Kautilya

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Kautilya (ca. 350 a.C.283 a.C.), também chamado de Chanakya ou Vishnugupta,[1] foi um estadista e filósofo indiano que viveu por volta do século III a.C., tendo sido primeiro-ministro do Rei Chandragupta, da dinastia dos mauryas.[2]

É o autor do clássico tratado político denominado "Arthashastra" (traduzido para o inglês em 1929). Chanakya é também conhecido pelos seguintes nomes: Kautilya, Visnugupta, ou Canakya. Nascido no seio da casta Brahman (a mais alta classe da sociedade hindu), recebeu sua educação em Taxila. Seu pensamento e seu tratado são considerados verdadeiras antecipações das idéias de Maquiavel, conforme expostas em "O Príncipe".[3]

O "Arthashastra" é (segundo o seu tradutor para o português, Sérgio Bath) "um guia absolutamene prático e instrumental, que não teoriza nem densenvolve sobre premissas de filosofia política, mas ensina a organizar e a administrar a máquina estatal com notável frieza e objetividade". A obra (escrita entre 321 e 300 a. C. e redescoberta apenas em 1909) compila quase tudo o que já havia sido escrito na Índia, quanto à chamada "artha": economia, prosperidade material e riqueza.

Identidade[editar | editar código-fonte]

Ele é geralmente chamado Chanakya (derivado do nome de seu pai "Chanak"),[4] mas, na sua qualidade de autor do Arthaśhāstra, é geralmente referido como Kautilya, derivado de seu nome de sua gotra (linhagem hindu) "Kotil" (Kautilya significa "de Kotil"). Ele foi o mestre sagaz da diplomacia. Acreditava em quatro caminhos, ou seja, tratar com igualdade, sedução, punição ou guerra e disseminação da dissensão.[5] O Arthaśhāstra identifica o seu autor pelo nome Kautilya,[6] exceto em um verso que se refere a ele pelo nome Vishnugupta .[7] Uma das primeiras literaturas em sânscrito a identificar explicitamente Chanakya com Vishnugupta foi o Panchatantra de Vishnu Sarma no século III a.C.[8]

K.C. Oliveira alega que a identificação tradicional de Vishnugupta com Kautilya foi causada por uma confusão do editor e criador e sugere que Vishnugupta era um redator da obra original de Kautilya.[6] Thomas Burrow vai ainda mais longe e sugere que Chanakya e Kautilya podem ter sido duas pessoas diferentes.[9]

O papel de Kautilya na formação do Império Maurya é a essência do romance histórico-espiritual A Cortesã e o Sadhu, de autoria do Dr. Mysore N. Prakash.[10] .

Obras[editar | editar código-fonte]

Dois livros são atribuídos a Chanakya: Arthashastra e Neetishastra, que também é conhecido como Chanakya Niti. O Arthashastra discute políticas monetária e fiscal, seguridade social, relações internacionais e estratégias de guerra em detalhes. Neetishastra é um tratado sobre a maneira ideal de vida, e mostra estudo aprofundado de Chanakya sobre o modo de vida indiano. Chanakya também desenvolveu Neeti-Sutras (aforismos - frases concisas) que mostra às pessoas como elas devem se comportar. Destes bem conhecidos 455 sutras, cerca de 216 referem-se a raaja-Neeti (o que fazer e não fazer na administração de um reino). Aparentemente, Chanakya usou estes sutras para preparar Chandragupta e outros discípulos selecionados na arte de governar um reino.

Lenda[editar | editar código-fonte]

Moeda de prata do Império Máuria, com símbolos da roda e do elefante. Século III a. C.

