Leishmaniose visceral

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Cachorro com leishmaniose visceral exibindo os sintomas típicos associados à doença na espécie: unhas grandes, emagrecimento intenso, abdómen inchado. Há lesões na região do focinho, nariz. Na ponta das orelhas formam-se lesões secas e esbranquiçadas, sem pelos.

Leishmaniose visceral - também conhecida por seu nome indiano calazar (kala-azar) - é uma doença não contagiosa causada, entre outros, por três espécies de protozoários pertencentes ao gênero Leishmania, clínica e biologicamente distintas e com diferentes distribuições geográficas: Leishmania donovani, Leishmania chagasi e Leishmania infantum. Tais protozoários pertencem, juntamente com os agentes etiológicos das leishmanioses cutânea e muco-cutânea, da doença de Chagas e da doença do sono, à família Trypanosomatidae.[1]

Sua transmissão se dá através de picada de mosquitos flebótomos - também conhecidos como mosquitos-palha, com destaque para a fêmea da espécie Lutzomyia longipalpis. A doença afeta, além do homem, um número considerável de mamíferos, com destaque para os cães, gatos e mesmo ratos. Em zonas urbanas os cachorros são o principal reservatório da doença. Em zonas rurais os bovinos e equinos desempenham tal papel.

A forma infectante se dá através das leishmanias promastigotas (flageladas), que uma vez fagocitadas pelas células de defesa do organismo do hospedeiro, ao invés de serem por estas digeridas, sofrem transformação - dando origem à forma amastigota (sem flagelo) da leishmania. As leishmanias amastigotas se reproduzem, rompendo a célula infectada e retornando à corrente sanguínea. Quando ingeridas pelo mosquito, transformam-se novamente em promastigotas no intestino do agente vetor, retornando então ao aparelho bucal do mesmo de forma a serem transferidas para outra vítima, assim completando o ciclo.

No caso humano as leishmanias são transportadas pela corrente sanguínea para todo o corpo do hospedeiro, afetando principalmente os órgãos com considerável concentração de leucócitos - com destaque para medula óssea, fígado, baço e linfonodos - onde se instalam, levando quase sempre a anomalias no tamanho destes conhecidas como hepatomegalia (fígado), esplenomegalia (baço) e adenomegalia (linfonodos). O período de incubação pode variar, podendo chegar a 2 anos, e se deixado sem tratamento, a doença é fatal 100% dos casos.

Em um quadro geral, dependendo da espécie do animal infectado e da imunidade do espécime em particular, a infecção por leishmania pode passar desapercebida por toda a vida, não evidenciando-se alterações clínicas significativas ou que causem transtornos à vida do animal.

Introdução[editar | editar código-fonte]

A Leishmaniose visceral (LV) é a forma mais severa de leishmaniose. É o segundo maior assassino parasitário no mundo, depois da malária, responsável de uma estimativa de 60 000 que morrem da doença cada ano entre milhões de infecções mundiais. O parasita migra para os órgãos viscerais como fígado, baço e medula óssea e, se deixado sem tratamento, quase sempre resultará na morte do hospedeiro mamífero. Sinais e sintomas incluem febre, perda de peso, anemia e inchaço significativo do fígado e baço. De preocupação particular, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é o problema emergente da co-infecção HIV/LV.

Calazar canino: coleta de material

Em hospedeiros humanos, a resposta da infecção por L. donovani varia bastante, não só pela força mas também pelo tipo da reação imune do paciente. Pacientes cujos sistemas imunes produzem números grandes de células-T do tipo TH1 que fortalecem as defesas celulares mas não encorajam a formação de anticorpos, frequentemente recuperam-se facilmente da infecção e depois são imunes a uma re-infecção. Pacientes cujos sistemas produzem mais células do tipo TH2, que precipita a formação de anticorpos mas não faz nada para a saúde celular, é provável sucumbir depressa para leishmaniose. Tal ocorre porque as leishmanias escondem-se no interior dos leucócitos hospedeiros, ali permanecendo imunes à ação dos anticorpos. Embora fator importante no combate, a resposta humoral apenas não é suficiente para impedir ou deter a infecção.

Quando um paciente humano desenvolver leishmaniose visceral, os sintomas mais típicos são febre e a amplificação do baço, ou esplenomegalia, sendo observado também por vezes amplificação do fígado ou hepatomegalia. O enegrecer da pele, que deu à doença seu nome comum na Índia, não aparece na maioria dos casos de doença, e os outros sintomas são muito fáceis de confundir com os da malária. O erro no diagnóstico é perigoso, pois, sem tratamento, a taxa de mortalidade para kala-azar está perto de 100%.

Pneumonia, tuberculose e disenteria estão onipresentes nas regiões onde leishmaniose prospera, e, como a AIDS, estas são as infecções que são as mais prováveis assassinas em um anfitrião cujo sistema imune foi debilitado pela infecção do L. donovani. O progresso da doença é extremamente variável, demorando entre uma a vinte semanas.

Após recuperação, a calazar nem sempre deixa seus anfitriões sem marcas. Algum tempo depois do tratamento, uma forma secundária da [doença] pode começar, chamada leishmaniose dérmica pós-kala-azar ou LDPK. Esta condição se manifesta primeiro como lesões de pele na face que gradualmente aumentam em tamanho e espalham-se pelo corpo. Eventualmente as lesões podem desfigurar, deixando estruturas inchadas que se assemelham a lepra, e causando cegueira ocasionalmente se atingirem os olhos. Esta doença não é a leishmaniose cutânea, uma doença mais moderada causada por outro protozoário do gênero Leishmania que também causa lesões de pele.

