Licônia

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Licônia.

Licônia (português brasileiro) ou Licónia (português europeu) (em grego: Λυκαονία - Lukaonia; em turco: Likaonya), também chamada de Licaônia, era o nome de uma grande região no interior da antiga Ásia Menor (Anatólia), norte da dos Montes Tauro, na fronteira com a antiga região da Cilícia e, no período bizantino, com a Isáuria; porém, é difícil precisar suas fronteiras exatas pois elas variaram consideravelmente com o tempo.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O nome "Licônia" não é encontrado na obra de Heródoto, mas ela foi mencionada por Xenofonte como uma das regiões no caminho de Ciro, o Jovem, em sua marcha através da Ásia. Ele descreve Icônio como a última cidade da Frígia; além disso, em Atos 14:6, Paulo de Tarso, depois de deixar Icônio, cruzou a fronteira e chegou à Listra, na Licônia. Ptolemeu, por outro lado, inclui a Licônia como parte da Capadócia, uma associação que depois foi feita pelos romanos por motivos administrativos. Porém, é claro nas fontes, incluindo Xenofonte e Estrabão, que se tratava de duas regiões distintas.

Há uma teoria que postula que o nome "Lycaonia" seja uma versão grega (influenciada pelo nome masculino grego Lycaon) de uma forma original "Lukkawanna", que significaria "a terra do povo lukka" numa antiga língua anatólica aparentada com o hitita.

Geografia[editar | editar código-fonte]

Mapa antigo da Licônia.

A Licônia é descrita por Estrabão como sendo uma terra fria com planícies elevadas que davam pasto a jumentos selvagens e ovelhas - estas ainda presentes hoje, mas os jumentos desapareceram. Amintas, rei da Galácia, que controlou a região por um tempo, mantinha ali não menos que 300 cabeças de gado. Ela é parte do platô interior da Ásia Menor e tem uma elevação de 1000 metros. Falta água na região, o que é agravado em algumas regiões pela abundância de sal no solo, como na porção norte, que vai de Icônio até o lago de sal de Tatta, e na fronteira com a Galácia, que é desolada, com umas poucas áreas cultivadas entre Icônio e as vilas maiores. O solo, onde há água, é produtivo. Em tempos antigos, a distribuição e preservação da água tinha extrema importância, tanta que muitas terras hoje desoladas no passado sustentavam grandes povoações.

A planície é interrompida por algumas pequenas cadeias montanhosas de natureza vulcânica, das quais a Kara Dagh, no sul, a poucos quilômetros para o norte de Karaman, se ergue até 2 288 metros, enquanto Karadja Dagh, mais para o nordeste, mesmo não sendo tão alta, apresenta uma impressionante variedade de cones vulcânicos. As montanhas no noroeste, perto de Icônico e Laodiceia Combusta, fazem parte do fim da cadeia de Sultan Dagh, que atravessa boa parte da Frígia.

Licônios[editar | editar código-fonte]

Os licônios parecem ter sido, em grande medida, independentes do Império Aquemênida, pelo menos no início, e eram, como seus vizinhos isáurios, um povo de saqueadores selvagens e sem leis. Contudo, a região onde moravam era atravessada por uma das grandes estradas da Ásia Menor, a Estrada Real Persa, que ia de Sardis e Éfeso até as Portas da Cilícia, o que permitiu a criação de algumas poucas cidades importantes em seu percurso. A mais importante era sem dúvida Icônio, na região mais fértil de todo o país, que era considerada pelos romanos e bizantinos como a capital, apesar de ser, etnologicamente falando, uma cidade frígia. Ela é hoje chamada de Konya e foi a capital do Império Seljúcida por séculos. Um pouco mais para o norte, na fronteira com a Frígia, estava Laodiceia Combusta (moderna Ladik), dita "Combusta" para distingui-la da cidade frígia de mesmo nome. No sul, perto do sopé dos Montes Tauro, estava Laranda, chamada atualmente de Karaman, que emprestou seu nome à província de Caramânia. Derbe e Listra, que aparecem nos Atos dos Apóstolos como sendo importantes cidades, estavam localizadas entre Icônio e Laranda. Havia ainda muitas outras cidades que tornaram-se sés episcopais nos tempos bizantinos. A Licônia foi cristianizada muito cedo e seu sistema eclesiástico era o mais organizado de toda a Ásia Menor no final do século IV.

