Língua occitana

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Occitano (occitan)
Falado em: França, Espanha
Região: Europa
Total de falantes: de 0,5 a 10 milhões 1
Posição: 22
Família: Indo-Europeu
 Itálico
  Românico
   Ítalo-ocidental
    Galo-ibérico
     Galo-românico
      Occitano-românico
       Occitano
Estatuto oficial
Língua oficial de: Vale de Arão e Catalunha
Regulado por: Congrès Permanent de la Lenga Occitana2
Códigos de língua
ISO 639-1: oc (desde 1500) / pro (antes de 1500)
ISO 639-2: ---
Dialetos do Occitano
Occitania (em occitano)

A língua occitana, também chamada occitânica, langue d'oc, occitano ou provençal (em francês, langue d'oc; em occitano, lenga d'òc), é uma língua românica falada no sul da França (ao sul do rio Loire), assim como em alguns vales alpinos na Itália e no Val d'Aran, na Espanha.

O nome da língua vem de òc, a palavra occitana para sim, em contraste com oïl, (o ancestral do francês moderno oui), em francês do norte — a langue d'oïl. A palavra òc provém do latim hoc, enquanto oïl se origina da voz latina hoc ille. A palavra occitano é derivada da região histórica da Occitânia, que por sua vez é derivada de Aquitânia, uma antiga região administrativa do Império Romano.

Línguas ou dialetos?[editar | editar código-fonte]

O uso corrente do termo occitano parece ser um tanto ou quanto confuso. Alguns autores consideram que occitano é uma família de línguas, a qual inclui:

que são vistas como línguas distintas. O bearnês (béarnais) e o aranês (aranés) são dialetos do gascão.

Mapa cronológico mostrando o desenvolvimento das línguas do sudoeste da Europa entre as quais o occitano.

Muitos linguistas e quase todos os escritores occitanos discordam da ideia de que o occitano seja uma família de línguas, considerando que limusine, auvergnat, gascão, languedociano, provençal e alpino-provençal são dialetos da mesma língua.

Apesar das diferenças destas línguas ou dialetos, a maioria dos falantes conseguem entender os restantes dialetos. O mesmo é aplicável em relação ao catalão, de modo que alguns linguistas consideram o occitano e o catalão como sendo duas variedades da mesma língua.

Em França, occitano é usado para todos os dialetos citados, enquanto provençal é usado para os dialetos falados no sudeste, sendo que o rio Ródano (Ròse em occitano) serve como limite aproximado, com a notável excepção de Nîmes.

A linguística contradiz a crença popular de que o provençal e o occitano são duas línguas separadas, crença esta que pode remontar a Frédéric Mistral. Malgrado o fato de que Mistral foi um republicano, a intenção dos Felibrige era promover um reavivamento da língua provençal, o que ia ao encontro do ideal republicano de reforçar a unidade da França através do uso da língua francesa em detrimento de todas as demais línguas. A afirmação de que o provençal e o occitano eram duas línguas distintas foi proferida provavelmente pelos membros conservadores, com a intenção de evitar a integração dos membros do sudoeste no Felibrige, uma vez que o sudoeste da França fora (e continuou a ser por muito tempo) uma região que apoiou maciçamente a ala esquerdista dos republicanos.

História do occitano[editar | editar código-fonte]

As primeiras tentativas de escrever em occitano foram realizadas, provavelmente, por sacerdotes e monges no século IX. Para despertar interesse pela religião entre a sua gente, compuseram, ou traduziram do latim para a língua vulgar, hinos, contos piedosos, alegorias e lendas de santos. Existe uma tradução anônima ao occitano do começo da obra de Boécio, “A Consolação da Filosofia”, procedente do século X. No final do século XI a poesia occitana teve um forte empuxo graças às Cruzadas, as guerras religiosas, e à aparição das ordens de cavalaria.

Os juramentos de Guilherme IV de Montpellier, prestados em 1059 e os da abadia de Lerins, pouco posteriores, são os primeiros textos em que aparece o vulgar occitano, mas o documento mais antigo escrito por inteiro em occitano é de 1102 e pertence ao território de Rodez. Começa assim:

In nomine Domini nostri iesui Christi. Carta que fecit facere Adfemaro Odo de tota su honore... Tota questa honor qu'aissi es scripja qu'Ademars Odt á et tota l'altra que scripja no es qu'Ademars á, los feusals et las aventuras e las domengaduras c'a ni avenir li devo, assi con aquesta honres scripja es tota ni clerches legir la i pot, assi la dona Ademars Odt a Willemma se filla vocaida, ed at Arnal, fil de Chidenelz, et al(z) efanz c'Arnalz de Guillema aura, essez doas versanas que gadanet de Ramun Passarode...

