Literatura do Antigo Egito

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Literatura do Antigo Egipto é a literatura produzida pela civilização egípcia entre meados do III milénio a.C. até à começo da actual era.

Introdução[editar | editar código-fonte]

O estudo da literatura do Antigo Egito é relativamente recente quando comparado ao estudo da literatura produzida na Grécia Antiga e em Roma. Esta situação deve-se ao facto de que o conhecimento da antiga língua dos Egípcios só ter sido alcançado em 1822, quando Jean-François Champollion decifrou os hieróglifos egípcios.

A literatura produzida pelos egípcios foi fixada em várias materiais, como ostracas (pequenos pedaços de pedra) e em papiro. Frequentemente os textos literários que se conhecem hoje em dia resultam da junção de vários excertos que se encontravam dispersos. Os investigadores têm a este respeito dificuldades, que são agravadas quando algumas passagens são de difícil interpretação.

De uma forma geral, as obras eram anônimas, exceto as que pretendiam transmitir algum tipo de ensinamento; neste último caso estavam associadas ao nome de alguma personalidade, como um escriba, vizir ou até mesmo faraó, não sendo possível determinar a autenticidade do alegado autor. O anonimato talvez possa ser explicado em parte devido à existência de uma forte tradição oral; assim, quando alguém fixava uma história por escrito, esse alguém estaria a fixar algo que já fazia parte do patrimônio comum, por ter sido passado de geração em geração.

A ideia de gêneros literários claramente definidos (romance, conto, poesia...) é por vezes de difícil aplicação, pois um mesmo texto pode misturar vários elementos. É possível encontrar uma narrativa na qual a dado momento uma personagem realiza um hino a um deus, orientando o discurso do campo descritivo para o poético.

Império Antigo[editar | editar código-fonte]

A literatura desta época está sobretudo ao serviço da religião. Nos chamados Textos das Pirâmides, que são um conjunto de orações, hinos e feitiços gravados nas paredes das pirâmides de Sakara a partir do último rei V Dinastia (Unas) e dos reis da VI Dinastia, acham-se textos de elevado valor literário. Estes textos visavam ajudar os reis no seu percurso da morte até ao Além, onde se juntariam aos deuses.

Nos hinos dos Textos das Pirâmides, os autores recorrem à técnica do paralelismo, característica da poesia do Médio Oriente Antigo e que consistia em retomar a ideia de um verso no seguinte sob a forma de sinónimo, ou de antítese ou ainda sob a forma progressiva. Um dos hinos mais conhecidos é o "Hino Caníbal", assim chamado pelo facto de descrever o rei a devorar as pessoas que encontra pela sua frente, de modo a poder alcançar a força suficiente que lhe permitiria entrar na morada dos deuses.

Os primeiros exemplos de literatura sapiencial surgem nesta época, sendo o mais antigo o Ensinamento de Kagemni, datado do século XXVIII a.C. (III Dinastia). O Ensinamento de Ptahotep, cujo autor se apresenta como vizir do rei Djedkaré Isesi da V Dinastia, é constituído por trinta e seis máximas que discorrem sobre as relações humanas. Nesta obra o autor propõe o cultivo de uma série de virtudes como a moderação, a gentileza, a justiça e o autocontrolo. Outra importante obra da literatura sapiencial é a Instrução de Hardjedef. Surgem igualmente as biografias, que devem ser entendidas não no sentido contemporâneo da palavra, mas antes como textos que informam sobre o modo de vida de pessoas falecidas cujas virtudes pretendem ser valorizadas. Neste tipo de trabalhos encontra-se a Autobiografia de Herkhuf, um militar e governador do Alto Egipto que serviu os reis Merenré e Pepi II. Esta biografia foi gravada em vinte e oito linhas na fachada do túmulo de Herkhuf em Assuão. A inscrição descreve as quatro expedições do militar à Núbia. Na última expedição Herkhuf trouxe um pigmeu ou anão para o rei Pepi II, então uma criança, que ficou deliciado com o presente, tendo enviado uma carta a Herkhuf, reproduzida na inscrição do túmulo. O texto elogia igualmente os actos de piedade praticados pelo biografado, como o dar de comer ao faminto.

