João XI de Constantinopla

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João XI Bekkos

João XI de Constantinopla, dito Bekkos ou Beccus (também Veccus, Vekkos ou Beccos), nascido por volta de 1225 e morto em março de 1297 d.C., foi o patriarca grego ortodoxo de Constantinopla entre 2 de junho de 1275 e 26 de dezembro de 1282 e o principal defensor da reunião entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa durante o Império Bizantino.

Biografia[editar | editar código-fonte]

João Bekkos nasceu em Niceia entre os exilados de Constantinopla durante o período da ocupação latina da cidade e morreu aprisionado na fortaleza de São Gregório perto da entrada do Golfo da Nicomédia[1] . O nosso conhecimento sobre a vida de Bekkos deriva de seus próprios escritos e os de outros autores bizantinos, como Jorge Paquimeres[2] e Nicéforo Gregoras, de obras contra ele por Gregório II Cipriota e outros, e de defesas de sua posição por defensores da união eclesiástica, como Constantino Meliteniota e Jorge Metoquita.

União das Igrejas[editar | editar código-fonte]

A história de Bekkos está intimamente ligada com a da União das Igrejas, decretada no Segundo Concílio de Lyon (1274), uma união patrocinada pelo papa Gregório X no ocidente e pelo imperador bizantino Miguel VIII Paleólogo no oriente. A política de união de Miguel foi, em grande parte, politicamente motivada[3] e Bekkos inicialmente era contra. Mas, depois que Miguel VIII mandou prendê-lo na Torre de Anemas por falar contra ela, Bekkos mudou de ideia (1273). A leitura de alguns padres gregos, como Basílio, o Grande, Cirilo de Alexandria e Epifânio de Salamina convenceu Bekkos que as diferenças teológicas entre as igrejas grega e latina haviam sido exageradas[4] .

Após o patriarca José I Galesiotes ter abdicado no início de 1275 por causa de sua oposição ao Concílio de Lyon, Bekkos foi eleito para substituí-lo. Sua relação com o imperador já era, por vezes, tempestuosa e, embora Miguel VIII dependesse de Bekkos para manter a paz de seu império com o ocidente, ele se incomodava com as repetidas intercessões dele em prol dos pobres. Miguel era um homem perspicaz e sabia como tornar a vida do patriarca miserável através de pequenas humilhações até que, em março de 1279, Bekkos renunciou desgostoso e teve que ser "convencido" a retomar o emprego novamente em 6 de agosto de 1279. Os anos finais do reinado de Miguel VIII foram inteiramente tomados com a defesa de seu império contra a ameaça representada pelo rei ocidental Carlos de Anjou e, em sua ansiedade para estar à altura da ameaça, Miguel iniciou um "reino do terror" contra os oponentes da união. Contudo, não existem evidências convincentes de que João Bekkos tenha tomado parte ativamente ou mesmo apoiado estes atos de perseguição violenta[5] .

Ainda que no início de seu patriarcado Bekkos tenha prometido não responder a panfletos que estavam circulando contra a união eclesiástica, no final do reino de Miguel ele mudou de ideia sobre o assunto e passou a "realizar numerosos sínodos, convocando todos, e recuperando livros e publicando muitos outros"[6] defendendo a união em bases teológicas, argumentando a favor da compatibilidade da doutrina latina com a tradição patrística grega. O efeito disto foi conseguir alienar ainda mais a maior parte do clero grego contra ele e foi esta atividade editorial que serviria, mais tarde, como prova explícita para as acusações que seriam feitas contra ele[7] .

Concílio de Blaquerna[editar | editar código-fonte]

A união eclesiástica criada por Miguel VIII nunca foi popular em Bizâncio e, após a sua morte em 11 de dezembro de 1282, seu filho e sucessor, Andrônico II Paleólogo, a repudiou. No dia depois do Natal de 1282, João Bekkos se retirou para um mosteiro, o antigo patriarca anti-união, José I, foi trazido para Constantinopla numa maca e uma série de concílios e encontros públicos se seguiram, liderados por um grupo de monges anti-união. Bekkos, temendo uma morte violenta pelas mãos da multidão, foi induzido a assinar uma renúncia formal de suas opiniões unionistas e de seu sacerdócio (em janeiro de 1283), uma renúncia que ele depois abjurou como tendo sido obtida sob pressão, mas que também será utilizada contra ele mais tarde[8] . Em seguida, Bekkos passou alguns anos em prisão domiciliar num grande mosteiro em Prusa, na Ásia Menor. De lá, ele iniciou uma campanha literária para se exonerar e conseguiu que um concílio fosse reunido para tratar do seu caso. Ele ocorreu no palácio imperial de Blaquerna, em Constantinopla, se reunindo em várias sessões entre fevereiro e agosto de 1285. Embora este Concílio de Blaquerna tenha reafirmado a condenação anterior de Bekkos, o patriarca deposto, numa série de obras, conseguiu difamar tanto a afirmação dogmática contra ele (o Tomus de 1285) que o seu autor, o patriarca Gregório II Cipriota renunciou em 1289. Bekkos enxergou nisso a reabilitação de seu ponto de vista. Ele passou os anos restantes de sua vida na prisão, na fortaleza de São Gregório, revisando suas obras e mantendo relações amigáveis com o imperador e com membros proeminentes do clero bizantino, mas sem jamais renunciar às suas opiniões unionistas.