Tradução:

“Todas estas posses que está escrito que Ademar Odt possui e todas as outras que não está escrito que Ademar possui, os direitos feudais e acidentais e os direitos de domínio que possui ou que lhe devem chegar, assim como estas possessões estão todas escritas e um clérigo as pode ler, assim Ademar Odt as dá a sua filha chamada Guilhermina e a Arnaldo, filho de Chidenilde, e aos filhos que Arnaldo de Guilhermina terá, exceto dois bastardos que tem com empregada de Ramun Passarode...”

A tradução dos capítulos 13 ao 17 do Evangelho de São João parecem remontar ao século XI ainda que o manuscrito que os contêm seja do século XIII; o dialeto tem característica valdense. Eis aqui uma breve mostra:

"XIII, 1. Aván lo día festál della Pásca sabía lo Salvádre que la sóa óra vé que traspásse d'anquést mún au páer. Cum agués amát los sós chi éren el mún, en la fí los amét. 2. E fácha la céna, cum diábles ja agués més eu cór que Júdas lo traís, 3. sabens que lo páer li donéth tótas cháusas a sas más e que de Déu eissit he a Déu vái, 4. léva de la céna e páusa sos vestiméns. E cum ac présa la tóala, preceis s'én. 5. D'aqui aprés més l'áiga en la cóncha e enquéth a lavár los pés déus disciples e estérzer ab la tóalia de que éra céins. 6. Dunc vénc a sáin Péire, e díiss li Péir: "Dóm, tu me lávas los pés?". 7. Respondét li Jesús e díss li: "Zo que eu fáz, tu no sábs aóra, mas póis o sabrás." 8. Díiss li Péir: "Ja no mé lavarás los pés". Respondet li Jesús: "Si éu nót lavarái, non aurás párt ab mé." 9. Díiss li Péir: "Dóm, no solamén los pés, mas neéps las más e lo cháp". 10. Díiss li Jes ús: "Céll chi es lavát non a besóin que láu mas los pés, mas toz és néptes. E vos esz népte, mas no túih."

A literatura occitana era essencialmente poética. Aos escritos em prosa se dava pouca importância; mais tarde, nos séculos XIV e XV, escreveu-se mais em prosa, incluindo trabalhos científicos, jurídicos, filológicos e de outros temas. Não era comum o teatro; as únicas produções, que puderam ser consideradas teatrais, são obras dramáticas de temas piedosos, tais como o Mistério da Paixão e o [[Casamento da Virgem].

A poesia dos trovadores occitanos apareceu no princípio do século XII, com Guilherme IX da Aquitânia, e alcançou sua plenitude expressiva com três poetas que escreveram no final deste século: Bertran de Born, Arnaud Daniel e Guiraut de Bornelh. Em poucas gerações esta poesia deu lugar a uma refinada e elaborada forma artística de técnicas perfeitas, o que levou, no século XIII, a se considerar o occitano como a língua mais apropriada para a poesia lírica.

Nesta poesia, a dama, normalmente aristocrática e casada, e seu amante (o poeta) estão separados por motivos sociais, geográficos ou psíquicos: o poeta, ao cantar seu amor, tenta alcançar um sentimento tranquilizador, ao qual chama de joie (“gozo, felicidade”). A poesia occitana expressa a ética do amor cortês, um amor sensual bastante oposto ao conceito tradicional cristão.

No século XIX houve um movimento de avivamento e normalização do occitano, encabeçado pelo célebre poeta Frédéric Mistral, que criou um dicionário em dois volumes e uma coleção de poemas épicos que lhe deram o Prêmio Nobel de Literatura em 1904. Apesar de seus esforços, o movimento não teve o êxito esperado.

No século XX houve um outro movimento de avivamento e normalização do occitano, encabeçado pelo Institut d'Estudis Occitans, criado em 1945.

Utilização[editar | editar código-fonte]

Utilização na França[editar | editar código-fonte]

Embora hoje o occitano ainda seja a língua quotidiana da maioria da população rural do sul, ela vem sendo substituída nos usos mais formais pelo francês. Hoje há ainda vários milhões de falantes nativos do occitano, que se encontram nas gerações mais antigas. O activismo étnico, particularmente através das pré-escolas occitanas (Calandretas), tem reintroduzido a língua entre os mais jovens.

Utilização fora da França[editar | editar código-fonte]

Algumas colónias occitano-falantes estabeleceram-se no século XIV na Calábria (Itália) e em Vurtemberga (Alemanha), e no século XX , ao sul da província de Buenos Aires (Argentina). O occitano, na forma de gascão, é hoje língua oficial no Vale de Arão.

