Linguagem animal

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Linguagem animal é o conjunto de sons (cantos, gritos, chamados, trinados, mugidos, etc.), expressões faciais, mudanças na pelagem ou plumagem, cor ou formato do corpo, usados por animais de uma mesma espécie para se comunicarem entre si. Caracteriza-se como uma "linguagem" pré-formal, pré-nominal[1] ou pré-gramatical, usada para fins de acasalamento, proteção, demarcação territorial, organização social, alertas, entre muitos outros usos.

Cynopithecus niger com expressão plácida
Cynopithecus niger com expressão de satisfação ao ser acariciado

Por "linguagem animal", os biólogos referem-se, por exemplo, à comunicação de "estados de humor" (emoções) entre os macacos. Estudos sobre os chimpanzés (Pan) identificaram mais de cem sinais (expressões faciais com ou sem vocalizações) para comportamentos de jogo, agressão, alarme, organização do bando, sexo, etc. (ver as ilustrações do Cynopithecus niger publicadas por Charles Darwin no seu The Expression of the Emotions in Man and Animals - A expressão das emoções no homem e nos animais).

A comunicação entre os animais, e entre os animais e o homem, é um objeto de estudo fascinante e importante (para a Biologia e estudos sobre comportamento). Entretanto, sob o ponto de vista da Linguística, "linguagem animal" é um termo impróprio[2] . Do mesmo modo como não podemos classificar as expressões faciais humanas (que certamente comunicam) ou a comunicação de um cão com seu dono de linguagem, também não podemos classificar a comunicação dos macacos entre si como linguagem.

O que é linguagem[editar | editar código-fonte]

De fato, linguagem é definida como "qualquer e todo sistema de signos...". Um conjunto de signos somente, ou seja, qualquer conjunto de coisas que significam, não é, por si só, uma linguagem. A linguagem é sempre um sistema, mas qual a diferença entre um conjunto de signos e um sistema de signos? Os macacos, mesmo com uma centena de expressões e gritos, ainda não tem uma linguagem, porque não articulam ou combinam esses signos, nem podem interpretar combinações de signos. Para combinar e interpretar, é necessário que haja uma sintaxe e uma semântica que, somadas aos signos, formam um sistema linguístico. Por exemplo, o conjunto de sinais de trânsito formam um conjuntos de signos (coisas que comunicam, que tem um significado). Entretanto, não se pode falar na "linguagem" dos sinais de trânsito, pois estes não formam um sistema (não podem ser combinados, etc.). Por outro lado, expressões artísticas, como a dança e a pintura, por exemplo, são linguagens, pois seus elementos significativos (os movimentos na dança, as cores na pintura, etc.) podem ser combinados de diferentes formas para comunicar coisas diferentes. Assim, para ter uma linguagem, mesmo que rudimentar, o macaco, ou qualquer outro animal, teria que ter não só um léxico (ou seja, um conjunto de signos), mas teria que combinar esses signos para gerar novos significados. Os animais (modulo espécie) tem demonstrado serem capazes de armazenar um grande número de itens lexicais (cf. Sarah e Washoe), mas nunca demonstraram poder combinar ou interpretar combinações de signos. Segundo Noam Chomsky [3] , o que diferencia os humanos (espécie que desenvolve linguagens) e os outros animais (que não desenvolvem linguagens) não pode ser algo evolutivamente muito custoso. Geneticamente, os humanos diferem muito pouco dos animais, principalmente de outros primatas. O salto evolutivo que nos diferenciou dos macacos e nos possibilitou desenvolver linguagem, portanto, não pode ser algo muito complicado, mesmo porque, a evolução, no seu sentido darwiniano, trabalha sempre dando passos pequenos. Chomsky acredita que a recursividade tenha sido esse passo evolutivo (veja o verbete Programa Minimalista para maiores informações sobre a teoria chomskyana e a evolução da linguagem na espécie humana).

Comunicação entre primatas[editar | editar código-fonte]

Em verdade, diversos tipos de macacos emitem sinais sonoros que sinalizam perigo (predadores), comida, etc. Algumas espécies especializam esses "gritos de aviso" dependendo do predador (um chamado para predadores voadores, outro para predadores terrestres, etc. O número de "gritos" especializados varia de espécie para espécie de primata e pesquisadores debatem sobre o número exato de "gritos" para cada espécie. Entretanto, não se pode dizer que esses animais apresentem, no momento dessas emissões vocais, um comportamento que possa ser interpretado como uma conversa (o que caracteriza a linguagem). Tentativas de ensinar linguagem a primatas "fracassaram" sucessivamente (apesar de algumas espécies terem demonstrado poder memorizar mais de uma centena de "palavras" e seus significados). Ou seja, as pesquisas realizadas com os chimpanzés pela Sarah e Washoe confirmam que a linguagem é a característica mais marcante que diferencia nós humanos dos outros animais.

Comunicação entre abelhas[editar | editar código-fonte]

A comunicação entre abelhas foi estudada por Karl Ritter von Frisch

Alguns insetos se comunicam através de feromônios, mas essa comunicação claramente não se baseia em uma linguagem e aproxima-se da comunicação intercelular. Um caso notável são os insetos sociais, e especificamente as abelhas, estudadas pelo zoólogo Karl von Frisch [4] , que comunicam-se através de uma "dança". Uma abelha que tenha encontrado alimento volta à colmeia e é rodeada pelas outras operárias. Após regurgitar o néctar que colheu, a abelha começa a fazer um movimento que imita a figura de um 8 (veja a figura A). A "dança" comporta duas mensagens distintas. Uma sobre a distância, indicada pelo número de oitos desenhados num período de tempo; e uma sobre a direção em que se encontra o alimento, indicada pelo ângulo formado pelo eixo do 8 em relação ao sol (que as abelhas sabem onde está mesmo com o tempo encoberto, por ter uma sensibilidade particular à luz polarizada, veja a figura B). Entretanto, mesmo no caso das abelhas, não se pode falar em linguagem. Apesar das operárias "responderem" à mensagem da primeira abelha (indo até a fonte indicada e colhendo mais alimento), a resposta é sempre instintiva e automática. As abelhas não comentam sobre o pólen que acharam ontem, como estava gostoso, nem que esperam achar mais hoje, etc.

Notas

  1. Nos termos de Rosenstock-Huessy 2002.
  2. cf. Benveniste 1976: 60.
  3. cf. Hauser, Chomsky and Fitch 2002.
  4. cf. Frisch 1950.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia e leitura adicional[editar | editar código-fonte]

  • BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística geral. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1976.
  • BONNER, J. Tyler. A Evolução da Cultura nos Animais. Rio de Janeiro, Zahar, 1983.
  • CHAUVIN, Remy. A Etologia, Estudo Biológico do Comportamento Animal. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
  • EIBL-EIBESFELDT, Irenaus. Etologia - Introducion al Estudio Comparado del Comportamiento. Barcelona, Omega, 1974.
  • FRISCH, Karl von. Bees, their vision, chemical senses and language. Ithaca, Cornell University Press. 1950.
  • HAUSER, M. D., CHOMSKY, N., and FITCH, W. T. The Faculty of Language: What Is It, Who Has It, and How Did It Evolve?. Science 298, 2002.
  • HINDE, Robert A. Bases Biologicas de la Conducta Social Humana. México, Siglo XXI, 1977.
  • ROSENSTOCK-HUESSY, Eugen. A Origem da Linguagem. RJ, Record, 2002 Disponível no Google Livros Dez. 2010.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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