Johann Friedrich Struensee

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Johann Friedrich Struensee
Johann Friedrich Struensee
Primeiro-ministro da  Dinamarca
Mandato 20 de Março de 1771 até 16 de Janeiro de 1772
Sucessor(a) Frederico da Dinamarca (de jure)
Juliana Maria de Brunswick-Wolfenbüttel (de facto)
Vida
Nascimento 5 de Agosto de 1737
Halle an der Saale, Alemanha
Morte 28 de abril de 1772
Dados pessoais
Profissão Médico

O conde Johann Friedrich Struensee (5 de Agosto de 1737 - 28 de Abril de 1772) foi um médico alemão que se tornou médico pessoal do rei Cristiano VII da Dinamarca que sofria sinais de loucura, e ministro do governo dinamarquês. Subiu até à posição de regente "de facto" do país, onde tentou levar a cabo várias reformas. O seu caso amoroso com a rainha Carolina Matilde causou grande escândalo, principalmente depois do nascimento de uma filha, a princesa Luísa Augusta, e foi catalisador de intrigas e jogos de poder que causaram a sua queda e morte dramáticas. Morreu solteiro.

Educação e Inicio de Carreira[editar | editar código-fonte]

Retrato em miniatura de Struensee.

Nascido em Halle an der Saale e baptizado em Kirche St. Moritz a 7 de Agosto de 1737, Struensee era o terceiro de seis filhos nascidos do teólogo pietista Adam Struensee, doutorado em Teologia pela Universidade de Halle em 1757, pastor em Altona entre 1757 e 1760 e real superintendente geral de Schleswig e Holstein entre 1760 e 1791, e da sua esposa, Maria Dorothea Carl. Os Struensee eram uma respeitável família da classe média que acreditava na tolerância religiosa. Johann e mais dois dos seus irmãos frequentaram a universidade, mas nenhum deles se tornaria teólogo como o pai. Duas das suas irmãs casaram-se com pastores da igreja luterana.

Johann entrou para a Universidade de Halle a 5 de Agosto de 1752, aos quinze anos de idade, onde estudou Medicina e se formou como Doutor a 12 de Dezembro de 1757. A universidade mostrou-lhe os ideais do Iluminismo, assim como à crítica e à reforma. O jovem apoiava estes novos ideais, tornando-se um defensor do ateísmo e dos ensaios de Claude Adrien Helvétius e outros pensadores materialistas franceses.[1]

Quando os pais de Johann se mudaram para Altona em 1758, onde o seu pai se tornou pastor de Marienkirche, o jovem seguiu-os. Pouco depois encontrou emprego como médico público em Altona, na propriedade do conde Rantzau e no distrito de Pinneberg. O seu ordenado era muito modesto, pelo que Johann trabalhava também a título privado para ganhar mais.

Os seus pais voltaram a mudar-se, desta vez para Rendsburg, em 1760, onde o seu pai se tornou primeiro superintendente (uma posição que se pode comparar à de um bispo) do ducado e, eventualmente, superintendente geral de Schleswig-Holstein. Johann, agora com vinte e três anos, passou a viver sozinho pela primeira vez na vida, mas as suas ambições não correspondiam às suas posses económicas. Contudo, a sua grande inteligência e modos elegantes não demoraram a torná-lo conhecido entre os círculos mais altos da sociedade e os seus contemporâneos divertiam-se com as suas opiniões controversas.

Johann era ambicioso e pediu ajuda financeira ao governo dinamarquês através do ministro de negócios estrangeiros, o conde Johann Hartwig Ernst von Bernstorff. Tentou também enveredar pela escrita, chegando a publicar algumas das suas teses sobre o Iluminismo no jornal Zum Nutzen und Vergnügen (Para Beneficio e Entretenimento).

Médico do rei Cristiano VII[editar | editar código-fonte]

O rei Cristiano VII que muitos acreditam ter sofrido de esquizofrenia.

Durante os quase dez anos que passou em Altona, Struensee passou a fazer parte de um circulo de aristocratas que tinham sido expulsos da corte em Copenhaga. Entre eles estavam Enevold Brant e conde Schack Carl Rantzau, líder de um circulo de admiradores do Iluminismo que fizeram de Struensee o seu protegido, conseguindo arranjar-lhe uma posição como o médico de viagem do rei Cristiano VII, com a esperança de que ele conseguisse dar-lhes acesso à corte novamente.