Bekkos morreu em 1297[9]

Pensamento teológico[editar | editar código-fonte]

A base da disputa de Bekkos com os seus contemporâneos era uma discordância entre eles sobre as implicações de uma fórmula tradicional patrística, que afirma que o Espírito Santo "procede" do Deus Pai "através do Filho" (em grego: διὰ τοῦ Υἱοῦ). Já no século IX, esta expressão estava sendo interpretada de duas formas diferentes: os escritores latinos viam-na implicando a doutrina agostiniana de que o Espírito Santo procede do Pai "e do Filho" (a famosa cláusula filioque); os escritores gregos, especialmente a partir do tempo de Fócio, viam-na como consistente com a visão de que o Espírito Santo procederia do Pai "apenas". Bekkos originalmente concordava com a visão de Fócio, mas após ter lido os padres gregos e alguns escritores gregos medievais, como Nicéforo Blemides e Nicetas de Maroneia, mudou de opinião. A maior parte do debate de João Bekkos com Gregório II Cipriota foi sobre o significado dos textos de Cirilo de Alexandria e outros padres, cuja escolha de palavras (o Espírito "existe a partir do Filho"; o Espírito "tem como fonte eterna" o Filho etc.) Bekkos acreditava ser consistente com a doutrina latina, enquanto que Gregório interpretava estes textos como necessariamente se referindo a uma eterna "manifestação" do Espírito Santo através ou a partir do Filho. Este debate do século XIII tem considerável relevância para as atuais discussões ecumênicas sobre a reunião entre a Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica.

Edições[editar | editar código-fonte]

A maior parte das obras de Bekkos está no volume 141 da Patrologia Graeca (PG) de Migne, com algumas ainda não publicadas. Migne republicou as edições do século XVII de Leão Alácio. Uma re-edição mais confiável foi produzida por H. Laemmer no século XIX (Scriptorum graeciae orthodoxae bibliotheca selecta, Freiburg, 1864), mas mesmo esta deixa a desejar por não indicar as referências para as muitas citações patrísticas de Bekkos. Apenas uns curtos e poucos textos de Bekkos foram alvo de edições críticas modernas. Um deles foi a obra De pace ecclesiastica ("Sobre a Paz Eclesiástica"), em V. Laurent e J. Darrouzès, Dossier Grec de l’Union de Lyon, 1273-1277 (Paris, 1976). Nela, Bekkos critica os fundamentos do cisma entre as Igrejas com bases unicamente históricas, destacando que o patriarca Fócio só resolveu lançar uma campanha contra a doutrina latina após a sua alegação ao patriarcado de Constantinopla ter sido rejeitada pelo papa Nicolau I. Algumas das mais importantes obras de Bekkos são:

  • Sobre a União e a Paz das Igrejas da Antiga e da Nova Roma (PG 141, 15-157): esta obra sumariza os principais argumentos patrísticos de Bekkos e refuta os argumentos de quatro críticos bizantinos da teologia cristã latina (Fócio, João Furnes, Nicolau de Metone e Teofilacto de Ácrida).
  • Epígrafes (PG 141, 613-724): uma antologia de textos patrísticos organizados em treze seções e que apresenta uma argumentação bem afirmada pela compatibilidade das doutrinas latina e grega sobre a processão do Espírito Santo. Cento e sessenta anos depois, ela foi instrumental para convencer Bessarion, no Concílio de Florença, de que a doutrina latina era ortodoxa.
  • Orações I e II sobre a sua própria Deposição (PG 141, 949-1010): O relato do próprio Bekkos sobre os eventos durante os tumultuados sínodos do início de 1283.
  • De libris suis ("Sobre suas próprias Obras") (PG 141, 1019-1028): uma obra curta, mas essencial para a crítica histórica dos textos de Bekkos. Nela, ele discute os princípios que governaram a sua revisão de sua própria obra em uma edição que ele escreveu à mão enquanto estava preso.
  • Refutação do 'Tomo' de Giorgius Cyprus (PG 141, 863-923) e Quatro livros para Constantino Meliteniota (PG 141, 337-396): A crítica de Bekkos a seu antagonista, Gregório II Cipriota (que é conhecido por seu nome de batismo, Giorgius Cyprus).

