Leontopithecus chrysopygus

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Como ler uma caixa taxonómicaMico-leão-preto[1] [2]
Mico-leão-preto no Zoológico de Bristol

Mico-leão-preto no Zoológico de Bristol
Estado de conservação
Status iucn3.1 EN pt.svg
Em perigo (IUCN 3.1) [3]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Primates
Subordem: Haplorrhini
Infraordem: Simiiformes
Parvordem: Platyrrhini
Família: Cebidae
Subfamília: Callitrichinae
Género: Leontopithecus
Espécie: L. chrysopygus
Nome binomial
Leontopithecus chrysopygus
(Mikan, 1823)
Distribuição geográfica
Distribuição geográfica do mico-leão-preto.
Distribuição geográfica do mico-leão-preto.
Sinónimos
  • ater Lesson, 1840

O mico-leão-preto (nome científico: Leontopithecus chrysopygus) é um Macaco do Novo Mundo, da família Cebidae e subfamília Callitrichinae, gênero Leontopithecus. É a espécie de mico-leão que ocorre no estado de São Paulo, e já ocorreu em quase toda a extensão entre o rio Paranapanema e o rio Tietê. Atualmente, encontra-se apenas em nove localidades do estado de São Paulo, sendo o Parque Estadual Morro do Diabo a única em que é possível ter uma população viável a longo prazo. Já foi considerado uma subespécie, sendo uma espécie propriamente dita atualmente, tendo um ancestral em comum exclusivo com o mico-leão-dourado.

Taxonomia e Evolução[editar | editar código-fonte]

O mico-leão-preto pertence ao gênero Leontopithecus, grupo monofilético da família Cebidae e subfamília Callitrichinae.[2] Foi descoberto por Johann Natterer, em 1822, perto de Ipanema, atual Sorocaba, mas só foi descrito e classificado por Johann Christian Mikan, em 1823.[4] [1] O gênero Leontopithecus foi proposto por Hershkovitz (1977) como monotípico, sendo Leontopithecus rosalia a única espécie: o mico-leão-preto era uma subespécie (L. r. chrysopigus), junto com o mico-leão-dourado (L. r. rosalia) e mico-leão-de-cara-dourada (L. r. chrysomelas).[2] [5] Essa classificação foi revisada, e atualmente, é considerado, junto com as outras espécies de micos-leões, uma espécie propriamente dita.[1] [2] [3] [6]

Evidências genéticas apontam para um período muito recente de diversificação dos micos-leões, a partir de refúgios de floresta no Pleistoceno.[7] A espécie mais aparentada ao mico-leão-preto é o mico-leão-dourado, que provavelmente compartilhou um ancestral que possuía pelagem escura.[8] [9] [10] [11]

Não foi encontrado nenhum fóssil da linhagem do mico-leão-preto.[12]

Distribuição geográfica e habitat[editar | editar código-fonte]

Originalmente, o mico-leão-preto era encontrado por todo do estado de São Paulo, ao longo da margem direita do rio Paranapanema e da margem esquerda do rio Tietê.[13] Coimbra-Filho (1973) cita que ele pode ter existido na bacia do rio Ivinhema, no Mato Grosso do Sul, mas essa ocorrência nunca foi confirmada.[13]

As regiões em que habitam o mico-leão-preto estão em áreas de com até 2 000 mm de precipitação anuais, sendo a estação chuvosa em janeiro, e seguindo a classificação climática de Köppen-Geiger o clima ao longo de sua distribuição é dos tipos Cfa, Cfb, Cwa e Aw.[13] No Pontal do Paranapanema, onde ocorre a maior população vivente, o clima é mais seco.[13] É encontrado na floresta estacional semidecidual até 300 m de altitude, principalmente em florestas ripárias e com árvores de grande porte, ocupando estratos mais altos da floresta, entre seis e dez metros de altura.[13]

A ocorrência atual está reduzida a poucos fragmentos florestais totalizando 440 km², sendo a maior parte no Parque Estadual Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio.[14] [15] Existem outras populações no município de Gália, na Estação Ecológica dos Caetetus, e em Buri.[14] Outras unidades de conservação que ele ocorre são a Estação Ecológica Mico-Leão-Preto, localizada no Pontal do Paranapanema com cerca de 5 500 hectares, e a Estação Ecológica de Angatuba.[15] O restante dos mico-leões-preto estão em propriedades particulares na parte oeste de sua distribuição geográfica.[14] [15]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Mico-leão-preto no Zoológico de São Paulo.

