Lenda Dourada

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A história de São Jorge e o dragão é uma das muitas histórias sobre santos preservadas na Lenda Dourada.

A Lenda Dourada ou Legenda Áurea (em latim: Legenda aurea ou Legenda sanctorum) é uma coletânea de narrativas hagiográficas reunidas por volta de 1260 d.C. pelo dominicano e futuro bispo de Gênova Jacopo de Varazze e que se tornou um sucesso durante a Idade Média[1] .

Um sucesso medieval[editar | editar código-fonte]

Inicialmente intitulada Legenda sanctorum ("Leituras sobre Santos"), ela ganhou sua popularidade sob o título que hoje é mais conhecida, acabaria por se sobrepor e eclipsar as compilações anteriores de legendaria editadas, a Abbreviatio in gestis et miraculis sanctorum — atribuída a Jean de Mailly — e a Epilogus in gestis sanctorum, do pregador dominicano Bartolomeu de Trent. Mais de oitocentas [2] cópias do manuscrito sobreviveram e, quando a impressão foi inventada na década de 1450, edições apareceram rapidamente, não apenas em latim, mas também em todas as línguas europeias mais faladas. Entre os incunábulos, impressos antes de 1500, há mais edições da Legenda do que da Bíblia[3] .

Etimologias imaginativas[editar | editar código-fonte]

O livro buscou compilar o folclore tradicional sobre os santos venerados na época de sua compilação. Jacobus de Voragine tipicamente começa com uma (frequentemente imaginativa) etimologia para o nome do santo. Um exemplo, mostra o método:

Silvestre diz-se de sile ou sol, que é luz, e de terra, a Terra, como o que diz a luz da Terra, ou seja, da Igreja. Ou Silvestre diz-se de silvas e de trahens, que é como dizer que ele estava atraindo homens selvagens e duros para fé. Ou, como se diz in glossario, Silvestre é como dizer verde, em sagacidade, verde em contemplação das coisas celestiais, um trabalhador a melhorar a si mesmo; ele era carregado ou sombrio. Ou seja, ele era frio e reservado frente a toda a concuspicência da carne, cheia de ramos entre as árvores do céu.
 
Jacobus de Voragine, Legenda Áurea.

Como um autor latino, Jacobus deveria saber que Silvestre, um nome relativamente comum, significava apenas "da floresta". A derivação correta é aludida no texto, mas colocada em paralelo com outras imaginárias que lexicógrafos considerariam completamente irreais. Mesmo as explicações "corretas" (silvas, "floresta" e a menção aos ramos das árvores) são utilizadas como base para uma interpretação alegórica. As interpretações dele tinham objetivos diferentes das modernas etimologias e não devem, por isso, ser julgadas sob os mesmos critérios. É possível encontrar outros exemplos similares na obra de Isidoro de Sevilha, Etymologiae, na qual derivações linguisticamente acuradas também são postas lado-a-lado com explicações alegóricas e figurativas.

Vidas dos santos[editar | editar código-fonte]

Santa Margarete atrai a atenção de um prefeito romano Por Jean Fouquet, de um manuscrito iluminado

Terminada a etimologia, Jacobus se ocupa em contar a vida do santo, compilada com referência às leituras da liturgia da Igreja Católica comemorando aquele santo. Ele então "embeleza" a biografia com fábulas sobrenaturais de incidentes que envolveram a vida do santo biografado.

Fontes[editar | editar código-fonte]

Uma parte substancial do texto de Jacobus foi retirada de duas epítomes de vidas de santos colecionadas, ambas também arrumadas na mesma ordem do ano litúrgico, escrita por membros de sua Ordem dominicana: uma é a longa Abbreviato in gestis miraculis sanctorum ("Sumário dos feitos e milagres dos santos"), de Jean de Mailly, e a outra é Epilogum in gesta sanctorum ("Epílogo sobre os atos dos santos"), de Bartolomeu de Trent[4] . As muitas similaridades com o texto da Speculum historiale, de Vincent de Beauvais, a principal enciclopédia utilizada na idade média, são atribuídas pelos estudiosos modernos ao uso das mesmas fontes pelos dois autores e não ao fato de Jacobus ter lido a enciclopédia de Vincent[5] . Mais de cento e trinta fontes mais distantes foram identificadas para os contos das vidas dos santos, poucos dos quais com o núcleo no próprio Novo Testamento. Estas fontes hagiogfáficas incluem textos apócrifos como o Evangelho de Nicodemos, as histórias de Gregório de Tours e de João Cassiano. Muitas outras não tem fonte conhecida. Um típico exemplo das histórias relatadas, também envolvendo São Silvestre, mostra o santo recebendo instruções milagrosamente de São Pedro em uma visão que permitiu que ele exorcizasse um dragão:

