Loteca

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Loteca, conhecida popularmente como Loteria Esportiva, é uma modalidade de loteria brasileira, mantida pela Caixa Econômica Federal, com o objetivo de prognosticar resultados de partidas de futebol.

Histórico[editar | editar código-fonte]

É realizada no Brasil desde 19 de abril de 1970, quando foi feita uma rodada experimental no estado da Guanabara com prêmio fixo de 200 mil cruzeiros novos e cem mil bilhetes distribuídos.[1] Naquela época, era necessário acertar os resultados de treze jogos selecionados pela Caixa para ganhar o prêmio. Durante a fase experimental, era possível até marcar treze palpites triplos (quando todas as colunas são marcadas em uma linha), mas ninguém chegou a fazer os treze pontos.[2] As chances matemáticas eram de 1:1.594.323 para fazer os treze pontos. Oito apostadores foram premiados com doze pontos.[3] Outras rodadas experimentais foram realizadas em 3 de maio, também na Guanabara, e em 17 de maio, em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.[1] Oficialmente, os bolões começaram em 7 de junho, que foi também a primeira vez em que foram acertados treze pontos.[3] O futebol já era febre no país, antes mesmo de a Seleção Brasileira ter faturado sua terceira Copa do Mundo, o que gerou muitas filas nas casas de apostas.[4] O jogo mínimo custava dois cruzeiros novos, com um duplo; o jogo com um triplo custava três cruzeiros novos.[1]

O apostador preenchia um cartão e entregava-o na lotérica, que usava uma máquina manual da IBM, chamada Port a Punch, para furar dois cartões, um dos quais ficaria como comprovante com o apostador.[1] Ao final de todos os jogos de domingo, um computador da Caixa Econômica Federal processava as apostas, em "apenas" dezessete minutos, de acordo com a revista Placar.[1] O computador seguia lendo cartão por cartão até encontrar um com nove pontos (o mínimo para o prêmio ser rateado)[5] e, então passava a separar todos os cartões com nove pontos até achar algum com dez; a partir daí seguia o mesmo processo, em busca de cartões com onze, doze e, eventualmente, treze pontos.[6]

A escolha dos jogos de cada bolão era feita pela agência Sport Press, contratada pela Caixa.[7] Essa escolha seguia alguns critérios:

  1. Clássicos, desde que a diferença de pontos entre os times não fosse grande;
  2. Dois times "médios" com campanhas parecidas;
  3. Times grandes jogando fora de casa contra times pequenos;
  4. Clássicos locais ou regionais.[7]

O primeiro apostador a ganhar sozinho foi Gilberto Furtado Medeiros, no teste número 5 (28 de junho), entretanto sem marcar os treze pontos.[8] Em um teste que terminou com oito empates ele foi o único a errar apenas um jogo. Esse teste já marcou um declínio nas apostas, pois foi o primeiro depois da Copa do Mundo de 1970, que gerou um volume maior por haver mais informações disponíveis sobre os times participantes, e também por marcar o início dos campeonatos estaduais, o que fazia com que muitos esperassem mais um pouco para ter uma ideia melhor de como estavam as equipes.[9]

Em maio de 1972, no teste 85, uma zebra inesperada no jogo entre Corinthians e Juventus, no Pacaembu, fez o primeiro milionário da modalidade: Eduardo Varela, mais conhecido como Dudu da Loteca, do então estado da Guanabara. Ele foi o único apostador que cravou os treze pontos do concurso, incluindo este jogo, em que o Corinthians tinha cerca de 95% das apostas, enquanto o Juventus vinha de cinco derrotas nas cinco primeiras rodadas e conseguiu vencer pelo placar mínimo, com gol de falta do meia Brecha. Levou um total de mais de 11,6 milhões de cruzeiros.[4]

Em seus quatro primeiros anos, a Loteria Esportiva foi interrompida no fim do ano, devido ao recesso do futebol brasileiro.[10] A partir de 1974, entretanto, jogos do exterior passaram a compor a programação desse período.

Em setembro de 1975, Miron Vieira de Sousa, de Salvador, ganhou sozinho um prêmio de 22 milhões de cruzeiros, considerado à época "o maior prêmio da Loteca e do mundo, em concursos de prognósticos".[4]

Foi em 1978 que surgiu um dos personagens mais famosos da Loteca, a Zebrinha do Fantástico, programa dominical da Rede Globo. Desenhada por Borjalo, era dublada por Pedro Braga e Mara Lisi.[11]

Caso da Máfia da Loteria Esportiva[editar | editar código-fonte]

Em 1979, Milton Coelho da Graça, então diretor da revista Placar, comentou com Juca Kfouri, então editor de projetos especiais e que cuidava da seção sobre a Loteria Esportiva, que vinha notando algumas coincidências quando poucas pessoas ganhavam em um teste.[12] A pedido de Milton, Juca foi a Brasília pedir para ver os bilhetes premiados, mas o pedido foi negado, com a alegação de sigilo bancário.[13]

Nesse mesmo ano, Milton deixou a Abril, e Juca foi promovido a seu posto. Ainda com as suspeitas em relação à Loteria Esportiva, todo o fim de mês provocava a redação: "Quem é o macho para descobrir a sacanagem da Loteria Esportiva?" Mas ninguém se pronunciava.[14] Em outra viagem a Brasília, pediu novamente para ver os cartões ganhadores. Desta vez, mostraram-lhe alguns: "Nego colocava jogo triplo em partida que se cravaria seco", conta Juca. "Corinthians × Juventus, triplo. Flamengo × Olaria, triplo. Vasco × Botafogo, Vasco. Atlético-PR × Coritiba, Coritiba. Inter × Livramento, triplo. Não é possível. Eles cravam triplo em jogo fácil e seco para jogo difícil. Tem alguma coisa estranha nisso."[15]

