Kültepe

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Wiki letter w.svg
Por favor melhore este artigo ou secção, expandindo-o. Mais informação pode ser encontrada no artigo «Kültepe» na Wikipédia em francês e também na página de discussão. (janeiro de 2011)

Kültepe ("colina de cinzas" em turco), também chamada Kiiltepe é uma aldeia situada junto à antiga cidade de Kaneš, Kaniş ou Kanesh (em hitita: Neša ["Nexa"] ou Anisa), situada a cerca de 20 km a nordeste de Kayseri, na província do mesmo nome, na Região da Anatólia Central.

História[editar | editar código-fonte]

Vaso cerâmico de fruta hitita do primeiro quarto do 2º milénio a.C. encontrado em Kültepe. Do acervo do Museu das Civilizações da Anatólia (Anadolu Medeniyetleri Müzesi), em Ancara.

Kaneš foi habitada continuamente desde o Calcolítico até ao período romano, mas floresceu principalmente durante os períodos hatita, hitita e hurrita, durante os quais incluía um importante kârum (colónia ou bairro comercial) assírio, o qual existiu entre os séculos XX e XVI a.C. Uma história datada de cerca de 1 400 a.C. menciona um rei de Kaneš chamado Zipani que, juntamente com outros 16 reis de cidade-estado vizinhas, se revoltou contra o rei da Acádia, Naram-Sin (c. 2 254-2 218 a.C.).[1]

Foi em Kültepe que foram encontrados os vestígios mais antigos da língua hitita e e primeira prova da língua indo-europeia, datadas do século XX a.C.. O termo nativo para a língua hitita era nešili ("língua de Neša").

Kaneša[editar | editar código-fonte]

O rei de Zalpuwa (ou Zalpa), Uhna, saqueou Kaneš, roubando o ídolo da cidade, "Sius". O rei de Kussara, Pithana (ou Pittkhana) conquistou o que é atualmente o "nível Ia Neša" da estação arqueológica "durante a noite pela força, mas não fez mal a ninguém da cidade". Neša revoltou-se contra o governo do filho de Pithana, Anitta, mas este esmagou a revolta fez de Neša a sua capital. Anitta invadiu depois Zalpuwa, aprisionando o rei Huzziya e recuperou o ídolo Sius, que levou de volta para Neša.[2]

No século XVII a.C., os descendentes de Anitta transferiram a sua capital para Hattusa (que Anitta tinha amaldiçoado), fundando a dinastia dos reis hititas, os quais chamavam à sua língua nešili ("língua de Neša").

Arqueologia[editar | editar código-fonte]

Figura de terracota em forma de leão do período 1 860-1 780 a.C. Em exposição no Palácio da Legião de Honra em São Francisco (Califórnia).
Ríton (vaso ritual) em forma de barco.

Em 1925 Bedric Hrozny escavou a área do kârum, descobrindo mais de mil tábuas com escrita cuneiforme, algumas das quais foram para Praga e outras para Istambul.[3] [4] Os trabalhos arqueológicos modernos iniciaram-se em 1948, quando Kültepe foi escavada por uma equipa da Sociedade Histórica Turca e a Direção Geral de Antiguidades e Museus, chefiada por Tahsin Özgüç até à sua morte em 2005.[5]

  • Níveis IV e III — Estes níveis foram pouco escavados. Correspondem às primeiras habitações, não tendo sido descobertos vestígios de escrita, o que leva os arqueólogos a assumir que os seus habitantes eram analfabetos.
  • Nível II, 1 974-1 836 a.C. (Cronologia Mesopotâmica segundo Veenhof) — Os artesãos de Kültepe deste período especializaram-se em vasos de barro com a forma de animais, com frequência destinados a usos religiosos rituais. Durante este período, comerciante assírios estabeleceram uma colónia (kârum), anexa à cidade, à qual chamaram Kaneš. Foram encontradas bullae (selos) de Naram-Sin (ou Naram-Suen) de Eshnunna na parte final deste nível, o qual foi completamente queimado no passado.
  • Nível Ib, 1 798-1 740 a.C. — Depois de um intervalo em que foi abandonada, a cidade foi reconstruída sobre as ruínas da antiga, e voltou a ser um próspero centro comercial. O comércio estava sob o controlo de Ishme-Dagan, o qual governou Assur depois da conquista de dessa cidade mesopotâmica e de Ekallatum pelo seu pai, Samsiadade I. No entanto, a colónia voltaria a ser destruída pelo fogo.
  • Nível Ia — A cidade voltou a ser habitada, mas isso não aconteceu com a colónia assíria. A cultura era hitita primitiva. O nome da cidade em hitita passou a ser "Kaneša", mas usualmente era contraída para "Neša".

Alguns atribuem o incêndio do Nível II à conquista da cidade de Assur pelos reis de Eshnunna, mas Bryce atribui-o ao saque de Uhna. Alguns atribuem o incêndio do Nível Ib à queda de Assur para os reinos vizinhos ou talvez para Hamurabi da Babilónia.

No total foram descobertas mais de 200 000 tábuas com escrita cuneiforme nas escavações.[6] [7]

Kârum Kaneš[editar | editar código-fonte]

Ríton (vaso ritual) do período hitita (século XIX a.C.), do acervo do Museu das Civilizações da Anatólia (Anadolu Medeniyetleri Müzesi), em Ancara.