O rei passou os meses de Junho e Julho de 1767 em Schleswig-Holstein na companhia da sua corte e chancelaria. Struensee era um médico inteligente e tendo, até certo ponto, recuperado alguma da saúde do rei enquanto ele estava de visita a esta zona, ganhou o seu respeito. A 5 de Abril de 1768 foi contratado oficialmente como médico de viagem e acompanhou a comitiva do rei durante a sua viagem a Paris e Londres por Hanôver desde 6 de Maio de 1768 a 12 de Janeiro de 1769. Recebeu o título de conselheiro de estado a 12 de Maio de 1768, pouco mais de uma semana depois de deixar Altona. Nesse ano também se tornou doutorado em Medicina pela Universidade de Oxford.

Durante a viagem de nove meses, Struensee criou uma relação próxima com o rei e os seus ministros, Bernstorff e Schimmelmann viam-no como uma boa influência no monarca, apoiando a decisão de o tornar médico pessoal do rei em Janeiro de 1769, depois de regressarem a Copenhaga.

Subida ao Poder[editar | editar código-fonte]

Struensee em 1771.

Uma das primeiras acções de Struensee em Copenhaga foi a de reconciliar o rei e a rainha. A principio, a rainha Carolina Matilde (irmã do rei Jorge III do Reino Unido), não gostava dele, mas sentia-se infeliz no seu casamento, recebendo pouca atenção e sendo rejeitada desdenhosamente pelo rei, assim como afectada pela sua doença. Struensee era uma das poucas pessoas que lhe prestava atenção e, pelas aparências, fazia tudo para a fazer esquecer os seus problemas. Com o tempo, o afecto que a rainha tinha pelo jovem médico começou a aumentar e, na primavera de 1770, ele era já seu amante; a vacinação bem sucedida do príncipe-herdeiro em Maio desse ano fortaleceu ainda mais a sua posição.

Struensee envolveu-se bastante na educação do príncipe-herdeiro, o futuro rei Frederico VI, tendo nela incluído os princípios do Iluminismo, principalmente os que diziam respeito ao regresso à natureza, defendidos por Jean-Jacques Rosseau. Contudo, Struensee tinha a sua própria interpretação, mais rigorosa, dos ideais de Rosseau, tendo isolado o príncipe e encorajando-o a fazer tudo sozinho. Também levou a cabo a ideia de Rosseau de que o frio fazia bem às crianças e o príncipe-herdeiro acabava por ser deixado com pouca roupa durante o inverno.

Struensee foi nomeado conselheiro real a 5 de Maio de 1770 e "Maître des requêtes" a 18 de Dezembro do mesmo ano.

A corte e o governo passaram o verão de 1770 em Schleswig-Holstein.

A 15 de Setembro, o rei dispensou Bernstorff e dois dias depois, Struensee tornou-se conselheiro privado, consolidando assim o seu poder e dando assim inicio a um período de dezasseis meses que ficou conhecido como "A Era de Struensee".

Quando, ao longo desse ano, o rei começou a entrar num período de torpor mental, a autoridade de Struensee tornou-se inquestionável.

Controle do Governo[editar | editar código-fonte]

Johann Friedrich Struensee.

A principio, Struensee foi discreto à medida que começava a controlar a máquina política da Dinamarca. Contudo, em Dezembro, começou a ficar impaciente e, a 8 desse mês, aboliu o conselho de estado, auto-nomeando-se conselheiro de estado. Passou a ser seu dever apresentar todos os relatórios dos vários departamentos de estado ao rei. Visto que este já não conseguia controlar as suas acções, Struensee dava as ordens que quisesse em seu nome.

Depois, dispensou todos os chefes de departamento e aboliu todos os governos noruegueses. A partir de então, o governo, com ele como principal fonte de poder, tornaram-se na autoridade suprema do estado. Outras reformas incluíram a criação de pediatrias, a abolição da pena capital para roubo e de tortura em interrogatórios judiciais (algo que incluía tanto abusos físicos como psicológicos) e o fim das grandes regalias para homens do governo ou pessoas com cargos públicos.

Struensee teve poder absoluto durante dez meses, entre 20 de Março de 1771 e 16 de Janeiro de 1772. Durante este período não publicou menos de 1069 ordens, ou seja, cerca de três por dia. Por este grande número, Struensee foi acusado de ter uma "mania" imprudente por reformas.

Outras criticas dirigidas a Struensee foram as de que não respeitava os costumes dinamarqueses e noruegueses que considerava preconceituosos, e que os queria eliminar por princípios mais abstractos. Também não falava dinamarquês, levando a cabo os seus deveres em alemão. Para se certificar de que as suas ordens eram respeitadas, Struensee dispensou todos os funcionários de departamentos públicos sem lhes oferecer nenhuma compensação, substituindo-os por oficiais mais velhos e experientes, escolhidos a dedo por si, chegando mesmo a nomear homens que não sabiam nada sobre o país que iam governar.

