Lei de Say

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A Lei de Say também conhecida como Lei de mercados de Say ou Lei da preservação do poder de compra [1] decorre do modelo que mantém oferta e demanda em identidade. Foi popularizada pelo economista francês Jean-Baptiste Say com sua explicação sobre o funcionamento dos mercados. A expressão didática para se referir ao princípio e que sintetiza o significado da lei, "a oferta cria sua própria demanda", teria sido difundida em Cambridge antes de 1936. Ela foi usada por Keynes na Teoria Geral em sua crítica ao modelo econômico que a adotava. [2]

Jean-Baptiste Say

Karl Marx contestou o uso de nome de Say para a lei, afirmando que a concepção original teria sido de James Mill quando aquele afirmara haver um "equilíbrio metafísico entre vendedores e compradores". Adam Smith também usara a ideia básica antes.Schumpeter discordou alegando que o escrito de Mill fora publicado em 1808 enquanto a primeira edição do livro de Say, Traité d'Economique Politique, saiu em 1803. Mas ressalve-se que o autor francês aprofundou o conceito apenas na segunda edição (de 1814) [1] .

Pela teoria de Say, não existem as chamadas crises de "superprodução geral", uma vez que tudo o que é produzido pode ser consumido já que a demanda de um bem é determinada pela oferta de outros bens, de forma que a oferta agregada é sempre igual a demanda agregada. Say aceitava ser possível que certos setores da economia tivessem relativa superprodução em relação aos outros setores, que sofressem de relativa subprodução. Também segundo a lei não existiria o entesouramento pois o dinheiro não gasto por um produtor (poupança) será repassado a outro através de empréstimo.

Formulação[editar | editar código-fonte]

Say afirmou que "produtos se pagam com produtos" (1803: p. 153) ou "um excedente pode ocorrer apenas quando muitos meios de produção forem aplicados a um determinado produto em detrimento de outro" (1803: p. 178-9). A "lei" está expressa pelo autor nessa passagem de sua obra, em tradução livre do inglês:

"É de se ressaltar que um produto tão logo seja criado, nesse mesmo instante, forma um mercado para outros produtos adequado ao próprio valor. Quando o produtor finaliza a produção, fica ansioso para vendê-la imediatamente pois quer evitar que a mesma se deprecie em suas mãos. E não ficará menos ansioso para aplicar o dinheiro que ganhará com a venda, pois o valor do dinheiro também poderá se depreciar. Mas o único modo de aplicar o dinheiro é trocá-lo por outros produtos. Assim, a mera circunstância da criação de um produto imediatamente abre um mercado para outro produto" (J. B. Say, 1803: pp.138–9)[3] .

Ele também escreveu que não é o dinheiro em abundância mas os produtos em abundância que em geral facilitarão as vendas:

"O dinheiro tem sua função mas é uma momentânea nesse mercado de troca; e quando a transação for finalmente fechada, e sempre será, aquela determinada mercadoria criará mercado para outra" [4] .

Reformulação[editar | editar código-fonte]

O economista escocês James Mill reformulou a lei de Say em 1808, escrevendo que "produção de mercadorias cria, e é a única e universal causa que cria um mercado para as mercadorias produzidas."[5]

Outros economistas com destaque para David Ricardo e John Stuart Mill ajudaram a desenvolver a "Lei de Say" até uma "Lei dos Mercados" que foi a base da Macroeconomia de meados do século XVIII até a década de 1930.

Contestação[editar | editar código-fonte]

A Lei de Say foi um dos pilares da economia ortodoxa, até a Grande Depressão de 1929, quando passou a ser contestada. O economista inglês Jonh M. Keynes foi um dos maiores críticos da Lei de Say e de outros fundamentos teóricos da teoria marginalista, levando a uma reformulação da Lei de Say, que deu origem à Lei de Walras. Sua teoria[6] se baseava na hipótese de que o aumento da poupança poderia reduzir a taxa de lucro, ocasionando entesouramento, que segundo Keynes, reduziria a demanda efetiva.[7]

Karl Marx também apontou para os problemas da Lei de Say, argumentando que a forma mercadoria impede a validade da lei. Embora sua contestação não seja a mesma de Keynes, ambos constituem um avanço em teoria econômica devido à rejeição do modelo de Say e à condizente construção da teoria da crise capitalista. [8]

