Jornada dos Vassalos

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"Planta da restituição da Bahia" do atlas Estado do Brasil, João Teixeira Albernaz, o Velho, 1631
"Planta da restituição da Bahia" de João Teixeira Albernaz: detalhe
"Jornada dos Vassalos da Coroa de Portugal" (Benedictus Mealius Lusitanus, 1625): em primeiro plano, a Armada Luso-Espanhola.
"La Recuperación de Bahía (Juan Bautista Maíno, 1635).

Jornada dos Vassalos é a denominação dada à expedição de uma poderosa armada luso-espanhola, enviada em 1625 pela Corte de Espanha para reconquistar Salvador da Bahia, então capital do Estado do Brasil, no contexto da primeira das invasões holandesas do Brasil.

Constituiu-se na maior Armada até então enviada ao hemisfério sul, integrada por cinquenta e dois navios, transportando quase quatorze mil homens, sob o comando de D. Fadrique de Toledo Osório, Capitão Geral da Armada do Brasil. Esses navios bloquearam o porto de Salvador, obtendo a rendição holandesa, e a sua retirada a 1 de Maio desse ano.

História[editar | editar código-fonte]

Em 1624 a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (WIC), criada em 1621, havia atacado a capital do Estado do Brasil, esperando com isso assenhorear-se da Região Nordeste e seu açúcar. Na ocasião. o Governador Geral, Diogo de Mendonça Furtado, foi capturado e o governo passou para as mãos de Johan van Dorth. A resistência reorganizou-se a partir do Arraial do rio Vermelho, contendo os invasores no perímetro urbano de Salvador.

No ano seguinte (1625), alarmada com a ameaça da perda da lucrativa produção de açúcar e para pacificar os portugueses, cujo império se vinha reduzindo sob a Dinastia Filipina,[1] a Coroa espanhola enviou uma poderosa armada combinada, sob o comando de D. Fadrique de Toledo Osório, e para a parte portuguesa, do general das armadas da costa de Portugal D. Manuel de Meneses.

Em Portugal haviam sido preparadas expedições de socorro, que precederam a esquadra luso-espanhola. Salvador Correia de Sá e Benevides (1602 — 1688) seguira num comboio de 30 navios comandando a nau Nossa Senhora da Penha de França, com combatentes e mantimentos. No Rio de Janeiro recebera do Governador, seu pai, a incumbência de recrutar homens na capitania de São Vicente antes de rumar à Bahia. Nesta expedição, arriscada diante do domínio neerlandês dos mares, recrutou cerca de 200 homens, embarcados em duas caravelas e três canoas de guerra, e rumou à Bahia.

Na Bahia, tendo chegado poucos dias antes ao campo dos invasores, distinguiu-se na conquista da praça a 1 de Maio de 1625. Na vitória teve também um papel destacado a destreza dos índios arqueiros trazidos por Salvador de Sá dos aldeamentos de jesuítas das Capitanias do Rio de Janeiro e São Vicente.

O enorme gasto da WIC com a fracassada invasão a Salvador foi recuperado quatro anos mais tarde, num audacioso ato de corso quando, no mar do Caribe, o Almirante Piet Heyn, a serviço da WIC, interceptou e saqueou a frota espanhola que transportava o carregamento anual de prata extraída nas colônias americanas, permitindo uma nova invasão, desta vez à Capitania de Pernambuco, que se estendeu de 1630 a 1654.

Os testemunhos do Padre António Vieira, de Frei Vicente do Salvador e de D. Manuel de Meneses, general e cronista-mor[editar | editar código-fonte]

A invasão neerlandesa de 1624-1625 a Salvador teve o testemunho de personalidades como o padre António Vieira. Na Bahia desde os seis anos de idade, ingressara na Companhia de Jesus como noviço em Maio de 1623 e, em 1624, quando da invasão, refugiara-se no interior da capitania onde iniciou a vocação missionária. Estes confrontos terão influenciado a sua posição quanto à questão da Região Nordeste do Brasil.[2]