Apesar de o povo dinamarquês gostar das suas reformas a principio, não demorou a virar-se contra ele. Quando Struensee aboliu a censura na imprensa, começaram a chover panfletos contra ele.

Contudo, mesmo apesar dos seus erros, é claro que, pelo menos durante um curto período de tempo, a opinião da classe média em relação a ele era geralmente favorável e, tivesse ele sido mais ponderado, talvez pudesse ter desafiado qualquer oposição ao seu poder. O que mais colocou as pessoas contra ele, foi o facto de colocar o rei completamente de lado, visto que ninguém fora da corte parecia acreditar que Cristiano VII estivesse realmente louco, mas sim apenas enfraquecido por ser tão negligenciado. Esta opinião ganhou mais força quando, a 14 de Julho de 1771, foi publicada uma ordem que dava poder a Struensee de publicar qualquer lei que desejasse sem a necessária aprovação real.

A relação de Struensee com a rainha também era considerada ofensiva pela nação que tinha uma veneração conservadora pela casa de Oldemburgo e o comportamento vergonhoso de Carolina Matilde estava a colocar a coroa numa posição muito enfraquecida. A sociedade que se juntava diariamente em torno do rei e da rainha provocava irrisão entre os embaixadores estrangeiros. O infeliz rei era pouco mais do que um fantoche dentro do seu próprio elemento, mas por vezes ainda conseguia mostrar teimosia, recusando-se a aprovar as leis de Brant ou de Struensee. Em certa ocasião, quando o rei ameaçou o seu criado pessoal, Brant, com bastante impertinencia, acabou numa luta com ele, durante a qual lhe acabaria por dar um golpe na cara.

Queda[editar | editar código-fonte]

A situação atingiu o seu ponto mais negativo durante o inverno de 1771. Struensee fez de si e de Brant condes a 30 de Novembro desse ano, mas a sua posição continuava a ser muito precária, visto que a dispensa de vários oficiais do governo durante as suas reformas administrativas tinham-lhe arranjado vários inimigos. Nesta altura, o descontentamento com o governo tinha também passado para a população.

O rei, a rainha, Struensee e Enevold Brant, juntamente com a corte real, passaram o verão de 1771 no Palácio de Hirschholm, a norte de Copenhaga e ficaram lá até ao final do outono. A 7 de Julho, a rainha deu à luz uma menina, a princesa Luísa Augusta e foi publicada uma proclamação que ordenava que todas as igrejas rezassem um Te Deum em sua honra.

A corte mudou-se novamente para o Palácio de Frederiksberg a 19 de Novembro.

O descontentamento geral em relação a Struensee, que se tinha fortalecido ao longo do outono de 1771, encontrou expressão numa conspiração secreta contra ele, liderada por Rantzau-Ascheburg em nome da rainha-viúva Juliana Maria, que estava disposta até a retirar poder ao rei para, assim, assegurar a posição do seu único filho.

A corte mudou-se para o Palácio de Christiansborg a 8 de Janeiro de 1771. O primeiro baile de máscaras da temporada realizou-se no teatro da corte a 16 de Janeiro.

No inicio da manhã de 17 de Janeiro de 1771, Struensee, Brandt e a rainha Carolina Matilde foram presos nos seus respectivos quartos e a libertação do rei, que levado numa carruagem de ouro num passeio por Copenhaga, foi recebida com grande alegria. A principal acusação contra Struensee foi a de que ele tinha usurpado a autoridade real, indo assim contra a lei real. Struensee defendeu-se com bastante habilidade e, a principio, confiante de que a acusação não se atreveria a envolver a rainha, negou que o seu caso tivesse tido segundas intenções. A rainha foi levada como prisioneira para o Castelo de Kronborg.

Na madrugada de 27 para 28 de Abril, Struensee e Brant foram condenados primeiro a perder as mãos direitas e depois a serem decapitados. Posteriormente, os seus corpos seriam arrastados por uma carroça e esquartejados. Uma sentença de morte era a última coisa que Struensee esperava. A lei da corte não fazia menção das atitudes a tomar caso o monarca se revelasse incapaz de governar, por isso Struensee foi condenado por ser um plebeu a usurpar a autoridade real o que, segundo a mesma lei, era uma ofensa capital. O facto de outros o terem feito antes sem sofrer repercussões não teve qualquer importância.

Struensee esperou a sua execução em Kastellet, Copenhaga. As sentenças foram levadas a cabo a 28 de Abril de 1772 e Struensee (35 anos) foi o primeiro a ser executado.

Referências

  1. Jonathan Israel, A Revolution of the Mind, Princeton University Press, 2010, p.76. ISBN 978-0-691-14200-5.