Libério

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Pedro Marcelino Félix Libério
Nacionalidade Império Bizantino
Ocupação General
Principais trabalhos
Título
Religião Catolicismo

Pedro Marcelino Félix Libério (c. 465 - c. 554) foi um aristocrata e oficial romano, cuja carreira se estendeu por sete décadas nos mais altos ofícios tanto do Reino Ostrogótico como no Império Bizantino. Manteve os mais altos ofícios governamentais da Itália, Gália e Egito, "uma realização não frequentemente registrada - César e Napoleão Bonaparte são os únicos paralelos que vêm à mente!" como James O'Donnell observa em seu estudo biográfico sobre ele.[1] Envolveu-se como embaixador durante a Guerra Gótica para o Império Bizantino e, por duas vezes, uma das quais registrada por Jordanes, participou de expedições militares em nome do imperador Justiniano (r. 527–565).

Biografia[editar | editar código-fonte]

Origem e família[editar | editar código-fonte]

A exata origem de Libério é desconhecida, mas é especulado que veio da Ligúria. Sua família certamente não pertenceu à classe senatorial superior da Itália. Foi casado com Agrécia, e teve vários filhos e uma filha. Quase nada é sabido deles, exceto que um de seus filhos, Venâncio, foi apontado cônsul em 507 e manteve o ofício cerimonial de conde vago dos domésticos (comes domesticorum vacans) algum tempo depois.[2]

Carreira sob os godos[editar | editar código-fonte]

Soldo do rei bárbaro Odoacro (r. 476–493)
Síliqua de Teodorico, o Grande (r. 493–526)

Após a deposição do último imperador oriental, Rômulo Augusto (r. 475–476), por Odoacro (r. 476–493) em 476, o aparato da administração romana na Itália continuou a funcionar sob seu regime. Continuou a ser composto exclusivamente por romanos, já que aderiu à pretensão que a Itália era ainda nominalmente uma parte do império. Várias famílias senatoriais continuaram a servir em altos postos administrativos, e o jovem Libério seguiu esta tradição. Apesar de sua juventude, parece ter se distinguido, pois em 493, após o assassinato de Odoacro, o novo mestre da Itália, o ostrogodo Teodorico, o Grande (r. 493–526), apontou ele como prefeito pretoriano da Itália, o mais alto ofício civil. Continuou a servir nesta capacidade até 500, quando foi retirado e então recebeu o posto de patrício. Seu mandato foi um sucesso, já que provou ser capaz de lidar com questões financeiras e com assuntos delicados do assentamento gótico, algo refletido nos elogios que recebeu de seus contemporâneos, Enódio de Pavia e Cassiodoro.[3]

Em 508, Teodorico conquistou o território de Provença, no sul da Gália, e em 510 decidiu restabelecer o defunto prefeito pretoriano da Gália para administrar o território, com sede em Arelate. Teodorico selecionou Libério para o posto, sinal da confiança do rei em sua capacidade e lealdade. Libério serviu na capacidade até 536, quando retornou para a Itália, o período mais longo registrado para um cargo tão alto.[4] A responsabilidade primordial de Libério parece ter sido a pacificação da nova e devastada província, uma tarefa que parece ter conseguido. Nisso, teve a assistência de um bispo leal, Cesário. Em algum momento em meados dos anos 520, Libério foi esfaqueado no abdômen com uma lança durante um ataque visigodo, e ficou perto da morte. A chegada do bispo "miraculosamente" o curou, e um episódio similar é contado a respeito de sua esposa, Agrécia.[5] Possivelmente em um gesto de gratidão por sua salvação, ele construiu uma nova catedral em Orange, onde em 529 o Segundo Concílio de Orange foi realizado; a assinatura de Libério aparece em primeiro lugar na lista de leigos que endossaram os atos do concílio.[6] Ele também fundou um mosteiro perto de Alatri, 64 quilômetros ao sul de Roma: novamente, podemos nos perguntar se este foi um gesto de gratidão.[7] Este mosteiro tem sido identificado com aquele de São Sebastiano, ainda de pé a 3 quilômetros de Alatri.[8] Após a morte de Teodorico em 526, a ele foi dado o título de patrício na presença (patricius praesentalis), que O'Donnell nota "representa o único caso conhecido na história do Reino Ostrogótico em que a um civil foi concedido um significante comando militar."[9] Por 534, contudo, Libério estava de volta na Itália.

Mapa dos movimentos militares durante os primeiros anos da Guerra Gótica.

Naquele tempo, o Reino Ostrogótico enfrentou uma disputa pela sucessão. Após a morte de Teodorico, seu neto, Atalarico foi coroado rei. Como era apenas um infante, sua mãe, Amalasunta, assumiu a regência. Suas relações estreitas com o imperador oriental, Justiniano (r. 527–565), contudo, fez-a impopular. O jovem rei, no meio tempo, cedeu em prazeres, que enfraqueceram sua constituição, resultando em uma morte prematura em outubro de 534.[10] Amalasunta, tentando fortalecer sua posição, apontou seu primo Teodato como rei. Teodato, contudo, rapidamente depôs e prendeu Amalasunta, e executou seus associados mais próximos. Libério, junto com o senador Venâncio Opílio, foram despachados para Constantinopla para informar Justiniano, e levando com eles cartas que retratavam uma versão mais leve dos eventos. No entanto, ao chegar ao porto de Avlona, os dois emissários encontraram Pedro, o próprio enviado do imperador, e contaram a ele o que realmente estava acontecendo. As notícias do cativeiro de Amalasunta, seguido de seu assassinato, deu a Justiniano um pretexto para lançar uma campanha contra os godos na Itália, começando a longa e devastadora Guerra Gótica. Libério foi recebido com honra em Constantinopla, e não retornou para a Itália.[11]

Em serviço imperial[editar | editar código-fonte]

Império Bizantino à morte de Justiniano. Os territórios em laranja claro são aqueles conquistados pelos bizantinos no período, sendo que entre os quais estão a Itália e a província da Espânia.

