João de Nikiu

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João de Nikiu foi um bispo egípcio copta, da localidade de Nikii/Pashati, no Delta do Nilo, nomeado administrador geral dos monastérios do Alto Egito no ano 696. Escreveu uma crônica que se estende desde Adão até a conquista muçulmana do Egito e inclusive detalhes históricos importantes não conhecidos por outras fontes.

Segundo o bispo Severo de Al-Ashmunyn (Heliópolis), João de Nikiu viveu na época dos patriarcas João de Semnûd, Isaac e Simeão. João castigou com tanto rigor um monge que havia cometido uma falta que o homem morreu dez dias depois, pelo que o patriarca Simeão decidiu retirar o bispo de seu cargo.

A Crônica de João de Nikiu foi escrita originalmente em grego, salvo alguns dos capítulos sobre o Egito, que provavelmente foram escritos em copta, a julgar pela morfologia dos nomes. A única versão da obra que sobreviveu é uma tradução ao etíope realizaa em 1602 a partir de uma tradução prévia do texto original para o árabe. No texto há várias lacunas, fruto de omissões acidentais desafortunadas. Concretamente, a passagem que cobria trinta anos, de 610 a 640, se perdeu por completo.

A Crônica merece especial atenção pelas passagens que cobrem os primeiros anos do século sétimo. João trata em detalhes da revolta dos exércitos trácios no ano 602 e a derrocada do imperador Maurício pelo usurpador Focas. Graças a seu relato, conhecemos melhor o reinado de Focas e, sobretudo, a revolta que se se iniciou, com êxito, por Heráclio em Cartago. Por desgraça, se perdeu a seção que cobria as guerras persas levadas a cabo por Heráclio.

Possivelmente a seção mais importante da Crônica de João seja a que trata da invasão e conquista do Egito pelas tropas muçulmanas de Amr ibn al-As. Mesmo que o autor não tenha sido provavelmente testemunha ocular, ele pertencia seguramente da geração imediatamente posterior a conquista e seu relato é o testemunho mais próximo dos acontecimentos. João descreve os sucessos mais notáveis da campanha de Amr, como a tomada da fortaleza romana de Babilônia e a captura de Alexandria. Mas, ainda que seus detalhes estejam cheios de vida, sua cronologia resulta às vezes confusa.

João reconhece como um ponto a favor dos muçulmanos não terem destruido os lugares santos dos cristãos, mas da ciência também das numerosas atrocidades que cometeram contra os egípcios e os impostos abusivos que impuseram à população antiva. Em alguns anos, os tributos chegaram a ser tão abusivos que as famílias se viram forçadas a vender seus filhos como escravos para poder pagá-los. João não deixa de constatar tampouco, com irritação, que numerosos egípcios abandonaram o cristianismo e adotaram o Islam.

João escreve de um ponto de vista monofisista, que contradiz o dogma estabelecido pelo Concílio de Calcedônia no ano 451. Para ele, a invasão de sua pátria é um castigo divino a heresia calcedônia que acometia o Império Romano. Ao final de sua Crônica, descreve a desesperança dos alexandrinos conquistados com as palavras: "Nada podia medir o luto e a lamentação que teve lugar na cidade... E não havia nada que lhes pudesse ajudar, e Deus destruiu suas esperanças e pôs os cristãos nas mãos de seus inimigos".

Outra das passagens mais estudadas da Crônica é a versão que o autor dá para a morte da filósofa Hipátia. Segundo João, Hípátia era uma bruxa que exercia influência nefasta sobre o prefeito Orestes e cujos feitiços punham em perigo a cidade de Alexandria, razão pela qual alguns dos fiéis se viram obrigados a dar-lhe morte. Hipátia foi brutalmente assassinada por monges nitrianos ou pelos parabolani (dependendo das fontes), incitados de forma maquiavélica pelo bispo Cirilo de Alexandria.

Referências[editar | editar código-fonte]

  • R. H. Charles, The Chronicle of John, Bishop of Nikiu: Translated from Zotenberg's Ethiopic Text, 1916. Reprinted 2007. Evolution Publishing, ISBN 978-1-889758-87-9. [1]
  • "La Chronique de Jean de Nikioû", ed. e traduzida do francês por H. Zotenberg em Notices et Extraits des manuscrits de la Bibliothèque Nationale, t. XXIV, I, pp. 125–605 (París, 1883) and also separately (París, 1883). (Versión en la Red en Sitio web Gallica na "Bibliothèque National Française")

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