeria Palácio Galveias, Lisboa.

Algumas publicações[editar | editar código-fonte]

  • MANTA, João Abel – João Abel Manta: Cartoons. Lisboa: Edições O Jornal, 1975.
  • MANTA, João Abel (org. Osvaldo de Sousa) – João Abel Manta – gráfica. Lisboa: Regisconta, 1988.
  • MANTA, João Abel – João Abel Manta: obra gráfica. Lisboa: Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992.
  • MANTA, João Abel – Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar (1978). Porto: Campo das Letras,1998. ISBN 972610-137-9
  • COTRIM, João Paulo – João Abel Manta: Caprichos e desastres. Lisboa: Assírio & Alvim, 2008. ISBN 978-972-37-1342-7
  • MANTA, João Abel – João Abel Manta, Pintura, 1991-2009. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2009. ISBN 978-972-8543-14-3
  • LETRIA, José Jorge - João Abel Manta: Não se distorce a cara de um homem. Lisboa: Guerra e Paz, 2014. ISBN 978-989-7021-18-3

Ilustração[editar | editar código-fonte]

  • BARROS, Leitão de – Corvos (ilustrações de João Abel Manta). Lisboa: Emp. Nac. de Publicidade, 1960.
  • VIEIRA, Padre António – Arte de furtar (ilustrações de João Abel Manta). Lisboa: Estudos Cor, 1969.
  • PIRES, José Cardoso – Dinossauro excelentíssimo (ilustrações de João Abel Manta). Lisboa: Arcádia, 1972.
  • ...

Referências

  1. Milheiro, Ana Vaz - João Abel Manta: um (arquiteto) moderno relutante. J.A. nº 244, Jan./Fev./Março 2012, p.102.
  2. A.A.V.V. – II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1961, imagem nº 225.
  3. MEDINA, João – João Abel Manta. In: MANTA, João Abel – João Abel Manta: obra gráfica. Lisboa: Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992, p.39.
  4. PIRES, José CardosoJoão Abel Manta. In: MANTA, João Abel – João Abel Manta: obra gráfica. Lisboa: Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992, p.24.
  5. MEDINA, João – João Abel Manta. In: MANTA, João Abel – João Abel Manta: obra gráfica. Lisboa: Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992, p.43, 44.
  6. MEDINA, João – João Abel Manta. In: MANTA, João Abel – João Abel Manta: obra gráfica. Lisboa: Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992, p.43, 44.
  7. DIONÍSIO, Mário – "Caricaturas Portuguesas de João Abel Manta". In: João Abel – João Abel Manta: obra gráfica. Lisboa: Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992, p.223-225.
  8. João Abel Manta, depoimento, 2009. In: MANTA, João Abel – João Abel Manta, Pintura, 1991-2009. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2009, p. 7. Também em: Diário de Notícias, 2009. ([1])
  9. João Abel Manta, depoimento, 2009. In: MANTA, João Abel – João Abel Manta, Pintura, 1991-2009. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2009, p. 7. Também em: Diário de Notícias, 2009. ([2])
  10. GONÇALVES, Rui Mário - Paisagens transfiguradas. In: MANTA, João Abel - João Abel Manta. Lisboa: Edição Junta de Freguesia de Santa Catarina, 2001.
  11. PORFÍRIO, José Luís – "João Abel Manta: Pintura 1991-2009". Jornal Expresso, 19 de Dezembro de 2009.
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