O mico-leão-preto é quase inteiramente coberto por uma densa pelagem negra e apenas a parte inferior do seu corpo é diferente, possuindo um marrom esverdeado.[16] A face do L. chrysopygus não possui pêlos, assim como as mãos e os pés, que possuem um tom cinza escuro. Os membros superiores são maiores que os inferiores e a cauda não é preênsil. Todos os dedos possuem unhas em forma de foice, que são usadas para agarrarem-se nas árvores, exceto o maior dedo que possui uma unha reta. A fórmula dental é 2/1/3/2. São animais de pequeno porte, medindo entre 20 cm a 33,5 cm, a cauda mede cerca de 31,5 cm a 40 cm e o peso varia entre 300 e 700 gramas.

Comportamento[editar | editar código-fonte]

São animais muito sociáveis e diurnos. Convivem a maior parte do tempo com seu grupo familiar. Esses grupos familiares consistem no casal reprodutor e suas últimas duas ou três ninhadas. Depois que seus filhotes machos atingem a maturidade sexual, eles geralmente abandonam o grupo em busca de uma parceira. Frequentemente, vários grupos familiares se reúnem e formam um grande grupo de micos leões pretos, permitindo que os jovens machos e as jovens fêmeas achem um parceiro sexual para formar seu próprio grupo. Dentro de cada grupo familiar, a liderança é compartilhada entre o casal principal. O casal primário é altamente territorial e lutam contra qualquer invasor. Cada território possui uma área média de 75 a 125 acres, mas com destruição de grande parte do seu habitat, hoje ocorre a interposição de territórios de grupos diferentes.

Hábitos alimentares[editar | editar código-fonte]

Se alimentam principalmente de insetos e frutas. Quando forem capazes, também comem pequenos animais, como aves e lagartos, ovos de pássaro e invertebrados.

Reprodução[editar | editar código-fonte]

Na maioria dos casos estudados, são animais monógamos, mas pode ocorrer a poligamia em algumas populações. Em populações onde há mais de um macho, as fêmeas podem acasalar com vários, no intuito de confundi-los sobre a paternidade, isso faz com que vários machos achem que são os verdadeiros pais da prole, fazendo com que cuidem dos filhotes.

Os micos-leões-pretos geralmente dão à luz gêmeos, embora possam nascer trigêmeos ou até quadrigêmeos. A gestação dura de 125 a 132 dias, geralmente parem na estação chuvosa, entre setembro e março.

Ambos os sexos ajudam na criação da prole; os jovens nascem com pêlos e de olhos abertos, mas são completamente dependentes dos seus pais. Nas primeiras 2 a 3 semanas os filhotes permanecem com suas mães, depois de 3 semanas, o pai carrega o filho na maior parte do dia, entregando-o à sua mãe a cada duas horas para se alimentar. As crias desmamam depois de 2 ou 3 meses,mas não deixam o grupo até atingir a maturidade sexual, o que ocorre na idade de 16 a 24 meses.

Conservação[editar | editar código-fonte]

O Parque Estadual Morro do Diabo é a maior unidade de conservação do mico-leão-preto.
PE Morro do Diabo está localizado em: São Paulo
PE Morro do Diabo
Localização do Parque Estadual Morro do Diabo, em São Paulo.
Imagem de satélite mostrando a extensão das unidades de conservação integral e a de uso sustentável do mico-leão-preto.