Ver também[editar | editar código-fonte]

João XI de Constantinopla
(1275 - 1282)
Precedido por: Cruz ortodoxa.png
Lista dos patriarcas grego ortodoxos de Constantinopla
Sucedido por:
José I 137.º José I


Referências

  1. O lugar da prisão de Bekkos foi mencionado por [[Jorge Paquimeres, De Andronico Palaeologo I.35.
  2. Paquimeres, que conhecia e respeitava Bekkos mesmo discordando dele em assuntos teológicos, nos apresenta a referência histórica para a maior parte da vida de Bekkos, como nos estudos de Joseph Gill. Veja também Manuel Sotomayor, “El Patriarca Becos, según Jorge Paquimeres (Semblanza histórica),” Estudios Eclesiásticos 31 (1957), 327-358.
  3. "He entered on the project of Church union unquestionably from political motives. He achieved it and maintained it for the same ends in spite of opposition. But it seems to me that in the course of his negotiations he became sincerely convinced that it was justified also from the theological point of view." - "Ele embarcou no projeto da União das Igrejas inquestionavelmente por motivos políticos. Ele conseguiu realizá-lo e o manteve pelos mesmos motivos, apesar da oposição. Mas me parece que, no decurso das negociações, ele se convenceu sinceramente de que ela se justificava também do ponto de vista teológico". J. Gill, Byzantium and the Papacy, 1198-1400 (1979), p. 180.
  4. Veja Paquimeres, De Michaele Palaeologo, V.15; Gregoras, Rhomaïke Historia, V.2, §§6-7. Embora seja costumeiro representar a mudança de ideia de Bekkos como uma "conversão" da ortodoxia para o catolicismo, alguns estudiosos atuais disputam este ponto de vista; veja Gerhard Richter, “Johannes Bekkos und sein Verhältnis zur römischen Kirche,” Byzantinische Forschungen 15 (1990), 167-217, e A. Riebe, Rom in Gemeinschaft mit Konstantinopel (2005), passim. Por outro lado, Vitalien Laurent relembra, com respeito a uma carta escrita por Bekkos para o papa João XXI em 1277, que "a literatura bizantina na realidade não conhece outro texto no qual os direitos do pontífice romano são tão explicita e solenemente reconhecidos" (Laurent, Les regestes des actes du patriarcat de Constantinople, vol. I, fasc. IV [Paris 1971], pp. 255 f.), e Peter Gilbert diz que a mudança de ideia foi genuína: "não pode ser atribuído meramente ao interesse pessoal ou considerações políticas, e ela [a mudança de ideia] determinou o curso subsequente da carreira de Bekkos" (Peter Gilbert, Not an Anthologist: John Bekkos as a Reader of the Fathers, in Communio 36 (Summer 2009), p. 269).
  5. Sobre o "reino do terror" de Miguel, veja Gill, Byzantium and the Papacy, 1198-1400 (1979), pp. 176 e seguintes. Riebe, Rom in Gemeinschaft mit Konstantinopel, p. 113, nota que nem Paquimeres e nem Gregoras mencionam a participação de Bekkos na violenta campanha do imperador e que, além disso, a imagem do caráter de Bekkos apresentada pelos historiadores e em suas obras tornam a sua participação nelas muito improvável. Veja também Ioannes Anastasiou, Ὁ θρυλούμενος διωγμὸς τῶν ἁγιορειτῶν ὑπὸ τοῦ Μιχαὴλ Η´ Παλαιολόγου καὶ τοῦ Ἰωάννου Βέκκου, in: Ἀθωνικὴ πολιτεία (Thessaloniki, 1963), pp. 207-257; Anastasiou examina criticamente a alegação de Miguel e Bekkos teriam invadido Monte Atos com um exército latino para perseguir os monges. Ele rejeita a maior parte delas como sendo lendas piedosas (ortodoxas).
  6. Paquimeres, De Michaele Palaeologo, VI.23 (Bekker ed., p. 481).
  7. See J. Gill, "The Church union of the Council of Lyons (1274) portrayed in Greek documents," Orientalia Christiana Periodica 40 (1974), 5-45, esp. pp. 43 f.
  8. O texto da renúncia foi incorporado na obra Tomus, de Gregório II Cipriota, traduzida por Papadakis, Crisis in Byzantium (1997), pp. 216 f. Cf. também Gill, Byzantium and the Papacy, 1198-1400 (1979), p. 294: "Beccus later declared that he then bowed before the storm because there was no possibility of having a hearing for his defence, but with the firm intention, which he expressed at the time to Metochites, 'as soon as the storm had died down a little of coming into the open before those responsible and the instigators to defend the truth openly.'" - "Bekkos posteriormente declarou que ele tinha se curvado ante à tempestade por que não havia possibilidade de sua defesa ser ouvida, mas com a firme intenção, que ele expressou na época aos metoquitas, 'de assim que a tempestade passar um pouco, de se apresentar perante os responsáveis e instigadores para defender a verdade abertamente'".
  9. Para a data de 1297, veja principalmente V. Laurent, "Le date de la mort de Jean Beccos," Echos d'Orient 25 (1926), 316-319.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]