O bairro da cidade com maior interesse para os historiadores é o Kârum Kaneš (cidade-colónia mercantil de Kaneš na língua acádia usada pelos assírios). Durante a Idade do Bronze, o Kârum era uma parte da cidade destinada aos primeiros mercadores assírios pelas autoridades locais, os quais aí podiam desenvolver as suas atividades isentos de impostos, desde que as mercadorias permanecessem no Kârum. O termo kârum significa "porto" em acádio, a língua franca daqueles tempos, mas o seu significado foi ampliado para para se referir a qualquer colónia mercantil, quer fosse à beira de água ou não.

Diversas outras cidades da Anatólia tinham kârum, mas nenhum tão grande como Kaneš. Esta importante colónia era habitada por soldados e mercadores da Assíria durante centenas de anos, os quais trocavam o estanho e a locais por bens de luxo, comida, especiarias e tecidos, tanto da Assíria como de Elam.

As ruínas do kârum formam um grande monte circular (um tell) com 500 m de diâmetro e cerca de 20 m de altura acima da planície. O sítio do assentamento é o resultado de diversos períodos estratigráficos sobrepostos. Os edifícios novos eram construídos sobre as ruínas dos anteriores, pelo que existe uma profunda estratigrafia desde os tempos pré-históricos até aos primeiros tempos hititas.

O kârum foi destruído pelo fogo no fim dos níveis II e Ib. Os habitantes deixaram a maior parte das suas posses para trás, as quais foram encontradas pelos arqueólogos modernos.

Os achados incluíram um elevado número de tábuas de barro cozido, algumas delas dentro de envelopes igualmente de cerâmica carimbados com selos cilíndricos. Os documentos registam atividades comuns como comércio a contratos legais, o comércio entre a colónia e a cidade-estado de Assur, bem como o comércio entre o mercadores assírios e os locais. O comércio era gerido por famílias, não pelo governo da Assíria. Os textos de Kültepe são os escritos mais antigos encontrados na Anatólia. Embora os textos tenham sido escritos em assírio antigo (acádio), as palavras hititas que neles se encontram constituem o registo mais antigo de uma língua indo-europeia. A maior parte dos achados arqueológicos são típicos da Anatólia e não da Assíria, mas o uso da escrita cuneiforme e do dialeto usado são indicações seguras da presença assíria.

Datação do Waršama Sarayi[editar | editar código-fonte]

No Nível II, a destruição foi de tal modo completa que não restou qualquer resto de madeira que permita levar a cabo estudos dendrocronológicos. Em 2003, investigadores da Universidade Cornell dataram madeira do Nível Ib do resto da cidade (construído séculos antes). Os dendrocronologistas calcularam que a maior parte da madeira do chamado Waršama Sarayi (Palácio Waršama) foi construído em 1 832 a.C., tendo no entanto havido obras posteriores até 1 779 a.C.[8]

Notas[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Özgüç, Tahsin. Kültepe: Kaniš / Neša. [S.l.]: Yapi Kredi, 2005. ISBN 9750809602.
  • Veenhof, K. R. Kanesh: an Old Assyrian colony in Anatolia. In Sasson, J. (ed.). Civilizations of the Ancient Near East (em <Língua não reconhecida>). [S.l.]: Scribners, 1995.

Referências

  1. Bryce, Trevor. The Kingdom of the Hittites (em <Língua não reconhecida>). 10. ed. [S.l.: s.n.], 2005.
  2. Kimball, Sara E.; Slocum, Jonathan (15 de fevereiro de 2007). Hittite Online - Lesson 1 (em inglês) Linguistics Research Center. The College of Liberal Arts. Universidade do Texas em Austin. Visitado em 4 de janeiro de 2011. Cópia arquivada em 1 de maio de 2008.
  3. Lewy, Julius. Die altassyrischen Texte vom Kültepe bei Kaisarije (em <Língua não reconhecida>). Istambul: [s.n.], 1926.
  4. Donbaz, Veysel. Keilschrifttexte in den Antiken-Museen zu Stambul 2 (em alemão). [S.l.]: Freiburger Altorientalische Studien, 1989.
  5. Özgüç, Tahsin. The Palaces and Temples of Kultepe-Kanis/Nesa. [S.l.]: Turk Tarih Kurumu Basimevi, 1999. ISBN 9751610664.
  6. Bilgic, E.; Bayram, S.. Ankara Kultepe Tabletleri II. [S.l.]: Turk Tarih Kurumu Basimevi, 1995. ISBN 9751602467.
  7. Veenhof, K. R.. Ankara Kultepe Tabletleri V. [S.l.]: Turk Tarih Kurumu, 2010. ISBN 9789751622358.
  8. Newton, Maryanne W.; Kunmolm, Peter Ian (2004). A Dendrochronological Framework for the Assyrian Colony Period in Asia Minor (pdf) (em inglês) www.arts.cornell.edu Universidade Cornell. Visitado em 4 de janeiro de 2011. Cópia arquivada em 27 de setembro de 2007.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Kanes