Os economistas austríacos (como Ludwig von Mises[9] ), afirmam que Keynes interpretou mal o argumento de Say[10] . Segundo estes, a teoria de Say, quando este afirma que "Quando um produto é criado, ele, desde aquele instante, por meio de seu próprio valor, proporciona acesso a outros mercados e a outros produtos"[11] , se baseia simplesmente no princípio de que "Quando um vendedor produz e vende um produto, ele instantaneamente se torna um potencial comprador, pois agora possui renda para gastar. Para poder comprar alguma coisa, um indivíduo precisa antes vender. Em outras palavras, a produção é o que gera o consumo, e um aumento na produção é o que permite que haja um maior gasto com consumo".[10] Portanto, é neste sentido que a produção tem efeitos sobre a demanda, no sentido de que a produção ocasiona uma maior capacidade de compra por parte do produtor e também de que "quanto maior a produção, maior o poder de compra do produtor",[10] raciocínio que se mostra correto, pois, na ocorrência de ciclos econômicos, a produção (após um período de aumento artificial na mesma ("boom econômico"), causado por uma expansão do crédito e da moeda que tem como origem a intervenção do governo na economia, estimulando artificial e insustentavelmente o consumo através de taxas de juros baixas e expansão creditícia) "é a primeira variável a entrar em declínio, bem antes do consumo. E quando a economia começa a se recuperar, isso ocorre porque a produção foi retomada, sendo somente depois seguida pelo consumo. O crescimento econômico começa com um aumento na produtividade, na produção de novos produtos e na criação de novos mercados. Portanto, os gastos em produção sempre vêm antes dos gastos em consumo."[10] As recessões econômicas, resultantes de tal "boom" insustentável (e que só "se iniciam quando os produtores percebem que erraram em suas estimativas sobre o que os consumidores querem consumir, o que faz com que os bens não vendidos se acumulem nos estoques. Ato contínuo, a produção é reduzida, a renda cai e, só então, o consumo diminui"[12] ), portanto, são causados por um "descompasso na estrutura de oferta e demanda" (e não por uma "insuficiência na demanda", como afirmava Keynes[10] ), até que as relações de oferta e demanda voltem a estar em relativo equilíbrio com a realidade do mercado e dos consumidores, sendo a recessão, portanto, uma forma do próprio mercado "corrigir" e "limpar" os efeitos provenientes dos recursos mal-empregados durante a fase de "boom" dos ciclos econômicos.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b MIGLIOLI, Jorge - "Acumulação de Capital e Demanda Efetiva" - Biblioteca Básica de Ciências Sociais - Volume 2 - 1ª Ed. - 1991 - T.A.Queiroz, Editor - São Paulo, pgs. 13-14 ISBN 85-85008-32-6
  2. Clower, Robert W. (2004). Trashing J. B. Say: the story of a mare’s nest. In: Velupillai, K. V.(Org.). Macroeconomic Theory and Economic Policy: essays in honour of Jean-Paul Fitoussi. New York: Routledge, 2004.
  3. Information on Jean-Baptiste Say Cepa.newschool.edu. Visitado em 26-05-2012.
  4. Jean Baptiste Say: A treatise on political economy; or the production distribution and consumption of wealth. Traduzido para o inglês da quarta edição francesa. Batoche Books Kitchener 2001, p. 57
  5. James Mill, Commerce Defended (1808), Chapter VI: Consumption, p. 81
  6. KEYNES, John Maynard. The end of laissez-faire. Amherst, New York: Prometheus Books, 2004. ISBN 1-59102-268-1
  7. KEYNES, John Maynard. Teoria geral do emprego, do juro e da moeda (General theory of employment, interest and money). Tradutor: CRUZ, Mário Ribeiro da. São Paulo: Editora Atlas, 1992. ISBN 978-85-224-1457-4
  8. Camarinha Lopes, T. (2010). Mercadoria, Demanda Efetiva e Crise. OIKOS, Rio de Janeiro, vol. 10, no. 1, pp. 58-81.
  9. [1]
  10. a b c d e A verdadeira Lei de Say - e não a distorção keynesiana
  11. Jean-Baptiste Say, A Treatise on Political Economy (Augustus M. Kelley, 1971 [1832]), p. 134.
  12. [2]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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