Licônios parecem ter mantido sua cultura distinta na época de Estrabão, mas suas afinidades étnicas são desconhecidas. A menção da língua licônia nos Atos dos Apóstolos (Atos 14:11) mostra que ela ainda era falada pelo povo de Listra por volta de 50 d.C. e provavelmente foi apenas depois, já por influência cristã, que o grego a substituiu. É notável, porém, que nos Atos Barnabé tenha sido chamado de Zeus e que Paulo tenha sido confundido com Hermes pelos licônios, o que faz com que alguns estudiosos acreditem que a língua licônia tenha sido, na realidade, um dialeto grego cujas reminiscências ainda podem ser encontradas no grego capadócio, que é classificado como um dialeto distinto.

História[editar | editar código-fonte]

1ª viagem de Paulo pela Galácia e Licônia.

Conquista romana[editar | editar código-fonte]

Depois da derrota de Antíoco III, o Grande, do Império Selêucida, a Licônia foi dada pelos romanos a Eumenes II, rei de Pérgamo. Por volta de 160 a.C., parte da região, a Tetrarquia da Licônia, foi separada e anexada ao Reino da Galácia e, em 129 a.C., a metade oriental (que ficou conhecida como "Licônia" pelos duzentos anos seguintes), foi dada ao Reino da Capadócia como sua décima-primeira strategia. Na reorganização provincial de 64 a.C. promovida por Pompeu Magno depois das Guerras Mitridáticas, ele cedeu a parte norte da tetrarquia para a Galácia e a metade oriental desta strategia para a Capadócia. O que restou, ele anexou à província da Cilícia. Porém, a administração e o agrupamento das regiões mudavam frequentemente durante o período romano.

Viagem de Paulo[editar | editar código-fonte]

Segundo o texto bíblico, o apóstolo Paulo visitou Derbe e Listra durante a primeira e a segunda viagem missionária, anunciando o Evangelho e organizando comunidades cristãs. Talvez tenha parado ali também na terceira jornada missionária ao viajar "de lugar em lugar através do país da Galácia"[1] .

De acordo com o capítulo 14 dos Atos dos Apóstolos, após ter escapado da perseguição em Icônio, Paulo e Barnabé foram a Listra para evangelizar e, numa ocasião, teriam curado um paralítico de nascença. Por causa deste milagre, os habitantes da cidade pensaram que os dois fossem a encarnação dos deuses pagãos Zeus (Júpiter) e Hermes (Mercúrio), tendo o apóstolo impedido, com muita dificuldade, que as multidões lhes oferecessem sacrifícios de adoração.

Depois disso, alguns judeus incrédulos de Antioquia na Pisídia e de Icônio teriam vindo a Listra a fim de incitar a multidão para que apedrejasse Paulo, que milagrosamente sobreviveu e seguiu para Derbe.

Província[editar | editar código-fonte]

Provincia Lycaonia
Província da Licônia
Província do(a) Império Romano e do Império Bizantino
371–séc. VII
Location of Licônia
Província da Licônia num mapa da Diocese da Ásia (ca. 400)
Capital: Icônio
Período : Antiguidade Tardia
 -  Fundada 371
 -  Adoção dos sistema dos themata século VII
 -  Perda definitiva da região depois da Batalha de Miriocéfalo século XII

Em 371, a Província da Licônia foi finalmente organizada como parte da Diocese da Ásia na Prefeitura pretoriana do Oriente, uma situação que perdurou até o século VII, quando ela foi incorporada pelo Thema da Anatólia.

As moedas da Licônia são bastante raras. A julgar pela quantidade de tipos e emissões conhecidas, a cunhagem de moedas parece ter sido uma atividade esporádica e, provavelmente, tinha objetivos puramente prestigiosos ou comemorativos, celebrando importantes eventos como a visita do imperador.

Sés episcopais[editar | editar código-fonte]

As sés episcopais da província que aparecem no Annuario Pontificio como sés titulares são[2] :

  • Amblada (Asardag)
  • Barata (Madenşehri)
  • Cana (Genne)
  • Corna (Dinorna)
  • Derbe
  • Ecdaumava
  • Hyda na Licônia (Karapinar)
  • Icônio
  • Ilistra (Ilisra)
  • Isaurópolis (Dorla)

Referências

  1. Atos 14:6, Atos 20:21; Atos 16:1; Atos 18:23
  2. Annuario Pontificio 2013 (Libreria Editrice Vaticana 2013 ISBN 978-88-209-9070-1), "Sedi titolari", pp. 819-1013

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • W. M. Ramsay, Historical Geography of Asia Minor (1890), Historical Commentary on Galatians (1899) and Cities of St Paul (1907)
  • Jahreshefte des Oesterr. Archaeolog. Instituts, 194 (Beiblatt) pp. 57–132.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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