O mico-leão-preto é uma espécie que corre risco de extinção, sendo classificado como "em perigo" pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), apesar de já ter sido classificado na categoria "criticamente em perigo" em listas anteriores.[3] O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), no Brasil, classifica a espécie como "criticamente em perigo", mas a espécie é considerada como "em perigo" na lista de espécies ameaçadas do estado de São Paulo.[17] [18] Sua distribuição geográfica foi drasticamente reduzida por conta do desmatamento, e hoje o mico-leão-preto ocorre em apenas nove fragmentos de floresta, com a maior população ocorrendo no Parque Estadual Morro do Diabo.[14] A população nesta unidade de conservação é de cerca de 820 indivíduos, e é a única viável a longo prazo: na Estação Ecológica dos Caetetus, a população é de cerca de 40, e os fragmentos restantes não somam mais do que 130 indivíduos, em subpopulações que não ultrapassam 20 indivíduos.[14] Apesar disso, existe considerável esforço em preservara espécie, com a translocação de indivíduos e implantação de corredores ecológicos, o que justifica a atual classificação da IUCN.[3] Existe projetos de reprodução em cativeiro, e por conta disso, a população cativa, que era estimada em 112 indivíduos está crescendo.[14]

Grande parte de seu habitat foi destruído no início do século XX, e a espécie foi considerada extinta por 65 anos, até a redescoberta de uma pequena população no Parque Estadual Morro do Diabo, por Adelmar Coimbra-Filho, em 1970.[19] A situação da espécie poderia ser menos crítica visto que na década de 1940, foi criada a Grande Reserva do Pontal do Paranapanema, o Parque Estadual Morro do Diabo e a Reserva Lagoa São Paulo, todas unidades de conservação integral que protegeriam mais de 3 000 km² de floresta na área de distribuição geográfica do mico-leão-preto: apesar disso, a região foi desmatada, restando apenas o Parque Estadual Morro do Diabo, que possui pouco menos de 350 km².[15] Após esses grandes desmatamentos, a construção da Usina Hidrelétrica de Rosana, no rio Paranapanema, inundou áreas do parque estadual que eram habitat do mico-leão, diminuindo ainda mais a área de ocorrência.[19] Em 1984, o Instituto de Pesquisas Ecológicas realizou os primeiros estudos da espécie e até hoje é responsável por projetos de manejo de metapopulação, implantação de corredores ecológicos e educação ambiental, na região do Pontal do Paranapanema.[19]