Apesar de sua idade avançada, Libério, devido a suas credenciais impecavelmente ortodoxas, foi escolhido como o novo prefeito augustal (praefectus augustalis) da Diocese do Egito por volta de 538, com tarefa de suprimir os monofisistas locais, junto com uma comissão eclesiástica sob o futuro papa Pelágio I. De acordo com a informação providenciada por Procópio em sua "Anedota", seu mandato no Egito foi problemático, devido tanto a sua falta de familiaridade com as realidades locais como pela interferência da corte imperial, incluindo uma disputa por sua sucessão, João. Em seu retorno para Constantinopla, em 542, Libério enfrentou um inquérito senatorial, mas conseguiu defender suas ações com sucesso.[12]

Na Itália, a situação estava deteriorando rapidamente para o império. Os godos sob Totila tinha recapturado muito da península Itálica e estavam ameaçando a Sicília. Em 550, após muita hesitação em nome de Justiniano, Libério foi enviado com um exército para a ilha. Ele conseguiu desembarcar e sitiar a cidade de Siracusa, mas sua inexperiência militar não permitiu que conduzi-se quaisquer operações significativas contra os godos. Apesar disso, deixou a cidade com seu exército, e se dirigiu para Palermo onde, em 551, foi substituído pelo general armênio Artabanes.[13]

Durante esse tempo, uma guerra civil eclodiu no Reino Visigótico, entre os apoiantes de Atanagildo e os de Ágila I. Atanagildo pediu ajuda para Justiniano, e o imperador enviou um pequeno exército de 2000 homens para a Hispânia, que ajudou Atanagildo a prevalecer, e em 554 ele foi coroado rei dos visigodos. Os bizantinos mantiveram muitas possessões, aproximadamente igual a antiga província da Bética, agora a província da Espânia, e os visigodos reconheceram a suserania do imperador. Jordanes, escrevendo em 551, menciona de passagem que esta força foi liderada por Libério.[14] Um número de historiadores, incluindo J. B. Bury, aceita a precisão do comentário; contudo James O'Donnell nota que Libério tinha retornado para Constantinopla após ser substituído por Artabanes, e foi lá, em maio de 553, quando tomou parte do Segundo Concílio de Constantinopla, que teria ficado sem tempo para uma campanha na Hispânia. Lá ele tentou persuadir o papa Vigílio para participar do concílio e aceitar as posições do imperador.[15] [16]

Por seu longo e distinto serviço para o império, Libério foi um dos homens que Justiniano recompensou na Pragmática Sanção em 13 de agosto de 554, garantindo a ele extensivos estados na Itália; O'Donnell nota que este é o último documento que temos sobre a vida de Libério que tenha sido escrito durante sua vida.[17] Provavelmente no mesmo ano, Libério morreu, e foi enterrado em Arímino. Seus filhos erigiram sobre sua tumba uma inscrição funerária que O'Donnell descreve como "corriqueira, mesmo banal: em completo acordo com as tradições mais vazias do gênero."[18]

Referências

  1. O'Donnell 1981, p. 33
  2. O'Donnell 1981, p. 34
  3. O'Donnell 1981, p. 36-37
  4. O'Donnell 1981, p. 44-46
  5. Klingshirn 1994, p. 48-51
  6. O'Donnell 1981, p. 54; 57-59
  7. Gregório, o Grande século VI, p. 260
  8. Fentress 2005, p. 32-70
  9. O'Donnell 1981, p. 60
  10. Bury 1923, p. 163-164
  11. O'Donnell 1981, p. 62-64
  12. O'Donnell 1981, p. 64
  13. O'Donnell 1981, p. 66
  14. Jordanes século VI, p. 303
  15. O'Donnell 1981, p. 67
  16. Bury 1923, p. 286-287
  17. O'Donnell 1981, p. 69
  18. O'Donnell 1981, p. 70

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Fentress, E.; Goodson, C., Laird, M. and Leone, S.. Walls and Memory. The Abbey of San Sebastiano at Alatri (Lazio) from Late Roman Monastery to Renaissance Villa and Beyond. Turnhout: [s.n.], 2005.
  • Gregório, o Grande. Diálogos. [S.l.: s.n.], século VI.
  • Jordanes. Getica. [S.l.: s.n.], século VI.
  • Klingshirn, William E.. Caesarius of Arles: Life, Testament, Letters. [S.l.]: Liverpool: University Press, 1994. Capítulo: Vita Caesarii Arelatensis. ,
  • O'Donnell, James J.. (1981). "Liberius the Patrician". Traditio 37. Fordham University.