Nesta época havia em Roma um dragão num fosso, que todos os dias assassinava com seu bafo mais de trezentos homens. Então, vieram os bispos dos ídolos do imperador e disseram para ele: Ó mais sagrado imperador, desde que recebestes a fé cristã, o dragão que está naquela fossa assassinou todos os dias com seu bafo mais de trezentos homens. Então, o imperador pediu que Silvestre fosse até ele para que pudesse se aconselhar sobre o assunto. São Silvestre respondeu que pelo poder de Deus, ele prometeu cessar este sofrimento do seu povo. Então, São Silvestre rezou e São Pedro lhe apareceu e disse: "Vá com certeza até o dragão e os dois padres que tens contigo, leva-os também, e quando tiverdes dizei o seguinte: 'Nosso senhor Jesus Cristo, que nasceu da Virgem Maria, foi crucificado, enterrado e ressuscitou e agora está sentado ao lado Pai, é ele que virá para avaliar e julgar os vivos e os mortos, eu te ordeno, Satanás, que prenda-o neste lugar até que Ele venha'. Então tu deves prender a boca do dragão com um cordão e deves selá-la com o teu selo, onde está a impressão da cruz. Então você e os dois padres devem vir comigo, sãos e salvos, e todo o pão que eu lhes der, vocês deverão comer.

Assim como lhe pediu São Pedro, São Silvestre fez. E quando ele chegou ao fosso, ele desceu cento e cinquenta degraus, levando consigo duas lanternas, encontrou o dragão e disse-lhe as palavras que São Pedro havia dito a ele, e prendeu sua boca com um cordão e a selou. Após ter retornado, conforme ia subindo, ele se encontrou com os encantadores que o haviam seguido para ver se ele tinha descido mesmo, e eles estavam quase mortos com o fedor do dragão. E ele os trouxe de volta, são e salvos, e eles foram batizados juntamente com uma grande multidão. Assim, a cidade de Roma foi libertada da morte dupla, que era do culto e da idolatria de falsos ídolos, e do veneno do dragão. (sic)

 
Jacobus de Voragine, Legenda Áurea.

Contos milagrosos sobre relíquias[editar | editar código-fonte]

Muitas das histórias também terminam com contos milagrosos de relatos de pessoas que teriam invocado o nome do santo para ajudá-los ou utilizado as relíquias do santo. Uma delas é contada sobre Santa Ágata. Jacobus coloca os pagãos da Catânia reparando as relíquias da santa para tentar repelir sobrenaturalmente uma erupção vulcânica do Monte Etna:

E para provar que ela tinha rezado pela salvação do país, no início de fevereiro, no ano seguinte ao seu martírio, apareceu um grande fogo que veio montanha abaixo em direção à cidade de Catânia e a queimou com pedras e terra fervente. Então os pagãos correram à sepultura de Santa Ágata e pegaram o tecido que estava sob sua tumba e o seguraram contra o fogo e no nono dia depois, dia de sua festa, o fogo cessou assim que entrou em contato com o tecido que eles trouxeram de sua tumba, mostrando que o nosso Senhor preservou a cidade do dito fogo pelos méritos de Santa Ágata.
 
Jacobus de Voragine, Legenda Áurea.

Colapso no século XVI[editar | editar código-fonte]

A reação contra a Legenda Aurea foi liderada por estudiosos que reexaminaram os critérios para avaliar fontes hagiográficas e que perceberam que a Legenda era muito falha. Proeminente entre estas humanistas eram dois discípulos de Erasmo de Roterdã, Georg Witzel, no prefácio do seu Hagiologium, e Juan Luis Vives, em De disciplinis. A crítica entre os membros da ordem dominicana de Jacobus eram caladas pela reverência dispensada ao arcebispo, que culminou em sua canonização em 1815. A reabilitação da Legenda aurea no século XX, agora interpretada como um espelho das sinceras devoções do século XIII, pode ser atribuída[6] à Téodor de Wyzewa, cuja retradução para o francês, e seu prefácio, tem sido frequentemente reeditados.

Edição do século XIV da Legenda Áurea mostrando São Remy e Clóvis I.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Uma introdução à Legenda, sua popularidade no final da idade média e o colapso de sua reputação no século XVI d.C. pode ser encontrado em Reames 1985
  2. Reames 1985, p. 4
  3. Reames 1985
  4. Maddocks, Hilary. In: Margaret M. Manion e Bernard James Muir. Medieval Texts and Images: studies of manuscripts from the Middle Ages: Pictures for aristocrats: the manuscripts of the Légende dorée (em inglês). [S.l.: s.n.], 1991. 2, nota 4 pp.
  5. Stace, Christopher. The Golden Legend: selections: Introduction (em inglês). [S.l.]: Penguin. xii-xvi pp., reportando as conclusões de Geith, K. Ernest. In: Brenda Dunn-Lardeau. Legenda aurea - 'La Légende dorée: Jacques de Voragine, auteur indépendant ou compilateur? (em inglês). [S.l.: s.n.], 1993. 17-32 pp., que publicou os dois textos lado-a-lado.
  6. Reames 1985, p. 18ff.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Reames, Sherry L.. The Legenda Aurea: a reexamination of its paradoxical history (em inglês). [S.l.]: University of Wisconsin, 1985.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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