Thomas Trautmann enumera os seguintes elementos comuns às diferentes formas da lenda de Chanakya[11] :

  • Chanakya nasceu com um conjunto completo de dentes, um sinal de que ele iria se tornar rei, o que é inadequado para um brâmane como Chanakya. Os dentes de Chāṇakya foram quebrados e, portanto, foi profetizado que ele iria governar por meio de outro.
  • O rei Nanda expulsa Chanakya de sua corte, levando-o a jurar vingança.
  • Chanakya procura por alguém digno para governar. Chanakya encontra um jovem Chandragupta Maurya que é um líder nato, mesmo quando criança.
  • A primeira tentativa de Chanakya de derrubar Nanda falha, quando então ele se depara com uma mãe repreendendo seu filho por se queimar ao comer o centro do pão ou tigela de sopa em vez da ponta mais fria. Chāṇakya percebe seu erro estratégico inicial e, em vez de atacar o coração do território Nanda, lentamente ataca por suas bordas.
  • Chanakya mudou sua aliança com o rei montanhês Parvata devido à sua teimosia e não-adesão aos princípios do tratado, tal como acordado.
  • Chanakya recruta os serviços de um tecelão fanático para livrar o reino dos rebeldes.
  • Chanakya adiciona veneno aos alimentos consumidos por Chandragupta Maurya, agora rei, a fim de torná-lo imune. Desconhecendo o fato, Chandragupta oferece alguns de seus alimentos para a sua rainha, que está no nono mês de gravidez. A fim de salvar o herdeiro do trono, Chanakya corta a rainha e extrai o feto, que é chamado Bindusara, porque ele foi tocado por uma gota (bindu) de sangue com veneno.
  • A rivalidade política de Chanakya com Subandhu leva-o à morte.

Versão jainista[editar | editar código-fonte]

De acordo com o relato jainista[12] Chanakya nasceu na aldeia de Caṇaka no distrito Golla, filho de Caṇin e Caṇeśvarī, um casal maga brâmane.[11]

Morte de Chanakya[editar | editar código-fonte]

Chanakya viveu até uma idade avançada e morreu por volta de 283 a.C. e foi cremado pelo seu discípulo Radhagupta, que sucedeu Rakshasa Katyayan (bisneto de Prabuddha Katyayan, que atingiu o Nirvana durante o mesmo período que Siddhartha Gautama) como primeiro-ministro do Império Máuria e foi fundamental na volta de Ashoka ao trono.

Havia três caminhos de fé não-tradicionais na sociedade daqueles dias: jainistas, budistas e ajivakas. As práticas ajivaka de Chanakya provocaram a queda de Nanda e seus ministros. Mais tarde, o Chandragupta Máuria converteu-se ao jainismo e abdicou de seu trono, que passou a seu filho Bindusara, que era um ajivaka. Até mesmo Ashoka, que praticava o ajivaka, tornou-se budista antes de assumir o trono. Bindusara nasceu antes de seu pai se tornar imperador, o que comprovaria que a lenda sobre o seu nascimento não é verdade.[carece de fontes?] A filha de Ashoka casou-se em 265 a.C. e seu filho Kunala tinha 18 anos de idade em 269 a.C., o que significa que mesmo que os príncipes se casassem cedo, Ashoka nasceu em 310 a.C. e Bindusara por volta de 330 a.C. Bindusara significa aquele que engloba tudo o que precisa ser conhecido.

Mais tarde, o ajivikismo, que era a religião oficial do império desde a Guerra Kalinga (261 a.C.) e por 14 anos depois, declinou e fundiu-se no hinduísmo tradicional. O que restou é uma mistura de lendas budistas e jainistas conflitantes que são rejeitadas por crônicas cingaleses.

Sobre o nascimento de Bindusara, Chanakya adicionava veneno para os alimentos consumidos pelo rei Chandragupta Maurya, a fim de torná-lo imune. Desconhecendo o fato, Chandragupta oferece alguns de seus alimentos para a sua rainha, que está no nono mês de gravidez. A fim de salvar o herdeiro do trono, Chanakya corta a rainha e extrai o feto, que vai se chamar Bindusara.

Quando Bindusara chegou à juventude, Chandragupta renunciou ao trono e seguiu o santo jainista Bhadrabahu até a atual Karnataka, estabelecendo-se em um lugar conhecido como Shravana Belagola. Ele viveu como um asceta por alguns anos e morreu de inanição voluntária, segundo a tradição jainista.

