Jurema (bebida)

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Jurema é uma bebida feita com a raiz da árvore do mesmo nome. Os pajés, sacerdotes tupis [carece de fontes?], faziam uma bebida da jurema-branca, que dava sonhos afrodisíacos. Era bebida sagrada, servida em reuniões especiais. Das raízes e raspas dos galhos, os feiticeiros, babalorixás pernambucanos, os mestres do catimbó, os pais-de-terreiro dos candomblé de caboclo na Bahia fazem uso abundante. Até o século XIX beber jurema era sinônimo de feitiçaria ou prática de magia, pelo que muitos índios e caboclos foram presos acusados de praticarem o "adjunto da jurema".

Segundo Carlos Estêvão que visitou os Pancararús de Brejo dos Padres em Taracatú Pernambuco, 1936 [1] O preparo da Jurema ocorre da seguinte forma: Raspada a raiz, para eliminação da terra que, porventura, nela esteja agregada, em seguida é colocada sobre outra pedra e macerada. Quando a maceração está completa, bota-se toda a massa dentro de uma vasilha com água, onde a espreme com as mãos. Pouco a pouco, a água vai-se transformando numa infusão (golda) vermelha e espumosa, até ficar em ponto de ser bebida. Pronta para este fim, dela se elimina toda a espuma, ficando, assim, inteiramente limpa. Ao ficar nesse estado, o mestre cerimônia acende um cachimbo tubular, feito de raiz de jurema, e, colocando-o em sentido inverso, isto é, botando na boca a parte em que se põe o fumo, assopra sobre o líquido que da vasilha fazendo com a fumaça uma figura em forma de cruz e um ponto em cada um dos ângulos formados pelos braços da figura.

Os rituais que incluem a ingestão da bebida preparada com a jurema ainda é praticado por diversos outros remanescentes indígenas no Nordeste do Brasil, apesar do processo de integração à sociedade nacional e do histórico combate pela colonização católica, com os rigores da inquisição e da persegução policial como referido. Podem ser identificadas como etnias sobreviventes às Missões indígenas alguns grupos indígenas que ainda utilizam a Jurema em seus rituais: Kiriris, Tuxás, Pankararé no Nordeste; Tupinambás de Olivença – Sul da Bahia; Atikun, Fulniôs, Xucuru-kiriri em Pernambuco, Kariri-xocó de Alagoas e os Xocós de Sergipe. [2]

Farmacologia & crença[editar | editar código-fonte]

Para entender o efeito da jurema não basta analisar a composição molecular e comparar com as denominadas drogas alucinógenas, é necessário situar-se no contexto de expectativas e formas de uso da substância, ou seja, os mitos ou crenças a seu respeito. Não há dúvidas porém por semelhança dos relatos de seu efeito a identificação deste com as descrições de possessão divina e êxtase religioso ou efeito psicodélico como sugere o nome enteógeno como são classificados.

Segundo Assunção [3] as entidades espirituais identificadas como pertencentes ao universo da "jurema" são caboclos, índios e mestres. Uma caracterização de entidades como "Mestre Carlos" e outros mestres, caboclos e índios como "Pena Branca", "Arranca Toco", "Sultão das matas" e da própria "Cabocla Jurema" são essenciais para compreender o direcionamento desse efeito. Nascimento escrevendo sobre os Kiriris refere-se aos "Encantados" e esboça uma classificação de seus rituais como: "Ouricuri", "Praiás" e "Torés". [4] Um avaliação dessa distinção bem como dos contextos sociais da umbanda e catimbós ou candomblés de caboclo também tem que ser considerada antes de tentar entender seu efeito como ação de alcalóides encontrados nos vegetais utilizados na sua composição tais como o DMT - Dimetiltriptamina ativado ou desativado por distintas combinações farmacológicas.

Por outro lado é também Assunção (o.c.) que pondera que, se um processo de simbolização progressiva que ocorre com a planta jurema e com as demais plantas medicinais substituindo o uso real ao ponto de não mais saber sequer reconhecer, no caso, a jurema verdadeira, como em alguns centros de umbanda, o que justifica a permanência do símbolo Jurema? Segundo ele, nesse processo a umbanda procura absorver o conteúdo simbólico/ sagrado existente na "jurema" e nos catimbós o saber sobre o mundo vegetal suas propriedades e o poder tradicional de cura.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Jurema-preta (Mimosa hostilis)

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Carlos Estêvão. Bebendo jurema ou a festa do ajucá in: CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed. SP, Livraria Martins, 1954, v.2, p.512-514 Disponível em: Jangada Brasil Nov. 2011
  2. Martins, Silvia A.C. Shamanism as focus of knowledge and cure among the Kariri-Shoco. in: Almeida, Luiz Sávio de; Galindo, Marcos; Elias, Juliana Lopes. Índios do nordeste (temas e problemas 2). AL UFAL...Disponível no Google Livros
  3. Assunção, Luiz. O reino dos mestres, a tradição da jurema na umbanda nordestina. RJ, Pallas, 2006
  4. Nascimento, Marco Tromboni de S.. O tronco da Jurema, ritual e etnicidade entre os povos indígenas do nordeste – o caso kiriri. Salvador, Bahia, UFBA Dissertação de Mestrado em Sociologia, 1994

Ligações externas[editar | editar código-fonte]