Quando comentou suas suspeitas na redação, no dia seguinte, conseguiu um voluntário para a empreitada: Sérgio Martins. Juca deu a ele prazo de um ano, cumprido à risca: no número 648, de 22 de outubro de 1982, foi publicada extensa reportagem sobre o caso, com denúncias de corrupção e manipulação de resultados. "A Loteria Esportiva é séria até a bola rolar", admitiu o radialista Flávio Moreira, um dos envolvidos.[16] Nenhum dos 125 denunciados, entre jogadores, dirigentes, árbitros, técnicos e personalidades, foi preso. O gerente de Loterias da Caixa em 1989, Juarez José de Lima, garantiu à época que o escândalo não chegou a abalar a loteria.[2]

Decadência[editar | editar código-fonte]

A loteria perdeu credibilidade[17] , que nunca mais recuperou. A criação da Loto e da Sena também contribuíram para a decadência da loteria.[2] Em dezembro de 1987, a forma de apostas mudou: passaram a ser dezesseis jogos, sendo que era obrigatório acertar os treze primeiros para ter direito a um prêmio. Quem acertasse catorze ou quinze pontos também levava prêmios menores, desde que tivesse acertado os treze primeiros jogos.[2] A loteria ganhou o apelido de "Gorda".[2] Na época da mudança a arrecadação despencou para um décimo do que a loteria arrecadava na sua melhor fase.[2] A média de apostas semanais entre 1972 e 1980 era de dezessete milhões, número que cairia no fim dos anos 1980 para menos de cinco milhões.[2]

A fórmula com dezesseis jogos durou até agosto de 1989, quando a loteria voltou a ter treze jogos e mudou de nome para Loteca[16] , que já era um apelido consagrado.[2] No fim do ano anterior a Loteca tinha começado a dar prejuízo.[2] O número dos concursos também foi zerado, começando novamente do número 1. A fase anterior teve 976 testes.[2] No novo formato, foi mantida a obrigatoriedade de acertar os primeiros jogos, no caso dez, o que já garantiria um prêmio menor. Cada um dos treze jogos acertados além dos dez primeiros garantiria um prêmio maior.[2] Mas a maior mudança foi a instituição de apenas palpites simples, acabando com palpites duplos e triplos.[2]

Atualmente[editar | editar código-fonte]

Hoje é necessário acertar catorze pontos para faturar o prêmio maior. A aposta mínima é de um real (um duplo), e a aposta mais cara é de 432 reais (três triplos e cinco duplos). As chances matemáticas de acertar catorze pontos com o jogo mínimo são de uma em 2 391 485.

A Loteca está, atualmente, arrastando-se no cenário de loterias. Sua arrecadação está longe da de quarenta anos atrás. No teste 256, de março de 2007, a Loteca pagou o menor prêmio da história de seu novo formato, quando, em uma rodada "lógica", 7 792 apostadores fizeram os catorze pontos e levaram um prêmio de 32,67 reais — quem fez treze pontos levou oitenta centavos.[18] Em 2008 o Governo Federal lançou a Timemania, loteria que viabiliza ajuda aos cofres dos clubes das séries A, B e C do Campeonato Brasileiro.

Referências

  1. a b c d e "O bolão está em campo", Placar número 5, 17/4/1970, Editora Abril, pág. 30
  2. a b c d e f g h i j k l (8 de setembro de 1989) "Voltam os 13 pontos". Placar (1 004): 36. São Paulo: Editora Abril. ISSN 01041762.
  3. a b Placar número 1.101, março de 1995, Editora Abril, pág. 8
  4. a b c "Os maiores donos da zebra, na Esportiva", Placar número 291, 24/10/1975, pág. 45
  5. "Por dentro do bolão", Placar número 27, 18/9/1970, Editora Abril, pág. 13
  6. "Por dentro do bolão", Placar número 23, 21/8/1970, Editora Abril, pág. 13
  7. a b "O homem que escolhe os jogos", Placar número 23, 21/8/1970, Editora Abril, pág. 14
  8. "O homem mais rico do bolão", Placar número 16, 3/7/1970, Editora Abril, pág. 42
  9. "A média baixou, esperava-se", Placar número 16, 3/7/1970, Editora Abril, pág. 43
  10. (4 de dezembro de 1974) "Jogos da Europa garantem a loteria" (em português). O Estado de S. Paulo (30 581): 27. São Paulo: S.A. O Estado de S. Paulo. ISSN 15162931.
  11. Placar número 1.101, março de 1995, Editora Abril, pág. 18
  12. Carlos Alencar, Juca Kfouri: O Militante da Notícia, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, pág. 45
  13. Carlos Alencar, Juca Kfouri: O Militante da Notícia, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, pág. 49
  14. Carlos Alencar, Juca Kfouri: O Militante da Notícia, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, pág. 51
  15. Carlos Alencar, Juca Kfouri: O Militante da Notícia, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, pág. 53
  16. a b "A Máfia da Loteria", Placar número 1.101, março de 1995, Editora Abril, pág. 32
  17. Placar número 1.032-A, Editora Abril, março de 1990, pág. 55
  18. "Em rodada 'lógica', Loteca paga menor prêmio desde 2002", Estadão.com.br, 20/3/2007