Referências

  1. a b c Groves, C.P.. Order Primates. In: Wilson, D.E.; Reeder, D.M. (eds.). Mammal Species of the World. 3 ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2005. 111–184 pp. p. 133. ISBN 978-0-8018-8221-0 OCLC 62265494
  2. a b c d Rylands AB e Mittermeier RA. In: Garber PA, Estrada A, Bicca-Marques JC, Heymann EW, Strier KB (eds). South American Primates: Comparative Perspectives in the Study of Behavior, Ecology, and Conservation. Nova Iorque: Springer, 2009. Capítulo: The Diversity of the New World Primates (Platyrrhini): An Annotated Taxonomy.  23–54 pp. ISBN 978-0-387-78704-6
  3. a b c d Kierulff, M. C. M., Rylands, A. B., Mendes, S. L. & de Oliveira, M. M. (2008). Leontopithecus chrysopygus (em Inglês). IUCN 2012. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN de 2012 Versão 2. Página visitada em 01 de outubro de 2012.
  4. Rylands, A.B.; Mallinson, J.J.; Kleiman, D.G.; Coimbra-Filho, A.F.; Mittermeier, R.A.; Câmara, I.G.; Valladares-Pádua, C.B.; Bampi, M.I.. In: Kleiman, D.G.; Rylands, A.B.. Mico-leões: Biologia e conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2008. Capítulo: História da pesquisa e da conservação do mico-leão.  23-69 pp. ISBN 978-85-7300-101-2
  5. Seuánez, H.N.; Di Fiore, A.; Moreira, M.A.; Almeida, C.A.S.; Canavez, F.C.. In: Kleiman, D.G.; Rylands, A.B.. Mico-leões: Biologia e conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2008. Capítulo: Genética e Evolução dos mico-leões.  165-186 pp. ISBN 978-85-7300-101-2
  6. Horovitz, I.; Meyer, A.. (1995). "Systematics of New World Monkeys (Platyrrhini, Primates) Based on 16S Mitochondrial DNA Sequences: A Comparative Analysis of Different Weighting Methods in Cladistic Analysis". Molecular Phylogenetics and Evolution 4 (4): 448-456.
  7. Forman,L.; Kleiman, D.G.; Bush, R. M.; Dietz, J.M.; Ballou, J.D.; Phullips, L.G.; et al. (1986). "Genetic variation within and among Lion Tamarins". American Journal of Physical Anthropology 71: 1-11. DOI:10.1002/ajpa.1330710102.
  8. Mundy,N.;Kelly, J.. (2001). "Phylogeny of lion tamarins (Leontopithecus spp) based on interphotoreceptor retinol binding protein intron sequences". American Journal of Primatology 54 (1): 33-40. DOI:10.1002/ajp.1010.
  9. Perez-Sweeney BM. 2002. The molecular systematics of Leontopithecus, population genetics of L. chrysopygus and the contribution of these two sub-fields to the conservation of L. chrysopygus. PhD Thesis, Columbia University, New York.
  10. Chaterjee, H.J.; Ho, S.Y.; Barnes, I.; Groves, C.. (2009). "Estimating the phylogeny and divergence times of primates using a supermatrix approach". BMC Evolutionary Biology 9: 1-19. DOI:10.1186/1471-2148-9-259.
  11. Perez-Sweeney, B.M.; et al. (2008). "Examination of the Taxonomy and Diversification of Leontopithecus using the Mitochondrial Control Region". International Journal of Primatology 29 (1): 245-263. DOI:10.1007/s10764-007-9224-7. ISSN 1573-8604.
  12. Kleiman, D.G.. (1981). "Leontopithecus rosalia". Mammalian Species 148: 1-7.
  13. a b c d e Coimbra-Filho, A.C.; Mittermeier, R.A.. (1973). "Distribution and Ecology of the Genus Leontopithecus Lesson, 1840 in Brazil.". Primates 14 (1): 47-66.
  14. a b c d e f Rylands, A.B.; Kierulff, M.C.M.; Pinto, L.P.S.. In: Kleiman, D.G.; Rylands, A.B.. Mico-leões: Biologia e conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2008. Capítulo: Distribuição e status dos mico-leões.  69-105 pp. ISBN 978-85-7300-101-2
  15. a b c d Plano de Manejo Estação Ecológica Mico-Leão-Preto ICMBio. Visitado em 28 mar. 2012.
  16. AURICCHIO, P.. Primatas do Brasil. São Paulo - Brasil: Terra Brasilis Comércio de Material didático e Editora LTda - ME, 1995. Capítulo: Gênero Leontopithecus.  168 pp. ISBN 85-85712-01-5
  17. Chiarello, A.G.; Aguiar, L.M.S., Cerqueira, R.; de Melo, F.R.; Rodrigues, F.H.G.; da Silva, V.M.. In: Machado, A.B.M.; Drummond, G.M.; Paglia, A.P.. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção - Volume 2. Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente, 2008. Capítulo: Mamíferos.  680-883 pp. ISBN 978-85-7738-102-9
  18. Percequillo, A. R.; Kierulff, M.C.M.. In: Bressan, P.M.; Kierulff, M.C.M.; Sugieda, A.M.. Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no Estado de São Paulo. São Paulo, SP: Fundação Parque Zoológico de São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente, 2009. Capítulo: Mamíferos.  31-87 pp. ISBN 978-85-63001-00-9
  19. a b c Rylands, A. & Mittermeier, R.A.. In: Mittermeier, R.A.; Rylands, A.B.; Wilson, D.E.. Handbook of the Mammals of the World - Volume 3. Barcelona: Lynx, 2013. Capítulo: Family Callithrichidae (Marmosets and Tamarins).  262-348 pp. ISBN 978-84-96553-89-7

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikispecies
O Wikispecies tem informações sobre: Leontopithecus chrysopygus
O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Leontopithecus chrysopygus