Linchamento de Jesse Washington
O linchamento de Jesse Washington, também conhecido como horror de Waco, consistiu na desfiguração, tortura e linchamento de um jovem afro-americano de 17 anos de idade de Waco, Texas em 15 de maio de 1916.1 O assassinato de Washington ocorreu depois que ele foi condenado, em um julgamento de uma hora, pelo estupro e assassinato de uma rica mulher de 53 anos de idade. As fontes são contraditórias quanto à culpa de Washington; embora ele tenha assinado uma confissão, que foi amplamente divulgada em vários jornais locais, Washington era analfabeto.2 3 Algumas fontes indicam que Washington tinha deficiência mental.3 O incidente se tornaria infame em grande parte devido às inúmeras fotografias existentes do corpo mutilado do jovem, inclusive em cartões postais que foram comercializados.4
Prisão, julgamento e linchamento [editar]
Washington foi preso em 8 de maio de 1916, acusado de ter estuprado e assassinado Lucy Fryer, a esposa de um bem-sucedido produtor de algodão de Robinson, nos arredores de Waco. Fryer havia sido espancada até a morte. Washington ficou detido em Dallas nos dias que antecederam o julgamento. Devido à tremenda pressão pública, exacerbada pela imprensa local, ele foi transferido de volta para Waco e levado a julgamento uma semana depois.5 6
O julgamento ocorreu em 15 de maio, perante um júri de doze homens brancos. Durou uma hora e o júri deliberou por quatro minutos antes de considerá-lo culpado e sentenciá-lo à morte.7 Uma multidão imediatamente agarrou o condenado sem resistência das autoridades. A multidão pôs uma corrente em seu pescoço e arrastou-o para a praça da cidade, onde uma fogueira estava sendo preparada.8 No caminho, a multidão bateu nele com tijolos, pedras e pás, e arrancou sua roupa.8 De acordo com o Waco Times-Herald, "as pessoas se pressionavam para a frente, cada uma delas ansiosas para ser o primeiro a acender o fogo, os fósforos se tocaram com o material inflamável e a fumaça rapidamente subia aos céus, como uma demonstração de como as pessoas enlouqueceram como nunca antes".8
Uma pilha de caixas de madeira foi colocada na base de uma árvore, onde Washington teria sido castrado e molhados com óleo de carvão.8 A corrente foi atada a um galho de árvore e Washington foi hasteado acima da chama.8 Ele fez inúmeras tentativas para subir na corrente quente e a multidão cortou seus dedos para evitar sua fuga.9 O jovem foi levantado e abaixado nas chamas na frente de uma multidão de cerca de 15.000 pessoas.10 Não se sabe quanto tempo ele durou antes de morrer, mas a multidão deixou-o nas chamas por mais de uma hora. Após duas horas, o corpo de Washington tinha se reduzido a pouco mais de um tronco carbonizado e do crânio.8 Os espectadores recolheram pedaços de ossos de Washington, seja para guardar como lembranças pessoais ou para vender a terceiros.2
Os restos corporais de Washington foram então levados para baixo da árvore e arrastados pelas ruas do centro de Waco. Mais tarde, os restos foram colocados em um saco que foi levado para a cidade de Robinson, onde foi pendurado em exposição na frente da loja do ferreiro.2 No final da tarde, o saco foi recuperado por um condestável, que o levou para o agente funerário de Waco para que o corpo pudesse ser enterrado.8
Consequências [editar]
O fotógrafo Fred Gildersleeve tirou várias fotos do linchamento, que ele venderia como cartões postais.8 Este fato é referenciado em "Desolation Row", canção de Bob Dylan. Em julho de 1916, Gildersleeve parou de vender os cartões, porque alguns habitantes influentes da cidade estavam preocupados com a "má publicidade" que estes poderiam trazer para o local.11 Vários jornais de todo o país condenaram os acontecimentos em editoriais.12 Um artigo do New York Times opinou que "em nenhuma outra terra, mesmo fingindo ser civilizada, poderia um homem ser queimado até a morte nas ruas de uma cidade considerável em meio à alegria selvagem de seus habitantes".13
O secretário da NAACP, Roy Nash, pediu a Elisabeth Freeman, contratada da Associação das Mulheres do Texas pelo Sufrágio, para investigar os detalhes do linchamento. Ela foi até Waco, onde entrevistou a maioria das partes envolvidas, incluindo o juiz, o xerife, e o marido de Lucy Fryer. Ela concluiu que, embora o suposto estupro de Lucy Fryer não tenha ocorrido, Jesse Washington provavelmente a matou.14 Freeman atribuiu essa conclusão à localização da arma do crime e ao sangue na roupa de Washington, e à ausência de quaisquer outros suspeitos.14 O relatório de Freeman serviu de base para um artigo de W.E.B. Du Bois na edição de julho de 1916 da The Crisis (revista oficial do NAACP), intitulado The Waco Horror (O Horror de Waco).11
O jornal Paul Quinn Weekly, da Universidade de Paul Quinn, publicou várias reportagens críticas ao linchamento e às autoridades locais. Em uma delas, que tinha sido originalmente publicada no Chicago Defender, o autor proclamou a inocência de Jesse Washington e acusou o marido da vítima de cometer o assassinato.5 A.T. Smith, o editor afro-americano do jornal, foi posteriormente preso por permitir que a alegação fosse impressa e condenado por difamação criminal.5 Smith foi condenado—e serviu—a um ano de prisão com trabalhos forçados.15
Nenhuma acusação foi apresentada contra qualquer um dos envolvido no linchamento de Jesse Washington, apesar do fato de que o linchamento era um crime no Texas naquele momento.5 Em 2006, o Conselho da Cidade de Waco oficialmente condenou o linchamento, que ocorreu sem maiores oposições dos líderes políticos e judiciais da localidade.
Referências
- ↑ Storey, John W.; Kelley, Mary L. (2008). Twentieth-century Texas: A Social and Cultural History. University of North Texas Press. pp. 81–82. ISBN 9781574412451.
- ↑ a b c Bruce A. Glasrud. The African American experience in Texas: an anthology. 2007, page 183
- ↑ a b Patricia Bernstein. The First Waco Horror: The Lynching of Jesse Washington and the Rise of the NAACP. TAMU Press. pp. 90-1 ISBN 1585445444 ISBN 978-1585445448
- ↑ Walter C. Rucker, James N. Upton. Encyclopedia of American race riots. 2007, page 686
- ↑ a b c d The Handbook of Texas Online
- ↑ The First Waco Horror: The Lynching of Jesse Washington and the Rise of the NAACP. TAMU Press. ISBN 1585445444 ISBN 978-1585445448
- ↑ Dora Apel. Imagery of lynching. 2004, p. 31
- ↑ a b c d e f g h Bruce A. Glasrud. The African American experience in Texas: an anthology. 2007, page 189-91
- ↑ Patricia Bernstein. The First Waco Horror: The Lynching of Jesse Washington and the Rise of the NAACP. 2005, page 108
- ↑ Cynthia Skove Nevels. Lynching to belong: claiming Whiteness through racial violence. 2007, page 113
- ↑ a b Patricia Bernstein. The First Waco Horror: The Lynching of Jesse Washington and the Rise of the NAACP. 2005, page 159-160
- ↑ The Nation, The New Republic, Houston Post, Houston Express, Austin-American Statesman e San Antonio Express.
- ↑ "Topic of the Times". New York Times. 17 de maio de 1916.
- ↑ a b Patricia Bernstein. The First Waco Horror: The Lynching of Jesse Washington and the Rise of the NAACP. 2005, page 96-7
- ↑ The Crisis. January 1917. page 122