Primeiro Período Intermediário[editar | editar código-fonte]

Denomina-se por Primeiro Período Intermediário o período de anarquia que se seguiu à queda do Império Antigo, no qual as guerras civis e a fome tomaram conta do Egipto. A literatura desta época vai por isso reflectir esta realidade política e social.

A obra mais representativa da época é a Profecia de Ipuver, cujo autor terá vivido na parte final da XII dinastia egípcia. Nesta obra Ipuver lamenta a violação das sepulturas, a decadência do poder real, o despovoamento do país, a falta de respeito dos filhos em relação aos pais...

Império Médio[editar | editar código-fonte]

Harpista cego

A literatura religiosa continua durante este período, representada numa série de hinos dedicados aos deuses e aos reis, como o "Hino a Osíris", o "Hino ao Nilo", o "Hino ao rei Senuseret III" e o "Hino à Coroa Vermelha".

Data desta época aquela que é provavelmente a obra mais importante da literatura egípcia, as Aventuras de Sinué.

O Diálogo do Desiludido, obra também conhecida como Disputa consigo mesmo ou Disputa do Homem com o Seu Próprio Ba, enquadra-se naquilo que se denomina como literatura pessimista. O seu protagonista sente-se deprimido face a um mundo que percepciona como moralmente decadente, chegando mesmo a considerar o suicidio.

O Cântico do Harpista, assim denominado em função do texto ser acompanhado por representação em baixo-relevo de um harpista cego num túmulo da época, o túmulo de Intep (ou Antep) (embora o tema do harpista cego seja comum nos túmulos egípcios), apresenta um harpista triste que aconselha a calma e a procura da felicidade nas pequenas coisas da vida diária, antecipando-se a Epicuro em dois mil anos.

Império Novo[editar | editar código-fonte]

Aquenáton e a sua família realizam oferendas a Aton

Nos textos literários desta época nota-se uma maior preocupação com o refinamento estílistico, com narrações e descrições mais detalhadas.

Os anais dos reis passaram ser inscritos em pedra em vez de papiro. Tutmés III mandou inscrever as suas campanhas militares na Síria sobre os muros do templo de Karnak e numa estela (conhecida como Estela Poética).

O género sapiencial continua a ser cultivado, sendo de destacar duas obras: o Ensinamento de Anii e o Ensinamento de Amenemope. O primeiro apresenta uma série de conselhos sobre o casamento e a vida familiar, recomendado a fidelidade entre marido e mulher e o amor entre todos os membros da família. O Ensinamento de Amenemope, cujo autor foi um alto funcionário do rei, é dirigido ao filho do autor, baseando-se este na sua experiência pessoal. O autor recomenda o respeito pelos mais fracos, a rejeição do mal, o evitar de discussões e a generosidade. Os especialistas consideram que esta obra teve influência sobre o livro dos Provérbios da Bíblia.

O rei Aquenáton, protagonista de uma revolução religiosa que fez de Áton (disco solar) o único deus digno de receber culto, foi também um poeta. É famoso o seu Hino a Aton, que apresenta bastantes semelhanças com o Salmo 104 da Bíblia.

A poesia amorosa conheceu um grande desenvolvimento nesta época. Os poemas de amor são hoje conhecidos através de quatro manuscritos. Os principais são o Papiro Chester Beaty I (que se encontra actualmente no British Museum em Londres) e o Papiro Harris 500, sendo também importantes um fragmento do Papiro de Turim e um vaso fragmentado do Museu do Cairo.

Época Baixa[editar | editar código-fonte]

Até à época de dominação romana, que se inicia em 30 a.C., o núcleo cultural continuará a ser egípcio, apesar do domínio de estrangeiros sobre o Egipto (Persas, Gregos).

Os Ensinamentos de Ankhchechonk, obra escrita em caracteres demóticos, insere-se na tradição da literatura sapiencial. O seu autor, Ankhchechonk, escreve desde a prisão, onde se encontra devido a um mal-entendido que o associa a um golpe contra o rei. A obra é dirigida ao seu filho, a quem dá conselhos sobre boas maneiras, civilidade, moderação e caridade, num total de vinte e cinco ensinamentos. No texto o autor refere-se a Deus como autor da criação, numa descrição que tem sido comparada com o Salmo 19 da Bíblia. Outras obras didáticas desta época são os Ensinamentos do Papiro Insinger e a Sabedoria do Grande Sacerdote Petosíris.

Referências[editar | editar código-fonte]