Chanakya entretanto, permaneceu como o administrador de Bindusara. Bindusara também teve um ministro chamado Subandhu que não gostava de Chanakya. Um dia ele disse a Bindusara que Chanakya foi responsável pelo assassinato de sua mãe. Bindusara perguntou às enfermeiras, que confirmaram a história e ele ficou muito irritado com Chanakya.

Diz-se que Chanakya, ao ouvir que o imperador estava zangado com ele, pensou que de qualquer modo sua vida estava no final. Doou toda a sua riqueza aos pobres, viúvas e órfãos e sentou-se num monte de estrume, preparando-se para morrer por abstinência total de alimentos e bebidas. Bindusara, entretanto, ouviu das enfermeiras a história completa de seu nascimento e correu para implorar o perdão de Chanakya. Mas Chanakya não mudaria de ideia. Bindusara voltou e descarregou sua fúria sobre Subandhu, matando-o.

Depois deste incidente, Chanakya renunciou aos alimentos e morreu pouco depois. Bindusara reverenciou Chanakya e a perda de seu assessor foi um considerável golpe para ele.

Referências

  1. Kautilya. Encyclopædia Britannica. Página visitada em 28/02/2010.
  2. Enciclopédia Britrânica e "Conselhos aos Governantes", Edições do Senado Federal, Volume 15, Brasília, 2003, pp. 78 e 83 usque 85.
  3. "Conselhos aos Governantes", Edições do Senado Federal, Volume 15, Brasília, 2003, pp. 78 e 83 usque 85.
  4. Trautmann, Thomas R.. Kautilya and the Arthaśhāstra: A Statistical Investigation of the Authorship and Evolution of the Text. Leiden: E.J. Brill, 1971. 10 p.
  5. Trautmann 1971:10 "enquanto que em seu caráter como autor de um arthaśhāstra ele é normalmente referido pelo nome de sua gotra, Kautilya."
  6. a b Mabbett, I. W.. (April 1964). "The Date of the Arthaśhāstra". Journal of the American Oriental Society 84 (2): 162–169. DOI:10.2307/597102. ISSN 0003-0279.
  7. Mabbett 1964
    Trautmann 1971:5 "o último verso do trabalho ... é o único caso onde é usado o nome pessoal Vishnugupta em vez do nome de sua gotra Kautilya no Arthaśhāstra.
  8. Mabbett 1964: "Referências aos trabalhos em outras literaturas sânscritas referem-se de forma variada a Vishnugupta, Chanakya e Kautilya. Entende-se que se trata do mesmo indivíduo em cada caso. O Pańcatantra identifica explicitamente Chanakya com Vishnugupta."
  9. Trautmann 1971:67 'T. Burrow ("Cāṇakya e Kauṭalya", Annals of the Bhandarkar Oriental Research Institute 48–49 1968, p. 17 ff.) tem mostrado agora que Cāṇakya também é um nome gotra, que em conjunto com outras provas, deixa claro que estamos lidando com duas pessoas distintas, o ministro Cāṇakya da lenda e Kauṭilya, o compilador do Arthaśāstra. Além disso, este lança o balanço das evidências em favor da opinião de que o segundo nome foi originalmente grafado Kauṭalya e que, após o compilador do Arthaśāstra ser identificado com o ministro maurya, foi alterado para Kautilya (como aparece no Āryaśūra, Viśākhadatta e Bāna) por causa do trocadilho. Devemos então supor que a grafia posterior substituiu a inicial nas listas de gotra e em outros lugares.'
  10. The Courtesan and the Sadhu, A Novel about Maya, Dharma, and God, October 2008, Dharma Vision LLC.,ISBN: 978-0-9818237-0-6, Library of Congress Control Number: 2008934274
  11. a b Trautmann 1971:"The Chāṇakya-Chandragupta-Kathā"
  12. o Pariśiṣṭa Parvan por Hemacandra
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