Sintomas[editar | editar código-fonte]

Gaspar Vianna (1885–1914) em laboratório do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro (antes de 1915). Deve-se entre outros a Gaspar Vianna o tratamento e cura das Leishmanioses.

Na leishmaniose visceral humana, os primeiros sintomas podem ser associados a descamação da pele - com destaque para regiões em torno do nariz, boca, queixo e orelhas, sendo frequentes também no couro cabeludo, onde estes são geralmente confundidos com caspa; e ao aparecimento de pequenos calombos semiesféricos sob o couro cabeludo, geralmente sensíveis ao toque. Tais calombos surgem e desaparecem com frequência sem contudo implicarem, de forma geral mas não restritiva, feridas. Não obstante, por incômodo, estes podem evoluir para lesões mediante traumas induzidos pelas unhas ou mãos do próprio paciente; tais lesões geralmente cicatrizam-se, em princípio, de forma normal. Alterações nos níveis de ácido úrico que não associam-se adequadamente às causas típicas desta anomalia - a exemplo bem notórias mesmo em pacientes vegetarianos - e que acabam por implicar sintomas muito semelhantes aos da gota - bem como alterações na quantificação de enzimas associadas ao fígado - como a gama glutamil transferase e transaminase pirúvica - passam a ser detectáveis em exames de sangue.

O escurecimento da pele, que deu à doença seu nome comum na Índia, não aparece na maioria dos casos de doença, e os outros sintomas são muito fáceis de confundir com os da malária.

Com a evolução da doença os sintomas mais típicos incluem o aumento do baço ou esplenomegalia, sendo este geralmente também acompanhado do aumento do fígado ou hepatomegalia e dos glânglios linfáticos ou adenomegalia, detectáveis via inspeção clínica direta ou de forma mais precisa, via ultrassonografia do abdómen. Se deixado sem tratamento a doença evolui para um quadro crítico caracterizado por rápido e intenso emagrecimento, intensa palidez cutâneo-mucosa, dor abdominal, ausência de apetite, apatia e febre alta, irregular, intermitente e crônica - com duração superior a dez dias - fase na qual o paciente geralmente é levado a procurar o médico. Nesta fase os hemogramas geralmente revelam, entre outras anomalias, os níveis de albumina e contagem de leucócitos significativamente alterados, sendo notórias as acentuadas anemia, leucopenia e trombocitopenia.

A mortalidade da doença uma vez atingido o estado mais avançado é consideravelmente aumentada por seus sintomas serem facilmente confundidos com os de outras patogenias.A Leishmaniose Viceral Ou Normal Pode Ser Grave Em Outras Situações

Diagnóstico sorológico de calazar canino no Centro de controle de Zoonoses de Teresina.

Nas Américas, a leishmaniose visceral é causada pelo protozoário flagelado Leishmania chagasi, e transmitida pelo inseto díptero Lutzomyia longipalpis. O Brasil é o país das Américas com maior acometimento humano, sendo a região Nordeste responsável por 70% dos casos. A doença tem-se expandido para outras regiões do país, antes indenes, como o Distrito Federal, o interior de São Paulo, Corumbá, terceira maior cidade do estado do Mato Grosso do Sul, e Campo Grande, capital deste estado.

No Nordeste, a cidade de Teresina, capital do estado do Piauí, está entre as três mais endêmicas do país. De 1999 a 2006, acumularam-se 1.297 casos humanos, com 59 óbitos. No ano de 2007, 78 casos e seis óbitos; e até meados de 2008, 66 casos e 6 óbitos (SINAN-Fundação Municipal de Saúde).

Entre as possíveis causas dessa alta endemicidade estão os constantes movimentos migratórios do campo para a cidade, com ocupação desordenada do solo urbano, invasão e desmatamento de locais nas periferias da cidade para construção de vilas marginais. Estes locais, antes de ocorrência natural da doença, agora têm o homem e seus cães como fonte de alimentação para os vetores. Aliados a isto estão a ausência de saneamento básico e péssimas condições de moradia.

Outra possível causa é a superpopulação canina, principal reservatório urbano da doença. Teresina tem aproximadamente 140.000 cães, para uma população humana de 800.000 habitantes, uma relação de aproximadamente 15:100, com a particularidade de os animais serem criados semidomiciliados, com trânsito livre e exposto ao inseto transmissor nos lixões que rodeiam esses locais.

O clima favorável à reprodução do vetor e a arborização da cidade (Teresina é conhecida como cidade verde) cria as condições ideais de reprodução à L. longipalpis, encontrada em vários pontos acessíveis da cidade.

Anualmente são eutanasiados aproximadamente 10.000 cães no Centro de Controle de Zoonoses da cidade, cerca de 10% deles com diagnóstico sorológico positivo para L. chagasi, porém a população canina está sempre aumentando a cada ano.

Após recuperação, o calazar nem sempre deixa seus anfitriões sem marcas. Algum tempo depois do tratamento, uma forma secundária da doença pode começar, chamada leishmaniose dérmica pós-kala-azar ou LDPK.

Referências

  1. Leishmaniose visceral (Calazar). Maria da Conceição Correia. mccorreia.com (19 de agosto de 2011). Página visitada em 6 de novembro de 2012.
  • Demais referências:

MARKELL, Edward K.; JOHN, David T.; KROTOSKI, Wojciech A. - Markell & Vogue Parasitologia Médica. 8ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ícone de esboço Este artigo sobre Medicina é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.