Características do occitano[editar | editar código-fonte]

Entre os caracteres diacrónicos do occitano enquanto língua românica:

  • Ao contrário do francês, o A acentuado foi preservado (latim mare > oc. mar, mas fr. mer).
  • Assim como o francês, o U latino transformou-se em [y], e houve mudança na série de vogais anteriores: u > y, o > u, ɔ > o.
  • O gascão trocou o F inicial latino pelo [h] aspirado (lat. filiu > gasc. oc. hilh), como ocorrido com o espanhol medieval (o gascão e o espanhol estiveram sob influência basca).
  • Outros fenómenos lenitivos e de palatalização são compartilhados com outras línguas românicas ocidentais, especialmente com o catalão, seu parente mais próximo (parte das línguas occitano-românicas).

Ortografia do occitano[editar | editar código-fonte]

Há duas ortografias actualmente em uso para o occitano, uma (conhecida como clássica) baseada no occitano medieval e outra (às vezes referida como mistraliana, devido ao seu uso pelos Felibres, incluindo Mistral) fundada na ortografia do francês moderno. Verifica-se algum conflito entre os usuários de cada sistema.

A ortografia clássica tem a vantagem de manter um vínculo com os estágios primitivos da língua, e reflete o facto de o occitano não ser uma variante do francês. Permite também que os falantes de um dialeto do occitano escrevam de modo inteligível para os falantes de outros dialetos (p. ex. a palavra occitano para dia é escrita jorn na ortografia clássica, mas poderia ser jour, joun ou journ, dependendo da região de origem do escritor, na ortografia mistraliana).

A ortografia mistraliana apresenta como vantagem o facto de não obrigar os falantes do occitano - que já são (como geralmente é o caso) alfabetizados em francês - a aprender um sistema completamente novo. Ela tem sido usada por vários escritores eminentes, particularmente provençais.

Os dígrafos lh e nh, usados na ortografia clássica, são também usados na língua portuguesa.

Tabela de vocabulário[editar | editar código-fonte]

Esta tabela compara o occitano com outras línguas românicas.

Latim Italiano Francês Occitano (linguadociano) Catalão (Central) Espanhol Português Romeno
clavem chiave clef clau clau llave chave cheie
noctem notte nuit nuèit/nuèch nit noche noite noapte
cantare cantare chanter cantar cantar cantar cantar cânta
capram capra chèvre cabra cabra cabra cabra capra
linguam lingua langue lenga llengua lengua língua limbă
plateam piazza place plaça plaça plaza praça piaţă
pontem ponte pont pònt pont puente ponte pod
ecclesiam chiesa église glèisa església iglesia igreja biserică
hospitalem ospedale hôpital espital hospital hospital hospital spital
caseum (vulgar: formaticum) formaggio fromage formatge formatge queso queijo brânză

Verbos[editar | editar código-fonte]

Tem quatro tempos no Indicatiu (Indicativo): Imperfach (Pretérito imperfeito), Preterit (Pretérito perfeito), Futur (Futuro do presente) e Present (Presente); dois no Subjonctiu (Subjuntivo): Imperfach (Pretérito imperfeito) e Futur (Futuro do presente); somente o Present (Presente) dentre o Condicional (Condicional) e três pessoas em só um tempo no Imperatiu (Imperativo): 2º do singular e 1º e 2º do plural.

Todos tempos, fora o imperativo, se encontram com as seis pessoas normais, totalizando 45 conjugações em 8 tempos em 4 modos.

Citações em occitano[editar | editar código-fonte]

Uma das mais notáveis passagens do occitano na literatura ocidental ocorre no 26º canto do Purgatório de Dante, no qual o trovador Arnaut Daniel responde ao narrador:

«Tan m'abellis vostre cortes deman, / qu'ieu no me puesc ni voill a vos cobrire. / Ieu sui Arnaut, que plor e vau cantan; / consiros vei la passada folor, / e vei jausen lo joi qu'esper, denan. / Ara vos prec, per aquella valor / que vos guida al som de l'escalina, / sovenha vos a temps de ma dolor»

Tradução:

Assim me agrada teu pedido cortês / Não posso e não irei me esconder de ti. / Sou Arnaut, que chora e vai cantando / Constrito vejo a loucura passada, / e vejo contente o dia que espero, adiante. / Agora vos peço, por aquele valor / que vos guia ao topo da escada, / que estejais cientes de minha dor!

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Des langues romanes, Jean-Marie Klinkenberg, Duculot, 1994, 1999, p. 228: O número de falantes é estimado de 10 a 12 milhões... em qualquer caso nunca abaixo de 6 milhões.
  2. Congrès permanent de la langue occitane / Congrès permanent de la lenga occitana - Un nouvel organisme de régulation de l’occitan au service des usagers et des locuteurs

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]