Frei Vicente do Salvador, aprisionado em Salvador pelos invasores até à sua retomada, terá ouvido a narração dos acontecimentos do próprio Salvador de Sá em 1625, deixando o seu testemunho na sua "Historia do Brazil" (1627.[3]

D. Manuel de Meneses, general da Armada de Portugal capitaneava a parte portuguesa (maioritária) da expediação. Escreveu a sua Relação da Restauração da Bahia em o anno de 1625, que apenas foi editada em 1859, por Francisco Adolfo de Varnhagen "a quem a fortuna deparára o original inedito em Madrid ; e que depois de copiada e por elle conferida, foi enviada ao Instituto historico do Brasil, e por este mandada publicar" (Inocêncio Francisco da Silva): saíu na Revista Trimensal, vol. XXII, pag.357 a 412, e continuada da pag. 526 a 533.

A não publicação da relação duma vitória que na época deu ocasião a muito grandes regozijos (lembremos o quadro de Juan Bautista Maíno : "La recuperación de Bahía", e a peça de teatro de Lope de Vega : "El Brasil restituido"), vitória contada por um dos seus mais importantes capitães, tem algo de estranho : a solução desse enigma encontra-se sem dúvida no que Carlos Ziller Camenietzki e Gianriccardo Grassia Pastore chamaram a "Guerra de tintas" . A publicação da relação de D. Manuel não foi autorisada ; efectivamente esta vitória deu lugar a uma guerra textual entre os portugueses e os espanhois. Lembremos que na época Portugal estava sob dominação espanhola, uma dominação não oficial já que Portugal e Espanha eram dois reinos com um só rei numa configuração denominada de União Pessoal. Mas a dominação era efectiva e os fidalgos portugueses afastados dos lugares de comando essenciais manifestaram-se nessa ocasião, cada campo relevando o seu papel na vitória. D. Manuel não escapava a essa contenda, a sua relação mostrando em várias reflexões a sua frustração e a dos portugueses, por exemplo no momento da redição da Cidade, onde foram os castelhanos autorisados a entrar em primeiro.

O governo da Monarquia Católica percebeu o problema. Diante do andamento da guerra de tintas, o Conselho de Estado de D. Felipe IV não se furtou a tomar medidas voltadas à contenção dos ânimos: "a multiplicação de relações, crônicas e histórias do feito de Salvador foi proibida.[4] "

Partes desta relação encontram-se no artigo sobre D. Manuel de Meneses, assim como uma explicação mais detalhada da Guerra de Tintas.

Notas

  1. John Huxtable Elliott. "The old world and the new 1492-1650". Cambridge University Press, 1992, ISBN 0-521-42709-6
  2. Quando da segunda invasão holandesa ao Nordeste do Brasil(1630-1654), o padre António Vieira defenderia que Portugal entregasse a região às Províncias Unidas, pois gastava dez vezes mais com sua manutenção e defesa do que o que obtinha em contrapartida, além do fato de que os holandeses eram um inimigo militarmente muito superior. Quando eclodiu uma disputa entre Dominicanos (Inquisição) e Jesuítas (catequistas), o religioso, defensor infatigavel dos direitos humanos, da abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos e da abolição da escravatura, critico severo da Inquisição, ver-se-ia enfraquecido pela derrota da sua posição quanto à questão da Região Nordeste do Brasil.
  3. Roberto González Echevarría; Enrique Pupo-Walker. "The Cambridge History of Latin American Literature: Brazilian literature". Cambridge University Press, 1996. ISBN 0-521-41035-5
  4. Assim o declara Stuart Shwartz: "The council of State acted to "prevent the publication before Menezes could publish his". See Consulta, Council of State, April 1623 [sic], British Library, London, Egerton 324, fol. 18".

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bartolomeu Guerreiro. Jornada dos vassalos da coroa de Portugal (1625).
  • BOXER, C. R.. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Editora da Universidade de São Paulo, 1973.
  • BOXER, C. R.. Salvador de Sá and the struggle for Brazil and Angola, 1602-1686. Greenwood Press, 1975. ISBN 0-8371-7411-2
  • JAQUES, Tony. Dictionary of Battles And Sieges. Greenwood Publishing Group, 2006. ISBN 0-313-33536-2